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Corpo, Imagem e o estigma da transgressão

CAPÍTULO 1. O CORPO NAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS

1.2 Corpo, Imagem e o estigma da transgressão

A investigação realizada referente ao corpo no contexto das medidas socieoducativas foi composta por um conjunto analítico de imagens e reportagens relacionadas ao trabalho

socioeducativo com jovens que infracionaram e que trazem consigo o estigma gerado pela transgressão.

Assim, também apresento personagens da literatura36 que ao longo da história infracionaram e cumpriram medidas socieoduativas privativas de liberdade como, por exemplo, Querô, Pixote, Pedro Bala, Reizinho, Dadinho (Zé Pequeno), bem como filmes e documentários acerca desse tema.

A coleta de dados visuais (fotografias, filmes, vídeos) e de obras literárias foi realizada na perspectiva de Flick (2009, p.219), que compreende “a relevância dos filmes como uma forma de reflexão sobre a construção social das realidades sociais, bem como uma forma de influenciá-la”. As imagens apresentadas nas fotografias do ponto de vista de Boni (2000).

(...) foram construídas para informar aquilo que o fotógrafo presenciou, ele traduziu ao leitor suas percepções em imagens, lançando mão de seus recursos técnicos e de elementos da linguagem fotográfica para gerar sentidos, para auxiliar, facilitar ou mesmo induzir o leitor á leitura desejada. (BONI, 2000 apud CAMARGO e FRIGERI, p.115, 2011)

Identifiquei nos protagonistas das obras analisadas histórias de corpos juvenis violados, em sua maioria de jovens pobres e negros, privados de liberdade e sem perspectiva de ressocialização, internados em ambientes com propostas repressoras, punitivas e não educacionais representados por um corpo marcado que jamais será o mesmo quando estes jovens estiverem em liberdade. Inicialmente, para realizar a busca por essas imagens foi utilizada como palavra chave “adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas”.

Os personagens que têm suas histórias de vida compartilhadas nos filmes, documentários e nas imagens coletadas, apresentam um traço comum em suas histórias de vida, são adolescentes e jovens autores de violência precocemente e, em sua maioria, com histórico de cárcere de membros de suas organizações familiares, havendo também casos de adolescentes que em algum momento de suas vidas passaram por instituições de acolhimento, assim como está presente na trama dos personagens a passagem em “reformatórios”, “abrigo para menores delinqüentes e abandonados” ou em “centros socioeducativos” entre outras

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O artigo “Infância e errância: imagens de crianças abandonadas na ficção brasileira” de Souza (2015) e a dissertação de Melo (2009) intitulada: “As crianças invisíveis na literatura brasileira: meninos de rua e outras crianças em situação de risco” impulsionaram-me a identificar na literatura brasileira quais os personagens infratores que foram privados de liberdade na infância e na adolescência e, sobretudo, qual recorte étnico racial representa esses corpos nessas obras, a análise das obras citadas também permitiu identificar como esses personagens tiveram historicamente seus direitos violados ao serem privados de liberdade em instituições de atendimento socioeducativo.

instituições criadas em diversos estados brasileiros com o intuito de proteger crianças e adolescentes vulneráveis negligenciados e também puni-los, os privando de liberdade.

Essa institucionalização precoce ocorria como consequência do comportamento delitivo que os adolescentes devolviam a uma sociedade, a qual por sua vez viola os seus direitos básicos e os exclui de oportunidades dignas de desenvolvimento, com objetivo de ressocializá-lo para que não reincidam. As imagens coletadas, relacionadas ao contexto socioeducativo no Brasil, apresentam os jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, de acordo com a representação corporal apresentadas nas imagens a seguir:

Imagem 2- Rebelião Fundação Casa Itanhaém, SP, 2013, Fonte: Reprodução TV/ Tribuna e

Imagem 3- Rebelião Fundação Casa em Itaquera SP, 12 de agosto de 2013, Fonte: Danilo Verpa/Folla Press

O que proponho é analisar as representações construídas e inventadas a partir dessas imagens que sugerem fragmentos de uma realidade criada pelo jornalismo através de narrativa sobre os jovens e seus corpos. O que se revela em seu recorte específico, manifestado pelas imagens, sugere a delinquência. Nesse sentido, Camargo e Frigeri (2011) consideram que através da fotografia é possível construir imagens e gerar sentido com elas sendo que esse recorte possui uma intencionalidade no que se refere à representação corporal desses jovens.

