Esquema 5 - Níveis de conhecimento propostos pelo MARCO (2002)
2.1 Enfoque lexicológico
2.1.1 Abordagem semântica
2.1.1.5 Corpas Pastor (1996, 2001)
Na tentativa de delimitar o escopo do fenômeno da combinatória léxica, Corpas Pastor (1996) propõe tratar todas as combinações dentro do estudo de fraseologia, entendida como “a nomenclatura utilizada para se referir ao estudo das combinações de palavras”45 (CORPAS PASTOR, 1996, p. 16). A partir disso, a autora apresenta uma sistematização dos
43 O termo “coligação” é utilizado por Tagnin (2005a, p. 30) para indicar uma “combinação de elementos lingüísticos em que o colocado é uma palavra gramatical”. Corresponde, na terminologia de Benson (1985), às
“colocações gramaticais” [grammatical collocations].
44 [no siempre los verbos con mayor colocabilidad con los sustantivos presentan un alto índice de frecuencia de uso. La colocabilidad del verbo va determinada por su significado léxico, sea específico o general, y por su condición sintáctica, y no por su frecuencia en el texto, mientras que la frecuencia del verbo depende más bien de su mayor o menor valor funcional].
45 [la nomenclatura utilizada para referirse al estudio de las combinaciones de palabras].
diversos aspectos que caracterizam as combinações léxicas, os quais, em Corpas Pastor (2001), aplica diretamente às colocações, justificando a inclusão destas no estudo das fraseologias. Propõe, então, como características da combinatória léxica:
a) freqüência - que compreende tanto a freqüência de coaparição dos elementos como a de uso da expressão. Para Corpas Pastor (2001, p. 43), essa é a base da corrente estatística; no entanto, acreditamos que essa abordagem (v. 2.1.2) trabalhe apenas com a noção de coocorrência freqüente, sem uma referência ao uso das combinações. Conforme explicitado na seção anterior (v. 2.1.1.4), a freqüência de uso é questionada por alguns autores para caracterizar o fenômeno léxico das colocações.
b) institucionalização - em decorrência da freqüência de uso, as combinações passam a ser percebidas pelo falante como um fragmento pré-fabricado, ou seja, como uma estrutura reconhecida e pré-existente. Essa concepção será utilizada por Sinclair (1991, p. 110) para caracterizar as combinações pertencentes ao “princípio idiomático” [the idiom principle] da língua (v.
2.1.2.3). Ao serem entendidas como um fragmento pré-fabricado, as colocações devem ser inseridas na norma, pois, como não correspondem a construções criadas livremente pelos falantes, não pertencem ao âmbito da fala.
c) estabilidade - que implica na restrição combinatória e na especialização semântica. A primeira pode ser variável, incluindo casos como paliza [surra], que se combina com pegar [dar] e um reduzido número de sinônimos parciais em espanhol (dar, meter, propinar, arrear), e como izar [hastear], que se combina somente com bandera [bandeira]. Já a especialização semântica corresponde à supressão ou à adição de significado a um dos elementos. No primeiro caso, as combinações estabelecem-se com um verbo deslexicalizado (ou suporte), como prestar [prestar] nas combinações com atención [atenção], auxilio [auxílio], juramento [juramento], entre outras, em que o verbo perde sua acepção original de “dar [algo] a [alguém] com a idéia de que lhe seja devolvido”, que corresponde a emprestar em português, adquirindo um significado “geral e gramaticalizado, funcional e auxiliar”46 (CORPAS PASTOR, 2001, p. 45). Por outro lado, nos casos de adição de significado,
46 [general y gramaticalizado, funcional y auxiliar].
ocorre uma “evolução semântica de clara base metafórica”47 (CORPAS PASTOR, 2001, p. 45), como em levantar [suspender] ao se combinar com castigo [castigo], sanción [sanção], prohibición [proibição], cujo significado implica em “tirar um peso de cima” ou desarmar [desarmar] combinado com teoría [teoria], que subentende a metáfora de que “discutir é lutar”.
Consideramos, porém, que, apesar de sua origem metafórica, essas combinações mantêm um significado que pode ser deduzido pela soma de seus elementos constitutivos.
d) idiomaticidade - entendida como o resultado da especialização semântica em seu grau mais elevado, corresponde à propriedade semântica das combinações em que o significado global não é obtido pela soma de suas partes, sendo aplicada somente às expressões idiomáticas. No entanto, segundo Corpas Pastor (1996, p. 27), além desse “significado denotativo figurado” [significado denotativo figurativo o traslaticio], pode haver um “significado denotativo literal” [significado denotativo literal]. Como exemplo, Corpas Pastor (2001, p. 46) apresenta a combinação meter un gol [fazer um gol] que pode significar tanto “colocar a bola no gol (em uma partida de futebol)” como “enganar”.
