3 EPISTEMES E PRÁXIS: CAMINHOS DA TRANSGRESSÃO
3.1 CORPO E HISTÓRIA: MEDICINA E EPISTEMOLOGIA
Jamais o organismo foi tão penetrado antes como vai sê-lo pelas tecnologias de visualização médica, jamais o corpo íntimo, sexuado, conheceu uma superexposição tão obsessiva, jamais as imagens das brutalidades sofridas pelo corpo na guerra e nos campos de concentração tiveram equivalente em nossa cultura visual, jamais os espetáculos de que foi objeto se aproximaram das reviravoltas que a pintura, a
fotografia, os cinemas contemporâneos vão trazer à sua imagem
(COURTINE,
2008, p.10 -11).
As ideias expostas na citação acima, já denotam as pluralidades e as complexidades
nas quais o corpo está mergulhado. Por isso que, neste tópico, tomo como referências os
pensamentos de Courtine (2008), com relação à história do corpo e às mutações do olhar, de Le
Breton (2009, 2011), com a sociologia e antropologia do corpo, e Laquer (2003) decompondo
a ideia do sexo único, advinda da anatomia de Claudius Galeno [130 – 200 d.C]. Contudo, os
pressupostos do corpo somático, inseridos no pensamento freudiano, também estão aqui
expostos. Tal corpo, ao revelar a presença do inconsciente atrelado a uma linguagem expressa
pela atividade mental, auxiliou o ser humano na descoberta de si mesmo.
Ao se referir ao processo histórico de transformação que se estabeleceu ao longo dos
anos, entre o sujeito contemporâneo e o seu corpo, Courtine (2008, p. 7) elabora uma pergunta
que merece ser investigada: “A questão é de natureza epistemológica e diz respeito aos
fundamentos do próprio projeto: como é que o corpo se tornou, em nossos dias, um objeto de
investigação histórica”?
Tal questionamento conduz a uma reflexão de que a epistemologia requer uma análise
e, frente a esse entendimento, é preciso inquerir de que maneira os fatos foram registrados,
diante do objeto investigado.
Nesse sentido, posicionando a História nas tramas que envolvem tais estudos, não é
pretensão dessa pesquisa discorrer sobre esse assunto, considerando-o desde os primórdios da
humanidade. Enfatizo, mais uma vez, a necessidade de delimitação do tema e a impossibilidade
do esquadrinhamento de toda essa narrativa – até por conta do recorte temporal escolhido –,
porquanto esse é um campo prolixo, espinhoso, no qual são muitos os discursos ou as correntes
de pensamentos que por aí desaguam. Mas, apesar das dificuldades, algumas observações
tornam-se apropriadas para conhecer melhor as mudanças que ocorreram e que estabeleceram
as tensões entre os desejos do corpo sexuado e os controles sociais nele exercidos. Essas
transformações, de certa forma, na contemporaneidade, estão vinculadas à força exercida pelo
domínio do capital que, ao mercantilizar o corpo o transformou em elemento globalizado, por
vezes, reduzido a mero artefato “coisificado” e alienado.
Talvez, por conta desse processo, os registros dos fatos não se detenham em limites ou regiões.
Em vista dessas ideias, não existem limites ou mesmo fronteiras quando nos referimos à história
do corpo, daí a dificuldade de aprofundar na sua entranha.
Desse modo submetido, o corpo feminino é portador de identidades e subjetividades múltiplas,
nessa era destinada às representações e às intervenções. Diante de tal compreensão, os
pressupostos de Courtine (2008), demonstram como as imagens e os discursos fazem do corpo
um objeto de manipulação cultural.
Na prática, tanto as representações quanto as intervenções estão imbricadas nas
relações de dominação – econômica, cultural, ideológica, física e psíquica – que coexistem
exprimindo os interesses particulares de categorias, ou instâncias sociais, que se pautam no
caráter autoritário das condutas. Mais uma vez, em frente a um elemento orgânico, cultural,
subjetivo, carne, sangue e órgãos, as ideias sobre força e poder (CHAUÍ, 1985) fazem sentido
para as nossas reflexões.
Os dois grandes conflitos mundiais do passado são exemplos do protagonismo do
corpo do ser humano e da “força” exercida sobre ele. Nesse particular, os fatos mostraram que,
diante dos fenômenos bélicos, “toda experiência de guerra é, antes de tudo, experiência do
corpo” (ROUZEAU, 2008, p. 365). Foram vivências traduzidas não somente em mortes, mas
também em torturas físicas e coações psíquicas as quais agiam no sentido de exaurir o objeto,
privando-o material e emocionalmente, com a clara intenção de exterminá-lo. Foram
acontecimentos que não passaram a distância dos séculos XX e do XXI. Vietnã, Bósnia, Iraque,
11 de Setembro, Síria, entre outros tantos embates da atualidade – a exemplo das últimas
barbáries que envolveram os habitantes palestinos da emblemática Faixa de Gaza –,
testemunham a onipresença e a força das imagens corporais expostas, aos nossos olhos. Talvez,
com as deduções do passado, um olhar crítico para o futuro possa levar o mundo a uma nova
história que possibilite estabelecer um cenário mais humano. Percebo que a via para modificar
tal trama deve se localizar, sobretudo, no entendimento do uso constante da ética da alteridade,
fornecendo um sentido para a vida humana. Tal compreensão situa o existir, se vinculando ao
Outro e assumindo a responsabilidade do poder como um bem comum (CHAUÍ, 1985).