O conceito de “representação corporal” já foi objeto de estudo em pesquisas acadêmicas com jovens em situação de Liberdade Assistida, como discutido por Valeta (2010) no trabalho intitulado: “Representação Corporal de Jovens em Liberdade Assistida na cidade de Araraquara- SP”. De acordo com Bolone (2005), esse conceito tem sido descrito como:

(...) a capacidade de representação mental do próprio corpo, sendo que essa imagem envolve aspectos relacionados à estrutura (como tamanho, dimensões) e a aparência (forma, aspecto), entre vários outros componentes psicológicos e físicos. (VALETA, 2010, p.12)

Nessa pesquisa, o autor problematizou como os jovens em conflito com a lei percebem seu próprio corpo. A investigação realizada objetivou compreender as “representações corporais” de jovens que já cometeram algum delito e que passaram pela experiência da institucionalização, bem como observar se a concepção que eles têm do corpo tem relação com suas vivências. (VALETA, 2010, p.13)

Nesse sentido, a problemática apresentada pelo autor, representa aspectos também identificados nos jovens assistidos pela SETA/Liberdade Assistida, ou seja, inegavelmente as experiências corporais vivenciadas por jovens que estão em conflito com a lei, e que vivenciaram experiências de passagem pela medida socioeducativa de Internação em centros socioeducativos, deixam marcas nas percepções que eles têm do próprio corpo.

A aparência corporal para os jovens se tornou objeto de identidade. A marca corporal trazida de suas experiências e vivências corporais, reflete uma busca de visibilidade e de uma localização real na sociedade em que vivem. A representação corporal está traduzida na sua aparência, no seu aspecto físico e no seu linguajar, em que entrecruzam fatores sociais marcantes como origem, trajetória de classes e suas derivações, dentre outras eventualidades advindas da posição que ele ocupa no amplo campo da diferenciação social. (VALETA, 2010, p.92)

Assim, como explicitado por Foucault (1987, p.150) “no projeto de instituição carcerária que se elabora, a punição é uma técnica de coerção dos indivíduos; ela utiliza processos de treinamento do corpo”. O resultado da coleta das imagens, em sua maioria produzidas pela imprensa e difundidas em redes sociais, mostra a imagem de jovens rebelados no telhado da instituição, com os rostos encobertos e armados. É o registro que possui, através da mídia, a maior difusão da imagem de representação do corpo de jovens em conflito com a lei.

Pude observar que as imagens, de certo modo, ganham repercussão quando os jovens estão inseridos e protagonizando contextos de “revoltas”, sendo que a imagem corporal do jovem também está vinculada à gravidade da infração da qual ele foi autor. A atitude corporal dos jovens, expressa de maneira violenta, apresenta o ato de rebelar-se pela imposição e pela ameaça.

Nesse contexto, os jovens que aparecem nas imagens analisadas ameaçam fisicamente os funcionários e outros jovens dos centros socioeducativos, colocando-os como reféns, para que suas “reivendicações” sejam atendidas e obtenham algumas regalias e outros buscam a liberdade através da fuga.

Foi possível perceber que toda a referência, na trajetória do corpo e da imagem, que faz menção ao jovem que cumpre medida socioeducativa, de Internação, está vinculada à violência física, colocando as “responsabilidades” nos jovens e construindo um imaginário de juventude perigosa e incapaz.

A repercussão dessas imagens, as interpretações realizadas e o que representam refletem e influenciam na reconstrução da vida dos jovens em liberdade, pois nos processos de ressocialização, os estigmas construídos geram as marcas visíveis no comportamento, como a baixa autoestima, o sentimento de inferioridade, a dificuldade de vislumbrar sonhos e de traçar objetivos e romper com trajetórias infracionais iniciadas.

De acordo com Piccolo (2010), em nossa sociedade, a categoria “jovem” tornou-se um problema social. A juventude, principalmente a adolescência, é concebida como momento de crise, irresponsabilidade e rebeldia e o jovem é representado como potencialmente perigoso. Para Abramo. (1997 apud Piccolo, 2010, p.110) “nas matérias vinculadas nos meios de comunicação, a imagem dos jovens costuma ser associada a outros “problemas sociais”, como violência, a exploração sexual, o uso de drogas e a gravidez precoce”.

