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General-de-Brigada Euclydes Bueno Filho

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 80-134)

Tenho muito prazer em estar aqui.

Primeiramente, congratulo-me com os responsáveis pelo Projeto História Oral do Exército Brasileiro, uma iniciativa que permite ouvir a voz dos arquivos; eu mesmo um arquivo ambulante, com 82 anos e muita coisa para comentar. Com este projeto será possível reunir as experiências de vários colegas que vivenciaram a Revolução de 31 de Março de 1964.

Nessa data, estava em São Paulo, de licença, duração de dois anos, vincula-do ao II Exército, cujo comandante era o ilustre General Amaury Kruel.

Naquela ocasião, II Exército; atualmente Comando Militar do Sudeste.

Quando pedi licença, era chefe da seção que cuidava da fiscalização das fábricas militares e empreendimentos ligados à indústria bélica.

No mesmo dia do desencadeamento da Revolução, embora de licença, apre-sentei-me. Fiquei no Quartel-General e presenciei alguns episódios ocorridos na época, sobre a atitude que o General Kruel deveria tomar em face das tropas que se deslocavam de Minas, no início do Movimento Revolucionário.

Nos preparativos da Revolução, integrava um dos muitos grupos de oficiais que a forjaram. Conversávamos, na busca da convergência de opiniões, com a comunidade civil, com a sociedade, mas não estávamos realizando qualquer tipo de incitamento.

Meu cunhado, mais tarde General na ativa, Coronel Raul Lopez Munhoz, era da Casa Militar; mantínhamos contato permanente.

Assim, também tomei parte na atividade logística de apoio e acompanhei tudo, todos os momentos críticos da Revolução.

O senhor poderia contar algo daqueles acontecimentos marcantes de 1962, 1963, a insatisfação popular generalizada visível no País e o que a motivou?

Vou reportar-me a isso, sem dúvida. Gosto de memorar – minha filha sabe disso e, às vezes, até me critica – pois creio que a história é importante; repito, transformei-me num arquivo ambulante, até por força de minha idade – de 82 para 83 anos. Vivi no Exército uma grande parte deles e, de certo modo, encontro-me trabalhando, ainda, pela minha Instituição.

Passo a discorrer sobre os episódios próximos ao dia 31 de março e os acontecimentos mediatos, manifestando minha opinião sobre aqueles momentos de incerteza e importantes decisões. É importante focalizar muitos aspectos e a série de articulações e ações que acabaram por desaguar no 31 de Março de 1964. Um desses momentos críticos refere-se à posição do General Kruel, que era duvidosa. Ele titubeava entre orientar-se pelos repetidos alertas do General Castello

Branco e manter-se fiel à Constituição, o que considerava correto e acreditava ser o espírito do Exército.

No dia 31 de março, à meia-noite, aconteceu o diálogo entre o Adhemar de Barros, Governador de São Paulo, e o General Amaury Kruel, Comandante do II Exército. Afirmam que o Doutor Adhemar de Barros disse ao general que caso ele não se decidisse a favor do Movimento contra Goulart, já iniciado pelos Generais Olympio Mourão Filho e Carlos Luís Guedes, ele, Adhemar, iria colocar a força poli-cial do Estado contra o Exército.

Que naquele tempo era a Força Pública de São Paulo.

E que estava bem armada e muito bem preparada. Mas não acredito, pelo caráter do general, homem íntegro e de uma estrutura profissional fantástica, que fosse decidir sob ameaça. Certamente, pesou tudo numa balança, porque todos nós, já experientes nos postos de oficial superior ou de general, estuda-mos as alternativas, considerados todos os fatores, e tomaestuda-mos uma decisão. São os passos do processo decisório. E no meio do caminho, se estiver errado, você re-toma o processo.

À meia-noite, ele aderiu à Revolução e deu a ordem para que seus coman-dados partissem na direção de Resende, em apoio às tropas dos generais Mourão e Guedes, contra as do I Exército enviadas pelo General Armando de Moraes Âncora, meu antigo Comandante de Esquadrão, na Escola Militar e em Três Corações, Minas Gerais. Um oficial digno e cumpridor de seus deveres.

Tropas do I Exército a favor do Presidente João Goulart.

A favor da Constituição, essa que é a verdade. Mas nesse momento, graças a Deus, e pelo espírito do povo brasileiro, prevaleceu o diálogo, e a Revolução venceu.

Sem derramamento de sangue, foi evitado o choque de forças militares.

