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Coronel Stanley Fortes Baptista

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 92-106)

Vou expor coisas de memória. Não escrevi. Alinhei tópicos.

Faço minhas as palavras do Coronel Maranhão (o Coronel Stanley refere-se à entrevista concedida pelo Coronel Edgar Maranhão Ferreira ao Projeto, a qual assistiu, transcrita neste livro). Assino embaixo, pela realidade, pela objetivida-de, pelo brilhantismo como ele colocou tudo que antecedeu a Revolução de 31 de Março de 1964.

E por que faço isso? Porque no período de 1961 a 1963, Maranhão e eu lidamos ombro a ombro, dia a dia, ora estudando para o nosso curso no Instituto Militar de Engenharia, ora vendo o que é que poderíamos, pobres e modestos capitães, fazer em relação àquele momento vivido pelo Brasil.

Maranhão descreveu bem o que pudemos fazer: uma gota d’água, talvez. Mas, altamente significativa, inclusive pelas modernizações que conseguimos, pelas adesões que alcançamos.

Tínhamos em mente um objetivo. Não possuíamos condições de estruturar uma ação, mas havia um objetivo a atingir: jamais concordar que aquele pusilâni-me Presidente João Goulart transformasse este País numa república sindicalista.

Queria ressaltar duas coisas: a nossa prisão – não pela prisão em si, visto que a mesma tornou-se para nós a maior das comendas que recebemos em nossas vidas, porque dada no Governo de um homem como aquele que então presidia o Brasil –, depois, veio a anulação.

A anulação não foi pedida por nós, pelo contrário, nós não queríamos que aquela punição fosse anulada. Foi uma iniciativa dos governos da Revolução. Uma decisão do Marechal Castello Branco, posta em prática posteriormente, anulou as nossas punições.

O outro destaque, em dezembro de 1963, na conclusão do curso do IME, Maranhão seguiu para Belém e eu para João Pessoa, a fim de servir no 1o Grupamento de Engenharia e lá fiquei na Seção Técnica.

Tão logo cheguei a João Pessoa, mais ou menos na mesma época que Maranhão

chegava a Belém, procurei o Coronel Ednardo D’Ávila Mello, Comandante do 15o

Regimento de Infantaria (15o RI), líder local da ação anticomunista.

Embora sendo do Grupamento, foi a ele que me dirigi, como outros compa-nheiros da minha Unidade. Ele era um coronel e, ao mesmo tempo, um cavalheiro, habilidoso, maneiroso, delicado.

Aqui faço um parêntese, me jogo para o futuro.

Esse coronel, depois General-de-Exército, foi punido pelo General Ernesto Geisel que admiro, estimo, tanto que me dei pessoalmente com ele, mas nunca concordei com a atitude de punir o General Eduardo. Uma punição injusta.

Voltando no tempo.

Pois bem, o Coronel Ednardo nos aconselhava e dizia: “Não executem ações isoladas. Vamos acompanhar os acontecimentos, vamos esperar o momento opor-tuno, mas vamos atuar em conjunto, vamos trabalhar juntos.”

Era início de 1964, mais precisamente, janeiro e fevereiro. Não tivemos, nem ele nem o grupo que o cercava, uma ação efetiva, de feição operacional, na eclosão da Revolução.

Naturalmente que torcíamos à distância pelo seu êxito.

Apenas dois registros. O primeiro, que o então Batalhão de Serviços de Enge-nharia, do Grupamento, sediado em Campina Grande (Paraíba) e comandado pelo Coronel Queiroz, recebeu ordem e imediatamente deslocou-se para apoiar as tropas de Pernambuco, onde Arraes era Governador.

O segundo registro. Por incrível que pareça, quando irrompeu a Revolução, estávamos sem comandante. Ele havia se afastado, não me lembro se em férias, ou por outra razão qualquer. Talvez, tenha sentido algo no ar, teve medo e desapareceu. Até esqueci o nome dele, é bom esquecer o nome dessa gente. Graças a Deus, ele não estava lá, porque todos os demais oficiais do Grupamento aderiram ao Movimento, pensavam da mesma maneira e todos nós, no dia 31 de março, ao tomarmos conhecimento do ocorrido, nos reunimos então sob a liderança, salvo engano, do Coronel Galileu.

Era o mais antigo na ausência do comandante e nos colocamos à disposição do Movimento, formalizamos a nossa posição.

Os sargentos, unânimes?

