3 EPISTEMES E PRÁXIS: CAMINHOS DA TRANSGRESSÃO
3.3 DO CORPO DA HISTÉRICA AO CORPO DA PÍLULA: DO ESPAÇO DA
Pela natureza das coisas que compõem o material da psicanálise, compete-nos o dever, em nossos casos clínicos, de prestar tanta atenção às circunstâncias puramente humanas e sociais dos enfermos quanto aos dados somáticos e aos sintomas patológicos (FREUD, 1996, p. 29).
Apesar de não ser objetivo desta tese discorrer sobre a teoria freudiana, firmo que não
tenho a ousadia de dar conta de todas elas, mas, vejo como relevante me ocupar, um pouco
mais, dos seus pensamentos e vinculá-los às questões relativas ao corpo feminino, visto que, ao
falar sobre corpo e inconsciente, não se pode deixar de lado a relevância de tais ideias.
Embora as suas primeiras pesquisas estejam datadas no final do século XIX, as suas
formulações marcaram o século XX no que diz respeito à investigação da psique humana. Pela
relevância, portanto, é que seus pressupostos continuam presentes no século vigente, visto
serem alvo de fortes polêmicas nas quais tanto a aceitação quanto a recusa no seu consenso, se
fazem presentes.
Interessado pelos estudos de Jean- Martin Charcot (1825-1893) um neurologista
francês do século XIX, que trabalhava no hospital Salpêtrière, em Paris, Freud para lá se dirigiu,
em busca de entender como funcionava o método do referido médico. Durante os anos de 1885
e 1886 passou a observar os corpos expostos por Charcot e ficou impressionado pelo tratamento
a eles instituído, diante de uma doença então nominada de histeria. Esta era uma moléstia muito
difundida naquela época, cujas discussões em torno dela, concentravam-se em definir se era
uma disfunção orgânica ou da mente. Até então, pouco se sabia sobre essa patologia.
A afecção teve sua origem na Grécia Antiga, com Hipócrates, e sua denominação vem
do termo médico grego hysterikos o qual se referia ao universo feminino, isto é, às “perturbações
do útero”. Etimologicamente, a palavra hystéra significa útero, daí ter sido considerada, por muito
tempo, como uma doença essencialmente feminina. Sua explicação era dada por uma teoria a
qual admitia que o útero vagava pelo corpo e, consequentemente, causava disfunções e
descontrole nas mulheres. Esse deslocamento uterino era ocasionado ou pela vontade não
realizada de ter um filho, ou pela insatisfação erótica da mulher, por conta de não poder realizar
tal desejo. Fingimento ou possessão demoníaca? Feitiçaria? Encantamento? Mágica?
Na filosofia grega, a histeria era identificada na figura da mulher, e essa concepção
expressava um viés no qual havia uma íntima ligação entre as questões vinculadas à reprodução
e à doença. Esse fato, desde a Antiguidade, posicionava a identidade corporal do feminino atada
ao imperativo da procriação. Observa-se, mais uma vez que, historicamente, a construção das
características femininas se consolidou na obrigação da maternidade. Nessa acepção, as
mulheres estavam, ao mesmo tempo, atreladas tanto à condição histérica quanto à procriadora.
Tal noção fazia crer que, era pela gestação e pela maternidade, “que a mulher teria algo da
ordem da perfeição” (BIRMAN, 2001, p. 88).
Logo, a perspectiva grega teve um forte peso, visto que, ao manter por muito tempo a
histeria no campo das doenças femininas, determinou a fixação desse pensamento no
imaginário social, fato de certa forma presente, ainda nos dias atuais.
A história médica, vinculada à referida patologia, narra que Charcot percebeu que esse
adoecimento estava relacionado a muitas pessoas as quais sofriam de ataques de paralisia e
distúrbios da fala e emitiam sinais que vinham, geralmente, acompanhados de intensa agitação
física. Não encontrando uma causa para esse comportamento, já que não havia qualquer relação
da doença com causas anatômicas ou funcionais, o médico francês lançou mão da hipnose,
método pelo qual ele sugestionava seus doentes a partir da fala. Com tal procedimento,
conseguia, muitas vezes, desencadear alguns sintomas os quais, no estado vígil, se
manifestavam de forma quase que imperceptível.
Intrigado com o que vivenciou na Salpêtrière, Freud passou a repensar o modo de ele
exercer a medicina.