Entendo que as causas da Revolução de 1964 começaram a aparecer em 1922, com o episódio dramático dos 18 do Forte de Copacabana e, a seguir, as primeiras revoluções. As investidas comunistas agravaram o ambiente. Depois, cresceu, cres-ceu, até explodir no dia 31 de março, sob a influência direta dos acontecimentos do dia 13 de março, quando se deu o famoso comício da Central do Brasil liderado pelo Presidente João Goulart, perto do Panteão de Caxias.

Tenho uma opinião pessoal sobre Luís Carlos Prestes que não preciso deta-lhar. De qualquer forma, revelou-se um integrante pernicioso do Exército. Aceita-va subordinar o Brasil à União Soviética.

Em 1924, tinha seis anos de idade, nascendo para a vida, já ouvia falar sobre tudo isso. Meu pai era 1o-Tenente de Artilharia, quando comecei a dar os primeiros passos na política. Em 1930, com 12 anos, iniciei os estudos

preparató-rios para a Escola Militar. Criei-me dentro da caserna. Papai me levava às 6h da manhã para o quartel da 7a Bateria de Artilharia de Costa, em Macaé. Lá, adoles-cente, acompanhava o dia a dia dos soldados, participando da rotina do quartel; assim vivenciei a Revolução de 1930. A onda dessa revolução trouxe Getúlio Vargas e derrubou o Governo de Washington Luiz. O Ministro da Guerra era o General Leite de Castro (José Fernandes Leite de Castro). Aliás, quando os revolucionários passaram por Macaé, papai aprestou o Forte e adjacências para suportar a forte pressão que se avizinhava.

Mas Prestes já realizava sua insidiosa tarefa de preparar o golpe comunista. Em 1932, irrompe a Revolução Constitucionalista, contra a qual o papai combateu. Embora tenha uma opinião formada sobre a mesma, certamente é um movimento sobre o qual não cabe qualquer comentário no curso desta entrevista.

Depois veio 1935; com 17 anos, cursava o 1o ano da Escola Militar. No dia 27 de novembro desse ano, às 2h da madrugada, tocou o alarme; eu era atirador da metralhadora Hotchkiss.

Isso como cadete?

Cadete do 1o ano de Infantaria da Escola Militar do Realengo (Rio de Janeiro), o meu Comandante de Pelotão era o Tenente Claraz e o Capitão Bittencourt, Co-mandante da Companhia. Fomos deslocados para o Campo dos Afonsos, fizemos o cerco, sendo a primeira tropa que lá chegou.

A Intentona Comunista de 1935 começara em Recife, espraiara-se para Natal e depois, no Rio, irrompeu no 3o RI, na Praia Vermelha.

Onde morreram vários companheiros.

Sim, morreram vários militares.

Eclodiu também no Campo dos Afonsos (Escola de Aviação Militar), porque os comunistas queriam usar os aviões para bombardear o Palácio do Governo. No Campo dos Afonsos os cercamos e recebemos ordem para atirar.

Com 17 anos de idade.

Lá embaixo, uma bagunça danada e nós atirando de uma posição dominante, tiro real, é lógico.

Mas o fato é que da Escola Militar do Realengo participaram vários compa-nheiros, muitos já falecidos. Alguns ainda estão vivos, aqui em São Paulo. Foram presos na ocasião o Capitão Agliberto Vieira e outros revoltosos.

Que eram comunistas.

Sobre esses acontecimentos há alguns fatos. Um tenente de Cavalaria, um dos revoltosos comunistas, desviou o pelotão dele para outro lado e veio combater contra os colegas. Esse tenente, cujo nome não lembro, acabou desaparecendo e só

me recordo de que era de Macaé; ora, como vivi em Macaé, conhecia a família dele. O Tenente Danilo Paladini, da Infantaria, recebeu a senha para ir ao pátio da Infan-taria da Escola de Aviação, e morreu no local com um golpe de baioneta nas costas. Um outro oficial, o Tenente Bragança (Benedito Lopes Bragança), cujo irmão era meu colega, foi morto pelos “vermelhos” enquanto dormia.

Certo é que, a partir de 27 de novembro de 1935, o quarto do oficial de dia, que era vulnerável, no Corpo da Guarda da Escola do Realengo, foi reformado. Quando saí Aspirante, em 1938, já encontrei o quarto do oficial de dia todo modificado, reorganizado.

