5 MÉTODOS DE PINTURA E O CÉREBRO
5.6 A TRANSFORMAÇÃO IMPRESSIONISTA DOS MÉTODOS ARTÍSTICOS
5.6.1 O MÉTODO TRADICIONAL E O PROCESSAMENTO VISUAL
Não pretendo aqui me aprofundar em como a técnica tradicional de pintura foi
desenvolvida durante a Renascença pelos artistas italianos e holandeses: esse é já
em si um assunto bastante complexo sobre o qual se produziu um grande volume de
literatura. Nos interessa aqui somente citá-los como os pioneiros das técnicas de
pintura que prevaleceram nas academias de arte europeias até o século dezenove.
Alguns dos maiores expoentes do período como Leonardo da Vinci (1452-1519),
Michelangelo (1475-1564) e Jan van Eyck (1422-1441) colaboraram imensamente
para o avanço dessas técnicas: os pintores holandeses se especializaram no uso da
tinta à óleo enquanto os artistas italianos inventaram a perspectiva matemática e
foram pioneiros na ilustração anatômica. Suas metodologias em pintura foram
herdadas e avançadas por todos os movimentos e escolas nos séculos que se
seguiram, chegando ao século XIX obedecendo a seguinte ordem: o processo se
inicia com a preparação de desenhos feitos em preto e branco (ou em outra cor em
contraste com a cor do papel, às vezes com o uso de uma segunda cor como o
branco para ressaltar áreas de brilho) onde os elementos composicionais
(arquitetônicos, figuras humanas e outros) são estudados separadamente, só se
juntando mais tarde, numa pintura única (DUNSTAN, c1976; REWALD, 1946). A
pintura é iniciada com a distribuição de manchas monocromáticas sobre a tela,
normalmente em tons terrosos, onde as áreas mais escuras fornecem pistas da
distribuição espacial das figuras e outros elementos da composição, sugerindo as
marcações iniciais das sombras e dos volumes das formas. A pintura então segue a
partir da composição do fundo, onde se formarão os planos e a perspectiva. Por
último são trabalhados, de maneira detalhada, os personagens e os acentos
relativos a estes e a outros elementos. O fundo da pintura serve de cenário para a
ação principal, e os personagens que a encenam são distribuídos nos diferentes
planos do ambiente. Finalmente, a cor entra como última adição, elaborada de
maneira à não disturbar o equilíbrio das formas e das relações espaciais (FIELD,
1997).
Aparentemente, esta divisão dos estágios de criação de pinturas realísticas
ao modo da academia tradicional, a separação das fases em que cada componente
visual é separadamente analisado e adicionado à tela, parece respeitar a ordem
sequencial do processamento visual no cérebro numa correspondência bastante
semelhante. McMahon (2003) propôs a mesma questão em relação à observação de
pinturas realistas e à observação da cena natural: “O realismo na representação
pictórica é uma questão de implantar todos os processos perceptuais que
normalmente se desenrolariam ao ver a cena no mundo? Bem, possivelmente”
(MCMAHON, 2003, p.22, tradução da autora).
As primeiras duas fases dizem respeito à contraste: primeiro na anotação das
formas através do desenho monocromático no estudo dos elementos da
composição, e depois na tela através da aplicação de manchas escuras, que servem
como demarcação de áreas sombreadas ou mais contrastadas, que também irão
auxiliar à construção da sensação de profundidade. Portanto, as primeiras etapas
estão relacionadas à definição dos objetos e da percepção espacial pelo uso do
contraste de áreas escuras e claras.
Ao observarmos o início do processamento visual, chamado low level,
veremos que ele começa na retina, cuja função é extrair da cena visual um contraste
geral, orientação e movimento. Neste estágio, e no caminho até V1, a informação
obtida é bruta, definida por encontros de áreas mais e menos iluminadas através do
sistema binário dos cones, que respondem ou não à essas diferenças. Apesar dos
cones retinais coletarem informação sobre o tipo de comprimento de onda já nesse
estágio inicial, a informação detalhada sobre cor e textura não é processada nesta
fase, o que ocorrerá somente depois, nos estágios sucessivos.
Possuímos um canal que parte dos nossos cones na retina, que processa
separadamente o contraste e a informação de cor; apesar de vermos o mundo de
maneira combinada pelos dois canais, o chamado canal L- e M- processa
exclusivamente as informações sobre claro/escuro na cena. Artistas também
trabalham essas informações separadamente em seus processos de diversas
maneiras, e também neste caso aqui em questão. O processo artístico clássico
privilegia este canal durante as primeiras fases da criação artística.
Perspectiva, uma propriedade da nossa capacidade cerebral possível através da
visão binocular, também foi transportada para a superfície bidimensional da pintura
através de técnicas desenvolvidas e investigadas por artistas.
As camadas de tinta á óleo eram então adicionadas sucessivamente à partir
do ébauche inicial. O sistema de pintura em questão fora organizado levando em
consideração a ordem e a adição das camadas subsequentes e portanto
coordenando o input do fundo (primeira camada aplicada) com as cores que seriam
adicionadas em estágios posteriores, o tratamento do fundo definia o ponto de
partida a ser futuramente coordenado com a adição de outros elementos na pintura
como textura e cor. Manet, que foi o artista responsável pela modificação da técnica
do ébauche, inaugurando assim a técnica Impressionista, usava uma ferramenta do
século XVIII para “compreender de uma só vez as aglomerações gerais e os realces
mais fortes” (DUNSTAN, 1983 p.38) da cena, ainda que de uma maneira
diferenciada. A ferramenta se chamava “black mirror”, um espelho côncavo escuro
que simplificava os tons gerais da cena a ser retratada. Anteriormente, esse
instrumento era usado para ajudar a perceber as cenas nos então preferidos tons
terrosos e mais escuros. Manet, no entanto, não fez uso do “black mirror” para obter
uma referência tonal e de luminância, mas apenas para recolher uma impressão
rápida das principais áreas da cena.