Nas suas práticas, notou que havia algo além do fisiológico na vida do ser humano,
entendendo que os sintomas físicos da histeria não se situavam nas células nervosas. Tais
fenômenos estavam localizados em outro locus. Intuiu que o espaço dessa patologia era o
psíquico. Para o “pai da psicanálise”, a origem da histeria estava no fato esquecido ou reprimido
na memória. Considerava que esse procedimento gerava um conflito, quase sempre de natureza
sexual, e incompatível com a moral do sujeito, porquanto o acontecimento esquecido era muitas
vezes intencional e insuportável para a existência da pessoa. Atribuiu à moralidade repressora
vigente – àquela da época vitoriana, na qual viveu – a principal causa das neuroses. Entendia que,
se não houvesse uma forma de liberar as tensões sexuais, as angústias aí situadas seriam
represadas, podendo desencadear os sintomas físicos. No bojo da compreensão da moléstia estava
implícita uma sobrecarga de excitação não liberada, isto é, uma acumulação da tensão sexual
psíquica reprimida que, ao desaguar nos corpos, evidenciava as manifestas agitações físicas.
Tais estudos, relacionados à doença, foram demarcados entre os embates daquilo que
Freud (1996, p. 154), denominou das “forças pulsionais de cunho sexual” e das pressões morais,
advindas do ambiente social. Essas pressões, retidas em um estado de inconsciência, têm o seu
valor afetivo e essas aspiram a uma expressão, ou seja, a uma descarga. Essa descarga, no caso
dahisteria, se não efetuada, consequentemente, se convertia em fenômenos somáticos. Nessa
maneira de entender, o corpo do ser humano, essencialmente o da mulher, por conta de um
processo psíquico denominado de recalcamento, exprimia as suas representações.
Ressalta-seque, ainda no século XIX, a histeria era ainda identificada com os distúrbios
referentes ao corpo feminino. Tal compreensão não somente marcava a dita categoria como, da
mesma forma, indicava uma identidade de natureza entre ser mulher e ser histérica, ou seja, a
moléstia devia acontecer em algum momento e em alguma situação da vida do feminino. Esse
determinismo permitiu que qualquer reação mais acentuada de uma mulher fosse enunciada como
uma atitude histérica. Entretanto, àquela época já se vislumbrava certo entendimento de que a
referida patologia não se situava apenas no universo feminino. Nos seus estudos, o psicanalista
demonstrou o que muitos outros estudiosos já supunham – inclusive seu mestre, Jean- Martin
Charcot –, que o corpo masculino, mesmo em menor número que o corpo feminino, também
podia ser acometido por esse mal. Por isso que, lhe coube o mérito da distinção.
Esse fato mudou a forma de se compreender a doença, já que tanto o senso comum
quanto a comunidade científica, antes da desmistificação da afecção, acreditavam que ela era
restrita ao sexo feminino. As ideias freudianas foram fixadas, inicialmente, no bojo da histeria.
Esse é demarcado como o ponto de referência do percurso de Freud.
Ao adotar primeiramente a hipnose, no tratamento da doença – mais tarde,
substituiu-a por outro método que ele denominou de associação livre –, o seu objetivo era o de buscar o
acesso às lembranças mais remotas das pessoas, essencialmente das mulheres, diagnosticadas
com essa enfermidade. No uso dessa estratégia, ele percebeu que, além de os indivíduos se
reportarem às lembranças reprimidas, do mesmo modo criavam algumas resistências as certas
recordações.
Nesse contexto, a sexualidade, fundamentalmente a feminina, foi o espaço central da
Psicanálise. Em uma época na qual eram poucas as pessoas preparadas para ouvir os
problemas oriundos dessa instância, Freud a colocou nas pautas dos seus estudos e discussões,
considerando, sobremaneira, os dramas daí advindos. Tal condição, fundada no locus do
inconsciente – do psiquismo – fez com que tanto os homens quanto as mulheres, se tornassem
sujeitos de desejo, condição que não se originava apenas no espaço da natureza. Com tal
proceder, rompeu tabu com temas nunca postos à apreciação. Destarte, foi a partir desse ponto
que o ser histérico, o qual vivia entre “os diferentes mundos dos demônios, dos nervosos e
dos degenerados”, passa a ser compreendido no “mundo da psicanálise, no campo do erotismo
e do inconsciente” (BIRMAN, 2001, p. 84).
