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Estudo Empírico

4.1. Objecto, objectivos e hipóteses

O presente estudo tomou como objecto a síndrome de burnout, bem como a sua relação com emoções, especificamente a “procura de sensações” (“sensation seeking”). Optamos por delimitar este objecto estudando-o em médicos que trabalham num Hospital da cidade do Porto. A escolha desta população vai ao encontro do reconhecimento generalizado de que a classe médica constitui um grupo profissional muito submetido a condições de stress (Vaz Serra, 1999), conforme vimos no Capítulo 3 deste trabalho. Apesar de termos encontrados estudos sobre o burnout nesta população, e alguns que o relacionavam com a procura de sensações (Eaddy, 1997; Mendes, 2005; Zuckerman, 1994) não encontramos estudos que relacionassem estas duas variáveis em médicos portugueses.

Temos então como objectivos deste estudo conhecer a prevalência da síndrome de burnout numa amostra de médicos, caracterizar as emoções experienciadas, especificamente a “procura de sensações” e analisar a relação entre estas duas variáveis em função de dados sóciodemográficos.

Tendo por base a bibliografia consultada, consideramos como hipótese geral que existem factores individuais sóciodemográficos e formas de lidar com as emoções que contribuem para a manifestação de maiores ou menores níveis de burnout e que este traz consequências, a nível individual e interpessoal, para o indivíduo.

Como hipóteses específicas, distinguimos:

• Hipótese 1: A forma como o profissional médico lida com as emoções tem impacto nos níveis de burnout apresentados.

• Hipótese 2: As mulheres apresentarão maiores níveis de burnout em relação aos homens. Especificamente, esperamos que as mulheres obtenham maiores scores do que os homens na dimensão exaustão emocional e menor do que os homens na

despersonalização.

• Hipótese 3: Os profissionais mais novos obterão níveis de burnout maiores dos profissionais mais idosos e com mais anos de carreira.

• Hipótese 4: Os profissionais solteiros ou divorciados experienciam maiores níveis de burnout do que profissionais casados/união de facto.

4.2. Instrumentos

Em função dos objectivos deste estudo construímos um questionário, dividido em quatro grandes grupos. Assim, no Grupo I incluímos as características sociodemográficas como idade, sexo, estado civil, existência de filhos, categoria profissional, especialidade, anos de serviço, horas de trabalho semanais e horas extraordinárias. Salienta-se que a construção deste grupo de questões beneficiou de algumas sugestões de um director de serviço do Hospital estudado, ao qual se solicitou que se pronunciasse sobre a necessidade de se realizarem pequenos ajustamentos, nomeadamente em relação às directamente relacionadas com aspectos específicos da profissão médica. A versão final do questionário teve em conta essas sugestões.

Incluímos também neste Grupo I duas questões que visavam analisar, por um lado, o grau de satisfação e motivação com o trabalho no momento actual, bem como o grau de motivação no início do exercício da profissão e, por outro, se existiam intenções de mudar de funções, de instituição ou mesmo de profissão, caso houvesse oportunidade.

O Grupo II contempla um questionário usado para avaliar a procura de emoções. Foi usado o instrumento Sensation Seeking Scale de Zuckerman (1994) traduzido por Mendes (2005). Este questionário apresenta 40 itens agrupados em quatro sub-escalas, designadamente, a procura de emoção e aventura (TAS – “Thrill and Adventure Seeking”),

procura de experiências (ES – “Experience Seeking”), desinibição (DIS – “Disinhibition”) e intolerância ao aborrecimento (BS – “Boredom Susceptibility”), podendo ser também calculado o valor total (somatório das sub-escalas). Cada escala é avaliada pela selecção de uma frase entre duas alternativas, variando os valores entre 0 e 10 para cada sub-escala, ou entre 0 e 40 no teste total, consoante o inquirido apresenta a selecção de frases que traduzem o traço de personalidade em estudo.

O Grupo III é composto por um questionário que pretende analisar os afectos, sendo uma medida de bem-estar psicológico, especificamente, estado de humor e felicidade – a Affect Balance Scale (ABS) de Bradburn e Noll (1969, cit.in Corcoran e Fischer, 2000). Esta escala tem 10 itens contendo cinco frases que reflectem sentimentos positivos e cinco que reflectem sentimentos negativos, de forma a avaliar, de uma maneira geral, o bem-estar psicológico do indivíduo num determinado momento, podendo ser usada num amplo espectro de cenários e de populações. A opção de resposta encontra-se formulada em termos de Sim/Não. A ABS é facilmente pontuada somando as respostas nas duas subescalas e a pontuação total da escala. A pontuação varia entre 25 e 30 para o ABS positivo e entre 22 e 27 e para o ABS negativo.

