Esquema 5 - Níveis de conhecimento propostos pelo MARCO (2002)
2.1 Enfoque lexicológico
2.1.1 Abordagem semântica
2.1.1.3 Coseriu (1977 [1967])
Coseriu (1977 [1967]), em seus estudos sobre as estruturas lexemáticas, ou seja, as estruturas do significado léxico, distinguiu entre as relações paradigmáticas e sintagmáticas e, no segundo eixo, situou as “solidariedades léxicas” [solidariedades léxicas]. Esse conceito, desenvolvido a partir dos estudos de Porzig (1970), refere-se à “determinação semântica de uma palavra por meio de uma classe, um arquilexema ou um lexema, no sentido de que uma classe determinada, um determinado arquilexema ou um determinado lexema funciona como traço distintivo da palavra considerada”25 (COSERIU, 1977, p. 148), ou seja, uma classe26, um arquilexema27 ou um lexema28 fazem parte do conteúdo sêmico da palavra em questão como mais um traço distintivo29. Quando a relação é estabelecida por uma classe, como entre miles [soldado] e senex [velho (aplicado somente a pessoa)], ocorre uma solidariedade léxica por “afinidade” [afinidad]. No caso de relação com um arquilexema, como a que ocorre entre fahren [deslocar-se em um veículo] e o arquilexema de Schiff [barco], Zug [trem], Wagen [carro], etc., a solidariedade léxica é por “seleção” [selección]. Finalmente, quando a relação
23 [si una vez en una situación ha sido elegida o se ha impuesto una palabra, entonces el hablante no es ya plenamente libre en la formación del discurso, sino que se encuentra limitado a ciertas posibilidades en la elección de las otras palabras].
24 Essa delimitação já aparece em Saussure (2004, p. 145): “cumpre atribuir à língua e não à fala todos os tipos de sintagmas construídos sobre formas regulares”.
25 [determinación semántica de una palabra por medio de una clase, un archilexema o un lexema, en el sentido de que una clase determinada o un determinado archilexema o un determinado lexema funcionan como rasgo distintivo de la palabra considerada].
26 Uma classe representa um conjunto de elementos que possuem pelo menos um traço em comum (cf. GLÜCK, 2000, s.v. Klasse).
27 Um arquilexema corresponde a um lexema cujo conteúdo é idêntico ao significado total de um campo léxico (cf. BUSSMANN, 1990, s.v. Archilexem).
28 Um lexema corresponde a uma unidade abstrata do léxico no nível da langue que pode ser realizada gramaticalmente por meio de diferentes palavras (cf. BUSSMANN, 1990, s.v. Lexem). Segundo Trask (2006, s.v. palavra), o termo “lexema” é sinônimo de “item lexical”, denominação utilizada nos estudos com uma abordagem estatística das colocações (v. 2.1.2). Para outras noções desse conceito, v. Galisson, Coste (1976, s.v.
lexème).
29 Os traços distintivos, para Coseriu (1977, p. 148), correspondem a diferenças semânticas mínimas entre os lexemas. Para outras noções desse conceito, v. Dubois et al (1999, s.v. trait).
acontece com um lexema, como bayo [baio], que se aplicaria somente a caballo [cavalo], existe uma solidariedade léxica por “implicação” [implicación]. É importante salientar, porém, que, nesse último exemplo, cavalo não funciona somente como um lexema, mas como um arquilexema, que incluiria também égua, potro, entre outros (SALVADOR, 1989-90, p.
344).
Para Coseriu (1977, p. 151-152), em toda solidariedade léxica existe um lexema determinante, aquele cujo traço distintivo faz parte do outro lexema envolvido na solidariedade, e um lexema determinado, que constitui o receptor desse traço distintivo. Dessa forma, a relação entre os elementos na solidariedade léxica é orientada, isto é, o significado do lexema determinante implica o determinado, e não o contrário30 (cf. CASTILLO CARBALLO, 1998, p. 48; CORPAS PASTOR, 1996, p. 64).
