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ou o passado e o futuro de alguns costumes funerários no contexto

do cosmopolitismo

Introdução

Há quase trinta anos, comecei a realizar trabalho de campo na Guiné- -Bissau, entre os Manjaco, na «utchak» ou «terra», como os próprios a designam, de Bassarel. A princípio estava interessado nas formas que os aristocratas Manjaco empregavam para se distinguirem da gente comum, sobretudo no que dizia respeito à distribuição da propriedade. Planeava focar-me nos funerais, já que os relatos da época colonial davam grande realce à troca e à destruição de panos de produção local que ocorria nas cerimónias fúnebres, e a literatura antropológica que eu estava a ler na altura se debruçava tanto sobre o simbolismo como sobre os custos ma- teriais dessas trocas ritualizadas. Porém, a minha presença no terreno aca- bou por levar a alterações dos meus planos. A produção e consumo de tecidos tornou-se menos importante – havia já poucos tecelões em ativi- dade nas aldeias dos Manjaco – mas os funerais e os rituais que condu- ziam à instalação dos antepassados em santuários familiares mantiveram- -se como tema central, em grande parte porque esses rituais pareciam ocupar uma posição central na forma como os Manjaco se viam a si mes- mos. Alguns anos depois resolvi dar início a um projeto de investigação sobre os imigrantes Manjaco em Lisboa, e sobre a forma como manti- nham ou cortavam os laços com os seus parentes nas aldeias ancestrais na Guiné-Bissau. Mais uma vez, o meu foco seria a forma como os mi- grantes geriam a morte – a forma como os Manjaco expatriados se sen-

tiam ainda ligados ou se prendiam às aldeias ancestrais através do ritual funerário. Razões várias levaram-me a abandonar esse projeto precisa- mente no momento em que ele começava a desenvolver-se, pelo que este texto me dá a ocasião de, de certa forma, participar no tipo de tra- balho a que bem gostaria de me ter dedicado seriamente. Continuo curioso acerca da forma como os imigrantes encaram as questões ligadas à morte – como modificam as suas práticas, as mantêm, resistem ou acei- tam os protocolos do Estado – enquanto lutam para encontrar um lugar próprio na metrópole e ao mesmo tempo muitas vezes tentam manter os laços com aquilo que ainda veem como a distante terra do seu povo. Gostaria de refletir tanto acerca dos pontos fortes como das fraquezas da minha própria pesquisa, de forma a realçar alguns temas que se en- globam no fascínio que os antropólogos africanistas manifestam para com a morte, e que imagino serem também importantes no tipo de tra- balho que conduzem. Os rituais mortuários cedo se mostraram um tó- pico de interesse na disciplina. Recentemente, houve uma ressurgência de interesse em todas as questões ligadas à morte em África, em parte devido a interesses paralelos – a SIDA e as respostas à epidemia, a vio- lência e o terror, a comemoração e o esquecimento em Estados que re- sultaram de guerras ou que são dilacerados por guerras civis. Grande parte desta literatura evoca temas e questões – o poder do Estado, da medicina; da governança, do biopoder (para usar o termo de Foucault), como tan- tos de nós fazem – das formas pelas quais grandes mas difusas forças in- fluenciam as vidas locais – que estão de uma forma mais geral em jogo na antropologia de hoje (para uma visão resumida desta questão, ver Lee e Vaughan 2008; sobre os Manjaco, ver Gable 2006).

Tanto os novos estudos sobre África como os trabalhos clássicos parti- lham um interesse naquilo que pode ser visto como axiomático em antro- pologia: os corpos são tão importantes na morte como eram em vida. O que as pessoas fazem com os falecidos – onde os colocam, e quem tem o direito de lá os colocar – mapeia o espaço social e distingue aqueles que o controlam. Consideremos por momentos a mais familiar das práticas mortuárias: a cova escavada no terreno, o corpo que lá é depositado. Repa- rem como a inumação reclama obviamente um pedaço de terreno, enraíza alguém na paisagem, de alguma forma faz de uma pessoa e de uma paisa- gem coevos. O mesmo sucede em mais larga escala, já que se o Estado tem o poder de controlar os corpos, é também ele que se deve encarregar dos cadáveres, de os gerir, de decidir onde e como devem ser escavadas as covas. No que se se segue, quero esboçar os esforços que os Manjaco e os Papel da Guiné-Bissau fizeram e continuam a fazer para manter a relação

Movimentos, Espíritos e Rituais

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entre corpos e terra, já que um Manjaco que morre longe da terra é ainda assim evocado por um relicário no seu local de origem. Ilustrarei aqueles que acabaram por se tornar temas duradouros do meu trabalho ao longo dos anos. Entre eles está a resiliência do ritual. E entre as questões que coloquei, está esta: quando os rituais permanecem e na prática se tornam ainda mais pronunciados, o que nos diz isto sobre as «crenças» ou as «tra- dições» no contexto da modernidade? A modernidade, na forma como a encaro, é ao mesmo tempo uma atitude – um certo cosmopolitismo – e um entrançar – na forma de vida – o capitalismo e tudo o mais. Nesta região da África Ocidental, os Manjaco estiveram entre os pioneiros que migraram para se dedicarem ao cultivo de produtos que lhes podiam dar lucro no comércio global. A migração dos Manjaco atingiu proporções épicas por altura do fim da guerra de libertação em 1974, e tem prosse- guido até hoje. No fim dos anos 80 do século 20, quando vivi numa al- deia da Guiné-Bissau, só um dos homens adultos dessa aldeia é que não tinha já vivido no estrangeiro, e bem mais de metade dos que tinham nascido na aldeia estavam ausentes, a constituir famílias no Senegal, na Gâmbia ou em França. Porém, mesmo esses Manjaco ausentes eram ce- lebrados em casa quando morriam. Mais ainda, os funerais dos Manjaco e as cerimónias subsequentes envolviam o levantamento de um pilar evo- cando o antepassado num pátio da aldeia natal. Nessa época, quando eu lá estava, as casas tinham praticamente o mesmo aspeto que fora des- crito por viajantes europeus na região no século XIX, ou mesmo antes

disso. Porém, as práticas funerárias tinham-se alterado ao longo do tempo; e as práticas dos Manjaco diferiam de formas interessantes das dos grupos étnicos vizinhos, com os quais partilham ainda assim um mesmo padrão geral.

Se o tempo mo permitir, nas minhas notas finais regressarei a estas va- riações, e também ao tema da resiliência no contexto da modernidade. Começarei, porém, por referir uma luta por cadáveres e por território entre os portugueses e os nativos na então nascente colónia da Guiné, de forma a deixar a audiência familiarizada com o que poderia, de outra forma, ser visto como bizarro na preocupação que os Manjaco têm com a repatriação dos seus cadáveres. O combate dá-se entre membros de um grupo étnico que partilha quase tudo com os Manjaco, à exceção da lín- gua. Os Papel e os Manjaco fazem parte de um grupo alargado de socie- dades, divididas naquilo a que Philip Curtin chamou «microestados» – povos que cultivavam arroz nos pântanos e mangais da região costeira da Guiné-Bissau e do Sul do Senegal.