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Com o objetivo de compreender os fatores que podem influenciar a percepção da imagem corporal, utilizou-se o instrumento BSQ (Body Shape Questionnaire) como parâmetro de avaliação para a insatisfação e distúrbios da imagem corporal.

Média Mediana D.P. Min-Max

GRUPO CONTR 23,29 24,00 0,99 20-24

GRUPO OBESO 17,32 18,00 5,68 4-24

GRUPO PRÉOP 17,54 19,00 5,41 4-24

GRUPO PÓSOP 21,64 23,00 3,00 10-24

3.2. Distúrbios da imagem corporal e Gênero

Para verificar se o gênero tem relação aos distúrbios da imagem corporal, utilizou- se o teste Mann-whitney. Ao total, foram avaliados 272 participantes do sexo feminino e 63 do sexo masculino.

Tabela 16 - Gênero e distúrbios da imagem corporal

O gênero feminino possui mais insatisfações e distorções da imagem corporal se comparado ao gênero masculino no instrumento BSQ (p<0,01).

Para verificar se existe correlação do gênero entre os Grupos, foi utilizado o teste para dados categorizados de Cochran-Mantel-Haenszel (CMH).

Figura 18 - Percepção da imagem corporal por gênero, segmentada por grupo.

22 1 0 0 13 22 29 13 17 31 28 6 59 10 8 4

Nenhum Leve Moderado Grave

Média Mediana D.P. Min-Max

Feminino 118,00 121,00 36,90 41-189

Masculino 90,70 92,00 32,19 41-179

Valor p=<,0001

O teste CMH indicou que há diferença estatística entre os grupos na percepção da imagem corporal de acordo o gênero (p<0,01), ao nível de significância de 5%, ou seja, o grupo influencia na relação gênero e percepção da imagem corporal.

Para analisar a percepção da imagem corporal em relação ao gênero por grupo foi realizado o teste X² por grupo.

Tabela 17 - Valor p do Teste X² para o sexo e percepção da imagem corporal

Nos grupos 2 e 3 o gênero influencia na percepção da imagem (p<0,01), ao nível de significância de 5%. 11 0 1 0 15 4 3 1 12 5 1 0 7 3 0 0

Nenhum Leve Moderado Grave

Grupo Valor p GRUPO CONTR 0,29 GRUPO OBES < 0,01 GRUPO PRÉOP < 0,01 GRUPO PÓSOP 0,64 Gênero Masculino

3.4. Distúrbios da imagem corporal e Idade

Para verificar se idade do participante influencia na percepção da imagem corporal foi realizado o ajuste de uma ANOVA. Na tabela a seguir, são apresentadas as medidas descritivas da idade por grupo e a percepção da imagem corporal e o valor p da ANOVA.

Tabela 18 - Medidas descritiva da idade por grupo e percepção corporal

Percepção da imagem corporal

Medida Média Desvio

Padrão Mínimo Mediana Máximo Valor p

GRUPO CONTR Nenhuma 38,55 12,47 23,00 35,00 63,00 - Leve 18,00 - 18,00 18,00 18,00 Moderado 26,00 - 26,00 26,00 26,00 Grave - - - - - GRUPO OBESO Nenhuma 40,39 12,37 22,00 39,00 56,00 0,43 Leve 42,38 10,36 23,00 44,50 61,00 Moderado 37,75 9,79 21,00 36,00 60,00 Grave 39,50 9,14 28,00 38,00 56,00 GRUPO PRÉOP Nenhuma 42,24 11,79 17,00 42,00 63,00 0,22 Leve 40,67 11,45 21,00 38,50 60,00 Moderado 36,52 8,93 25,00 36,00 60,00 Grave 41,83 11,18 33,00 37,50 61,00 GRUPO PÓSOP Nenhuma 44,93 10,78 17,00 43,00 72,00 < 0.01 Leve 41,79 10,84 21,00 41,00 70,00 Moderado 38,05 9,16 25,00 37,00 60,00 Grave 44,90 11,85 33,00 41,00 67,00

Para o Grupo CONTR não foi possível calcular o desvio padrão para as categorias “leve” e “moderado”, pois essas contêm somente uma observação.

