Quando cheguei a São Paulo, em 1962, para servir no Quartel-General da 2a Região Militar, habilitei-me a obter licenciatura em História na Faculdade de Filosofia da Uni-versidade de São Paulo, no quarto ano, então funcionando na Rua Maria Antônia. Conci-liei o trabalho profissional no Exército com a faculdade durante a noite, tendo inclusive terminado o curso já na Cidade Universitária. Tive a oportunidade inclusive de redigir uma monografia editada posteriormente sob o título “A Educação no Período Colonial”. Obtive registro no Conselho Federal de Educação de diversas matérias ligadas à Economia e História, o que me proporcionou atividades de ensino durante cerca de 15 anos, trocando o lazer pelo trabalho como professor, em noites e mais noites, sempre conciliando a caserna e a cátedra, exercendo o magistério em faculdades de Economia e Administração de Empresas em Santos e São Paulo.
Tive, portanto, a oportunidade nesses longos anos de 1956 a 1972 de viver e conviver com a sociedade civil nas faculdades, como aluno e professor, o que muito me serviu no exercício de outras atividades.
Militar por formação, professor por vocação, policial por devoção e político por obrigação.
Terminado o curso da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), fui classificado no Estado-Maior da 2a Região Militar, em 1962, quando então a Nação já sentia o desequilíbrio provocado pela renúncia de Jânio Quadros, com a marca indelével de “peleguismo” patrocinado por João Goulart.
Nesse mesmo ano, por indicação direta do Comandante da Região, General Aurélio de Lyra Tavares, com menos de um ano no Estado-Maior da 2a Região Militar, recebi ordens para assumir o comando da 3a Bateria de Obuses de Costa – Forte dos Andradas, em Guarujá. Motivou minha designação, particularmente, a comunhão de idéias e ideais entre o General Lyra Tavares e nós.
De 1962 a 1965 no comando do Forte dos Andradas, praticamente em todo o período estivemos engajados no Movimento Contra-Revolucionário, na Baixada Santista que assistia ao crescimento vertiginoso do domínio dos sindicatos, via de regra, sob direção comunista, gozando de privilégios do “peleguismo” no Poder. Greves e mais greves, todas de fundo político, pretendendo o sindicalismo peleguista-comunista ditar regras em todos os setores de atividades, com a finali-dade de subverter e inverter o regime.
Esclareço que chamo de Movimento Contra-Revolucionário o movimento pa-triótico-democrático que se opunha à revolução comunista em curso no Brasil, na-quela ocasião.
Durante o decorrer de 1963, Santos passava a ser a verdadeira “cidade verme-lha”, dominada pelo “peleguismo”, com a simpatia e apoio dos poderes políticos do
Executivo e Legislativo. O sindicalismo peleguista-comunista instituiu o “Fórum Sin-dical de Debates”, congregando os sindicatos, verdadeiros “sovietes”, órgão político gerenciador de todo movimento contra o regime democrático.
Nossa tropa foi preparada, além de sua missão normal, para atender a qualquer tipo de emprego como elemento de Segurança Interna com elevado grau de profissionalismo, obtido na “selva da mata e dos morros” do litoral, na região do Monduba. Ante à “revolução comunista” silenciosa, porém atuante e em marcha com o beneplácito do Governo Federal, mantivemos com o Estado-Maior da Guarnição de Santos, particularmente no setor de operações o Coronel Varella e de informações o Major Garboggini (José do Amaral Garboggini), companheiros dos mesmos ideais, estreita ligação, bem como com o Movimento Contra-Revolucionário, tanto na Capi-tal de São Paulo, como no Rio e em Minas.
Ao alvorecer de 1964, nossa Unidade, os oficiais citados do Estado-Maior da Guarnição de Santos e outros segmentos representativos de entidades civis se incorpo-raram ao Movimento Contra-Revolucionário.
No âmbito político e sindical campeava à solta a “Revolução Progressista Peleguista”. Na tarde de 31 de março de 1964 tivemos conhecimento do movimento em Minas, ocasião em que mantivemos nossa tropa em condições de a qualquer momento cum-prir ordens. Situação difícil, eis que todas as outras unidades, 2o Batalhão de Caçado-res (2o BC), 6o Grupo de Artilharia de Costa Motorizado (6o GACosM), Base Aérea e Capitania dos Portos, bem como o General Carlos Buck Júnior, Comandante da Guarni-ção, e o Coronel Adston Pompeu Pizza, Chefe do Estado-Maior, estes contrários ao regime, os demais omissos.
