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4 VISÃO, CÉREBRO E PERCEPÇÃO VISUAL

4.8 COR E CONTEXTO

As cores nunca são vistas em isolamento, elas se encontram sempre

cercadas por outras cores e são alteradas pelas condições de iluminação. Por

séculos os pintores se utilizaram e jogaram com as propriedades da cor e é possível

encontrar em seus relatos muitos exemplos sobre as dificuldades e as soluções

encontradas em sua manipulação.

Nosso cérebro percebe um quadrado vermelho sobre um fundo azul

diferentemente de um quadrado vermelho sobre um fundo amarelo. Ele é capaz no

entanto de perceber azul em condições de luz muito diferentes, uma capacidade

aqui já descrita e conhecida como constância de cor. Embora a constância de cor

seja normalmente definida como a capacidade do cérebro de manter uma percepção

de cor inalterada em flutuações na luz refletida sobre a cena visual, significando que

percebemos uma maçã como vermelha sob uma iluminação baixa ou alta, como

nosso cérebro faz isso ainda nos é desconhecido, mas acredita-se que envolva a

comparação das ondas longas, médias e curtas refletidas pelas superfícies e outros

mecanismos ainda não esclarecidos.

Um estudo de Panorgias e colaboradores (2012) analisou a estabilidade da

percepção de cor na retina periférica humana durante diferentes fases do dia. Por

ser a luz elétrica uma invenção humana recente, acredita-se que a circuitaria neural

de processamento da cor no cérebro foi fortemente influenciada pela iluminação

diária terrestre, que segue um padrão característico:

Por causa das moléculas de ar e outras partículas microscópicas na atmosfera, as radiações do sol estão sujeitas à dispersão de Rayleigh, que afeta somente comprimentos de onda curtos, resultando na aparência azul do céu (SMITH, 2015). A radiação residual é composta apenas de comprimentos de onda médios e curtos, cuja média está na região amarela

do espaço de cor. Então a dispersão de Rayleigh1 provê uma variação cromática amarelo-azul (SHEPARD, 1992). As radiações do sol, ao se aproximarem do horizonte, penetram colunas de ar mais longas e densas. Embora a proximidade do horizonte seja a mesma no amanhecer e no entardecer, a temperatura é mais alta durante o entardecer. Isso resulta numa maior proporção de moléculas de água, que são maiores que as moléculas de ar. Estas dispersam o componente de comprimento de onda longo da luz do sol, dando ao céu do entardecer a distinta aparência vermelho-alaranjada. Por isso, a elevação do sol e a presença de vapor de água na atmosfera resulta em uma variação cromática vermelha-verde. É claro, durante um ciclo de 24 horas, existe também uma mudança geral na intensidade da iluminação do meio-dia muito claro até a noite estrelada escura. Acredita-se que essa mudança de intensidade proporcionou a necessidade da gama extremamente variada de luminância à qual o sistema visual é capaz de responder (Shepard, 1992). (PANORGIAS, et al., 2012, p.2, tradução da autora).

Uma representação matemática de todas as misturas de cores aditivas

representando esses variados estágios da luz diurna são descritos como Daylight

Locus (WYSZECKI; STILES, 1982 apud PANORGIAS, 2012, p.2), acompanha a

variação das cores percebidas no céu desde o amanhecer (céu azul) até o

entardecer (laranja-avermelhado), numericamente descrito em termos de

temperatura da cor correspondente:

Cores de temperaturas altas (High color temperatures) = azul

Cores de temperaturas baixas (Low color temperatures) = vermelho

Essa divisão baseada em temperaturas é uma das classificações mais

comumente usadas pelos artistas. Ainda que não seja uma regra, a escolha das

cores pelos artistas parte, com frequência, de uma decisão sobre cores quentes ou

frias, muitas vezes antecedendo a escolha dos próprios tons. Azuis, vermelhos,

amarelos, verdes, cinzas, brancos e pretos, todas as cores podem ser compostas

numa gama quente ou fria.

As cores não podem ser analisadas somente em termos de superfícies que

refletem a luz, a sensação de cor também é gerada por outros elementos, invisíveis

ou não, presentes entre a fonte luminosa e o objeto e também entre o observador e

esses elementos. No próximo capítulo veremos como os pintores levaram esses

elementos em consideração ao executarem a pintura, como os elementos invisíveis

se tornaram parte da técnica pictórica.

1Dispersão de Reyleigh: é a dispersão de luz, ou qualquer radiação eletromagnética, por partículas menores que o comprimento de onda dos fótons dispersados.

No tempo dos Impressionistas muitas publicações e autores já se ocupavam

da influência desses elementos no contexto da percepção das cores, entre eles

Chevreul, um dos principais autores/cientistas de livros e guias voltados para os

pintores no século XIX:

Também Michel Chevreul escreveu no século passado sobre como as cores são afetadas pelo contexto, colocando em palavras, desta maneira, o que os grandes pintores já sabiam há séculos. Mas foi somente nos últimos anos que os fisiologistas puderam conectar esse efeito ao fato de que células no cérebro ocupadas com cor podem modificar suas respostas profundamente dependendo do fundo contra o qual a cor escolhida é apresentada. ‘Pintura’, escreveu Constable, ‘é uma ciência e deveria ser compreendida como uma investigação das leis da natureza’ (ZEKI, 1999, p.3, tradução da autora)

Não deixa de ser intrigante que em muitos experimentos científicos a cor seja

normalmente vista como um elemento passível de ser isolado, separando sua

percepção de seu contexto. Muitas vezes, numa tentativa de obter uma condição em

que a cor a ser estudada não se sujeite à influência de outra cor, os fundos

escolhidos são preparados em cinza. Mas do ponto de vista da prática artística o

cinza, ainda que possa ser considerada uma cor neutra, não pode ser considerado

exclusivamente neutro quando confrontado com qualquer outra cor.

O contexto da cor, portanto, deveria ser descrito como o ‘contexto das cores’,

No documento A Neurociência Através da Pintura SUBMERSA (páginas 150-153)