Voltando à Intentona de 1935, os comunistas vitimaram vários companhei-ros nossos, como o Major Misael de Mendonça, assassinado na Praia Vermelha, no 3o RI; em Recife morreram vários outros e no total foram presos mais de 700 revoltosos. Sou testemunha da prisão do Capitão Agliberto Vieira. O General Mascarenhas de Morais, Comandante da Escola Militar, reuniu os cadetes e expôs o Capitão Agliberto, aquele traidor.

O General subiu ao palanque e disse:

– Está aqui este canalha que matou o Bragança!

E o Alcindo, meu colega, que se encontrava ao lado – todos os cadetes reunidos – perguntou:

– O que faremos com esse abjeto? – Lincha! – respondeu a turma.

O General Mascarenhas não ia deixar linchar, mas o Agliberto Vieira ajoe-lhou-se e pediu misericórdia, dizendo:

– Pelo amor de Deus, não me entregue a essa turma!

Mas quando assassinou o companheiro, não teve misericórdia nenhuma.

Mas não foi só isso. Em Curitiba um oficial, também, assassinou o outro; entrou na sala do Major Comandante do Regimento de Artilharia, e o matou, dizen-do “você não é da nossa!”

Então, isso veio se acumulando.

Em 1938, já aspirante, em Três Corações, no quartel do 4o Regimento de Cavalaria Divisionário (4o RCD), tirava serviço de oficial de dia; o Corpo da Guarda estava preparado para defesa contra uma possível ação comunista daquele tipo. Usávamos senha para receber ordem de prontidão. Eu tirava o serviço sem dormir, e meu pai insistia:

– Você não dorme em serviço!

Papai nessa época era major; eu ficava encostado, de pé, sem dormir.

E era preciso mesmo. Certa vez, às 2h da manhã, tocou o telefone, aquele aparelho de manivela, e era o Coronel-Chefe do Estado-Maior da 4a Região Militar, de Juiz de Fora:

– Quem está falando?

– É o Aspirante Bueno, oficial de dia – respondi.

– Deus me livre! – exclamou – Como se pode colocar um aspirante inexperiente como oficial-de-dia?

– Coronel, não tinha tenente e então me escalaram, mas vou procurar atendê-lo. O que é que o senhor manda, qual é a sua ordem?

– Estou desesperado, estamos perdidos, pois um bloco de integralistas as-saltou o Palácio Guanabara e o Presidente Getúlio Vargas está cercado.

E acrescentou:

– Os integralistas do Plínio Salgado, o Severo Fournier, preposto dele, e do outro lado o Prestes; fizeram uma sociedade, uma associação maléfica. E o Getúlio está lá atirando, a Alzira Vargas atirando...

– Tudo bem, qual é a ordem? – voltei a perguntar. – Vai até o cofre e pega a senha.

Cheguei lá, abri o cofre e encontrei um envelope: era prontidão rigorosa. O quartel do 4o RCD, onde hoje se encontra a Escola de Sargentos, fica no interior de um vale, numa alça do rio, totalmente dominado pelas elevações. Bastam duas metralhadoras para liquidarem o quartel.

Então imagine, eu aspirante, com 19 anos de idade, que não é a idade de amadurecimento, ainda; chamei os sargentos, o pessoal do meu pelotão, no qual tinha confiança e tomamos as providências.

Agora, havia tanta dúvida quanto à lealdade de alguns oficiais que o Major Epifânio Alves Pequeno, o Subcomandante, não veio ao quartel. Mandei uma via-tura buscá-lo, o cabo voltou e disse-me:

– Ele falou que não vem.

– Paciência, é problema dele – pensei.

Mas, como dizia, o Coronel me ligou e tomei as providências. Desloquei metralhadoras para as cotas superiores que dominavam o vale e conseguimos segurar a revolução lá. Aí voltei, liguei para o Coronel, que falou:

– Até que enfim, um Aspirante esperto, porque o senhor tomou todas as providências e inclusive está me telefonando para confirmar na hora.

Foi um fato positivo.

Ocorreu tudo isso, dominamos a situação, mas persistia a desconfiança e o temor, ainda conseqüência de 1935. O Major acabou vindo, mas sabe como ele

entrou no quartel? Como havia recrutas, era maio e estávamos em plena fase de instrução, ele pulou o muro. Em Três Corações existiam umas árvores bonitas, azaléias; de repente o sargento percebeu um vulto, apontou a metralhadora para ele, que se aproximava e, quando deu outro lanço, alertei:

– Alto lá! Se der mais um passo nós atiramos!