Para a autora, no primeiro caso, que apresenta um “significado denotativo literal”, estamos diante de uma colocação; já no segundo, quando ocorre um
“significado denotativo figurado”, o que existe é uma locução. Dessa forma, Corpas Pastor (2001) enfatiza o caráter transparente das colocações.
e) variação - que corresponde tanto a variantes diatópicas, diafásicas e diastráticas48 como a modificações particulares do falante para obter determinado efeito estilístico. Como exemplo de variantes diatópicas, Corpas Pastor (2001, p. 46), a partir de Koike (2000), apresenta as colocações dar una opinión, de uso na Espanha, e entregar una opinión, variedade utilizada no Chile, ambas com o significado de “dar uma opinião”49. Ainda que tal
47 [evolución semántica de clara base matafórica].
48 Segundo Coseriu (1980, p. 110), “uma língua histórica apresenta sempre variedade interna” e essa variedade é representada pelas diferenças: a) diatópicas, isto é, de espaço geográfico; b) diastráticas, isto é, entre os diferentes estratos sócio-culturais da comunidade lingüística e c) diafásicas, ou seja, entre os diversos modos de expressão de acordo com a situação comunicativa.
49 Em uma consulta realizada através da ferramenta de buscas de sites da internet Google (www.google.com.br), identificamos que a combinação entregar una opinión aparece 1.520 vezes para sites provenientes do Chile;
porém, as páginas desse país também registram 18.400 vezes a combinação dar una opinión. É importante destacar que, com esses números, não queremos indicar que o caráter colocacional dos elementos seja
divergência diatópica seja questionável, os exemplos evidenciam a preferência da base por dois colocados diferentes, conforme o país em que se utilize a combinação50. Esse aspecto da variação das colocações, ao ser contrastado com o da estabilidade (c), demonstra que a fixação das combinações léxicas é apenas relativa.
f) gradação - identifica que as combinações léxicas seguem uma escala na apresentação das características anteriores, formando um continuum no qual existem pontos sobressalentes. Essa noção de continuidade entre os diferentes tipos de combinações será também enfatizada por Cowie (1981) (v. 2.2.1).
Após a identificação das características das unidades fraseológicas como um todo, a autora define as colocações como
unidades fraseológicas formadas por duas unidades léxicas em relação sintática, que não constituem, por si só, atos de fala nem enunciados, e que, devido a sua fixação na norma, apresentam restrições de combinação estabelecidas pelo uso, geralmente de base semântica: o elemento autônomo semanticamente (a base) não apenas determina a escolha do colocado, mas, além disso, seleciona nele uma acepção especial, freqüentemente de caráter abstrato ou figurado”51 (CORPAS PASTOR, 1996, p. 66).
Corpas Pastor (1996, 2001), por representar uma visão mais atual nos estudos das colocações, conjuga aspectos destacados pelos diferentes autores que trataram desse tema.
Assim, ressalta a importância da freqüência e da restrição combinatória variável, além de reconhecer uma hierarquia entre os elementos que compõem a colocação. Para a autora, a freqüência inclui tanto a de coaparição dos elementos quanto a de uso das combinações.
Reiteramos, porém, que somente a primeira demonstra ser relevante para o estudo das colocações, pois nos casos de combinações como levantar una sanción [suspender uma sanção], apresentada pela própria autora, cuja ocorrência é restrita a contextos específicos, a freqüência de uso não será significativa. Dessa forma, tal fator não pode ser considerado determinante para a identificação das colocações.
determinado pela freqüência, mas sim que a combinação dar una opinión também é uma colocação significativa no Chile.
50 Peters (1992), ao analisar as diferenças diatópicas das colocações, apresenta como exemplo a combinação producto sureño, utilizada na Espanha e no Chile, em oposição a producto surero, de uso na Argentina e na Bolívia, ambas significando “produto sulino”. Além do fato de a segunda combinação não apresentar nenhuma ocorrência em consultas no Google, consideramos que esses exemplos não ilustram uma variação diatópica das colocações, uma vez que o substantivo producto não seleciona adjetivos diferentes de acordo com o país em que a combinação é utilizada. A variação acontece porque o vocábulo sureño possui uma forma variante, independente da combinação em que é utilizado.
51 [unidades fraseológicas formadas por dos unidades léxicas en relación sintáctica, que no constituyen, por sí mismas, actos de habla ni enunciados; y que, debido a su fijación en la norma, presentan restricciones de combinación establecidas por el uso, generalmente de base semántica: el colocado autónomo semánticamente (la base) no sólo determina la elección del colocativo, sino que, además, selecciona en éste una acepción especial, frecuentemente de carácter abstracto o figurativo].
As características propostas por Corpas Pastor (1996, 2001) são importantes para o reconhecimento das fraseologias e, mais especificamente, das colocações; no entanto, não podem ser vistas como princípios de validade universal, pois não funcionam sempre para todas as combinações. Assim, na construção izar una bandera [hastear uma bandeira], por exemplo, proposta pela autora para exemplificar a restrição combinatória, não podemos dizer que exista uma especialização semântica do colocado, pois o verbo mantém sua acepção original, sem acréscimo ou supressão de significado.