No Brasil, de acordo com Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o prazo máximo para a medida privativa de liberdade é de três anos. De acordo com o Art.121, A Internação “constitui medida privativa de liberdade, sujeito aos princípios de respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”.

Esse dilema entre as propostas de “ressocialização” e “punição” adequada para jovens autores de atos infracionais no Brasil foi pauta de muitos debates e manifestações, como podem ser vistas nas repercussões midiáticas a seguir que sugerem a redução da maioridade penal no Brasil para 16 anos. Além disso, a repercussão de atos infracionais envolvendo menores de 18 anos mobilizou a apresentação e tramitação das Propostas de Emenda à Constituição (Pec´s) favoráveis a redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados.

Dessa maneira, esse debate é relevante neste trabalho para apresentar de que maneira o imaginário brasileiro é construído, relatando as condições sociais em que os jovens que cumprem medidas socioeducativas estão inseridos e como é compreendida a sua responsabilização diante da autoria de atos infracionais. Diante disso, é preciso indagar: Qual o corpo apresentado nesse imaginário?

Os materiais analisados fomentam o debate de que a privação de liberdade proporciona resultados mais satisfatórios devido a seu caráter punitivo, pois ali é possível que os jovens estejam privados de liberdade por um período, afastados de suas comunidades e do convívio social.

É praticamente nula a alusão, nas reportagens citadas, à eficácia de programas de atendimento socioeducativo em meio aberto. As matérias, aqui apresentadas, trazem em evidência o processo de estigmatização dos jovens que cometeram atos infracionais no que se refere ao conteúdo e orientação. Notam-se referências restritas sobre o sistema socioeducativo bem como, seus desafios e potencialidades.

Imagem 4: Capa Revista Veja, nº 2430, Junho de 2015 e Imagem 5: Capa Revista Época,

Edição Nº 844, Maio 2015.

O discurso de impunidade que questiona o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), apresentado nos exemplares acima das Revistas Veja e Época, discute a penalização dos autores diante da gravidade dos delitos que cometem. Tais indagações, nos últimos anos, foram marcadas pela repercussão de atos infracionais graves cometidos por menores de idade, que marcaram a história do país.37

A reportagem apresentada na Revista Época, que apresenta o latrocínio cometido por jovens que fatalmente vitimou um médico, na Lagoa Rodrigo de Freitas no Rio de Janeiro em 2015, pautou em sua capa o questionamento: “Como punir menores em casos graves?” Ao analisarmos o contexto social em que os “menores”, protagonistas dessas infrações, estão

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O artigo intitulado “Mídia e Política: A construção da agenda nas propostas de redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados”, de autoria de Campos (2009), apresenta como hipótese que dois crimes de grande repercussão pública, o assassinato do casal Liana Fridenbach e Felipe Caffé em 2003 na a cidade de Embu Guaçu/SP e o assassinato do menino João Hélio em 2007 no Rio de Janeiro mobilizaram a apresentação e tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (Pec‟ s) favoráveis à redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados.

inseridos, podemos identificar jovens que vivem em territórios segregados na cidade do Rio de Janeiro, onde se tem claramente um recorte geográfico, territorial marcado pela desigualdade social.

Uma das causas imediatas da violência nas grandes cidades e o contraste nas metrópoles, onde convivem muito próximas a pobreza e riqueza, miséria e ostentação. Isto tende a criar, dentro do quadro dessa violência, ressentimentos e justificativas para se fazerem expropriações, ou seja, tirar do rico que tem muito. (AMORIM, 2006, p.40)

Coutinho (2012) refere-se a um relatório apresentado na abertura do V Fórum Urbano Mundial da Organização das Nações Unidas (ONU), no Rio de Janeiro, que revelou que a cidade está na 28ª posição entre as cidades brasileiras “mais desiguais do mundo, demonstrando as maiores diferenças de renda entre ricos e pobres do país”.

Amorim (2006) autor do livro “CV-PCC A irmandade do crime” ao descrever as operações de grupos armados como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), expondo os dilemas da violência urbana, traz elementos importantes para considerarmos o contexto em que se inserem adolescentes e jovens envolvidos em situação de violência na cidade do Rio de Janeiro.