Nessa tarde de 31 de março, particularmente em Cubatão, o sindicalismo peleguista-comunista ocupou a Refinaria Presidente Bernardes e a Cosipa, áreas críticas, certos de que a “revolução comunista” se deflagrara. O poder político em Santos, exultante, programara nesse dia homenagem a Jango Goulart.
No Quartel-General do II Exército, onde o General Amaury Kruel se mantinha com posição indefinida, seu Estado-Maior já tomara posição contra-revolucionária anticomunista, tendo em toda Baixada Santista apenas o nosso apoio em termos de atuação de força.
Recebemos ordem de “manter e garantir a Refinaria de Cubatão”, a fim de asse-gurar o combustível indispensável. Não pudemos dispor de nossa tropa, pois o Gene-ral Comandante não estava engajado na Contra-Revolução, inclusive se recolheu ao Forte de Itaipu a fim de não ser encontrado.
Fomos autorizados a dispor de elementos da Polícia Marítima de Santos, órgão do Governo de Adhemar de Barros, com a qual me fiz presente na Refinaria, eu e meu
capitão oficial-de-operações, por volta das 10h ou 11h da noite. Estava ocupada pelos “bonés vermelhos” dos pelegos comunistas, ameaçando explodir a refinaria caso pretendêssemos ocupá-la.
Eu, na época major, e o Capitão Ribeiro, ambos armados com metralhado-ras, mantendo elementos da Polícia Marítima no lado externo como se cobertura fossem, no dia 31 de março adentramos à Refinaria sob apupos, vaias e mesmo xingamentos de todo o tipo, além das ameaças de explodir dois enormes carros tanques de amônia que bloqueavam a entrada principal.
Entramos os dois, dirigimo-nos à Superintendência onde estava o Almiran-te Zavataro, pelego comunista chegado ao General Osvino (Osvino Ferreira Alves), Presidente da Petrobras, da mesma linha ideológica. Alto e bom som, ante o espanto do citado Almirante, declaramos que ocupávamos a Refinaria manu militari
por ordem do General Comandante do II Exército.
Momentos difíceis, de grande tensão, isolados do exterior, apenas manten-do contatos velamanten-dos com informantes de que dispúnhamos e que nos mantinham relativamente bem informados dos acontecimentos internos. Ameaças e mais ame-aças, que aliás foram concretizadas em plano subversivo posto em ação dentro da Refinaria, com sabotagem adrede preparada, aliás confirmada em inquérito poli-cial realizado depois.
Já nos dias 1 e 2 de abril, consolidado o Movimento Contra-Revolucionário no exterior e a duras penas mantido um certo controle interno, a Refinaria – embora paralisada por 21 dias – retornou ao seu funcionamento sob nova direção, com nosso apoio e inclusive da tropa que garantia a segurança das instalações. Durante algum tempo foi necessária nossa presença até que se estabelecesse o controle efetivo por pessoal qualificado e identificado com o novo quadro político.
Amenizado o problema principal – garantir o combustível – fomos designa-dos para atender a outros propósitos e objetivos da Revolução: o combate à corrupção. A Alfândega de Santos era o exemplo da instituição da corrupção no âmbito governamental pela “máfia” ligada ao janguismo e pela “burguesia-pelega” da épo-ca. Inspetores, conferentes, despachantes, constituindo verdadeiras quadrilhas, não raro com o beneplácito de elementos do Judiciário, como advogados e juízes, for-jando mandados de segurança, oficializando o contrabando.
Na ponta do fio os despachantes patrocinavam “andorinhas”, pessoas de todo o tipo, desde garçons a vendedores de loja, com passaporte, viagens e esta-das pagas nos Estados Unidos. Dessas viagens, tão “ilustres” passageiros, importa-vam Impalas – automóveis de último tipo da época – com porta-malas lotados de muamba com destino ao Paraguai, em trânsito por Santos, como “bagagem
desa-companhada”. Chegavam a Santos Impalas e mais Impalas que, através de “manda-dos de segurança” impetra“manda-dos pelos “viajantes” – isto é, despachantes – eram libe-rados no Porto de Santos e negociados de imediato por figurões da época que já aguardavam a “mercadoria”.