Finalmente, o Grupo IV refere-se ao instrumento destinado a avaliar o burnout – o MBI (Maslach Burnout Inventory, de Maslach & Jackson, 1997), dado ser o instrumento mais usado nos diferentes estudos académicos sobre esta variável. Este instrumento foi desenhado, inicialmente, para profissionais dos serviços humanos e de saúde, já que o burnout era uma preocupação significativa nestas profissões. Depois, foi revisto para ser utilizado com os profissionais de educação e, mais recentemente, dado o crescente interesse no tema, foi desenvolvida uma versão geral do MBI para ser usada em qualquer profissão, e não só necessariamente as que lidam com pessoas (Maslach, 2003). Perante a existência de várias traduções deste instrumento, utilizamos uma versão portuguesa adaptada da versão espanhola e da versão francesa e que já foi utilizada em outras teses realizadas na Universidade do Porto e com amostras portuguesas (Mendes, 2005; Silva, 2002; Vara, 2007). Este questionário contém três sub-escalas que avaliam as três dimensões do burnout (Exaustão Emocional, Despersonalização e Realização Pessoal) e é constituído por 22 itens cujas opções de resposta se encontram formuladas numa escala de Likert de 7 pontos, que vão do 0 (nunca) ao 6 (todos os dias). Para calcular os resultados de cada sub-escala deve somar-se a pontuação correspondente a cada um dos itens (que pode ir de 0 a 6). A Realização Pessoal apresenta um total de 8 itens, podendo-se atingir uma pontuação de 0 (mínima) a 48 (máxima). A Despersonalização é composta por 5 itens, podendo atingir um mínimo de 0 e um máximo de 30 pontos. A Exaustão Emocional, com 9 itens, pode apresentar uma pontuação de 0 (mínimo) a 54 (máximo).

Maslach, Jackson e Leiter (1996) conceptualizam o burnout como uma variável contínua, o que significa que pode ser experienciado em termos de grau (baixo, moderado ou elevado) e não como uma variável dicotómica, que ora está presente ou ausente. Assim, um elevado grau de burnout é reflectido em elevados resultados nas sub-escalas de exaustão emocional e despersonalização e em baixos resultados na sub-escala da realização pessoal. Um grau médio de burnout é reflectido em resultados médios nas três sub-escalas. Por fim, um baixo grau de burnout é reflectido em baixos resultados nas sub-escalas de exaustão emocional e despersonalização e em elevados resultados na sub-escala de realização pessoal.

Visto termos utilizado traduções/adaptações de instrumentos originalmente em inglês, efectuamos uma análise da fidelidade da nossa versão, utilizando o Alpha de Cronbach e comparando-o com os dados originais disponíveis para cada sub-escala de cada instrumento (Zuckerman, 1994 para a SSS-V; Maslach & Jackson, 1997 para o MBI; Corcoran & Fischer, 2000 para o ABS). Podemos verificar que os alfas na nossa amostra são bons, consistentes, muito aproximados aos alfas teóricos e nalguns casos ultrapassando-os, o que significa que o instrumento mede o que pretende medir (Tabela 1). Podemos ainda verificar uma proximidade

entre a média e a mediana de algumas escalas. Sabemos que quanto mais próximas forem estas duas medidas, mais fiável é a escala (Anastasi, 1997; Reis, 2007). A mediana separa a metade inferior da amostra da metade superior e quando ela coincide com a média, significa que coincide com o valor médio da distribuição, o que traduz uma maior fiabilidade da escala.

Tabela 1 – Fidelidade do Instrumento

Sub-escala Média Mediana D. P. Mín. Máx. alfa 1* alfa 2**

TAS 4,91 5,00 2,851 0 10 0,797 0,770 – 0,820 ES 5,26 5,00 2,142 1 10 0,679 0,610 – 0,670 DIS 3,08 3,00 2,255 0 9 0,737 0,740 – 0,780 SSS BS 2,76 2,50 1,844 0 9 0,556 0,560 – 0,650 Exaustão 22,39 22,00 9,954 3 48 0,836 > 0,90 Despersonaliz. 5,26 4,00 4,803 0 22 0,696 > 0,79 MBI Realização 37,22 39,00 7,130 14 48 0,802 > 0,71 ABS positivo 28,40 29,00 1,608 21 30 0,700 > 0,80

ABS ABS negativo 23,35 23,00 1,794 16 27 0,785 > 0,80

* alfa 1 = alfa na nossa amostra **alfa 2 = alfa do estudo original (teórico)