Consequentemente, o valor p não foi calculado pela baixa incidência das categorias “leve” e “moderado” no BSQ.

Porém, para o Grupo PÓSOP a idade influencia na percepção da imagem corporal (p<0,01). O mesmo não acontece aos demais grupos (p=0,43 e 0,22 para o Grupo OBESO e PRÉOP, respectivamente), ao nível de significância de 5%.

3.5. Distúrbios da imagem corporal e Depressão

Foi realizado o teste de Mann-whitney para correlacionar a depressão atual à incidência de distorções da imagem corporal nos participantes do estudo. Numa visão geral, 301 participantes não foram diagnosticados com depressão e 34 participantes foram diagnosticados com depressão nos dias atuais.

Tabela 19 - Depressão atual e distúrbios da imagem corporal

Conforme tabela 19, Não é estatisticamente significativa à relação entre o diagnóstico de depressão atual e distorções da imagem corporal.

Para verificar se o diagnóstico de depressão e influencia a percepção da imagem corporal segmentado por grupos, foi realizado o teste para dados categorizados de CMH.

Média Mediana D.P. Min-Max Valor P

SIM 123,82 120,00 38,96 41-186

0,1002

Figura 19 - Percepção da imagem corporal de acordo com diagnóstico de depressão

Através do teste CMH, foi possível observar que há diferença entre os grupos na insatisfação da imagem corporal de acordo o quadro de depressão (p<0,01), ao nível de significância de 5%, ou seja, o grupo influencia na relação quadro de depressão e percepção da imagem corporal no teste BSQ.

31 1 29 0 27 24 29 10 29 33 7 3 58 15 0 3

Nenhum Leve Moderado Grave

2 0 0 0 1 2 3 4 0 3 0 2 8 7 1 1

Nenhum Leve Moderado Grave

Sem diagnóstico atual

O teste X² avaliou a influência do diagnóstico de depressão na percepção da imagem corporal segmentado por grupo.

Tabela 20 - Valores p para depressão e percepção da imagem corporal.

Grupo Valor p

GRUPO CONTR 0,94

GRUPO OBESO 0,07

GRUPO PRÉOP < 0,01

GRUPO PÓSOP 0,18

Apenas para o Grupo PRÉOP o diagnóstico de depressão interfere na percepção imagem corporal (p<0,01), ao nível de significância de 5%.

3.4 Distúrbios da imagem corporal e IMC

Primeiramente, o teste X² verificou que o IMC influencia na percepção da imagem corporal (p<0,01), ao nível de significância de 5%. Assim, realizou-se uma análise descritiva do IMC em relação aos distúrbios da percepção da imagem corporal no BSQ segmentado por grupos.

Tabela 21 - Medidas descritivas do IMC por percepção corporal e grupo.

Percepção da imagem

corporal

Medida Média Desvio

Padrão Mínimo Mediana Máximo

GRUPO CONTR

Nenhuma 22,52 1,97 19,10 23,00 25,00

Leve 23,80 - 23,80 23,80 23,80

Moderado 25,00 - 25,00 25,00 25,00

Percepção da imagem

corporal

Medida Média Desvio

Padrão Mínimo Mediana Máximo

GRUPO OBESO Nenhuma 46,34 7,94 35,60 44,50 70,00 Leve 46,02 6,51 36,70 46,95 61,10 Moderado 45,53 7,20 34,80 44,55 69,80 Grave 44,71 5,92 36,90 43,75 55,90 GRUPO PRÉOP Nenhuma 39,29 4,39 33,00 38,60 51,20 Leve 37,88 3,32 32,00 37,25 46,50 Moderado 37,97 4,53 29,60 37,10 49,00 Grave 37,30 3,17 33,20 36,70 41,00 GRUPO PÓSOP Nenhuma 30,85 6,97 19,00 29,80 51,20 Leve 34,13 6,06 23,00 36,00 46,50 Moderado 36,03 5,76 22,00 35,40 49,00 Grave 34,59 5,76 24,10 35,60 41,00

Pelo teste CMH, a figura a seguir apresenta o IMC (categorizado) pela percepção da imagem corporal e grupos.

Figura 20 - Percepção da imagem corporal por IMC e grupo.