Tudo forjado, falsificado, contrabandeado, enriquecendo a burguesia pelega da época. Fui designado encarregado de Inquérito Policial Militar (IPM) para apurar a corrupção latente, o que realizei a duras penas, desmascarando a máfia e apontando à Justiça os envolvidos.
A Contra-Revolução de 1964 adotou um lema “contra a corrupção e a subver-são”; na Baixada Santista eram “instituições” que, durante certo tempo, tornaram-se notórias e contumazes mas acabaram desbaratadas.
Tão carente de líderes era o Movimento Contra-Revolucionário, que assu-miu a condução do Movimento na Baixada o Capitão-de-Mar-e-Guerra Bierrembach, até então estranho à região, tendo sido nomeado Capitão dos Portos pelo Gover-nador Adhemar de Barros, por delegação do Movimento Contra-Revolucionário.
Nesse tempo não faltaram tentativas de todo o tipo no âmbito da Baixada, não raro com sabotagens e infiltrações de todas as maneiras de velhas raposas políticas de vários matizes, obrigando inclusive que o Poder municipal fosse entre-gue a um oficial da Marinha, o Comandante Ridel.
Apesar da época política conturbada nos idos de 1962 a 1965, como Coman-dante do Forte dos Andradas, em missões externas, tive oportunidade de tomar uma iniciativa que no futuro muito me serviu de subsídio. A unidade era carente de mão-de-obra para atender a inúmeras necessidades no administrar a área do Forte do Monduba, o que tínhamos que fazer com recursos próprios. Desde a subsistência da tropa, inclusive o fornecimento de luz e água, tudo dependia de estrutura de órgãos próprios. Dentro desse quadro geral, a nossa Unidade era carente de elementos quali-ficados para mobiliar vários daqueles órgãos existentes.
No Comando do Forte dos Andradas, vivendo e convivendo com a comunida-de guarujaense, aconteceram diversas atividacomunida-des marcantes na época no campo po-lítico. A sadia união da comunidade civil e militar em Guarujá, em época tão con-turbada, permaneceu sólida e harmônica, apesar das ocorrências ocasionais de per-turbação política.
Episódio significativo foram os contatos que então mantive com Jânio Qua-dros que durante certo tempo escolheu Guarujá como “exílio” político após a sua renúncia. Residindo na Praia das Pitangueiras, constantemente visitava Jânio Qua-dros, sempre cercado de elementos civis que com ele participaram da política, oportunidade que me serviu para conhecer de perto esse ilustre brasileiro.
De 1965 a 1968, chefiei a 2a Seção – Informações – do Quartel-General de Santos, intimamente ligado aos setores de informações do Exército que, a todo custo, procurava consolidar o Movimento Contra-Revolucionário ainda ameaçado por vários segmentos sociais de elementos descontentes contrários ao regime. Alguns episódios significativos servem de exemplos.
No campo religioso, a Igreja progressista, liderada pelo Bispo Davi Picão, elemento de proa dessa ala, se fazia presente, não raro apoiando movimentos de desafio ao regime.
No campo político, remanescentes em atividades clandestinas e mesmo públicas, aglutinavam-se no MDB tomando posturas subversivas.
Tais atitudes exigiram acompanhamento diuturno, vez por outra com me-didas mais severas, inclusive de detenção de líderes a fim de abortar outras tantas manifestações atentatórias ao Governo e ao regime de então.
Os Atos Institucionais e a inclusão de Santos como Município de Segurança Nacional, com os prefeitos diretamente nomeados pelo Governo Federal, mantive-ram certa calmaria política. É dessa época a nomeação do General Bandeira Brasil, homem de confiança do General Costa e Silva, como prefeito de Santos.
Na Capital, em São Paulo, nesse período, o movimento estudantil infiltrado por elementos marxistas, da mesma forma deflagrava manifestações contra o regi-me. Por outro lado, a esquerda radical liderada por marxistas-leninistas se agrupa-va e lançaagrupa-va a guerrilha urbana, que passou a enfrentar o regime em luta armada. A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a Ação Libertadora Nacional (ALN) e outros tantos grupos “terroristas-comunistas” lançaram o desafio ao Governo, ao regime e à própria população.
Episódios significativos foram os atentados ao Quartel-General do II Exér-cito e o assalto ao Hospital Militar de São Paulo dentre outros, bem como o assassinato do Capitão Charles Chandler, do Exército americano, e a traição do desertor Carlos Lamarca.
