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PARTE 1: Caminhos e Anarquismos

1.2. Corpos e mentes

Em seu Matéria e Memória, Bergson assume que a matéria é feita de “imagens”: algo que é mais que uma ideia, e menos que uma coisa – algo que se situa entre os extremos do idealismo e do materialismo, ambos rejeitados pelo autor. Se aceitarmos essa concepção, rapidamente se torna claro nossa escolha por chamar imagem a muito mais coisas que uma pintura, um filme, um desenho, etc.. Estou rodeado por “imagens”, mas existe uma que é central, nada menos que meu corpo, a partir do qual conheço o mundo que me cerca; meu corpo é um centro de indeterminação, segundo Bergson.

Se me aproximo de uma pintura, por exemplo, tenho a minha frente uma imagem bidimensional; acerco-me dela, olho com cuidado, analiso sua materialidade, tento compreender sua mensagem; mas não esqueçamos que a pintura-imagem que tenho à minha frente é, também como meu corpo, “imagem”, e, portanto, está sujeita aos movimentos de meu corpo, e o mesmo se dá em relação a minha “imagem”-corpo. A percepção, segundo Bergson, trata-se justamente disso: da possibilidade de ação de meu corpo em relação às “imagens” que o cercam. A pintura agora assume ainda mais complexidade, pois tem natureza dupla em relação ao meu corpo: é imagem, da qual posso gozar a fruição enquanto obra de arte, e é “imagem”, cuja percepção é afetada por muitas variáveis: a distância de meu corpo em relação a ela, a presença de mais pessoas ao lado, meu conforto, a luz que incide sobre ela, os sons que ouço, quer seja, todo um contexto físico que a mera apreciação estética poderia olvidar enquanto análise.

Uma imagem é representação (sim, há as imagens não representativas, como as abstrações na pintura, mas estas não fazem parte deste estudo), evocação, produção e registro: para situar-me no mundo, produzo representações, a fim de reconhecer algo e agir da melhor maneira em relação àquilo; evoco lembranças para esse reconhecimento e ação; produzo um conhecimento sobre o que vejo e sinto, e, finalmente, posso registrar o que aprendi.

Mas, Bergson nos traz um problema: a percepção se dá pela ativação dos sentidos em relação a um objeto, coisa, ao mundo que me cerca em determinado momento; nervos aferentes captam informações advindas dos meus sentidos, e por um rápido e complexo sistema de operações conduz estas informações ao sistema nervoso central; daí se segue processos complexos envolvendo células neuronais que, operando a partir de sinais elétricos nos neurônios, sinais bioquímicos nas sinapses e novamente sinais elétricos que continuam o processamento de informações para outros neurônios. Ora, segundo Bergson esses sinais

elétricos e bioquímicos não podem produzir uma representação, pois nada em sua natureza nos revela ser isso possível.

Essa concepção precisa ser considerada com cuidado, e o será, esperamos, no decorrer deste texto. Pois se trata de uma noção em franco embate com as neurociências de hoje, que consideram a hipótese de que a representação, mas também a memória e as lembranças podem ser produzidas e armazenadas no cérebro, a partir de conexões e “aprendizagens” neuronais, conexões cujo número pode chegar a trilhões. Mas nós seguiremos a senda filosófica de Bergson, ainda que, como o leitor verá, procuremos também nas neurociências muitos esclarecimentos.

Continuemos.

Para Bergson, a matéria tem sua própria luz, sendo “iluminada” por todos os seus vãos e cantos, de modo que, para percebê-la, é preciso efetuar um “obscurecimento” em relação a tudo quanto rodeia o objeto de nossa atenção: é a matéria adquirindo, sob esse prisma, estatuto mais interessante que aquele que lhe emprestam as teses idealista e realista, sendo que para a primeira a matéria é, de certa forma, uma criação do cérebro; e, para a segunda, essa matéria possui existência própria, mas sobre a qual jamais se poderá perceber a ponto de decifrar a natureza. Bergson pretende avançar além das duas teses, censurando tanto uma quanto outra, afirmando que a matéria é “mais do que aquilo que o idealista chama uma representação, porém menos do que aquilo que o realista chama uma coisa – uma existência situada a meio caminho entre a ‘coisa’ e a ‘representação’” (BERGSON, 1999:2).

Que seria, então, perceber?

