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Corpos em decomposição e lugares permanentes

O sucesso último da transformação do orgânico em inorgânico é a completa e final associação das pessoas com o lugar. Assim, as pessoas transformam-se nos lugares (Bloch 1995). Esta estabilidade localizada é alcançada através dos funerais em muitas outras zonas do mundo além de Madagáscar, embora numa ampla variedade de configurações. Mas constitui também a estrutura do desafio que é criado pelas migrações.

A forma como um tal sistema se liga às migrações foi o assunto de que tratei no meu primeiro livro, Placing the dead (Bloch 1971). Foi ba- seado no trabalho de campo que realizei para a minha tese de doutora- mento, desenvolvido na área central de Madagáscar, no seio dos Merina, que vivem na região em torno da capital; na realidade, porém, a minha pesquisa foi efetuada longe do coração do território dos Merina, numa região fronteiriça que, há cem anos, era praticamente desabitada e que assim se abriu à possibilidade de colonização, através da criação de novos arrozais. Houve vários fatores que levaram as pessoas a irem viver para este novo território: 1) escassez de terra nas áreas de origem; 2) tentativa de escapar a várias formas de controlo governamental; 3) fuga depois de revoltas contra o governo colonial; 4) deslocação de descendentes dos escravos que foram libertados em 1896 mas a quem não tinham sido dadas terras na zona onde tinham sido libertados.

Para as pessoas de ascendência livre, a situação criada pela migração para estas novas terras era muito diferente da que se punha para os des- cendentes de escravos. Vou começar por tratar da primeira situação.

Para os Merina, tanto no passado como na atualidade, um valor central é o da junção, depois da morte e por vezes mesmo muito depois de esta ter ocorrido, das ossadas dos membros de uma linhagem, em grandes túmulos de pedra ou pedra e cimento. Esta reunião envolve uma varie- dade de rituais nos quais os mortos são gradualmente reunidos e condu- zidos ao túmulo da família. Tal como nos casos já mencionados, este processo envolve a transformação do corpo. Neste caso, a alteração é so- bretudo uma questão de eliminação da matéria húmida do corpo, man- tendo apenas os ossos secos que se vão juntar aos outros no jazigo fami- liar. A separação da carne putrefacta e dos ossos mais duradouros é já vista como um passo no movimento do orgânico para o inorgânico, uma vez que as ossadas têm associada uma ideia de durabilidade e possuem certa afinidade com a pedra e o cimento que constituem o jazigo. Neste

processo existe um passo intermédio, constituído por uma série de panos de grande resistência em que os corpos são embrulhados uma vez e outra, quando o pano anterior tem de ser eliminado. De forma similar à da ma- deira nos exemplos anteriores, estes panos funcionam como símbolos e, de facto, como mediadores entre a carne e a pedra do jazigo. O tecido resiste algum tempo mas acaba por também ele apodrecer. Via estes in- termediários e os rituais em que são manejados estabelece-se uma relação entre os ossos, agora já quase livres de resquícios orgânicos, podendo mesmo dizer-se os restos quase transcendentais, e a pedra e o cimento do jazigo ou, noutras palavras, uma forma extrema do transcendental. Tal implica uma ligação aparentemente definitiva e imutável da linhagem ao túmulo, mas também à terra em que ele se encontra. Esta ligação é considerada definitiva, e torna os defuntos que ocupam o túmulo senho- res permanentes daquela terra. Este domínio da terra não pertence evi- dentemente aos mortos como criaturas transacionais, uma vez que eles se degradam e apodrecem, mas sim ao grupo ancestral, transformado e aparentemente eterno e transcendental. Desta forma, constitui uma li- gação entre todos os antepassados da linhagem cujos restos mortais re- pousam no túmulo, mas também – e mais importante – todos os seus membros ainda por nascer, que um dia serão também sepultados no ja- zigo transcendental. Os grupos estão presos à terra através do túmulo; poder-se-ia dizer que a terra e o grupo formam uma unidade. O processo de sepultura conduz, em termos ideais, a uma imobilidade eterna e total, e a fixação definitiva de humanos transcendentais num local transcen- dental de particular importância. É um sistema de completa quietude.