Nessa época, pelo Secretário de Segurança de São Paulo, o Coronel José Paulo da Rocha Fragoso, que substituíra Cantídio Nogueira Sampaio, fui convidado a assumir a Guarda Civil de São Paulo, convite gentilmente recusado por motivos particulares. Quis o destino que alguns anos após fôssemos nomeado Secretário de Segurança Pública de São Paulo, inclusive ocupando a antiga sede da Guarda Civil como Gabinete da referida Secretaria.
Em 1968, assumi o Comando do 6o Grupo de Artilharia de Costa Motorizado – Forte de Itaipu, Praia Grande, onde, como em 1962, preparamos nossa tropa nos morros e nas matas de Itaipu, para participar do confronto com a guerrilha que,
dia a dia, se fazia presente nos centros urbanos, “assassinando, a título de fazer justiça, roubando, a título de expropriar”, triste doutrina leninista.
Durante este período, colaborando com as forças do regime, mantivemos sob nossa custódia os “estudantes” de Ibiúna e participamos ativamente do confronto com a “guerrilha rural” do traidor Lamarca.
Episódio que merece registro foi a nossa participação no célebre Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna. Quando a polícia paulista planejava o “aborto” do Congresso da UNE – a UNE era ilegal – fomos questionados pelo então chefe de Polícia, Hely Lopes Meirelles, da possibilidade de apoiá-lo, pois a detenção de “estudantes” era problemática quanto ao local do “recolhi-mento”. Apesar do inusitado pedido, problemático e complexo, fiz ver ao ilustre Secretário que dependia de ordem superior, do Comandante do II Exército. De pronto foi obtida a aquiescência com o total ônus sobre nossa responsabilidade, a que não nos furtamos.
Em curto prazo, providenciamos os reparos em um pavilhão no topo do Forte de Itaipu, antigo alojamento de praças, na época desativado. Construímos dentro de um alojamento uma prisão “duas estrelas”, com conforto relativo para abrigar os que seriam detidos no congresso, à luz da legislação da época, Lei de Segurança Nacional. Como resultado da operação montada, fomos incumbidos de “receber os custodiados”, algumas dezenas, dentre os quais os líderes estudantis da época, Francisco Travassos, da UNE – Rio; José Dirceu, da União Metropolitana de Estudantes (UME) – São Paulo; Wladimir Palmeira, da UME – Rio, além de outros. Figuras de proa que lideraram nessa época passeatas, quebra-quebras e mesmo confrontos com a polícia de São Paulo, com a pretendida experiência e liderança aperfeiçoadas no exterior, inclusive de guerrilha, disputando a primazia de liderar a UNE, então ilegal.
Durante alguns meses, causando trabalho dobrado para minha Unidade, mantivemos os “ilustres” personagens sustentados pela Nação e pelo povo. A maioria deles hoje está encastelada no poder político, como dignos representantes da “democracia”.
Somos testemunha viva desse período! Foram trocados pelo Embaixador americano seqüestrado. Essa experiência nos serviu para, anos após, como Secre-tário de Segurança Pública, enfrentar e confrontar, nos idos de 1977, nova tenta-tiva para ressurgir a UNE.
O Vale do Ribeira, na região de Jacupiranga, assemelha-se muito com a floresta tropical, junto à Serra do Mar e ao Oceano Atlântico, cortado pelo Rio Ribeira do Iguape e seus afluentes. Região pobre, de população rarefeita, entre a
Rodovia Régis Bittencourt e a Serra do Mar, tendo a banana como produto princi-pal, foi o palco escolhido para o traidor Lamarca encenar a guerrilha rural, dentro de seus conhecimentos militares e da doutrina marxista-leninista, que adotou de corpo e alma.
Implantou um núcleo guerrilheiro na região de Jacupiranga, integrado por outros tantos traidores do Exército, juntamente com alguns fanáticos do “leninismo”. Detectado o grupo, foi a área inicialmente cercada por elementos do Centro de Informações do Exército (CIE) e logo a seguir por elementos da tropa do II Exército, da Marinha e da Aeronáutica, com apoio de órgãos da 2a Região Mili-tar, sob o Comando do General Paulo Carneiro Thomaz Alves, tendo nós como seu Chefe do Estado-Maior, então Comandante do Forte de Itaipu.