No Rio de Janeiro a organização é hoje indestrutível. Não apenas pela força das armas e do dinheiro, mas porque conseguiu enraizamento social. Para cada “soldado vermelho” caído em combate, outro se levanta na adolescência favelada e ocupa o lugar que ficou vago nessa guerra declarada. (AMORIM, 2006, p.347)

Foi possível identificar nos estudos de caso das reportagens apresentadas, um traço em comum às infrações que foram cometidas por jovens que vivenciam a segregação do território: as regiões mais pobres, principalmente das grandes cidades, são entendidas como o ponto de origem da criminalidade, gerando desse modo a estigmatização dos pobres trabalhadores e seus locais de moradia.

De acordo com Rodrigues (2017), “no Brasil de hoje, o espelho que se constrói é a associação direta entre pobreza e criminalidade e periferia, sendo entendida como o lugar do pobre na cidade, passa a ser visto como lugar perigoso” (ZALUAR, 1994 apud RODRIGUES 2017, p.177). Nessa direção, é importante compreender o sentido da exclusão vivenciada pelos infratores que protagonizam essas histórias, de acordo com Weller (2000), o autor alemão define que a:

Exclusão refere-se a uma posição estrutural enfraquecida na sociedade, na qual as formas de vida de uma pessoa ou população local estão desconectadas de grande parte dos direitos relevantes e dos direitos de autonomia recíproca. (WELLER, 2000, p.1)

Por outro lado, a Revista Veja no Especial sobre a maioridade Penal apresenta em sua capa o questionamento: “Vão ficar impunes?” Acompanhando a imagem fotográfica desconfigurada dos jovens envolvidos no ato infracional com suas iniciais. Os jovens autores, com faixa etária entre 15 e 17 anos, acompanhados de um adulto, apresentavam histórico infracional de muita reincidência e uso abusivo de substâncias psicoativas sem nenhum acompanhamento. Os jovens citados participaram de um estupro coletivo em uma cidade interiorana, localizada no estado do Piauí, que ocasionou a morte de uma jovem.

A matéria, ao trazer o tema para fomentar o debate referente à redução da maioridade penal, viola os direitos dos jovens envolvidos de diferentes formas, incitando a violência da população envolvida contra os jovens através da difusão de suas imagens38, fator que permite sua identificação, já que o fato ocorreu em um pequeno município; gerando estigmas de difícil desconstrução para esses jovens após o cumprimento de medida socioeducativa de privação de liberdade. É possível identificar na trajetória dos jovens envolvidos um contexto social amplamente desassistido e precarizado economicamente, fator que dificulta a construção de perspectivas futuras.

Por outro lado, a reportagem apresentada pela Revista Veja busca discutir a idade em que os adolescentes podem ser privados de liberdade e responsabilizados por atos infracionais em diferentes países. Nesse sentido, apresento abaixo um quadro elucidativo inspirado pela pesquisa realizada pela UNICEF (2007) “Porque dizer não á redução da idade penal” 39 o trabalho salienta os motivos do porque dizer não a redução da maioridade penal, a partir de argumentações do direito comparado, da sociologia, jurídicas e também de experiências de sucesso após a implementação do ECA.

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Nesse sentido o Art.247 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), salienta que: (...) incorre na mesma pena quem exibe, total ou parcialmente, fotografia de criança ou adolescente envolvido em ato infracional, ou qualquer ilustração que lhe diga a respeito ou que refira a atos que lhe sejam atribuídos, de forma a permitir sua identificação direta ou indiretamente. (BRASIL, 2007).

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Quadro 1: Idade de responsabilidade penal juvenil em diferentes países

Países

Início da Responsabilidade

penal Juvenil

Observações do atendimento socioeducativo

Alemanha 14 anos

De 18 a 21 anos, o sistema alemão admite o que se convencionou chamar de sistema de jovens adultos, no qual, mesmo após os 18 anos, a depender do estudo e do discernimento, podem ser aplicadas as regras do sistema de justiça juvenil. Após os 21 anos, a competência é exclusiva da jurisdição penal tradicional.

Argentina

16 anos O sistema Argentino é tutelar. Argélia 13 anos

Dos 13 aos 16 anos, o adolescente está sujeito a uma sanção educativa e, como exceção, há uma pena atenuada a depender de uma análise psicossocial. A maioridade é considerada aos 18 anos.

