2 PRESSUPOSTOS TEÓRICOS DA PSICOLOGIA ANALÍTICA, DE CARL
5.4 Distúrbios na fase anal e oral na relação primal
negativo, leva também a uma intensificação do sentimento de culpa na criança. No entanto, sempre que o sentimento de culpa primário põe em perigo os fundamentos da auto-estima da criança, e mesmo de sua própria existência, o sentimento de culpa, proveniente da castração anal, é um distúrbio que, embora afete o desenvolvimento do eixo ego-Self, não danifica sua base, isto é, o Self. Na fase da crise anal, o ego já nasceu, já existe.
O superego normal não é fundamentalmente negativo, não faz solicitações excessivas nem violentas ao indivíduo; nem o Self do indivíduo é narcisístico e cego para o mundo. Na verdade, encontra-se em permanente conflito, mas esse conflito leva sempre a novos progressos e sínteses.
Com o desenvolvimento de seu Ego, a criança entra num conflito entre dependência e liberdade, entre heteronomia e autonomia. A consolidação do Ego torna-se um problema social, impessoal, que deve ser solucionado entre o Ego e o Tu, o que significa, primeiramente, mas não exclusivamente, relação entre mãe e filho. Por outro lado, porém, o desenvolvimento do ego é, em igual medida, um processo individual, intrapessoal, desempenhado entre o Ego e o Self (NEUMANN, 1995).
Só na primeira fase da relação primal o Tu do Self está representado pela mãe. À medida que a criança adquire maior independência, o Self torna-se a totalidade de seu próprio ser individual, que direciona o Ego para novos confrontos com a sociedade e com o superego, o qual representa o cânon cultural da comunidade.
A interação entre liberdade e dependência, que desse ponto em diante determina a vida humana, manifesta-se no crescimento de uma personalidade independente, possuidora de uma consciência egóica dotada de livre-arbítrio, e também dependente desse ego que, por sua vez,
depende de um meio ambiente que assegure a personalidade, sustente a autoconsciência automórfica e desempenhe um papel decisivo no sucesso ou fracasso desse confronto.
No entanto, sempre que o cânon cultural entra em conflito com a predisposição natural do homem, quando unilateral e inaturalmente restringe impulsos naturais e linhas de desenvolvimento por meio de compulsão e repressão, a conseqüência é, uma forma violenta de superego que entra em conflito com o Self, que, sem dúvida, como centro natural da totalidade, preside a polarização entre espírito e natureza dentro da psique, mas nunca aprova a supressão unilateral de um pólo às expensas do outro.
É por isso que falamos de castração anal, quando a totalidade da criança, representada pelo Self nesse caso, o Self Corporal é perturbada pela imposição da higiene anal por meio de coerção e de desvalorização. Sempre que existe uma relação primal negativa e uma mãe neurótica, desgostosa, puritana, que sucumbiu ao ânimo patriarcal do seu cânon cultural, e que, por essa razão, não é capaz de conter o desenvolvimento de sua criança dentro do abrigo de uma relação primal positiva, a conseqüência é a castração anal: a criança sente que, ao perder seus excrementos, perde uma parte do seu próprio corpo.
Se o treinamento para o toalete começou, não no tempo próprio da criança, mas prematuramente, numa fase em que normalmente a avaliação da criança, de sua totalidade- corpo, é positiva, ela vivencia essa perda como um distúrbio causador de ansiedade em seu próprio corpo-totalidade. Em função do desgosto da mãe, que pode ser neurótico ou apenas des-sintonizado com a fase de desenvolvimento do filho, a criança fica com aversão pelo vaso e passa a considerar o movimento regular do intestino como uma privação violenta.
Inicialmente, a criança experimenta a quentura da urina e das fezes de forma positiva, como parte do seu corpo. Apesar de tudo, aceita o movimento regular do intestino como perfeitamente natural, se o treinamento tiver começado na época certa do desenvolvimento;
recebe-o, porém, como um choque, se tiver começado cedo demais. A castração anal é mais do que um dano à totalidade-corpo, pois a auto-avaliação negativa induzida pela mãe constela a formação de um superego negativo. O superego torna-se o representante de uma intervenção externa moralmente desvalorizadora, que é superimposta ao desenvolvimento natural da criança. Conseqüentemente, esse superego negativo entra num conflito não-natural com o Self Corporal e com o Self da Criança, instalando-se uma perigosa divisão na personalidade.
