2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA PSICOLOGIA ANALÍTICA, DE CARL
4.2 Corpo do brasileiro: de conquistas e derrotas acima de tudo um corpo resistente
Como sabemos, as marcas registradas de um corpo são referências armazenadas de dados genéticos e culturais adquiridas nos diferentes grupos humanos, e trazem de maneira bem definida as particularidades que permitem a esses grupos definir e sustentar seus padrões e valores.
Na relação corpo-sociedade há um peso decisivo da estrutura socioeconômica, que define, de certa forma, os limites da nossa estrutura corpórea. Desde a gestação somos modelados pelos valores vigentes, pela cultura, pela situação da classe social à qual pertencemos, e, assim, dentro dessas circunstâncias, nascemos, crescemos, vivemos, sobrevivemos, adoecemos e morremos.
Em se tratando do corpo do brasileiro, segundo a história, foi-se formando por meio de uma intensa miscigenação, desde a colonização até os tempos atuais, e isso fez com que esse corpo fosse se modelando, não só características físicas das mais variadas, como também submetendo-se às normas sociais impostas por determinados grupos sociais, considerados dominantes, economicamente.
Segundo Medina (2002), quando os primeiros portugueses aqui chegaram, a partir de 1500, traziam impressos na carne as marcas da crise medieval que assolava a Europa, centro das transformações sociais, que delineou, de forma ampla, os rumos tomados por praticamente todos os continentes, em especial no que se refere às suas origens coloniais.
A formação étnica brasileira teve base em três grupos: o branco português, o indígena nativo e o negro africano. Esses grupos se organizam, em nossa sociedade, na época, da seguinte maneira: o português, produto de um regime feudal decadente, aqui se instala, submetendo o índio e, em seguida, o negro, à escravidão, suplantando a nossa cultura, criando uma aculturação por meio de traços de brutalidade sobre a comunidade primitiva e escrava, assolando todos os padrões e modelos que aqui se encontravam nos grupos humanos nativos.
Os corpos dos brasileiros perderam, segundo Medina (2002), o seu ritmo natural, o seu equilíbrio, ou seja, ainda não conseguiu alcançar um estado de profundo e dinâmico bem-estar físico, mental e social (OMS). É um corpo violado pelas condições histórico-culturais e concretas. Apesar de termos, conquistado recentemente, uma relativa democracia política,
buscarmos uma autêntica democracia social, os nossos corpos, marcados ideologicamente, estão fortemente impregnados por um autoritarismo que ainda por muito tempo será reproduzido em nossa carne.
Sob o ângulo das classes sociais antagônicas, que caracteriza a sociedade brasileira, o que se tem observado nas últimas décadas é um escandaloso crescimento do fenômeno da marginalidade, de onde se origina o que Medina chamou de CORPO-MARGINAL. “Corpo de milhões e milhões de brasileiros, excluídos ou afastados dos bens e benefícios materiais e culturais gerados pelo nosso modo de produção capitalista, e que não consegue o mínimo necessário a uma sobrevivência humana honrada” (MEDINA, 2002, p.84).
Este é, por exemplo, segundo Laing apud Medina (2002), o corpo de cerca de 36 milhões de menores carentes (7 milhões de abandonados), cujo futuro aponta, não raramente, para a morte precoce ou para a criminalidade. As chances de uma criança nascida no Brasil, hoje, de tornar-se marginal é 65 vezes maior do que chegar a de cursar uma Universidade. O desleixo e o desprezo pela criança é talvez a forma de tortura mais degradante existente no seio da sociedade contemporânea, sendo este apenas um dos aspectos resultantes do nosso modelo de sociedade.
Esses dados se confirmam em minha pesquisa de mestrado, onde alem de todos fatores já mencionados na introdução desta pesquisa, os conflitos familiares ocasionados há baixa renda familiar denunciam toda a situação de sofrimento do corpo dessas crianças.
Foucault (2001), em seu livro Vigiar e Punir, faz comentários sobre o interesse de historiadores em abordar o estudo da história do corpo e de seu adoecer. Sua reflexão tematiza o fato de que o corpo está diretamente mergulhado num campo político. Em seu estudo, ele observa que, até os séculos XVII e XVIII, pode-se afirmar que, grosso modo, o exercício do
poder se baseava essencialmente nos termos da relação soberano-súdito. É nesse momento que algo de novo vai acontecer:
Mas, nos séculos XVII e XVIII, ocorre um fenômeno importante: o aparecimento, ou melhor, a invenção de uma nova mecânica de poder, com procedimentos específicos, instrumentos totalmente novos e aparelhos bastante diferentes, o que é absolutamente incompatível com as relações de soberania.