Aí ele veio de mãos erguidas, quase morreu do coração. Bom, isso foi em 1938. Durante a Segunda Guerra Mundial, servia no Sul e percorri parte dos cami-nhos trilhados por Luís Carlos Prestes, atravessei o Rio Uruguai, no trecho lindeiro entre o Brasil e a Argentina, e entrei no território vizinho.

Conto hoje esse fato aqui, antes reservado, mas agora liberado. Recebi a missão de penetrar na Argentina, percorri uns 100km, sem falar castelhano, mas a ordem era ir, fui fardado, com um poncho daqueles típicos, acompanhado de um sargento e um civil, que era jagunço na fronteira.

Fiz um levantamento do itinerário, um detalhe impressionante na época da guerra; havia dúvida de se a Argentina viria ao encontro do Brasil, com a vitória dos alemães na África. Após Dacar, prestes a cair nas mãos deles, tornar-se-ia possível o ataque ao Brasil, por Fernando de Noronha e Natal.

Então o senhor foi escalado para fazer um reconhecimento em território argentino.

Sim, no tempo da guerra, essa foi a minha missão. Servia em Curitiba, no 5o Regimento de Cavalaria Divisionário (5o RCD), e o Coronel Teodureto, que era o nosso chefe, leu uma mensagem do Estado-Maior solicitando dez tenentes vo-luntários para a ação na fronteira. Se não aparecessem os dez, ele deveria esca-lar. Então, 15 se apresentaram e fui para São Luís das Missões. O que fiz lá? Deixei a minha primeira mulher e a minha filha de três meses em São Luís das Missões e fui para São Nicolau. Eram 200km de distância e lá fizemos uma patru-lha tipo “Vai e Vem” que fazia movimentos erráticos. Estivemos no 1o RCI/Santo Ângelo, no 2o RCI/Santiago do Boqueirão, no 3o RCI de São Luís das Missões e no 4o RCI de São Borja, onde ficava o reduto de Getúlio. Fiz 600km, incluindo a Argentina, a cavalo, na fronteira, e a pé na Argentina. Saía e entrava na Ar-gentina às três horas da manhã, porque precisava fazer o levantamento de itinerário, nunca mostrei o papel para ninguém, aquele papel devo ter guardado em algum lugar.

Lembro que o Brasil entrou na Segunda Guerra depois do massacre na orla marítima, quando os submarinos alemães torpedearam nossos navios que navega-vam indefesos. Nossos canhões no litoral não tinham alcance suficiente para atingi-los. Por ser de Cavalaria, a convocação ficou para o último escalão, mas da Infanta-ria muitos foram; perdi vários companheiros que morreram na Itália.

Bem, veio a guerra, na realidade muitos em nosso País eram favoráveis à Alemanha, uma boa parte do Governo agia dessa forma, o Getúlio Vargas, talvez inicialmente, tendesse para os teutos.

Pelo menos era simpático à causa nazifascista.

Por que ele era favorável? Analisamos isso em várias conferências, em vá-rios estudos estratégicos. Favorável por quê? Porque se tratava de um ditador, o Mussolini era o ditador na Itália, o Hitler na Alemanha e o Stálin na Rússia, quer dizer, um modelo falso de sucesso, mas por dentro estava tudo podre. Getúlio queria fazer aqui a mesma coisa, era o caboclo querendo copiar o modelo estrangei-ro da ditadura.

Mas, naquela época, o comunismo continuava firme em suas ações, tanto que o Governo prendeu a Olga Benário, esposa do Luís Carlos Prestes, que estava grávida e em ato deliberado, entregou-a nas mãos dos nazistas que a enviaram para os campos de concentração, sem dúvida um inferno.

Ainda durante a guerra, prenderam o Severo Fournier, um integralista mi-litante, oriundo da Cavalaria; morreu tuberculoso de tanta penúria na prisão, no posto de Capitão; o irmão dele serviu comigo em Três Corações; eram de uma família importante, mas para mim procedeu como um louco.