A compulsão que destrói o ritmo autônomo da criança violenta-lhe a personalidade, causando assim uma perda de segurança e um dano ao desenvolvimento do ego. O Self, que confere segurança, é substituído por um superego-superexigente, violentamente superexigente, que induz não apenas incerteza, mas também culpa, porque a criança não consegue viver à altura de suas solicitações. Tentando preencher essas solicitações exageradas, a criança assume ativamente a compulsão, identifica-se com ela e, assim, torna-se compulsiva.
O Ego, que depende do Self para ser guiado, exclui-se, colocando-se em oposição ao
Self, que, como Self Total e Self Corporal, abrange também o aspecto inferior
rejeitado do corpo e do mundo, e, ao introjetar a consciência grupal negativamente avaliadora, baseia-se no superego como representante do cânon cultural. (NEUMANN,1995, p.105)
A maneira pela qual se exclui e se coloca em oposição ao Self – e, conseqüentemente, em oposição à sua própria natureza –, é a mesma que o grupo de analítica emprega para o mesmo propósito – compulsão, supressão e repressão. Essa visão da personalidade dá lugar a agressões que são projetadas no exterior, num esforço destrutivo, moralístico, para destruir o mal nos outros ou, então quando isso não funciona a contento, leva a uma intensificação dos sentimentos de culpa que continuam a alimentar o processo circular do tabu e da autodefesa.
A ansiedade que emerge na castração anal manifesta-se principalmente no medo de ser infectado pelo mal e de ser incapaz de eliminá-lo de sua própria natureza. Infecção, doença,
demônio e morte são grupos, coerente de símbolos para o mundo inferior, anal, que ameaça e permanentemente põe em perigo a existência superior da cabeça e do Ego. A perda do excremento e do pólo inferior reprimido do corpo é vivenciada como ser excluído e morto; daí o termo castração anal. Não mais, como no mundo matriarcal, se encontram morte e terra de um lado, e vida e céu de outro, juntos numa unidade muito ordenada; em vez disso, terra- morte-inferno e mundo inferior são hostis ao mundo superior. São poderes devoradores desencadeando uma destruição a partir da qual não há renascimento possível.
No desenvolvimento normal, quando não houve distúrbios na relação primal, no que se refere ao afastamento natural do pólo inferior do corpo, o pólo ego-cabeça desenvolve-se da mesma forma, tanto no menino, como na menina, e a polarização da personalidade e do mundo efetua-se predominantemente à base da oposição entre ativo e passivo, mais do que entre masculino e feminino. Nessa fase, como já dissemos anteriormente, é verdade, começa a “separação dos Pais do Mundo”, que culmina na percepção da oposição entre masculino e feminino.
No entanto, a característica da Grande Mãe de conter os opostos expressa-se, não somente no fato de o filho a ela conectado não se tornar sexualmente inseguro, mas também no fato de ainda não perceber o sexo, pois o desenvolvimento comum a ambos os sexos é ainda mais pronunciado do que o aspecto da diferença sexual.
Só depois que a ênfase sobre o aspecto anal e a crise anal concomitantemente foram superados é que o processo de dar ênfase à parte de cima (que vai culminar, enfim, no predomínio do ego-cabeça superior, enquanto ego “solar”) pode prosseguir sem distúrbios. Mas essa superação é também a pré-condição para uma mudança de ênfase no interior do pólo inferior do corpo, passando da parte de trás para a da frente, para uma diferenciação entre o
anal posterior e o genital anterior que, freqüentemente, é acompanhado de uma estimulação da zona genital.
Essa mudança também se relaciona com aquisição especificamente humana da postura ereta, pela qual a zona genital, que nos mamíferos quadrúpedes é oculta, fica exposta à vista e também ao alcance das mãos da criança. Essa abertura da zona genital em sua conexão com a parte anterior do corpo é algo especificamente humano, pois apenas no homem a união sexual ocorre num confronto frente a frente, que, em contraste com o mundo animal, estende-se desde o pólo inferior até o pólo superior do corpo, isto é, abrange todo o corpo e, com ele, toda a personalidade.
Do ponto de vista do simbolismo corporal, frente significa dentro do campo visual do ego-cabeça, enquanto o anal, o posterior, fica fora do campo visual e, por isso, como tudo o que se situa atrás, faz parte do simbolismo do inconsciente.
5.5 O princípio masculino positivo na construção da relação mãe e filho para