Um fenômeno de atenção, no caso dos seres vivos; para atentar, segundo Bergson, obscurecemos tudo o que não nos interessa ao redor do objeto, ao mesmo tempo em que nossa consciência só atinge partes desse objeto; refletimos a luz que emana dele, mas não o apreendemos totalmente, uma vez que

A percepção de um ponto material inconsciente qualquer, em sua instantaneidade, é infinitamente mais vasta que a nossa, já que esse ponto recolhe e transmite as ações de todos os pontos do mundo material, enquanto nossa consciência só atinge algumas partes por alguns lados (BERGSON, 1999:35-36).

É uma concepção muito diferente das que ainda hoje se pode encontrar; por exemplo, a de que a percepção surgiria de uma espécie de luz que nossa consciência emanaria, iluminando a matéria (um caminho com tintas idealistas?). Bergson tenta

ultrapassar essa concepção afirmando o ser da matéria inanimada, enquanto coloca os seres vivos como outras tantas “imagens” relacionais – a diferença é que os seres vivos podem fazer escolhas em relação às “imagens” que os rodeiam18. E ainda, o movimento seria o estado natural da matéria; não percebo, na xícara inerte a minha frente, nenhum movimento, não vejo nenhuma mudança, e, no entanto, a mudança e o movimento ocorrem o tempo inteiro no objeto xícara.

Como se dá isso?

Tudo dura, e a duração impõe sobre a matéria, sobre todas as “imagens”, um período de existência, e dentro desse período seria bastante estranho negar que a matéria muda, ainda que seja nos referindo ao seu envelhecimento; também há movimento incessante em nível molecular, em direção a degradação da matéria.

Mas, enquanto essas concepções sobre movimento podem encontrar aprovação a partir de experimentos, uma questão muito mais complexa e ainda suscitadora de debates se nos impõe, a saber: a que envolve cérebro e consciência, ou ainda, cérebro e mente. Como vimos, para Bergson o cérebro não poderia produzir uma representação, e essa questão ainda suscita debates: como quer Lent:

Em outro campo de discussão [sobre o cérebro e a mente], de um lado ficavam os espiritualistas, de outro os materialistas (muitas vezes chamados reducionistas). Os primeiros achavam que as funções mais complexas, como o pensamento, a emoção, a memória e outras tantas, mesmo tendo relações com o cérebro, seriam no entanto emergentes, ou seja, obedeceriam a uma lógica própria, independente dele. Os últimos argumentavam que todas as funções psicológicas seriam originadas da atividade cerebral. Essa discussão de natureza filosófica se estende até os dias de hoje, estando ainda por serem resolvidos muitos de seus aspectos (LENT,

2010:24).

É óbvio que podemos situar Bergson entre os “espiritualistas”; e, como reconhecemos, a concepção “materialista” é a que ganhou corpo nas chamadas neurociências e na divulgação científica, de certa forma fazendo parecer que as ideias bergsonianas sobre cérebro e espírito remetem mais à especulação metafísica que às exigências e descobertas do mundo atual. Queremos, entretanto, discordar da tese materialista [sobre o cérebro e a representação], já se percebeu, tendo como oportunidade de fazê-lo o fato de ainda

18Conforme Bergson, no caso dos seres humanos certa pobreza na percepção (afinal, sem obscurecimento de

conhecermos muito pouco sobre o cérebro humano e a mente; e, destarte, as concepções bergsonianas foram as que melhores nos instrumentalizaram para as pesquisas que vimos desenvolvendo.

Mas o que nos ofereceu Bergson sobre o cérebro e a mente?

Ora, para ele o cérebro não podia fabricar representações, e, portanto, nem

armazenar lembranças; como o poderia, perguntava-se, fazê-lo se nada no órgão cerebral nos permite vislumbrar algo sobre esse fabrico e esse armazenamento? Para Bergson, o papel do cérebro é “ora de conduzir o movimento recolhido a um órgão de reação escolhido, ora de abrir a esse movimento a totalidade das vias motoras para que aí desenhe todas as reações que ele pode gerar” (BERGSON, 1999:27).

Concepção que não difere de noções mais modernas:

De maneira muito resumida, pode-se dizer que há apenas [...] três funções no tecido nervoso cerebral (constituído de neurônios): receber estímulo que vem do ambiente e do corpo [...] agir sobre o corpo e sobre o ambiente [...] e, finalmente, entre o receber e despachar, integrar a informação (DEL NERO, 1997:27-28).

