DE PROFESSORES – CFP
O capítulo discute os corpos negros, abordando-os a partir das narrativas das/os estudantes do Centro de Formação de Professores – CFP/UFRB. Nele, tecemos diálogos com intelectuais que pesquisam e teorizam sobre corpos, levando em conta seus disciplinamentos e entrecruzamentos sociais, culturais, raciais, políticos e educativos.
Os diálogos com as/os autoras/es nos possibilitaram apreender significados e sentidos imputados aos corpos. Com eles/as aprofundamos nossas leituras acerca do modo como estruturas de pensamento distribuídas por diversos processos de formações – escolares, familiares, religiosas, estatais etc., desencadeou processos de produção de subjetivações, portanto, de modo de existências subalternos e subalternizados de uns sobre outros. Tais leituras, análises e as problematizações delas decorrentes nos permitiu acessar ainda mais o modo pelo qual a leniência do Estado com um projeto de sociedade racista e excludente incide, de forma perversa, contra corpos negros, em quaisquer lugar que estes se encontrem na sociedade brasileira.
A seção assim apresenta as noções e teorizações que nos permitiram pensar e escutar corpos negros e os modos de construção e desconstrução de identidades negras.
Recorremos a produção bibliográfica ancorada em noções de corpo que extrapolam o dado da biologia sem dela descuidar; discutimos os processos de escrutínios dos corpos negros em espaços sociais e escolarizados; apresentamos os corpos negros do CFP/URB, suas significações e produções de sentidos; seus sabores e dissabores, e, com eles as identidades intercambiadas, transgredidas, (res)significadas no espaço da universidade e em outros em que eles transitam. Corpos-mulheres. Corpos-homens.
Corpos negros são os corpos que encharcam a seção.
5.1 CORPOS: SOB OLHARES, ESCRUTÍNIOS SOCIAIS E EDUCACIONAIS As percepções e os tratamentos destinados aos corpos são sócio e culturalmente, construídos e inter-relacionados aos processos históricos de cada sociedade. Existem as singularidades individuais, mas, nos corpos, carregam-se valores, comportamentos, marcas das leis, das culturas e crenças que ordenam as várias dimensões da vida das
pessoas, a partir dos seus grupos de pertença (GONÇALVES, 2010). Tais marcas e valores não são fixos e são modificados ao longo da história das sociedades.
Respeitando as devidas especificidades, é notório que, do ponto de vista da dinâmica da vida, das comunidades originárias às sociedades atuais, o proteger territórios contra supostos inimigos; o criar ferramentas/objetos para possibilitar o manejo da natureza; o produzir artefatos para adornar e marcar distinções entre grupos;
assim como o criar novas tecnologias para sobrevivência e combater males que assolam o corpo, foram e são ações realizadas por homens e mulheres para garantir as suas existências no mundo a partir do corpo.
Assim, os usos e abusos dos corpos, em cada contexto histórico, expressam dinâmicas culturais, educacionais, afetivas, religiosas e tantas outras que perpassam as vidas dos sujeitos. Dessa maneira, se pensarmos o corpo como objeto de estudo, até o fim do século XIX, esse exercia um papel secundário para a investigação, por conta da tradição filosófica dominada pelo cartesianismo, em que a alma exercia o papel principal.
Em relação ao dualismo cartesiano do Ocidente, na perspectiva do filósofo africano Mbaegbu (2016), se constitui uma rejeição lógica ou discursiva da dependência entre si do corpo e da mente (alma), pois persistia uma exclusão mútua. Na perspectiva de Mbaegbu (2016, p. 5), ―[...] a interdependência corpo-mente na África é um esquema conceitual ontologicamente fundamentado, pois a força vital difunde bidireccionalmente entre a mente e o corpo‖.
De todo modo é uma percepção que, além de romper com a visão dualista de que corpo e mente (alma) ficam separados ao se opor ao reducionismo cartesiano, convoca-nos a pensar, de forma holística, pois é a força vital que sustenta a unidade entre corpo e mente. Ela é a força viva das coisas animadas e inanimadas (MBAEGBU, 2016),
Ao pensar o corpo como objeto de estudo, para Corbin, Courtine e Vigarello (2011), esse é uma invenção teórica do século XX, quando Sigmund Freud, observando Charcot, decifrou a histeria e descobriu que o inconsciente falava através do corpo.