Pouco mais de uma dezena de “guerrilheiros”, com armamento roubado do 4o Regimento de Infantaria (4o RI) pelo desertor-traidor Lamarca, perceberam a incapacidade de confronto com nossa tropa – em que pese a inexperiência, nesse tipo de luta, de nossos soldados – e encetaram longa fuga por mais de 30 dias na mata cerrada, acidentada e recortada de riachos. Tarefa inglória de cerco em uma área imensa, sofrendo com a carência de informações. Procurou-se realizar um cerco afastado, nas áreas vitais de provável fuga, e um cerco mais próximo, em função das informações disponíveis.
O confronto em Eldorado com o destacamento local da Polícia Militar foi o primeiro indicativo da possível rota de fuga, que seria na direção de Sete Barras e do Planalto, subindo a serra, eis que a outra alternativa, a Rodovia Régis Bittencourt, estava bem policiada, inclusive onde foram aprisionados os primei-ros “fujões”, logo no início da contraguerrilha. Barrado o grupo próximo a Sete Barras, ocasião em que foi feito refém o Tenente PM Alberto Mendes Júnior, e logo detidos dois “terroristas perdidos”, um deles ex-sargento do Exército. Após esse episódio, ficou definida a possível rota da fuga, Sete Barras–Alto da Serra, tendo como eixo a estrada de terra em demanda do Planalto.
Nesse período procedeu-se a todo planejamento possível, bloqueando-se as vias de acesso, buscando informações, a fim de melhor precisar a via de escape. Por duas vezes esteve próximo o confronto com patrulhas nossas, não se concre-tizando o objetivo pela natureza do terreno e particularmente pela decisão do grupo em não confrontar.
Fruto da inexperiência da tropa, aliás, facilmente explicável, bem como pela decidida disposição de evitar o confronto, o grupo guerrilheiro conseguiu escapar, inclusive usando veículo do próprio Exército. Esse, em linhas gerais, o episódio da pretendida “guerrilha rural” no Vale do Ribeira.
Alguns meses após a fuga, foi preso Ariston Lucena, um dos integrantes do grupo. Juntamente com o Coronel Mero e Delegado Furquim, procedemos à reconstituição de toda a fuga, desde a área de Jacupiranga até o topo da Serra do Mar. Episódio significativo foi a tentativa de reconstituir o “assassinato” do Te-nente Mendes Júnior. No preciso local de sua “sepultura”, questionamos o Lucena – fazia 19 anos no dia da reconstituição – de como se dera o assassinato. Lamarca decidira que deveria ser “justiçado”, eis que “teriam sido executados” os dois guer-rilheiros perdidos – que até hoje continuam vivos. O justiçamento deveria ser “si-lencioso” pois perto do acampamento do grupo estavam elementos do 4o RI. Aliás, em uma das bravatas literárias a respeito do episódio, Bacuri – traidor do Exército, terrorista – dizia que os guerrilheiros e praças comiam abacaxi da mesma horta. Teria sido decidido que deveria o tenente ser morto a “coronhadas”, tendo Yoshitame Fugimore dado a primeira e os demais, um a um, repetido a dose, transfor-mando a cabeça do nosso herói em uma folha de papel. Todos participaram da feitura da cova, um amplo túmulo cavado no chão, ainda existente no dia da reconstituição. Determinei ao Lucena que entrasse na “sepultura”. Pálido, tremendo, fiz com que entrasse impulsionado por uma rajada de minha Thompsom (metralhadora de mão). Por alguns minutos, para assustá-lo, fiz o terrorista sentir a proximidade da morte a que, sem dó nem piedade, submeteu o nosso herói, Tenente Mendes Júnior. Cooperamos sempre que solicitado com os quadros do Destacamento de Ope-rações de Informações-Centro de OpeOpe-rações de Defesa Interna (DOI-CODI), em forma-ção no Quartel-General do II Exército, para fazer face à luta armada, garantindo a segurança interna.
Em 1971/1972 passamos a chefiar o Estado-Maior da Guarnição de Santos, sob as ordens do General Thomaz Alves, e em 1973, a servir no Quartel-General da 2a Região Militar, da mesma forma, como Chefe do Estado-Maior do General Thomaz Alves, então General-de-Divisão, Comandante da 2a Região Militar. Em todo esse período acompanhei de perto o desenrolar da luta do regime contra os seus eternos inimigos, que continuava a cargo do II Exército, através do DOI-CODI, que conseguiu