Unânimes na sede do Grupamento, em João Pessoa. Não tivemos qualquer posicionamento contrário, nenhum problema de antagonismo, nada. O pessoal es-tava conosco, era uma família. Refiro-me à sede do Grupamento, em João Pessoa, pois quanto aos três Batalhões, integrantes do Grupamento, não posso dar testemu-nho; eu estava recém-chegado e não conhecia a situação dos batalhões.

O ciclo dos presidentes militares

Inicialmente me permitiria fazer uma passagem geral, depois abrir um pou-co sobre cada um.

Castello Branco: Ministro da Viação, como se chamava na época, a figura notável e inesquecível da história brasileira: Marechal Juarez Távora. Com ele fomos para o DNOCS, comigo, o Maranhão.

Costa e Silva: General Affonso Augusto de Albuquerque Lima, Ministro do Interior. Convidou o General Euler Bentes Monteiro para ser superintendente da Sudene e a mim para ser o superintendente-adjunto.

Médici:O trator humano chamado Mário Davi Andreazza, Ministro dos

Trans-portes. Tive a felicidade de assumir o Comando do 2o Batalhão de Engenharia e

Construção e dele recebi integral apoio.

Geisel: Ministro dos Transportes, General Dirceu de Araújo Nogueira, que

inicialmente me convidou para ser diretor-geral do DNER, onde fiquei quase um ano. Em seguida me pediu para ser transferido do DNER para a Rede Ferroviária, onde fui Presidente por quase três anos e meio.

Figueiredo: Vim para Pernambuco, onde fui convidado pelo Governador Marco Maciel para criar uma Empresa de Transportes Urbanos que depois foi batizada como EMTU/Recife. Três anos com Marco Maciel e recebi um convite para voltar para Brasília e criar, também, uma Secretaria, a Secretaria de Transportes Urbanos do Ministério dos Transportes, tendo como Ministro o Cloraldino Soares Severo.

Esse foi meu envolvimento direto no ciclo dos governos militares.

Agora, gostaria de citar alguns dados, ressaltando que, com os mesmos, não pre-tendo destacar boa ou má administração, mas, ao final, vou justificar por que os estou utilizando. Esses dados são necessários para uma apreciação que farei, depois de citá-los. DNOCS: Interessante! Não levei equipe de militares comigo para o DNOCS. Foi comigo um único militar, o Maranhão. Política, inclusive, que adotamos em todos os órgãos por onde passamos. Mobilizamos a equipe boa que existia no Departamento. Em todos os órgãos havia boas equipes. O que eles não tinham era oportunidade, porque a política sórdida do governo deposto só pinçava para a direção aqueles que eram corruptos, que faziam o jogo deles, da politicalha, e marginalizava os bons.

Encontramos no DNOCS nomes de expressão nacional. Gostaria de citar o Gui-marães, está me faltando o nome dele completo, a memória não ajuda, mas eram cidadãos notáveis. Todos eles aderiram ao novo Movimento. Todos eles aderiram, vestiram a camisa e lutaram. Que beleza, que ambiente!

Não participavam porque faltavam lideranças e oportunidades. Dois anos, onde se construíram 24 açudes, acumulando dois bilhões de metros cúbicos de água.

Vou citar alguns dados, porque não quero encher de números este meu depoi-mento: abastecemos quase uma centena de cidades que não possuíam água. Perfuramos quase mil poços. Criamos dois postos de piscicultura que estão produzindo ainda hoje milhares e milhares de alevinos por ano. Elaboramos um Plano de Obras e Estudos para dar continuidade à ação do Departamento no Nordeste brasileiro. Quando chegamos ao órgão, não havia coisa alguma. O diretor fazia o que queria. Implantamos o planejamen-to, que era submetido e aprovado pelo ministro e posto em prática.

Pelo que você está dizendo o combate contra a seca é viável, dependendo de uma administração séria, criteriosa, não é verdade?

Como é viável! Esse Nordeste é vitimado, é acusado, é dito pelo resto do Brasil como sendo um sorvedouro dos recursos nacionais, injustamente.

Não é o Nordeste. São os políticos corruptos e ladrões que vêm para cá e que desviam o dinheiro! Quando chegamos ao DNOCS não foi feito orçamento novo, foi usado exatamente o orçamento que existia. Apenas o Marechal Castello Branco e o Marechal Juarez disseram: “Pegue o montante dos recursos e redistribua para aquilo de que o Nordeste precisa.” E, assim fizemos, apoiados no trabalho do Maranhão, e conseguimos resultados notáveis.