Assim, o papel do órgão cérebro seria o de receber e repartir movimento - como se poderia dar que sinais elétricos, neurotransmissores e sinapses pudessem criar a representação ou engendrar o conhecimento?

Contudo, é exatamente essa a concepção atual mais aceita: a de que a dança incrivelmente complexa entre medula espinhal, encéfalo, sinais elétricos, neurotransmissores, sinapses, pode criar a mente, que, dessa forma, acabará, cedo ou tarde nessa concepção, reduzida ao conjunto físico do cérebro, aos aconteceres elétricos e bioquímicos do órgão. Diz, por exemplo, Henrique Del Nero (DEL NERO, 1997:63) que “a mente, num certo sentido, é aquilo que chamamos de departamentos virtuais”, querendo significar que a mente não é o cérebro, e que não há lugar físico específico no órgão para estes departamentos virtuais; mas o autor afirma, na página 73 da mesma obra, que “a mente está no cérebro”.

Como resolver este problema, a saber, a questão da mente e do cérebro? Parece- nos interessante, para a solidez de nossas investigações, encontrar caminhos que satisfaçam razoavelmente a questão proposta, começando por questões propostas por Jean Paul-Sartre.

Sartre, em seu A imaginação19 critica a Bergson indagando onde afinal se produziria a representação, se, segundo o bergsonismo, a percepção é atividade e não

especulação, e a lembrança não é mais que “decalque” da percepção; cremos que Deleuze aclara essa dúvida [proposta por Sartre] em seu Bergsonismo, quando afirma que os mistos mal analisados são causa de enganos e erros de interpretação da filosofia de Bergson. Mas a crítica de Sartre pode suscitar perguntas interessantes: quer-nos parecer que este filósofo encontrou uma “zona cinzenta” na obra bergsoniana; o que seria?

Trata-se da noção de mente: Bergson, com propriedade e agudeza diz sobre percepção e memória, e tece a teoria que irmana esses elementos, mas que diz ele sobre a mente, especificamente?

Aqui Bergson nos deixa órfãos de uma teoria cuidadosa: em sua obra a concepção de mente é a zona cinzenta a qual nos referimos. Refere-se o filósofo francês à consciência e ao espírito em Matéria e Memória; cita uma “alma cerebral”, com “a concentração (que não é uma produção!) da representação na substância cortical” (SANTOS & CHIARADIA, 2010:75) em O cérebro e o pensamento; mas algo nos falta.

Como completar essa lacuna?

Primeiramente, há que se lembrar que quando Bergson escreve sua obra (fins do século XIX) o estudo do cérebro e da mente encontrava-se menos desenvolvido que nos dias de hoje, ainda que não se possa dizer que o caminho foi deslindado em nossos dias: grandes dúvidas ainda persistem sobre a mente e muito inda há que se descobrir sobre o cérebro. Mas, como já o dissemos, é consenso entre estudiosos do cérebro que a mente é resultado de complexos processos cerebrais bioquímicos e impulsos elétricos, percepção e interpretação do mundo; a evolução do cérebro e desses elementos teria permitido, assim, a criação de mecanismos inteligentes, emocionais, criativos, para a compreensão do mundo e seu enfrentamento, bem como a extraordinária capacidade de adaptação humana ao seu meio, transformando-o.

Desejamos, contudo, demandar por uma conversa entre essa concepção moderna e as ideias bergsonianas, assumindo uma senda filosófica. Será possível encontrar um caminho que irmane os dois conceitos, um embasado pela neurociência, a saber, a mente e a memória sendo produto/derivadas do complexo cérebro humano, e a filosofia de Henri Bergson, na qual a memória não se localiza no cérebro?

Vejamos.

Henrique Del Nero, falando de operações mentais, assim escreve:

Ver bibliografia.

Para os estágios iniciais de processamento de informação no cérebro, há uma certa compartimentalização, que vai se perdendo à medida que progridem a complexidade e a associação de intermódulos. Quanto mais próximas da consciência, mais se embaralham as unidades processantes recrutadas em comitê. Após um processamento inicial em departamentos mais específicos, tende-se a resolver qualquer questão em departamento virtual.