Com esse entendimento, passou a observar tais reações e começou a compartilhar as
experiências com o psiquiatra Joseph Breuer (1842-1925). Publicou uma coletânea denominada
Estudos Sobre a Histeria, obra que serviu de base para a enunciação da psicanálise. Ademais,
não interessava a ele somente apontar os conflitos então evidenciados, marcadamente no âmbito
das expressões corporais, pois, era preciso que estes fossem entendidos e nomeados pela pessoa
adoentada. Nessa perspectiva, começou a desenvolver o trabalho da “cura pela fala”, isto é, a
análise dos problemas expostos pelos indivíduos.
É visível que, outro par de opostos aqui tem o seu lugar, pois, a rivalidade se fazia
presente entre a permanência da pulsão e a renúncia à condição sexual. Estabelecia, dessa
forma, o dilema do indivíduo que, por não conseguir dele escapar, em frente à moral opressora,
o transformava em sintomas. Diante do componente sexual do conflito, a psicanálise justificava
os sinais corporais manifestos os quais se posicionavam como símbolos da comunicação entre
o médico, a pessoa doente e o seu universo.
Se me detenho nessas ideias, é porque, nelas são poderosas as conexões que vinculam
os pensamentos freudianos ao corpo feminino.
Essa teoria, no que concerne à sexualidade do sujeito, demonstrou que, pela primeira
vez, o corpo feminino, mesmo considerado como corpo doente, foi posicionado com os seus
sentimentos, angústias e inquietações, no cerne das questões concernentes à sexualidade
humana. Logo, estava implícito que a fala afetava o corpo do humano e vice-versa. Infere-se
que, a partir desse ponto, o corpo da histérica começa a se afastar do corpo anatômico da
medicina, e se se aproxima de um corpo que tem seus significados, agora não mais com base
em uma linguagem científica, mas, se pautando em outra forma de comunicação, advinda de
uma instância diferenciada, a psíquica.
No momento em que Freud insistiu em considerar a linguagem desse singular corpo,
não mais como uma fala mentirosa, demoníaca, constituiu-se um novo campo de estudo
direcionado a essa categoria. Para ele, esse objeto somente podia ser definido quando se
levasse em conta duas condições: a primeira se calcava na anatomia, realçada nas agitações
físicas, nas afasias, nas paralisias; a segunda tinha como campo de estudo as representações
corporais advindas do imaginário social. Nestas últimas, também estavam carimbados os
preconceitos, as estigmatizações, os rótulos, os quais colocava tal corpo inserido em um
universo no qual a feitiçaria, as magias, as possessões, entre outras marcas, adquiriam um
status de verdades absolutas.
Os fenômenos ditos como “estranhos” tinham para a Psicanálise uma significação
maior. Com eles, o médico percebeu que as pessoas, nas suas falas, diziam muito mais daquilo
que tinha sido manifesto. O dito e o “não dito”, ao fazerem parte ativa da sua teoria, sempre
eram considerados, mesmo disfarçadamente, em algo recalcado no âmbito da sexualidade. Dito
de outra forma: para Freud, as queixas ditas como esquisitas, na maioria das vezes, nada mais
eram do que os sentidos sexuais reprimidos, diante de uma sociedade que castrava e cerceava
os desejos das pessoas. Muitas dessas demandas vinham revestidas nas suas fantasias, e estas
eram para o psicanalista a essência da sexualidade Era o corpo da infelicidade, da punição, da
culpa que, sufocado pelas emoções e representado pelo inconsciente, tinha suas significações
construídas nas histórias de vida do indivíduo analisado.
Dava-se a suposta passagem do corpo somático para o corpo erótico, o corpo da pulsão,
dos impulsos (da Trieb), definido como o limite entre o psíquico e o somático. Na referida
teoria, está embutido que o somático mora em um corpo que é, igualmente, espaço de
realizações e de desejos inconscientes. Se o corpo, na linguagem freudiana se posiciona como
lugar de representações entre o somático e o psíquico, ele não pode ser entendido ou confundido
como elementos apenas biológico. Existe nele uma dupla racionalidade, isto é, a racionalidade
conectada ao somático e a racionalidade vinculada ao psíquico (FERNANDES, 2006).