33

1 1 0

24

8

1 1

Nenhum Leve Moderado Grave

Conforme figura 14, 266 participantes estão o IMC elevado (acima de 25). Por intermédio do teste CHM, o grupo não influencia na relação percepção corporal e IMC normal (p=0,57) no instrumento BSQ, ao nível de significância de 5%.

3.5 Distúrbios da imagem corporal e Trabalho

Para verificar a relação entre emprego e percepção da imagem corporal foi realizado teste X² no qual se verificou que não há diferença entre a empregabilidade e percepção da imagem corporal (p=0,04).

Foi realizado o teste para dados categorizados de CMH objetivando perceber se o Grupo tem influência na relação trabalho/emprego na percepção da imagem corporal. Na próxima figura está apresenta da frequência da percepção da imagem corporal de acordo com a empregabilidade segmentado por grupo, e valor p do teste CHM.

28 26 32 14 29 36 29 6 42 14 7 3

Nenhum Leve Moderado Grave

Figura 21 - Percepção da imagem corporal por empregabilidade e grupo. 7 5 6 5 7 9 3 1 14 5 2 0

Nenhum Leve Moderado Grave

3 8 6 4 6 9 8 3 9 2 0 1

Nenhum Leve Moderado Grave

33 1 1 0 18 13 20 5 15 18 18 2 43 15 6 3

Nenhum Leve Moderado Grave

Não Trabalhando

Do Lar

Dos participantes, 211 estão empregados. O teste CHM verificou que o grupo não influencia na relação emprego e percepção da imagem corporal (p 0,43), ao nível de significância de 5%.

3.6 Distúrbios da imagem corporal e atividade física

No teste X², verificou-se que atividade física não influencia na percepção corporal (p=0,47). Para verificar se há diferenças nos distúrbios da imagem corporal entre os participantes que praticam atividade física entre os grupos, foi utilizado o teste para dados categorizados de Cochran-Mantel-Haenszel (CMH).

A próxima figura apresenta a percepção da imagem corporal pela prática de atividade física, segmentada por grupos.

Figura 22 - Percepção da imagem por prática de atividade física por grupo

23 1 1 0 13 10 12 6 27 33 27 5 49 15 5 3

Nenhum Leve Moderado Grave

10 0 0 0 15 16 20 8 2 3 2 1 17 7 3 1

Nenhum Leve Moderado Grave

Ativos

No total de 230 participantes que praticam atividade física, o teste de CMH avaliou que não há diferença entre os grupos para a classificação da percepção da imagem corporal (p=0,88) no teste BSQ, ao nível de significância de 5%, ou seja, o grupo não influencia na relação atividade física e insatisfação da imagem corporal.

DISCUSSÃO

No presente estudo, 81,19% dos participantes são do gênero feminino, predominante em diversas publicações em cirurgia bariátrica 15,91,92,93,94,95. No Brasil, um levantamento de 2001 a 2011 identificou que 82,2% dos pacientes submetidos a cirurgia bariátrica eram mulheres 35. O gênero feminino, exigido socialmente a um corpo ideal durante a história 62,85, também é mais propenso a realização da cirurgia bariátrica. No instrumento BSQ, constatou-se mulheres mais descontentes com a imagem corporal se comparadas ao gênero masculino. Este resultado pode ser comparado a uma pesquisa de 61,708 pacientes submetidos a cirurgia bariátrica no período de 2006 a 2016 94, o qual analisou a influência do gênero sob a percepção da imagem corporal. Como desfecho, reafirma-se questões históricas, culturais e sociais de que o gênero feminino, em constante inadequação a padrões corporais vigentes veiculados pelas mídias (televisão, internet e periódicos), permanece sob forte apelo de indústrias de vestuários e cosméticos, gerando insatisfação com o corpo, fato também discutido em uma análise de conteúdo que entrevistou 20 mulheres obesas. Antes da cirurgia, estas relataram sentir-se julgadas, inferiores e excluídas socialmente 64.