Se nas primeiras etapas de processamento a região do cérebro é mais ou menos específica e exclusiva, com o tempo (e são apenas alguns milésimos de segundo) essa informação acaba sendo tratada em áreas que se superpõem (DEL NERO,

1997, 74:75).

E mais a frente:

Porém, como todas as informações passam pelo sistema límbico, onde sofrem uma espécie de tratamento emocional, o processamento final acaba por variar de pessoa para pessoa em função de um colorido emocional e valorativo, fortemente ligado à história individual de reforços positivos e negativos guardada pela memória (DEL NERO, 1997:75)

A noção de “departamento virtual” expressa pelo autor, e as funções do sistema límbico e mais precisamente do hipocampo, nos interessam mais diretamente em nossos estudos; com departamentos virtuais Del Nero está a falar de processos mentais, que não teriam, necessariamente, locais específicos no órgão cerebral conforme se complexizem, de modo que se dá uma atualização destes departamentos frente a um problema, ou a criação de novos departamentos virtuais quando entramos em contato com problemas novos, por exemplo.

E, certo, autor fala do ponto de vista das neurociências as quais, junto da psicologia moderna, tendem a “localizar” a mente no cérebro, mas também a memória, caso das teorias que envolvem o hipocampo, componente do sistema límbico (que contém também as amígdalas, outro elemento desse sistema); e, segundo as concepções de hoje, o hipocampo tem importante papel na construção da memória de longo prazo, justamente aquela a que Bergson dedica uma de suas teorias mais originais: a de que a memória não está armazenada no cérebro.

Mas consideremos, ainda, o consenso entre neurocientistas e estudiosos do cérebro: julga-se hoje que a memória está localizada no cérebro; que a capacidade desse órgão de armazenar memória é ilimitada; isso quer dizer que as conexões e processos cerebrais seriam ricos e complexos o suficiente para permitir o armazenamento e a recuperação de memórias, sendo que a recuperação se daria no acionamento de mecanismos sumamente complexos e ainda não bem compreendidos envolvendo (inclusive) hipocampo e amígdalas, e trata-se de uma decodificação, uma vez que se torna necessário codificar para armazenar – não é uma mesa que tenho no cérebro, mas a representação dela, certo, mas de que modo essa representação é produzida e armazenada? E, se a memória não estiver armazenada no cérebro, onde estará?

Sobre a primeira pergunta já disse Bergson que o cérebro não pode produzir uma representação; sobre a questão de como é armazenada, ou antes codificada para ser armazenada20, também nos deixou órfãos o filósofo francês, e, em relação ao terceiro problema disse ele:

A operação prática e consequentemente ordinária da memória, a utilização da experiência passada para a ação presente, o reconhecimento, enfim, deve realizar-se de duas maneiras. Ora se fará na própria ação, e pelo funcionamento completamente automático do mecanismo apropriado às circunstâncias; ora implicará um trabalho do espírito, que irá buscar no passado, para dirigi-las ao presente, as representações mais capazes de se inserirem na situação atual (BERGSON, 1999:84. Grifo nosso.).

Bergson trilha um caminho que se assemelha aos hodiernos, dizendo de memórias que mais se assemelham ao hábito (curto prazo) e da memória “verdadeira” (longo prazo21); mas há uma grande diferença em relação ao armazenamento dessa memória “verdadeira” em Bergson: ele a localiza no passado, nos dando um problema de natureza filosófica/metafísica.

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Do ponto de vista das neurociências muitos estudos apontam, como já citamos rapidamente, de uma multiplicidade de conexões efêmeras e “construções” biofísicoquímicas e emocionais que representariam uma lembrança, resgatando-a, assim. Mas em que linguagem esse armazenamento se dá, uma vez que é preciso que tenha sido retido para ser convidado a aparecer? Serão códigos ainda por ser descobertos? Ainda não se houve respostas claras para isso; como mera curiosidade, empenhados em reflexões sobre essa possível codificação para armazenamento, seja no cérebro seja no passado, como quer Bergson, imaginamos se uma linguagem de natureza matemática não seria apropriada para tal mister... mas, claro, avançar essas reflexões foge a esse estudo e a nossa competência nas ciências matemáticas.

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Esta, por exemplo, é dividida hoje em memória declarativa (subdividida em memória episódica e memória semântica) e memória de procedimentos.