Brasil 12 anos

De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, os adolescentes podem ser responsabilizados a partir dos 12 anos através das medidas socioeducativas previstas no estatuto, a maioridade está prevista aos 18 anos.

Canadá 12 anos

A legislação Canadense (Youth Criminal Justice Act/2002) admite que a partir dos 14 anos, nos casos de delitos de extrema gravidade, o adolescente seja julgado pela justiça comum e venha a perceber sanções previstas no Código Criminal, porém estabelece que nenhuma sanção aplicada a um adolescente poderá ser mais severa do que aquela aplicada a um adulto pela prática do mesmo crime. Maioridade Penal aos 18 anos.

Espanha 14 anos

A Espanha também adota um sistema de jovens adultos com a aplicação da Ley Orgánica 5/200, com a maioridade penal aos 18 anos. Estados

Unidos 10 anos

Na maioria dos estados do país, adolescentes com mais de 12 anos podem ser submetidos aos mesmos procedimentos dos adultos, inclusive coma a imposição de pena de morte e prisão perpétua. O país não ratificou a convenção internacional sobre os direitos da criança. Japão 14 anos

A Lei Juvenil japonesa, embora possua uma delinqüência juvenil mais ampla que a maioria dos países, fixa a maioridade penal aos 21 anos. Fonte: Dados organizados pela autora

O Brasil diante de outros países apresenta um avanço nas discussões referentes às políticas de proteção a crianças e adolescentes. Essa constatação pode ser observada no prazo máximo previsto para as medidas privativas de liberdade com duração de três anos, o menor entre todos os países, ainda que a responsabilização de adolescentes tenha início precocemente a partir dos 12 anos, assim como no Canadá também aos 12 anos, na Argélia aos 13 anos, na Espanha e Alemanha aos 14 anos e na Argentina aos 16 anos.

Na Espanha, por exemplo, os menores de 14 anos não são responsabilizados em medidas socioeducativas, sendo que as infrações cometidas nessa faixa etária poderão ser observadas e resolvidas no âmbito familiar e com acompanhamento psicossocial sem intervenção do Estado.

Foi possível perceber que na legislação de alguns países está prevista a diferenciação e adequação das medidas socioeducativas de acordo com a idade dos infratores estabelecendo diferenças entre as idades 14 e 15 anos para os jovens que possuem a faixa etária entre 16 e 17 anos de idade, analisando em cada processo as circunstâncias pessoais, o grau de maturidade do autor, a natureza e a gravidade dos seus atos.

Com exceção dos Estados Unidos e da Inglaterra, os países que consideram adultos os menores de 18 anos são considerados pela ONU como de médio ou baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A exemplo dessas situações, são o Reino Unido (IDH muito alto), onde as crianças e adolescentes podem ser julgadas a partir dos 10 anos de idade de acordo com a mesma legislação para adultos, e na África do Sul (IDH médio), onde a diferenciação entre adultos e adolescentes diante do Código Penal foi criado apenas no ano de 2008.

Marino e Vargas (2015) compreendem que deverá ser analisada a situação em que estão inseridos jovens em cumprimento de medida socioeducativa com um olhar mais atento às particularidades de cada caso e às condições sociais que estão inseridos os infratores. Os autores afirmam que a redução da maioridade penal no Brasil de 18 para 16 anos traria como resultado “a incapacitação cada vez mais cedo de adolescentes advindos da pobreza e a juvenilização do ingresso no crime organizado que hoje controla boa parte do sistema penitenciário brasileiro”. (MARINO; VARGAS, 2015, p.293).

Nas pesquisas realizadas pela Andi (2012) e (2013) na perspectiva da comparação internacional do sistema socioeducativo há referência a alguns modelos de legislação como, por exemplo:

(...) entre 1990 e 2009 as taxas de encarceramento nos EUA subiram 65%, mas em Nova Iorque, elas caíram 28%. Assim, a cidade norte-americana que apresentou os melhores resultados na redução do crime e da violência foi aquela que menos empregou penas de prisão. (ANDI, 2012, p.85)

Desse modo, é importante compreender que a comparação do atendimento socioeducativo com países estrangeiros esbarra no dilema de um atendimento realizado em diferentes realidades, principalmente as sociais, que mais afetam o público alvo dessa pesquisa. No Brasil, fica evidenciada a escassez de políticas públicas que possibilitem a