Coseriu (1977), aprofundando os trabalhos de Porzig (1970), propõe, ainda, que suas combinações sejam divididas em “solidariedades multilaterais” [solidariedades multilaterales] e “solidariedades unilaterais” [solidariedades unilaterales]. Nas primeiras ocorre uma determinação externa, pois o traço distintivo do lexema determinante é acrescentado ao conteúdo do lexema determinado, possibilitando uma oposição paradigmática, como ocorre entre cavalo/relinchar, cachorro/latir, leão/rugir, etc., em que ao conteúdo “emitir um som [um animal]” são acrescentados diferentes animais como traços distintivos. Já nas “solidariedades unilaterais”, a determinação é interna, pois o traço distintivo do lexema determinante está incluído no determinado e não possui valor opositivo no eixo paradigmático, como ocorre entre morder e dentes. Para Salvador (1989-90, p. 341), Coseriu (1977) “superestima a suposta aproximação de Porzig ao conceito de solidariedade, até o extremo de aceitar que exista solidariedade em alguns pares indicados por esse autor, nos quais, a meu ver, a relação é meramente substancial e não formal”31, ou seja, existe uma relação entre os vocábulos no que se refere a seu conteúdo, mas esses vocábulos não costumam aparecer unidos no discurso32. Dessa forma, a maior parte dos exemplos apresentados por Coseriu (1977) para estabelecer a distinção entre solidariedades unilaterais e multilaterais é classificada como “solidariedades referenciais” [solidariedades referenciales]
30 Essa mesma noção aparecerá em Hausmann (1989), ao estabelecer uma hierarquia entre a base e o colocado de uma combinação, na qual a primeira seleciona o segundo.
31 [sobrestima la supuesta aproximación de Porzig al concepto de solidariedad, hasta el extremo de aceptar que la hay en algunas de las parejas indicadas por éste, en las que, a mi juicio, la relación es meramente sustancial y no formal].
32 Entendemos “discurso” como “qualquer fragmento conexo de escrita ou fala” (TRASK, 2006, s.v. discurso) e, mais especificamente, como a língua em uso pelos falantes (DUBOIS et al, 1999, s.v. discours).
por Salvador (1989-90, p. 342), pois não constituem relações estabelecidas pela língua, mas sim restrições condicionadas pela realidade extralingüística.
Corpas Pastor (1996, p. 65) acredita que a noção de “solidariedade multilateral” se corresponderia com a de “colocação”; no entanto, para a autora, a noção de colocação seria mais ampla que a de solidariedade, pois esta não poderia explicar combinações como diametralmente oposto, na qual nenhum elemento implica o outro pelo compartilhamento de traços distintivos, ocorrendo apenas uma relação de intensificação. Acreditamos, porém, que nos casos de solidariedade em que a relação é determinada por uma classe, essas combinações tornam-se mais abrangentes que as colocações33. Ainda segundo Corpas Pastor (1996, p. 65), as colocações diferem das solidariedades no aspecto da freqüência, pois, para Coseriu (1977, p. 160), “a probabilidade estatística geral das combinações não tem praticamente nada a ver com as solidariedades e não é prova de sua existência”34. No entanto, segundo Alonso Ramos (1994-95, p. 23), “a freqüência não tem nenhuma validade para considerar uma determinada combinação como colocação”35. Sendo assim, tanto nas colocações como nas solidariedades léxicas, a freqüência pode ser vista como uma conseqüência do uso das unidades em conjunto, mas não como sua causa.
A partir disso, percebemos que, embora os conceitos de “solidariedade léxica” e de “colocação” não estejam diretamente relacionados, muitas contribuições de Coseriu (1977) no estudo das solidariedades podem ser aplicadas às colocações. Através dos traços distintivos, esse autor propõe uma primeira aproximação à tentativa de estabelecer as relações semânticas mantidas entre os elementos que formam essas estruturas. Somente a partir dessas relações é possível a identificação de uma hierarquia entre os membros da colocação.
Finalmente, Coseriu (1977) já apresenta uma classificação dos diferentes tipos de combinações ao distinguir entre as solidariedades léxicas por afinidade, seleção ou implicação, o que, segundo Pazos Bretaña (2005, p. 14), já contém a idéia de policolocabilidade e monocolocabilidade.
33 Estes casos de solidariedade léxica por afinidade aproximam-se da noção de “contorno” [contorno], introduzida por Seco (1987), a qual trataremos em 2.2.4.
34 [la probabilídad estadística general de las combinaciones no tiene prácticamente nada que ver con las solidariedades y no es prueba de su existencia].
35 [la frecuencia no tienen [sic] ninguna validez para considerar una determinada combinación como colocación].