2. A REDE DE SOCIABILIDADE DE AMÁLIA HERMANO TEIXEIRA
2.1 REDE SOCIAL E INSTITUCIONAL A BASE DO GOVERNO
2.2.1 Cora Coralina
De acordo com Bento Fleury Curado (2017), a amizade entre Cora Coralina e Amália Hermano Teixeira, ocorreu após a volta de Cora Coralina para Goiás, em 1956. Naquele tempo, Amália Hermano Teixeira já trabalhava na UFG, e por meio de influências junto ao Departamento de Publicações conseguiu apoio financeiro para que Cora publicasse um livro. Desta relação surtiu bons frutos, pois desde então Cora Coralina, apoiada em suas próprias qualidades e a outros auxílios, tornou-se reconhecida nacionalmente.
Sobre o vínculo de Amália Hermano Teixeira e Cora Coralina, a própria autora nos apresenta sua versão em relação a essa amizade:
Regressa a Goiás em 1956.
A primeira notícia de Cora Coralina eu tive através do professor Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, em seu excelente Anuário Histórico e Geográfico de Goiás, publicado em 1910. Na parte literária, o ilustre e saudoso mestre incluía Cora Coralina, uma jovem de menos de vinte anos, entre os intelectuais da terra goiana.
Examinando na Biblioteca nacional do Rio de Janeiro a coleção completa da Revista Goiana, dirigida por Henrique Silva e americano do Brasil, li os artigos de Cora sobre Alfenim e o Ipê, refletindo ambos, inteligência incomum e profundo poder de observação.
Depois foi o encontro memorável em Goiânia, em 1956, quando Cora Coralina, deixando São Paulo, busca sua terra natal (TEIXEIRA, 1993, p. 44).
No capítulo destinado a Cora Coralina, Amália Hermano Teixeira explica sua curiosidade em questionar Cora sobre a escolha deste pseudônimo, e compartilha com os leitores a resposta da amiga que lhe respondeu por escrito e publicou sua resposta:
Cora Coralina nasceu Anna Lins dos Guimarães Peixoto. E mudou de nome aos 50 anos por escolha própria. Viúva aos 46 anos, os filhos quase criados, deixou de fazer doces para fazer poemas. A Aninha virou Cora, ela H[SOLFD SRUTXH µ(P *RLiV KDYLD PXLWDV$QDV SRU FDXVD GD SDGURHLUD GD
cidade [...] Não queria que nenhuma Ana mais bonita, levasse as glórias de minha poesia. Cora vem do coração. Coralina é um coração vermelho. 0LQKD LQWHQomR QmR HUD WHU [DUi¶ 1RPHV SDUD R VHX ILOKR -RKQVRQ H Johnson, s/d. p.11 apud TEIXEIRA, 1993, p. 44).
Amália Hermano Teixeira relata aos leitores que fez pesquisas genealógicas sobre Cora Coralina para trabalhar alguns verbetes; trabalho realizado com o apoio do Tribunal de Justiça do Estado (outro espaço institucional percorrido por Amália Hermano Teixeira e que lhe beneficiou grandes amizades) e, por meio desta pesquisa, fez um estudo da ascendência da autora, ao trazer à público toda a sua linhagem. No intuito de engrandecer Cora Coralina, que, até então, era vista como uma simples doceira, buscou enriquecer seus estudos por meio de trabalhos ainda não feitos.
Nota-se, também, que estas articulações de Amália Hermano Teixeira em fazer-se presente junto à pessoas prestigiadas, proporcionava-lhe um bem querer, criando laços que lhes fortalecia a convivência. No caso específico de Cora Coralina, Amália Hermano Teixeira, além de preocupar-se em buscar a origem da família de Cora, a autora afirmou que atuou como mediadora nos encontros familiares de Cora e seus parentes, que até então não conhecia. Assim, foi possível constatar que o contato entre Cora Coralina e Amália Hermano Teixeira foram estreitados:
São depoimentos de Teixeira:
Há pouco tempo, para completar os verbetes dos membros do tribunal de Justiça do estado, a partir do Tribunal de Relação (1873) até o Tribunal de Justiça de nossos dias, sobre o Desor. Francisco de Paula dos Guimarães Peixoto, escrevi ao casal amigo Carmem e João Eduardo, do recife, que se desdobraram para atender meu pedido. Através das pesquisas de Helena Pinheiro Lins, nea do Desor. Lins, na faculdade de Direito e na Vila de Pilar, e do genealogista D`Arsoval dos Guimarães Peixoto, sobrinho-neto também do Desor. Lins e primo de Cora, recebo dados sobre a ascendência ilustre de nossa poetisa.
Na carta ±resposta de Carmem, ela me transmitia um recado de D`Arsonval: µ+iSRUDtHP*RLás, não sei se Goiás Estado ou Goiás velha capital, uma poetisa chamada Cora Coralina, sob a qual gostaria de saber qualquer coisa a respeito. Mandei notícias sobre a poetisa e prosadora tão admirada HP VXD WHUUD H SRU HVVH %UDVLO DIRUD´ ( 'C$UVRQDO H VXD esposa vieram visitá-la[...]
CoUDHVFUHYHULDSDUD'ÈUVRQYDOµFoi para minha sensibilidade humana um momento excepcional receber em nossa casa um parente de meu pai, que DTXLYLYHXHPRUUHXHPWHPSRVLGRV¶,ELGHPS.
Como intelectual, Amália Hermano Teixeira militou junto a outros intelectuais de sua época, ao utilizar-se de seu capital cultural e social para alcançar outros meios de socialização. Neste sentido, apresentou Cora Coralina de outro ângulo,
como ainda não tinha sido apresentada e assim, particularizou sua relação com Cora Coralina, criando laços que ultrapassaram sua condição de poetisa, para alcançá-la com um olhar mais sensível, como ser humano.
A peculiarização na convivência entre Amália Hermano Teixeira e Cora Coralina evidencia-se nos discursos de Amália Hermano Teixeira, no registro de um recado a Cora Coralina, expondo suas afinidades:
Tenho um recado para Cora: as sementes que você me deu germinaram, as plantinhas cresceram, espicharam, campândulas graúdas azuis- arroxeadas com garganta e veias rosadas, são chamadas ipoméias. Quando perguntei como eram as flores, Cora SRVLWLYDIRLPHGL]HQGRµQmRPHOHPEURPDVVH QmRIRVVHPERQLWDVQmRWRPDULDRWUDEDOKRGHFROKHUDVVHPHQWHV¶,ELGHP p. 47).