Se a Psicanálise, com o estudo da histeria, colocou o corpo da mulher em exposição e
em comunicação com ela própria e com o mundo, talvez tenha sido porque, entre a obrigação
e o desejo da reprodução presentes no imaginário social e, igualmente, na psique dessa
categoria, o desequilíbrio se fez. Contudo, interpreto tal desajuste não apenas porque a
maternidade fosse um fardo, uma imposição, na vida do feminino, visto que estava na ordem
do seu “destino” e também da sua vontade. Infiro que, os espaços de movimentação oferecidos
a essa categoria reprimida – no qual o corpo era qualificado e também desqualificado, dentro
de uma moléstia, de certa forma, entendida como própria da sua natureza –, eram estreitos
demais para conter os desejos e as aspirações. A agitação física, manifestada no corpo da mulher
histérica, sem que uma causa fisiológica, orgânica, pudesse justificá-la, fez com que o médico
austríaco descortinasse novos horizontes para o ser feminino.
Todavia, é bom não esquecer que, mesmo estando presente, na teoria freudiana, uma
suposição da existência de uma masculinidade a priori, ou seja, a ideia central da inveja do
falo, no inconsciente sexual, situando o feminino como “o menos”, por sua “imperfeição” em
não ser detentor do falo – tema que não é objetivo da tese adentrar – foi entre o divã e a fala
que, a Psicanálise, nos estudos com o corpo “imperfeito” da mulher histérica, deu voz e eco aos
seus sentimentos, trazendo à tona os conflitos do inconsciente, vividos por tal categoria.
Dessa forma, entre os desejos e as obrigações da maternidade, os nós foram atados por
dispositivos poderosos, causando conflitos, angústias, incompletudes, negações, condições que
até os dias atuais, a despeito dos avanços alcançados pela categoria, de certo modo, ainda se
mantêm na vida do ser feminino.
A Psicanálise, sem dúvida, foi um passo decisivo na compreensão das subjetividades
humanas, e, o corpo feminino ao se posicionar como vetor das dualidades, se situou como o
princípio das significações. Essa união se tornou uma realidade porque, “entre a vida anônima
do corpo e a vida oficial da pessoa” a teoria freudiana introduziu o inconsciente, ou seja, uma
instância a mais entre o “organismo e a própria pessoa” (MERLEAU- PONTY, 1991, p. 259).
Consciente e inconsciente, trazendo de volta, a esta tese, a união dos opostos.
Esses acontecimentos abalaram certezas confortavelmente estabelecidas, impondo que
os enfrentamentos do mundo moderno passassem a serem visto de outra maneira e diante de
uma nova conotação. O corpo humano, agora, atrelado ao inconsciente, se enlaçou à cultura
com suas normas e fundamentos sociais.
Entretanto, o feminino também pagou seu preço com as ideias freudianas. Não
obstante o mérito de ter lhe dado um novo olhar, essencialmente com relação ao seu corpo e à
sua sexualidade, nem tudo o que Freud elaborou, na sua teoria, foi favorável para essa categoria.
No modo dogmático de colocar a explicação anatômica, com os traços psicológicos próprios
do feminino, ele, igualmente, construiu mitos em torno do que é ser mulher. A suposição da
imperfeição, devido à ausência do falo – órgão por ele considerado como “o princípio
organizador” –, no feminino, em nada colaborou para a construção de uma sociedade igualitária
entre os sexos. Ao contrário, foi na imperfeição, no defeito, isto é, na negatividade de um elo
faltoso, que a inferioridade se estabeleceu, na psique dessa categoria.
Nessas alturas, é importante mencionar que as conhecidas divergências entre ele e Jung
(1986) – este, inicialmente, por ele considerado como seu “príncipe herdeiro”–, tiveram como
causa principal o desentendimento no conceito da sexualidade, isto é, da libido.
Para o médico austríaco, a libido estava cravada nas tendências sexuais, enquanto que,
para o médico suíço, tal acepção não condizia com a realidade, já que a, libido, na sua visão,
era a energia psíquica que brotava de cada um dos instintos, fossem eles sexuais ou não. Na
teoria junguiana, a qual eu me incorporo, a libido possibilita ao ser humano avançar nos seus
projetos, realizar ações, aspirações, desejos, independentemente de onde eles decorram.