Manet substitui o ponto de partida monocromático pelo ébauche colorido,
coordenando suas cores com as cores locais das futuras formas, como azul para o
céu, verde para a grama, e assim por diante. Essa simples mudança por si só faz
com que a pintura ganhe em vibração e luminosidade.
Soma-se a isso a preparação do fundo da tela com tinta branca.
Tradicionalmente a tela era preparada com um fundo tonalizado que poderia ser
marrom, cinza ou ocre. A escolha dessas cores facilitava a técnica do chiaroscuro
porque a adição de outras cores a um fundo tonalizado nessas cores criava
meios-tons mais facilmente. (DUNSTAN, 1983, p.12). Ao mudar a cor do fundo para branco
ou cinza claro, a aparência e a sobreposição de todas as cores sucessivas, incluindo
o ébauche, ganhou em brilho e saturação.
A combinação dessas duas alterações, cor de fundo junto às cores do
ébauche, forneceram uma nova base perceptual sobre a qual todas as outras
decisões sobre cor iriam ocorrer, significando que o primeiro driver visual da
experiência pictórica havia sido completamente modificado. Ou seja, o
processamento bottom up é já influenciado pelas decisões relativas às nova
Essas duas diferenças em tom e contraste criaram novos desafios: se o fundo
não era mais monocromático e constituído de tons escuros, então as camadas
sucessivas precisariam ser concebidas de uma nova maneira e o esquema de
coordenação entre elas revisado. A antiga sequência de camadas de cor não mais
se adequaria. Para progredir com a adição de novas camadas, o artista era agora
requisitado a repensar as cores à cada nova pincelada.
No próximo estágio da ordem de execução da pintura, os pintores construíam
o fundo, e este era trabalhado de maneira a salientar os personagens e as ações
presentes na cena. O fundo era, de alguma maneira, menos importante do que a
ação realizada pelos personagens, todavia ele tinha o papel fundamental de fornecer
o ambiente adequado que enfatizaria os objetos, os personagens e suas narrativas
no primeiro plano (SCHAPIRO, 1997, p. 79; AUBERTOT, 2016, p. 95).
Mais uma vez, a técnica se relaciona, em certa medida, ao nível intermediário,
o segundo estágio do processamento visual, onde os contornos dos objetos serão
separados dos outros elementos da cena, definindo que objetos pertencem a quais
planos na cena, segregando figura e fundo. Esses elementos são processados nas
áreas V1, V2, V4 e V5 e no córtex inferotemporal e no complexo lateral occipital
humano. É também durante esta fase do processamento visual que os contornos
dos objetos são integrados, quando o córtex determina que texturas e superfícies
pertencem a que objetos. Também é nesse estágio que aos primitivos visuais são
analisados, portanto, cor, movimento, profundidade, orientação e
contraste/luminosidade. Neurônios nessa fase do processamento visual respondem
à atributos específicos enquanto silenciam em relação a outros. Indubitavelmente
todo o processo relativo à criação artística é um processo high level, porém, na
construção da pintura realística, nesse segundo estágio, os atributos trabalhados na
tela, e que pouco à pouco constroem a imagem, se relacionam a caracterizações
mais localizadas, além de fornecerem as condições visuais para diferenciar as
figuras de seus respectivos planos. O artista aqui infere, na técnica, a operação dos
primitivos visuais.
Finalmente, a cor é adicionada à pintura. Se olharmos a sequência da
circuitaria envolvida no processamento dos atributos visuais da cena, veremos que a
cor e a forma são processadas em áreas anatomicamente separadas, e que ambas
envolvem V4 (VIVIANI; AYMOZ, 2001). Se a cor é codificada depois da forma, na
técnica tradicional ela também era. No século XIX, a cor era entendida como um
elemento que poderia desviar a atenção das formas. Talvez o entendimento
científico que temos hoje da ordem do processamento de cor no sistema visual
possa então fornecer uma explicação biológica sobre porque a cor era vista como
um elemento de distração, pois anatomicamente processamos antes a forma, para
só depois processarmos a cor.
O processamento high level integra informações de várias áreas e é
influenciado pela cognição, dando sentido ao que vemos. Sinais top down relativos à
memória e objetivos comportamentais nos dizem o que o objeto é e quais suas
funçõe na cena pintada, e fora dela. A percepção do objeto e seu significado na
cena é o nexo entre a visão e a cognição. Desta maneira, quando olhamos para uma
pintura clássica, onde os objetos e os personagens foram cuidadosamente
distribuídos e integrados de maneira a expressar uma determinada narrativa, a
construção desses significados e de suas relações começa nos primeiros esboços
preparatórios.
No intuito de reproduzir o mundo natural fielmente, ou de construir uma ilusão
próxima àquela do que vemos, os artistas criaram um método que se apresenta
ordenadamente semelhante à sequência da circuitaria responsável pelo
processamento de informação visual. Essa ordem é separada e manipulada em
estágios diferentes e sucessivos no fazer pictórico.
No documento
A Neurociência Através da Pintura SUBMERSA
(páginas 179-183)