Courtine (2013) afirma que quando Edmund Hurssel concebeu o corpo como berço original de toda significação, que levou Merleau-Ponty a ver ali a encarnação da consciência, o corpo, a âncora do mundo. E quando Marcel Mauss, na Primeira Guerra Mundial, estranhou a forma diferenciada de marchar e de cavar trincheiras dos soldados
britânicos em relação aos franceses. Tais observações confirmam que ―[...] o corpo foi religado ao inconsciente, colado ao sujeito e inscrito nas formas sociais da cultura‖
(COURTINE, 2013, p. 14).
De todo modo, ainda que o corpo tenha assumido outra importância no século XX, segundo Courtine (2013), a obra inteira de Michel Foucault refutou tal ideia, posto que o lugar secundário ocupado pelo corpo não pode ser atribuído ao campo da Medicina e das Ciências Naturais, muito menos para os múltiplos dispositivos que vigiavam à época a tarefa de disciplinar os corpos, em uma miríade de instituições curativas, educativas e re-educativas, levando em conta:
A surpresa ressentida à aparição do corpo nas ciências humanas se explica, pois, em parte por sua indiferença às preocupações e aos objetos das ciências da vida, assim como por seu distanciamento dos objetivos práticos e políticos dos quais o corpo era o alvo, o terreno, e a ‗bola da vez‘, na vida social (COURTINE, 2013, p. 12).
Poderíamos considerar que a indiferença e o distanciamento das ciências humanas, em relação às questões ligadas ao corpo, deixaram-no à mercê da ação e das lógicas de conhecer, produzir conhecimentos, programas de saúde, higiene e da sexualidade, entre outros campos do saber, tais como o jurídico, a medicina e as ciências naturais. Então, só no século XX, o corpo toma uma posição privilegiada para a compreensão e produção do humano, do social, do político e do simbólico (GÓMEZ, 2002). Ademais, com Foucault, o corpo ascende ao estatuto de ―objeto de pleno direito‖, em que se fortalecem estudos e pesquisas do ponto de vista do controle social, sexual, do adestramento, de como o poder atua sobre ele, como também sobre modos como os corpos foram disciplinados nas sociedades.
Em relação às disciplinas no pensamento foucaultiano, elas são concebidas como métodos que permitem o controle minucioso das operações sobre corpo, que realizam uma sujeição constante das suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade (FOUCAULT, 1987). O filósofo reitera:
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente o aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto é mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que são um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus gestos, de seus comportamentos (p. 164).
Os processos disciplinares já existiam anteriormente aos séculos XVII e XVIII.
No entanto, as reflexões do autor aludem às formas de controle do corpo, instaladas na sociedade no decorrer dos séculos XVII e XVIII. Momento em que as disciplinas se tornaram, a seu ver, fórmulas gerais de dominação. Tais disciplinas, embora remodelassem as suas práticas, mantinham a sujeição dos corpos dos indivíduos. Nas ações disciplinares, os mecanismos utilizados para ―adestrar‖ os corpos fazem-no, no sentido de combater as ditas anormalidades, bem como regular seus comportamentos.
Dessa maneira, docilizam-se os corpos e se delega às instituições, tais como escolas, hospitais, indústrias e tantas outras, o papel de discipliná-los. Intencionalmente, a disciplina ―[...] fabrica corpos submissos e exercitados, corpos ‗dóceis‘‖ (FOUCAULT, 1987, p. 163). Para o filósofo, a disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas forças (em termos políticos de obediência).
No final da década 1960, o ―[...] corpo se pôs a desempenhar os primeiros papéis nos movimentos individualistas e igualitaristas de protesto contra o peso das hierarquias culturais, políticas e sociais, herdadas do passado‖ (CORBIN; COURTINE;
VIGARELLO, 2011, p. 8). Naquele contexto, o aprofundamento das reflexões sobre o corpo tem como desdobramentos mudanças nas relações sociais, tanto na perspectiva do olhar para o seu próprio corpo e de ver o corpo do outro, quanto na compreensão do papel sine qua non que o corpo exerce nas relações em sociedade. Os movimentos se insurgiram contra o modus operandi das instituições que, por meio de seus poderes, regulavam socialmente os corpos, adestrando-os e agenciando-os a partir de verdades, vontades, crenças e padrões de grupos que se hegemonizam no poder.