Mas há um problema. Ao contrário das ossadas e das supostamente eternas pedras inorgânicas, e da localização do jazigo, as pessoas, orgâni- cas e animadas, transacionais, no fundo aqueles que vão alimentar o tú- mulo, deslocam-se e, no exemplo que descrevi em Placing the Dead, mi- gram, naquele caso para novas terras. Esta deslocação cria um dilema. Ou as pessoas tratam de fazer regressar os seus corpos, depois de mortos, aos seus túmulos ancestrais na área de origem, de forma a serem sepul- tadas junto de outras pessoas com quem, ao fim de tanto tempo, já pouco têm em comum, ou dão início ao difícil processo de erigir novos túmulos no local onde passaram a vida, depois de migrarem. Fazê-lo equivale a quebrar as ligações ao seu grupo ancestral original e depois criar uma nova ligação, aparentemente inquestionável, entre eles mesmos e a terra que colonizaram, particularmente os arrozais que criaram. Exis- tem duas razões para que este seja um processo difícil. A primeira consiste no facto de todo o edifício simbólico se basear, como já foi dito, na

Movimentos, Espíritos e Rituais

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noção de imobilidade intemporal e de permanência de um túmulo. A ideia de que estes se podem deslocar é uma contradição em si mesma. Em segundo lugar, a criação de um novo túmulo no novo território tem enormes custos sociais. São quebrados os laços com os outros membros da linhagem que ficaram na área original ou que, tendo-se deslocado para outras regiões, mantêm presumivelmente a intenção de serem se- pultados na terra de origem.

A razão para fazer regressar os mortos aos túmulos da área de prove- niência, mesmo que a migração tenha ocorrido já há algumas gerações, é que os túmulos na área original se tornam, à medida que as pessoas a eles ligadas se deslocam para outras áreas, potenciais centros de redes para indivíduos que vivem em áreas muito diferentes e que possuem po- sições sociais muito divergentes, já que as pessoas partem das suas áreas de residência original por um grande número de razões. Partilhar a in- tenção de ser sepultado num túmulo comum na terra de origem pode assim tornar-se até uma forma de manter uma ligação com parentes que vivam no estrangeiro, em França, por exemplo. Estas ligações possuem um enorme valor quando se pensa no futuro, já que poderão ser usadas como avenidas sociais para uma futura migração em cadeia e para ter acesso a parentes potencialmente úteis que sejam, por exemplo, funcio- nários públicos na nova área. São assim estas as razões práticas para fazer regressar os mortos à sua área ancestral.

Por outro lado, construir um novo túmulo e contrair matrimónio entre os vizinhos (as duas coisas ocorrem normalmente em conjunto) possui a distinta vantagem de fortalecer posições locais nas novas áreas. Fazê-lo reveste-se de significado tanto em termos políticos como económicos, pelo menos a curto prazo, em contraste com o planeamento a longo prazo que se exige para devolver os restos mortais ao túmulo da área an- cestral. Para aqueles cujos antepassados sempre foram livres, o aparente- mente inquebrável laço entre túmulos e terra dá origem tanto a oportu- nidades como a dilemas.

Para os descendentes de escravos, os problemas provocados pela mu- dança para novas regiões são muito menores, porque para eles não existe grande vantagem em manter, através da localização dos túmulos, uma ligação com a área de onde se deslocaram. Estes laços a uma localização original não envolvem de forma alguma a antiga propriedade ou domí- nio sobre essa área; muito pelo contrário, essa associação serve apenas para sublinhar o facto de que os seus antepassados nada controlavam nesse local, nem sequer as suas próprias pessoas. Desta forma, os descen- dentes de escravos têm um forte incentivo para romper os laços com a

sua área de origem e, assim, criarem um laço aparentemente permanente com a terra onde acabaram por se estabelecer. Assim, os descendentes de escravos tentam, assim que possível, construir novos túmulos nas novas áreas de ocupação, de forma a fazerem desaparecer a sua ligação à escravatura e se tornarem senhores das novas terras. Ao criarem novos túmulos, os migrantes descendentes de escravos como que revertem a básica lógica simbólica dos Merina centrada no imobilismo eterno mas, na realidade, transformam-se, ao concluírem desta forma a sua migração, nos senhores absolutos e livres da terra onde agora vivem. Ao criarem novos túmulos nas novas áreas, os descendentes de escravos parecem estar a negar a ordem social tradicional, mas de facto agem ainda dentro da lógica partilhada do velho sistema que atribui simbolismo aos túmulos e que é familiar aos outros migrantes que a reconhecem, em grau variável, como legítima.