Aceitar essa concepção bergsoniana nos afasta muito das concepções científicas de nossos dias sobre a memória e as lembranças, e uma irmanação de teorias tão distantes (assim nos parece hoje) foge largamente de nossos propósitos; portanto, aceitaremos por ora a senda filosófica bergsoniana.

Assim, diremos que o presente é sempre devir, enquanto o passado/a memória pura é, e sendo, pode o passado/a memória conservar-se a si mesma. Já mencionamos que Deleuze se refere aos “falsos problemas” e aos “mistos mal analisados” em Bergsonismo, e de fato diz:

A questão: onde as lembranças se conservam? Implica um falso problema, isto é, um misto mal analisado. Procede-se como se as lembranças tivessem de se conservar em alguma parte, como se o cérebro, por exemplo, fosse capaz de conservá-las. Mas o cérebro está por inteiro na linha de objetividade: ele não pode ter qualquer diferença de natureza com outros estados da matéria; tudo é movimento nele (DELEUZE, 1999:41).

Bergson dá, assim, caráter ontológico à memória, e afirma que ela é virtualidade; Segundo Guimarães:

A memória [para Bergson] está sempre integralmente presente, mas sob o modo da virtualidade. Ela nos acompanha por inteiro ao longo da vida, atualizando-se em geral em função das exigências da ação. Na perspectiva inaugurada por Bergson, estamos imersos na duração, em uma temporalidade que dura; nossa memória não consiste de modo algum em uma regressão do presente ao passado, mas, ao contrário, em um progresso do passado no presente. Nosso corpo, com tudo o que o cerca, nada mais é do que a ponta movente que nosso passado empurra, a todo o momento, para nosso futuro GUIMARÃES et alii, 2012).

E como a memória virtual, que é, conversaria com o corpo, a fim de agir?

Por imagens-lembrança, que levam o passado a todo o momento para o presente, encarnando-se na percepção – eis aí o “misto” do qual fala Deleuze; não há, de fato, memória “pura” ou percepção “pura”, uma vez que ambas se irmanam para permitir a nossa vivência no mundo, se contaminam, por assim dizer, e desse misto se engendra a representação. Em resumo, para Bergson, a memória, através de imagens-lembrança, se encarnaria no presente sendo atualizada pela evocação de certas lembranças necessárias à ação ou ao reconhecimento de um objeto em determinado momento, à tomada de uma decisão, um pensamento...

É o gráfico de Bergson:

Se fizermos uma apresentação mais didática do referido gráfico, teríamos:

As imagens-lembrança seriam elementos de operações que vão buscar no passado lembranças que ali foram alocadas (com a respectiva “data”); tais lembranças são atualizadas, justamente, em imagens-lembrança, à semelhança de algo obscuro que vai ganhando nitidez, até finalmente servir ao uso para o qual foram requeridas.

Mas o leitor familiarizado com Bergson já percebeu de imediato um acréscimo nosso no famoso gráfico do “cone”; a mente. Estaremos certo nisso?

Vejamos: a “localização” que lhe atribuímos no gráfico parece arbitrária, mas na verdade deseja dizer da melhor maneira possível que, de direito, entre a memória pura e a percepção pura estaria a mente, como criadora/potencializadora da representação, e ao mesmo

tempo comunicação e elo entre memória e cérebro, ou entre espírito e corpo, se desejar o leitor. Mas a mente como a compreende DEL NERO (1997), bem entendido: criadora de “departamentos virtuais”, extremamente rico e complexo sistema que permitiria, a partir de e com as conexões cerebrais, imaginar, sobreviver, resolver problemas, criar arte, lembrar, fruir, aprender.

De fato, há, como o próprio Bergson afirmou, um misto, e, no caso de nossa suposição, uma irmanação entre cérebro, mente e memória, sem limites discerníveis e cujos processos se dariam o tempo todo por contaminação de uns por outros. Logo, a mente não existiria sem o cérebro, e as lembranças seriam inúteis sem os dois primeiros elementos – julgamos assim emprestar uma possibilidade às ideias propostas por Bergson, fazendo da “zona cinzenta” na teoria bergsoniana sobre percepção e memória área menos obscura, com a introdução da mente.

Assim, a representação seria construída pela memória ao contrair-se, mas com o auxílio da mente, que faria o crivo primeiro na seleção daquilo que queremos recordar, ou que