Assim, as transformações nas percepções e significados dos corpos se realizam, concomitantemente, com as mudanças das sociedades. Os corpos estão atravessados pelos modos como os povos produzem culturas; nos corpos se visibilizam proposições estéticas (as hegemônicas e contra hegemônicas) que ordenam e desordenam o mundo social; nos corpos se enunciam/denunciam políticas e práticas usadas pelas instituições (a família, o Estado, a religião etc.), que tentam ditar formas de experienciar as sexualidades, o lazer e o prazer. Enfim, os corpos não permanecem na penumbra ou inertes ao social, ao educacional, ao cultural, ao político, ou a quaisquer outras dimensões que envolvem a vida. São nos corpos que se expressam os devires humanos que perpassam o mundo social.
Ademais, vejamos como jovens estudantes da UFRB nos apresentam concepções sobre corpos, construindo e (re) construindo os seus olhares em torno das dinâmicas socioculturais, educacionais e políticas vivenciadas em suas corporeidades. Liniker, participante da pesquisa, na sua percepção de corpo, ―desvia‖ da ingerência de um poder disciplinar e defende: ―[...] meu corpo, minhas regras. ‖ Esta afirmação, ele nos contou, foi apresentada por ele, de forma enfática, em um diálogo que teceu com a sua mãe, quando, na tentativa disciplinar o corpo do filho, ela questiona/recomenda-lhe:
―[...] você se expõe demais, pra que essa unha grande? Corte essa unha!‖
Liniker, homossexual e negro, fez a seguinte observação sobre as preocupações da mãe: ―Quando ela me fala: ―você ‗se expõe demais‘, é porque a gente vê, vivencia momentos na vida e na sociedade, que a gente tá construindo esse nosso corpo, e ele tem que ser dócil. E pra ele ser dócil, ele tem que seguir os padrões que essa sociedade impõe‖.
O estudante tem ciência de que o modo como ele adorna o seu corpo está à revelia dos padrões e da heteronormatividade ―que essa sociedade impõe‖. As preocupações da mãe, em relação à exposição do corpo de Liniker, estão, em consonância, com lógicas socioculturais, religiosas e políticas que, historicamente, tentam esquadrinhar/coagir os corpos dos sujeitos, tanto no campo cultural, quanto no social, estético e sexual. Nesses campos, corpos, que transgridem padrões/ordenamentos, são colocados no âmbito da anormalidade, considerados irregulares, (in) dóceis, expostos às variadas formas de violência, são considerados abomináveis, banidos de grupos/comunidades e sempre são/estão reféns do olhar do outro, em eterna suspeição.
No caso em pauta, Liniker, cujo corpo insurreto não quer ser controlado/regulado socialmente, incomoda a própria mãe e, às vezes, causa até ódio aos transeuntes76, pois a unha grande, em um corpo, cujo biotipo é de um homem, destoa dos modelos corporais aprovados pela sociedade e as suas instituições normatizadoras. Por isso a mãe suplica: ―corta essa unha‖. A intenção de tal pedido pode ser adestrá-lo ou, quiçá, protegê-lo da sanha ignominiosa dos escrutinadores homofóbicos, racistas, fascistas e LGBTfóbicos de corpos.
76 Cf. a notícia: Brasil registra 329 mortes de pessoas LGBT+ em 2019, uma a cada 26 horas.
Disponível em: https:/ www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2020/04/23/brasil-registra-329-mortes-de-lgbt-em-2019-diz-pesquisa.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em: 25 dez. 2019.
Ademais, conforme Foucault (1987, p. 166), ―[...] a disciplina é uma anatomia política do detalhe‖. Em relação ao corpo de Liniker, o detalhe da unha grande não passou despercebido aos olhos da mãe, porque essa é refém da ingerência de uma ordem disciplinar que opera de forma minuciosa sobre os corpos. De certa maneira, uma atitude inocente, neste caso, mas que não deixa de ser inadequada e a tentativa de controle está sob a prerrogativa do lugar de mãe que, provavelmente, não estava atenta para as individualidades dos corpos que têm que ser respeitadas.