Sudene: Como adjunto do General Euler, o ponto alto nos dois anos da administração dele foi a elaboração do IV Plano Diretor para o desenvolvimento do Nordeste, onde ficou caracterizado que a indústria no Nordeste era factível, sim, mas não era a “razão de ser” nordestina.

A indústria brasileira não pode repousar no Nordeste. Ela é complemen-tar da indústria nacional. A vocação nordestina é agrícola e através de uma ação orientada.

Mas não tem chuva!? Tem! É fazer emprego oportuno e racional, através de programas de área específicos – o IV Plano Diretor tem isto –, através da Engenha-ria Rural; um dos mentores foi o Maranhão.

Engenharia Rural era o quê, meu Deus? Tirar o pequeno fazendeiro da mão dos políticos, da mão do prefeito, corrupto local, e permitir que ele lidasse dire-tamente com o Governo Federal e se beneficiasse dos recursos do Banco do Nor-deste para melhorar sua propriedade e enfrentar as secas, através de poços, de cata-ventos e de pequenos açudes.

Essa Engenharia Rural foi regulamentada, aprovada em lei, implantada; in-felizmente não teve a continuidade desejada.

Há quatro anos, li no jornal que um ministro deste governo havia desco-berto que a vocação do Nordeste era agrícola. Trinta anos depois ele se meteu a descobrir! Descobrir, entre aspas, ele encontrou o documento, por acaso o leu.

2o Batalhão de Engenharia de Construção, em Teresina, Piauí: Lá foram três

anos. Foram construídos quatrocentos e cinqüenta quilômetros de rodovias pavi-mentadas, duzentos e cinqüenta quilômetros de rodovia com revestimento primá-rio, seiscentos metros de ponte.

Não são números significativos, nem para três anos.

Foi significativa a execução de uma obra, na Baixada Maranhense, ligando Teresina, São Luís e Belém, em plenas condições climáticas da floresta amazônica e realizada em tempo recorde. Não que fôssemos os grandes gerentes, mas porque dispúnhamos de uma grande equipe. Eram cinco frentes de trabalho.

E criativas. Era gente que quando vinha a chuva cobria o serviço com plás-tico para que a mesma não destruísse o serviço, já que o período de tempo de trabalho era muito pequeno.

Gente que deixou a família em Teresina e passou a morar no mato. Passamos dois anos, a sede do Batalhão num Posto de Comando Avançado na floresta amazô-nica e cumprimos a missão.

Uma verdadeira saga!

DNER: Não chegou a um ano. Lá encontrei uma verdadeira revolução no campo rodoviário. Revolução conduzida por Mário Andreazza, que eu já disse, um trator humano, e por um técnico brilhante chamado Eliseu Resende, que ainda hoje anda prestando seus serviços ao País. Essa dupla transformou este Brasil em termos de transportes rodoviários. Fizeram uma malha incrível e de alta qualidade. Coube-nos, então, uma preocupação enorme. Como manter esse patrimônio? Essa coisa não podia ser perdida, rodovia não é permanente, não é perene, ela carece de manutenção.

O DNER não tinha estrutura de manutenção, foi organizado para construir, produzir, fazer obras, e o fez muito bem, mas não tinha estrutura de manutenção. As nossas preocupações foram basicamente duas: assegurar a conclusão das obras que estavam em andamento, havia umas poucas ainda em andamento, e toda ênfase na manutenção da malha.

Criamos uma estrutura de manutenção, cujo chefe tinha assento na diretoria do órgão. Organizamos, mandamos preparar pessoal, até fora do Brasil, a fim de ter condições de mobiliar os distritos rodoviários com gente capaz de fazer manutenção. Foi uma tarefa difícil, mas foi cumprida, ao longo do período da Revolução. Hoje, 70% da malha rodoviária brasileira estão em estado precário, porque este Governo não é capaz de priorizar aquilo que é importante para o Brasil. Prioriza o que é importante para eles, políticos, e não para o País.

RFFSA: Foram quase três anos e meio de Presidente da Rede Ferroviária Fede-ral. Nesse período – fiz uns poucos registros para mostrar o ocorrido – a produtivi-dade da casa cresceu 30%. Quando digo produtiviprodutivi-dade é o resultado do transporte comparado com o número de empregados. Cresceu 30%.