O Luís Carlos Prestes voltou para a Rússia e daquela turma toda de comu-nistas cada um foi para o seu lado, mas sem desistir de seus propósitos no Brasil. Quando chegou a década de 1960, agravavam-se os problemas sociais e tive-ram início as inversões de valores. Veio a eleição do Jânio Quadros, tendo como Vice João Goulart. Quando Jânio renunciou, Jango assumiu a Presidência do Brasil. No episódio em que tentaram impedir a posse de Jango como Presidente, lá no Sul, o General Machado Lopes, Comandante do III Exército, posicionou-se favo-ravelmente à sucessão, conforme a Constituição. Machado Lopes receava transpor os limites da legalidade, pois respeitava o princípio que está sedimentado em nossa formação, preservar a Lei Maior do País.

João Goulart sempre foi visto como de esquerda por nós do Exército. Com ele começaram os desmandos. Sempre soube de tudo por trás dos bastidores porque um irmão da minha cunhada, o Badger Silveira, era Governador do Estado do Rio de Janeiro. Também participou, no dia 13 de março, do comício que fizeram, de pro-pósito, junto ao Panteão de Caxias; assim entraram diretamente para o “vermelho”, queriam nos colocar como um satélite a mais da União Soviética. (O Silveira foi deposto e preso posteriormente.)

Outros fatos ocorreram na Marinha e no próprio Exército. Na Marinha, por exemplo, os oficiais foram jogados ao mar pelas praças comunistas, usando

inde-vidamente as divisas, que macularam de forma sórdida. Também havia general comunista e eu até servi com um em Curitiba, bem como um major comunista que, inclusive, assinava livros, folhetos, panfletos etc...

Voltando ao comício de 13 de março, estava presente, também, o então Ministro da Guerra, General Jair Dantas Ribeiro.

Recordo do Almirante Aragão, notório comunista, que costumava aparecer abraçado com marinheiros. Uma promiscuidade total!

Não se pode agir assim. A hierarquia tem que ser mantida e ele não só saía abraçado como era conduzido nos ombros dos marinheiros; uma verdadeira baderna. Era a inversão da disciplina e da hierarquia, valores imprescindíveis às Forças Armadas de qualquer país. Aliás, são pilares básicos sem os quais ocorre a falência de qualquer atividade humana.

Perto do 31 de março, estava em São Paulo e, num fim de semana, ia para Guarujá, quando, ao parar na Praça da Independência, debruçou-se na porta do meu carro um camarada e disse-me:

– Essa “mamata” vai acabar!

Era o prenúncio da revolução. Embora de licença, estava a par da corrente dos acontecimentos, integrando um grupo que trocava informações, tendo como ponta-de-lança o Raul Lopes Munhoz que, na época, era Coronel de Cavalaria, como já citei.

Fazíamos o nosso trabalho, captando opiniões e nos preparando devidamen-te. Felizmente, dentro desse quadro da total falta de disciplina, total inversão de valores, tínhamos um eminente militar, o General Castello Branco que, nessa oca-sião, era o Chefe do Estado-Maior do Exército (ele foi meu superior na Escola Mi-litar). Em 1964, Castello idealizou a Revolução, cujo planejamento era fantástico. Não chamo de “golpe”, pois foi uma ação regeneradora, mas a mídia, atual-mente, de propósito, desvirtua tudo. Falam em “golpe militar”, mas não houve nada de “golpe militar”. Quando usam essa expressão me irrito, porque não foi nada disso. O Exército apenas cumpriu a sua missão prevista na Constituição, de salvaguardar as Instituições, a Lei e a Ordem.

Na verdade, o Movimento de 1964 trouxe o País de volta à normalidade democrática e constitucional.

A Revolução fortaleceu os princípios saneadores e moralizadores. O Presi-dente Castello Branco promoveu a depuração na hora certa. Acercou-se de ho-mens justos, nos lugares corretos e em princípio para durar no máximo, quatro anos. Estava olhando por um prisma progressista e não retrógrado; queria entre-gar o Poder aos civis, o mais cedo possível.

Qual foi o grande mérito do Marechal Castello Branco? Depurou não só nas Forças Armadas mas em toda sociedade: política, civil, empresarial, trabalhista, econômica, não poupou ninguém, comunistas e corruptos.

A corrupção é outra história triste que vivemos, especialmente no campo político. Dificilmente você vê isso no Exército ou nas Forças Singulares, pois nossos princípios são rígidos.

Lembro-me de um episódio em Curitiba, quando ocupava o cargo de dire-tor da Fábrica de Viaturas do Exército. Nessa ocasião, Major de Cavalaria, tinha passado a Subdiretor, e veio um tenente-coronel de Engenharia, mais antigo, embora de turma de formação mais moderna. Naquela época, havia essa disparidade,

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 80-134)