Quanto a trabalho e emprego, grande parte dos participantes estão empregados. Importante ressaltar que, para o Grupo Controle, todos os participantes estão empregados. Porém, mesmo ao desconsiderar o Grupo Controle da análise estatística, ainda sim a maioria dos participantes se encontram empregados. Para o grupo de obesos classe II e III, 23% relataram não ter uma ocupação, apresentando a maior taxa de desemprego entre os grupos. Conforme apontado pela literatura, quanto maior o índice de obesidade, maior dificuldade em trabalhar e conseguir emprego 96. Em estudo de 2016 conduzido por Alfonso-Cristancho et al, 1.265 pós- operados em cirurgia bariátrica foram acompanhados durante três anos. No primeiro ano após a cirurgia, houve uma diminuição de 5% na ausência no trabalho e principalmente do presenteísmo, representando melhor produtividade profissional97. Embora não haja correlação entre empregabilidade e a insatisfação da imagem corporal, é importante ressaltar o impacto da cirurgia bariátrica na produtividade profissional, o que inclui a diminuição de morbidades relacionadas à obesidade, desfavorecendo o absenteísmo.

Observou-se neste estudo que o Índice de Massa Corporal (IMC) impacta na percepção e distúrbios da imagem corporal (p<0,01). Ou seja, quanto maior a pontuação no IMC do participante, maior será a insatisfação e distorção da imagem corporal. Em pesquisa realizada em Portugal com 52 pós-operados, verificou-se que, quanto mais peso um paciente ganha após a cirurgia, mais se sentirá insatisfeito com o corpo. Isto alerta ao fato de que, além do IMC ser interligado a aspectos subjetivos na percepção da imagem corporal, aponta para a seriedade da recidiva de peso na população pós-operada, causando prejuízos metabólicos, tornando-os novamente insatisfeitos com a imagem corporal98.

Do total de participantes envolvidos neste estudo, 68,66% realizam atividades físicas regulares. Entre os grupos, 92% pré-operados e 72% pós-operados relataram ser ativos, se diferenciando de pesquisas que indicam o sedentarismo nestas populações 47,48. Para participantes pré-operados, o alto índice possivelmente se dá pelo envolvimento no Programa de Preparo Pré-Operatório para Obesidade51, o qual incentiva, motiva e orienta para práticas regulares de atividades físicas - forte aliada no processo de emagrecimento. No pós-operatório, os benefícios da atividade física implicam em melhor qualidade de vida. Diversas pesquisas 45,46,47,98 atestam este fato e são reforçadas nos retornos com a equipe multidisciplinar. No presente estudo, a realização de atividades físicas não está estatisticamente correlacionada a distorções da imagem corporal em nenhum dos grupos. Uma das possibilidades se deve a abrangência da atividade física (ou a ideia que um indivíduo tem sobre atividade física) - se limitando a um campo específico da imagem corporal: as formas do corpo. Porém, uma vida ativa pode beneficiar aspectos subjetivos da imagem corporal, como satisfação, bem-estar, autoestima; bem como em aspectos comportamentais de ressocialização, seja em grupos de corrida, caminhada, academias, entre outros.

Apenas 10% dos participantes neste estudo relataram ser diagnosticados por depressão atual, se diferenciando de achados prévios da literatura que apontam maior incidência de depressão e distúrbios psicológicos nestas populações. Entretanto, as referidas pesquisas 91,94,99 avaliam isoladamente a depressão por escalas específicas. Portando instrumentos adequados para o diagnóstico, estes estudos alertam para novos casos de depressão desconhecidos pelo paciente e médico, justificando assim os poucos relatos de depressão encontrados no presente estudo. Ainda, apenas no

grupo pré-operatório o quadro de depressão influencia na percepção imagem corporal (p<0,01). Um estudo prospectivo estadunidense publicado em 2016 por Pona et al.100 apontou que pacientes diagnosticados com depressão no pré-operatório mostram mais preocupação com a imagem corporal se comparados ao momento pós- operatório. Portanto, a depressão, se detectada no pré-operatório, pode impactar na percepção da imagem corporal. Auxiliar o paciente em sua trajetória pessoal e social no enfrentamento da obesidade no período pré-operatório podem refletir positivamente no pós-operatório.