Nesse entender, Kehl (2008, p. 266) defende que a psicanálise tenha se tornado, talvez,
o derradeiro “dos discursos modernos que atribui um lugar à mulher (objeto no desejo/objeto
do discurso) o que pode significar que ainda está se tentando criar um significante para fazer
existir A Mulher”.
Entendo que tal posição, se pauta na invisibilidade das mulheres, embora sejam
visíveis as conquistas dessa categoria nos mais diferentes espaços de atuação. Aqui, revisito e
incorporo os pensamentos de Cavalcanti (2005), quando, ao falar sobre cidadania e
representação, menciona que, apesar dos avanços conquistados, é preciso que os embates
femininos e feministas, prossigam nas lutas reivindicatórias, exigindo a elaboração de políticas
publicas que visem ao direito de oportunidades iguais para os sexos, tanto na instância do
público, quanto na esfera do privado.
Por conseguinte, mesmo identificando os visíveis resultados que emergem dos
movimentos e das organizações feministas, as transformações se processam em passos ainda
tímidos, haja vista que a estrutura da nossa sociedade se mantém preconceituosa e
discriminatória, em relação às atividades, aos sentimentos e aos afetos femininos. Não é fato
incomum, quando essas condições são exercidas com veemência, pela mulher, esta ser
considerada como um ser histriônico, ou seja, histérico.
Dessa forma, não negando a importância da Psicanálise, já que considera essa teoria
científica de valor incontestável, no conhecimento do ser humano, Saffioti (1976, p. 320)
elabora sérias críticas aos pressupostos de Freud. “Fosse o binômio freudiano – passivo
feminino; ativo-masculino – verdadeiro, poder-se-ia afirmar, com certeza, que as mulheres se
estão masculinizando enquanto os homens se feminilizam”.
Esse pensamento põe em pauta o entendimento de que não é possível pensar sobre esse
assunto com base em simplificações. As mudanças econômicas, culturais, tecnológicas e
científicas, vêm mostrando que houve modificações profundas, quer na ideia da masculinidade,
quer na da feminilidade, tanto nos âmbitos dos conceitos quanto nos das representações.
Percebo que, embora a mulher tenha adotado para si e para os Outros uma nova
imagem, na contemporaneidade, ainda está distante de ser vista como um ser emancipado.
Talvez o tempo e uma consciência de classe mais determinada, na união das verdadeiras
necessidades femininas, possam levar as mulheres a saírem dessa condição de imperfeição
(somente biológica?) que lhes foi outorgada. Contudo, vejo como fundamental tomar
distância com relação a qualquer posição de vitimização, tanto no passado, quanto nos dias
atuais. O essencialismo aqui não se situa, até porque nem tudo aquilo que era exigido, em
tempos atrás, ou que é hoje estabelecido, foi ou é obedecido pelas mulheres. Assim, não
generalizando, se o papel da sedução e passividade do feminino, no passado, denotava uma
dissimulada atitude de “belle indifférence” (KEHL, 2008, p. 65) por conveniência ou por
temor ao patriarca, nos dias atuais – da mesma forma, não ampliando a toda a categoria –, a
sedução não somente é explícita, como também a obediência à “lei do pai” se situa no âmbito
das comodidades, e, igualmente, do medo.
No passado, nem sempre interessava ao feminino o conflito, já que era conveniente à
mulher, a manutenção do lar e, também, a comodidade da alienação; na contemporaneidade,
porém, muitas dessas situações se repetem, independentemente de as mulheres não serem
apenas as mantenedoras dos seus lares, mas, junto com o homem, os provedores domésticos da
família. Nos dias atuais, a violência física, simbólica e mesmo a institucional, é tolerada por
muitas mulheres que se representam como emancipadas.
São os paradoxos inscritos na categoria mulher, por isso que, ao decompor esse
processo, vinculo a história do corpo à história da psicanálise e do feminismo. Se, por uma
dimensão, a teoria da inveja do pênis, polemiza as discussões feministas, até os dias presentes;
por outra dimensão, é impossível negar que, com os seus estudos, o psicanalista percebeu que
os males e as insatisfações que rondavam suas pacientes, estavam localizados na opressão e no
papel social, a elas outorgadas. Por considerar relevante a compreensão de que, mesmo não
sendo capaz de vencer muitos dos preconceitos existentes na época em que sua teoria foi
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR SUPERINTENDÊNCIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 145-185)