Este novo mecanismo de poder apóia-se mais nos corpos e seus atos do que na terra e seus produtos. É um mecanismo que permite extrair dos corpos tempo de trabalho mais do que bens e riquezas. É um tipo de poder que se exerce continuamente através da vigilância e não descontinuamente por meio de sistemas de taxas e obrigações distribuídas no tempo; que supõe mais um sistema minucioso de coerções materiais do que a existência física de um soberano. Finalmente ele se apóia no princípio, que representa uma nova terapia do poder, segundo o qual se deve propiciar simultaneamente o crescimento das forças dominadas e o aumento da força e da eficácia de quem as domina. (FOUCAULT, 2001, p.187-8).
Essa nova forma de poder, alheia à soberania, extrai dos corpos tempo e trabalho, por meio de uma vigilância contida e permanente que é um poder disciplinar. As relações de poder têm alcance imediato sobre eles (os corpos); investem-no, marcam-no, dirigem-no, supliciam-no, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais.
O investimento político do corpo busca seu melhor rendimento econômico. É como força de produção que o corpo é investido, e isso só será possível se ele estiver preso a um sistema de sujeição. Utilidade-produtividade-sujeição: tripé engendrado e mantido pelo poder disciplinar que invisivelmente constitui e atravessa diferentes equipamentos sociais.
Esse poder sobre o corpo não se exerce necessariamente, como nos indica Foucault, pela violência ou pela ideologia. A sujeição do corpo é de ordem física, sutil, tecnicamente pensada e calculada. O poder, aqui, não se identifica como uma lei que proíbe, que reprime, mas como uma incitação. É por isso que ele se faz aceitar, porque induz ao prazer, produz objetos e discursos, e se faz prática, atravessando todo o corpo social.
Como tecnologia, busca um corpo a ser minuciosamente investigado, produzindo sobre ele um saber que se enraíza como poder que, por sua vez, o configura como outro corpo.
Essa característica produtiva do poder significa uma mudança de seu caráter como instância; o poder não se define mais como um lugar, mas por seu caráter intersticial e temporal. É por isso que se diz que esse poder se exerce enquanto efeito que se manifesta nas posições que os indivíduos ocupam numa rede:
O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está nas mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles (FOUCAULT, 2001, p.183-4).
Diante de tantas desordens sociais, como é possível a sobrevivência de tantos corpos sofridos e desprovidos? Como tantos corpos sofridos são capazes de se unirem e terem tanta compaixão e compreensão? De onde sobressai tanta solidariedade?
Buscando entender essas questões, encontramos, no trabalho de Souza (2003), um rico material sobre resiliência que nos remete a compreender essa capacidade de transformação e perseveração como característica peculiar na população brasileira, representada e expressada em nossos corpos, no chamado “jeitinho brasileiro”:
[...] Atravessar o caminho que desenvolve a resiliência, num sentido mais amplo, lutar para transformar a opressão, e aqui, então as pessoas lançam mão dos recursos disponíveis. Quando os recursos externos não estão disponíveis, os internos são acionados, tais como as crenças religiosas, a vontade inerente de sobreviver, a crença na própria capacidade e no sentido de vida. A esperança e a perspectiva de um futuro melhor seja para si mesmo, seja projetada nas gerações posteriores, serve como âncora para enfrentar as situações difíceis do presente (SOUZA, 2003, p.74).
Portanto, ao expressar-se enquanto corpo, para realizar mais livremente seus próprios desejos, a pessoa terá a necessidade de crescer, não em sua individualidade absoluta, mas em suas relações com os outros no mundo.
Para que o corpo do brasileiro possa avançar em direção à libertação (relativa), é preciso que haja, não apenas o querer individual, mas condições concretas e objetivas, de
caráter social que garantam a dignidade e sobrevivência dos grupos sociais. Essas condições devem ser construídas histórica e coletivamente pelos próprios brasileiros, sem a massificação dos chamados sistemas políticos burgueses que, embora em minoria, lideram e oprimem a sociedade, com suas leis, padrões e valores, que referem como corpo saudável; no entanto, esse corpo saudável nada mais é que um fetiche que sempre vira mercadoria, para ser consumido. Muitas vezes, esse corpo adoece para corresponder às exigências impostas para consolidação daquilo que a sociedade considera como modelo de qualidade de vida.
A melhor descoberta de nós mesmos dependerá da forma que damos ao que temos; portanto, dependerá de nossa capacidade de transformar e reconstruir nossos corpos.
4.3 O Corpo: sutil, informacional e captador das sensações mais internas e dos