Insisto que não interessa a este trabalho a ideia das generalizações dos conceitos, visto
que as representações corpóreas, marcadamente do feminino, se diferenciam, estabelecendo
variações. E, como são inúmeras as diferenças e as especificidades nelas contidas, não podem
ser percebidas de forma isolada.
O corpo, com sua história é, epistemologicamente, um espaço de cultura e, como tal,
submete-se às regras originadas por um processo de adestramento, seja para educar ou para
reeducar, seja para punir ou para perdoar. Esse caminho não se estabelece apenas pelas palavras,
mas, também, nas ações, nos gestuais, nos olhares, nas ambições, nos medos, nos receios, nas
técnicas, entre outras tantas condições que desaguam na “carne” do indivíduo. Natureza e cultura
se imbricam trazendo à mostra o objeto como um elemento histórico de investigação e discussões.
Se, o percurso científico vem criando e recriando o objeto, com as suas técnicas
particulares, os mistérios que o circundam estão presentes desde os tempos mais remotos da
humanidade. Considerando esta premissa, seria contraditório afirmar que as representações do
corpo do sujeito sejam somente uma leitura médica, científica ou fisiologista, tendo em vista que,
no imaginário social, alguns dos conceitos, que não o fisiológico ou o biológico, essencialmente
aqueles que envolvem a saúde e a doença, estão vinculados às crendices e a certas práticas, ainda
tão usuais. Se, no passado, as doenças contraídas estavam associadas à maldição, à culpa, e à
expiação dos pecados, nos dias atuais, muitas vezes, dessa maneira são entendidas.
Aqui cabe uma observação, no sentido de lembrar que, nesse particular, a culpa se
impõe, em torno dos infortúnios que recaem sobre os corpos. Na contemporaneidade, as
ciências, de um modo geral, têm as devidas explicações para as doenças, contudo, tem sido
comum, em frente a uma concepção religiosa, dogmática, o ser humano, ao ser portador de
determinada patologia, se culpabilizar por algo que fez ou que deixou de fazer. Na prática
profissional, ao lidar com mulheres acometidas por doenças amedrontadoras – a exemplo do
câncer da mama –, os símbolos culpados se evidenciam. Observo, diante das dores – sejam elas
físicas, sejam emocionais, vividas pela gravidade do fato –, que, para algumas mulheres, a
moléstia é sentida como uma entidade punitiva e entendida como um desvio das normas sociais.
Essa concepção coloca o corpo adoecido em direção a uma causa reducionista.
Ao se autopunir por seu infortúnio, a pessoa passa a admitir, para si e para os outros,
que, por não ter conseguido reprimir os seus desejos, foi, punida pelos “deuses”. Tal situação
remete ao comportamento dos povos primitivos. São os símbolos do Self, que nascem da
profundidade do corpo. Por conta dessa compreensão, Jung (2000) defendia que, quanto mais
arcaico for o símbolo, mais coletivo e universal ele se torna.
São acontecimentos que, com as suas faces simbólicas, se revelaram e ainda se revelam
sobre o corpo. Como temos visto, nesse espaço, as inscrições são carimbadas, se transformam
e se internalizam, circunscrevendo os códigos, as práticas, ou seja, a mentalidade de cada
civilização. O retrato de cada grupo social se expõe.
Ademais, nesse contexto, a prática médica também corrobora com as ideias não
biologizantes da doença ou da saúde, já que faz do corpo um instrumento dependente do meio
ambiente em que ele circula e do comportamento do indivíduo que o possui.
Desse modo, falar sobre a corporeidade e das práticas que nela se inserem, sejam estas
científicas ou não é, de novo, chamar a atenção para as lógicas culturais e sociais que
influenciam inúmeros aspectos da vida da pessoa. Com essas assertivas, reforço que é no espaço
corporal que se movem crenças, mitos e significados, transitando entre os espaços sociais,
culturais e psicológicos, com relação aos seus aspectos estruturais e funcionais.
Vê-se que, ao se interessar por um código de leitura referente à corporeidade, é preciso
estar atenta à formação histórica e cultural do sujeito. Ademais, é importante lembrar como os
fatores individuais – a exemplo da idade, do gênero, da personalidade, da orientação sexual, da
religião, da etnia, da classe social, etc. – exercem fortes influências, cada um deles nas suas
diferentes proporções.
Neste capítulo, no qual a história e a epistemologia se inscrevem e, em uma
investigação na qual muitas indagações e investigações demarcam o entendimento do tema, é
necessário diferenciar as regras de uma determinada cultura, evitando cair nas generalizações
ou no etnocentrismo que podem levar ao desencadeamento de estereótipos, discriminações e
preconceitos.
Nesse particular, é importante atentar para os acontecimentos históricos na tentativa
de compreender de onde vem à sujeição na qual o corpo humano, por vezes, se inclui.
3.2 MITOS E MODELOS: O CORPO DO DIVINO, O CORPO DO SEXO ÚNICO, O
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UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR SUPERINTENDÊNCIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 133-137)