A movimentação de carga ferroviária, nesses três anos, cresceu 25%. Os passa-geiros do subúrbio do Rio tiveram um crescimento de 35% e os de São Paulo, 25%.

Um episódio trágico, que calou muito. Eu era diretor-geral do DNER, não tinha um ano e estava, aqui, no interior do Nordeste, inspecionando obras rodo-viárias e, de repente, recebi um chamado de Brasília.

Nessa viagem me acompanhava o General Almir, que era da Diretoria de Obras e Cooperação (DOC) do Exército.

Pedi desculpas a ele e fui a Brasília. Lá chegando, tomei conhecimento do motivo do chamado. Havia ocorrido um desastre de trens no subúrbio do Rio de Janeiro, onde morreram dezenas de pessoas e centenas ficaram feridas. O General Ernesto Geisel determinou-se a solucionar, a fazer algo de imediato, que minimizasse aquela situação no subúrbio do Rio.

Fui levado ao gabinete do General Geisel pelo General Dirceu, que era Mi-nistro, e ouvi dele a seguinte colocação:

– Stanley, eu preciso de sua presença na RFFSA, como Presidente da Rede. – Presidente Geisel, toda a minha formação de engenheiro militar foi no campo rodoviário; Presidente, eu não entendo nada de ferrovia!

– Stanley, há uns poucos anos fui chamado a este mesmo gabinete por um Presidente que me disse ser preciso que eu assumisse a Petrobrás... e eu não enten-dia nada de petróleo. Exijo que você vá para a Rede – finalizou o Presidente.

Descrever o que foi a Rede seria um pouco longo, porque foi realmente uma ação empolgante, mas eu queria repetir: fui para à Rede, também, apenas com um companheiro militar.

Usei tudo que existia na Rede e eles responderam de uma maneira mara-vilhosa. Como se engajaram! Como transformaram aquela empresa! E foram até capazes de elaborar uma proposta para o futuro da Rede, que foi posta em prática pela Revolução e foi exitosa durante dez anos.

EMTU/RECIFE: No Governo Figueiredo, voltei para o Nordeste e assumi a EMTU/Recife. Novamente o inseparável Maranhão comigo. E aqui criamos uma empresa que começou com duas pessoas, Maranhão e eu, e que foi crescendo, não atabalhoadamente, nem à base de pedidos.

Jamais Marco Maciel, Governador que me deu essa atribuição de presidir a EMTU, me fez um pedido para pôr alguém; jamais o Secretário Antão de Mello me fez um pedido para pôr alguém.

Ela foi se desenvolvendo segundo um planejamento feito por nós dois e que previa, no terceiro ou quarto ano de vida, atingir o efetivo que permaneceria permanente. E isso foi posto em prática.

E essa empresa foi tão forte que passou a ser considerada pelo Banco Mun-dial como exemplo a ser seguido, não nos Estados brasileiros, mas nos países onde o Banco Mundial fazia investimentos em transportes urbanos.

Há cerca de cinco meses esteve aqui uma missão do banco.

Estou com o Maranhão numa empresa privada, completamente afastado de tudo isso. Estamos trabalhando em proveito do Brasil, sim, mas na área privada e fazendo projetos específicos.

Fui convidado por esse cidadão para ter uma conversa com ele. Era um dos diretores do banco, vinculado ao transporte urbano. E fui. Ele apenas visava, com esse encontro, parabenizar-me pelo que tinha sido a EMTU e dizer que havia cita-do o exemplo dela até em Hong Kong, onde havia um problema sério de transpor-te urbano, e sugeriu que eles conhecessem isso.

Para terminar essa parte do Ciclo dos Presidentes com o nosso envolvimento, depois de dois anos de EMTU fui novamente chamado a Brasília, desta feita para criar, também, uma Secretaria de Transportes Urbanos para o Ministério dos Trans-portes. Era ministro o Cloraldino Severo.

Passei lá cerca de um ano. Foi criada a Secretaria.

Mas que ano proveitoso! Mobilizando-se a equipe da Empresa Brasileira dos Transportes Urbanos (EBTU), órgão existente na época, composta de técnicos de alto gabarito do qual eu quero citar um, o Clóvis Valadão, que já morreu. Conse-guimos, nesse curto período, elaborar planos de transportes urbanos para todas as regiões metropolitanas do Brasil e os aglomerados urbanos.