O participante Emicida em nossa conversa afirma: ―[...] o corpo fala muito da gente, o corpo é algo que tem muita expressividade, é uma forma de linguagem, de se comunicar com o próximo. Diz muito sobre a gente, o corpo‖. Notabilizado, como edificador da nossa existência e da relação com o mundo, ao corpo são delegadas
―responsabilidades‖ sociais, culturais, religiosas, políticas, afetivas e muitas outras. Ao funcionar como uma ―forma de linguagem e de comunicação‖, o corpo fica refém também das lógicas sociais hegemônicas e condicionantes que o vulnerabiliza e tenta aprisioná-lo aos padrões e comportamentos hegemônicos, limitando-o.
Emicida afirma que o corpo ―diz muito sobre a gente‖. Essa afirmação pode ser captada tanto por quem exibe o corpo, quanto por quem o percebe pelo olhar. Esse emana sentidos e relações construídas social e culturalmente. Le Breton (2009, p. 215) considera que ―[...] pousar o olhar sobre o outro não é um acontecimento anódino. Em verdade, o olhar favorece e se apropria de algo para melhor ou para pior. Não é somente um espetáculo, e sim um exercício de poder‖.
Dada tal afirmação, é que não podemos subestimar o papel do olhar sobre os corpos, pois a sua tatilidade busca construir/desconstruir lugares para os sujeitos, bem como perscrutar as suas vidas. Quem olha está ancorado pelo mundo que o cerca, considera-se no direito de definir (às vezes, de forma arbitrária) quem é o outro que está sob custódia do olho. Como pontua Le Breton (2016, p. 94), ―[...] permanentemente os olhos exercem um trabalho de elaboração de sentido‖. O olhar exerce determinado poder, porque sua ação gerencia práticas, comportamentos e normas no âmbito das sociedades.
Em relação ao corpo, a estudante Larissa Luz afirma:
Temos que pensar no corpo para além do biológico, seu corpo fala, quando você fala de uma determinada forma, você se mostra, por exemplo, você tá em sala de aula, ele diz de que religião você
pertence. O corpo é uma coisa que não se acaba por si só. Falo das vestimentas, no caso; do movimento que você faz no corpo. Ele fala muito (Larissa Luz, participante, grifos nossos).
A estudante pensa o corpo além do biológico. Percebe-se que o corpo não é só uma dádiva da natureza. Existe um corpo social implicado na dinâmica cultural, que emite mensagens e produz sentidos. As mensagens podem ser o ―falar‖, o ―mostrar‖, o
―movimento‖ e as ―vestimentas‖. Parece-nos que o corpo exibe uma espécie de repertório, em que a cultura é preponderante, pois informa quem, possivelmente, são os sujeitos e os seus lugares de pertença.
Embora interessante, os elementos assinalados por Larissa Luz, sob os modos como corpos se expressam a partir de suas afiliações, também os deixam ―reféns‖ das regulações sociais. Assim, corpos de mulheres, de negras e negros, homossexuais e muitos outros grupos, foram/são escrutinados pela família, pelo sistema jurídico, pela medicina, religião e pela indústria do consumo. Instituições que tentam silenciar e mascarar as variadas mensagens que tais corpos emitem. Além disso, práticas escrutinadoras ousam ditar falares, fazeres e formas de ser homogeneizantes, destoantes e, às vezes, ―estranhas‖ aos grupos que tiveram seus corpos colocados à margem.
Quanto às mulheres, têm os seus corpos marcados pelas práticas sociais e políticas tirânicas. Para reverter essa situação, Ribera (2017) aponta que o papel do Movimento Feminista, primeiro, foi de denúncia; depois, de propor a ―reconstrução social‖ do corpo da mulher. Tal reconstrução perpassa pelo rompimento com a cultura, de modos de socialização e as normas calcadas em modelos opressores e repressores, pois ―[...] se a visão cultural da mulher é de uma determinada forma, o corpo da forma será construído seguindo estes mesmos padrões; a cultura se materializa na natureza‖. (p.126).
Nesta perspectiva, é a visão cultural que dá forma e opera como estruturante, para que o corpo se enquadre nos padrões. Então, a forma como a cultura concebe a mulher é indissociável da forma como o corpo dela é concebido/compreendido. Por exemplo, quanto mais machista e opressora são as formas culturais das sociedades, menos poder e autonomia as mulheres terão sobre os seus corpos.
Para infringir a codificação sociocultural opressiva que recaía sobre os seus corpos, as mulheres, na década de 1970, gritaram: ―Nosso corpo nos pertence! ‖. Um grito de revolta contra uma ordem social cuja lógica foi o escrutínio e a regulação diuturnos dos seus corpos. Um ato que se contrapunha ao engessamento desses, a favor
do direito ao aborto, da liberdade sexual, bem como do agenciamento dos seus corpos (NOVAES, 2011).
Desta maneira, as mulheres, ao reivindicarem o direito de gerir os seus corpos, lutaram por garantir outros modos de existências, desvinculadas das estruturas opressivas e cerceadoras, sob as quais viviam submetidas e estavam em simbiose com a família, a religião, a educação, tantas outras instituições com princípios e normas adornadas por um tipo de moral, regras de comportamentos que impingiam às mulheres lugares subalternos.
Se tomarmos como parâmetro os corpos das mulheres negras, segundo a estudante Preta Rara, ―a gente fala em corpo, corpo é cor, se fala em corpo e dá um certo nó na garganta‖. Porque a gente tem ―uma luta diária pela sobrevivência, em um mundo, em um país que não nos valoriza e que a gente tem que estar enfrentando, o tempo todo, essas pessoas‖. E exclama: ―Eu sou preta, de pele retinta, eu sou uma mulher negra que tenho orgulho da minha cor, que tenho orgulho do meu corpo, eu luto, eu batalho para me manter do jeito que eu sou! ‖ (Preta Rara, participante, grifos nossos).
A estudante, uma mulher negra, apresenta, de forma categórica, a experiência de ter um corpo/cor, que sobrevive sob a insígnia da desvalorização e, em consequência, a desonra. Além disso, mostra uma percepção de corpo que se opõe à forma unidimensional que, na maioria das vezes, o concebemos, incitando-nos a integrá-lo à sua totalidade. Preta Rara, ao propor a aliança corpo/cor, logo edita o seu malogro, pois tem ciência de que a interseccionalidade (CRENSHAW, 2002) gênero e raça subalternizam o corpo negro, exatamente por conta de um país e um mundo que não o valoriza. Os menosprezos aos corpos de mulheres negras se ancoram em processos históricos que, segundo Santiago, (2012, p. 79):
Trazem profundas marcas, produzidas pelas visões empresariais e biológicas. Mais ainda traz marcas históricas de negação e de espoliação: proibição, castigos e exploração compõem a sua trajetória ontem e hoje. A sua referência corporal se processa, ao longo da nossa história, por meio de violências, dores, fragmentação, separação física e cultural, mutilações, rejeição, abandonos e mortes.
De toda maneira, as condições sinalizadas por Santiago (2012) não são despercebidas por Preta Rara, pois, quando ela faz alusão ao ―nó na garganta‖, parece querer indicar o corpo como ―sistema de expressão‖ (RODRIGUES, 1986, p. 97) que enfrenta, inibe e ou recua diante de experiências que o agride, oprime e o abomina. O nó
na garganta pode, também, significar o ―suportar algo‖, talvez, a desvalorização que sofrem de pessoas que se acham melhores por conta do tom de pele e dos bens materiais, segundo a estudante, mesmo que se lute, diariamente, pela sobrevivência.
Contudo, no atual contexto, persiste um discurso da construção do corpo feminino negro como símbolo de resistência e de afirmação da identidade negra. Desse modo, desconstrói-se a representação hipersexualizada da mulata faceira, para uma ―[...]
imagem de uma mulher negra orgulhosa de si, portanto, valorizada‖ (FIGUEIREDO, 2019, p. 211).
Preta Rara responde aos aliciamentos e opressões sobre o seu corpo contundentemente, ao reafirmar o seu lugar de mulher preta, de pele retinta, que se orgulha do seu corpo, que luta e batalha para se manter do seu jeito. Uma posição construída nas brechas do sistema patriarcal machista, cujo racismo e hierarquias raciais e de classe atingem no âmago, as subjetividades das mulheres negras. As consequências são a falta de uma relação íntima e saudável com os seus corpos, assim como a ausência de respeito e valorização, por parte de alguns homens negros, das corporeidades dessas mulheres, quando se afastam delas e as excluem de vínculos afetivos auspiciosos e de relações emancipadoras.
Para nós, as mulheres negras ainda continuam prisioneiras a um corpo eminentemente marcado por ―[...] atributos físicos, mais particularmente a cor da pele,
Para nós, as mulheres negras ainda continuam prisioneiras a um corpo eminentemente marcado por ―[...] atributos físicos, mais particularmente a cor da pele,