Presidimos os conselhos que se tornaram responsáveis pela criação e im-plantação dos metrôs de Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre. O do Recife ainda foi inaugurado por Figueiredo, num tempo recorde.

Novamente Maranhão está lá, não comigo, em Brasília, mas no metrô do Recife, dando uma substancial contribuição. Um legado espetacular, já que o metrô serve ao povo, o metrô é transporte de povo.

Isto é ação social efetiva e não ação demagógica como se faz hoje, dizendo que é social; social coisa nenhuma!

Busca de eleitor para se reeleger.

Social é isto, que não dá voto, mas que atende às necessidades do povo. Feita essa digressão, ponto a ponto, gostaria agora de analisar o conjunto e justifico por que dei dados: não foi para enaltecer ninguém, foi para mostrar que o período 1964/1984 foi altamente produtivo para o nosso País.

A ação social, houve sim, meu Deus! Repito: sem rótulos.

O Funrural (Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural) foi uma revolução no mundo. O Presidente Fernando Henrique o cita hoje, só que não diz que foi criado pela Revolução. Ele o utiliza como se fosse dele. Cinicamente!

Isso foi da Revolução!

A Revolução satisfez ao povo. Eu tenho exemplos concretos e sou testemu-nha disto. Quando chegávamos ao interior para inaugurar aqueles pequenos açudes, aqueles pequenos abastecimentos d’água, éramos recebidos por pessoas cantando, aquelas senhoras, crianças, aqueles homens da enxada, cantando.

Não era carro de som nem banda de nada. Era aquele canto de agradeci-mento. A gente ainda vê hoje, quando há seca, que eles saem cantando, pedindo o apoio divino, já que não tem apoio dos governos.

Era aquela mesma gente, com aquele mesmo tom. A gente chorava de emo-ção. O Marechal Juarez em certo momento não segurou as lágrimas e nada foi encomendado. Éramos surpreendidos por fatos como esse.

Na hora em que chegávamos, vinham nos agradecer.

Na cidade, onde o povo tem uma mentalidade diferente da do campo, não é chegado a manifestações desse tipo, mas faziam outros tipos de manifestações. Quantas e quantas vezes, não foi nem uma, nem duas, nem três, fazendo exposições, palestras em auditórios, dizendo do que era a Revolução, do trabalho que a Revolução estava fazendo, fui aplaudido pelo auditório, de pé, não por causa do que eu havia dito, não tenho essa versatilidade, mas pelo que eu dizia que a Revolução estava fazendo.

Cito outro ponto que justifica e caracteriza a satisfação do povo, no período revolucionário.

Quando Castello Branco morreu, foi construído para ele um monumento, em Fortaleza. A imprensa, logo publicou: “Governo de coronéis promovendo um Gover-no de Revolução.”

Mentira! Aquilo foi uma retribuição a alguns fatos, dos quais um foi mais significativo: Orós.

Orós era um sonho do cearense. Para atender a esse sonho, Juscelino cons-truiu a barragem; só que ele precisava da barragem em tempo recorde para pro-mover-se, visando à eleição seguinte, do seu grupo.

E o que aconteceu? Fizeram a barragem a qualquer preço e, quando as chuvas caíram, arrancaram a barragem e foram destruídas não sei quantas cidades a jusante. Foi um desastre total.

Justiça se lhe faça! Ele procurou redimir-se, mandou reconstruir a barragem, no nível previsto no projeto, garantindo, aparentemente, que ela resistiria às novas chuvas. Ledo engano, não sei se consciente ou inconsciente. Enquanto eles concluíam a barragem, construíram um sangradouro para assegurar o escoamento da água e evitar uma segunda ruptura. Só que o sangradouro foi feito em rocha friável e quando as chuvas chegaram, aquelas rochas começaram a se desmanchar.

Estávamos chegando ao DNOCS, Maranhão e eu, e foi esse o nosso batismo: “Orós vai estourar e como agora está com sua capacidade plena, vai arrasar o Vale do Jaguaribe.” A partir daí acabou-se noite, não mais dormíamos; mobilizamos o que havia de melhor no Departamento, tudo administração direta, nada contratado; mobilizamos todos os equipamentos do Ceará e de outros estados.

E fizemos uma ação que graças a Deus foi exitosa.

Lutando contra as chuvas que subiam, o nosso trabalho tinha que ir à frente delas, conseguimos concluir a concretação daquelas rochas que não suportavam, mas que, com

No documento 1964 – 31 de Março (páginas 92-106)