O instrumento Escala de Soresen e Stunkard avaliou que pós-operados tem a percepção da forma do corpo similarmente ao Grupo Controle. Este resultado pode sugerir que, mesmo pós-operados apresentando um IMC médio sensivelmente mais alto (CO-22,62±1,96 PO-27,61±3,87), estes percebem seu corpo similarmente a indivíduos com IMC normal (CO-3,54±1,07 PO 4,57±1,49). Conforme relatado em outros estudos 98,101,102, as vantagens da realização da cirurgia bariátrica podem influenciar na percepção de pertencerem a um corpo normal, auxiliando na autoestima e ressocialização, independente do tempo pós-cirúrgico. Em estudo prospectivo utilizando o instrumento BSQ para a análise de distúrbios da percepção corporal, 109 pacientes pós-operados (após 6 meses e um ano) apresentam melhor imagem corporal se comparados a pré-operados101; o que pode ser visto no presente estudo utilizando o mesmo instrumento: pós-operados apresentaram melhor percepção e satisfação da imagem corporal se comparados a pré-operados e obesos classe II e III.

Em estudo sobre a sexualidade de pós-operados em cirurgia bariátrica, 80% destes se sentem mais atraentes após a cirurgia e 94% de seus parceiros concordam. Além disso, 73% dos pós-operados não se sentem envergonhados ao se despir frente ao parceiro onde há luz103. Estes resultados são similares aos achados do instrumento BIAQ-EA/ER deste estudo, constatando que o Grupo Controle e Pós operado tem melhor relação com as vestimentas, estética (CO-16,80±2,26 PO-15,26±3,21) e facilidade na exposição do corpo (CO-23,29±0,99 PO-21,64±3,00). Sendo assim, é possível notar que os benefícios da cirurgia bariátrica estendem para relações interpessoais saudáveis, inserção ou reinserção do sujeito na comunidade e

essencialmente, favorece a percepção da imagem corporal ao sentir-se mais atraente, possibilitando melhor auto cuidado.

Em contraste aos resultados encontrados no teste de BSQ, o cálculo comparativo entre Grupo Controle e pós-operados com IMC normal há diferença significativa entre eles (p<0,01). Ou seja, pacientes pós-operados com IMC normal possuem mais distorções da imagem corporal se comparados ao Grupo Controle. Esta diferença aponta que, embora os benefícios metabólicos, subjetivos e sociais da cirurgia bariátrica sejam reais, pós-operados vivenciaram trajetórias possivelmente difíceis e tortuosas em busca do emagrecimento, gerando profundas, persistentes e resistentes marcas no psiquismo. Ademais, aspectos da personalidade podem torná- los mais inclinados a sentimentos negativos, isolamento social e auto sabotagem, mesmo quando se encontram em melhor forma física. Uma revisão de 28 artigos publicados destacou a difícil, árdua identificação do indivíduo em relação ao seu novo corpo104. Expectativas irreais, fantasiosas e inconscientes a respeito das mudanças corporais pós-operatórias podem gerar o descontentamento de um corpo idealizado, porém não concretizado, o que desperta a procura por cirurgias reparadoras (plástica). Face as mudanças corporais, novas identificações e papéis sociais na comunidade, é importante que o pós-operado se aposse de seu próprio corpo, individualidade e personalidade. Este processo, se supervisionado pela equipe especializada em saúde mental, leva a uma adaptação mais confortável ao paciente.

Ao comparar o grupo de participantes obesos classe II e III e pré-operados não houve diferença estatística para o instrumento BSQ (p=0,17), ambos possuem insatisfações, dificuldades em expor socialmente o corpo, conforme categoria ER/BIAQ (OB-17,32±5,68; PR-17,54±5,41) e dificuldades em estabelecer autocuidado e boa relação com vestimentas, categoria BIAQ-EA (OB-11,51±4,14; PR- 11,55±3,55). Embora realizado o acompanhamento no Programa de Preparo Pré- Operatório para Obesidade junto à orientação de médicos, nutricionistas e psicólogos e estejam em processo de emagrecimento, a obesidade interfere na insatisfação com o corpo. Por este motivo, o Índice de Massa Corporal (IMC) se relaciona aos distúrbios na percepção da imagem corporal neste estudo. No entanto, devido inserção no Programa de Preparo Pré-Operatório para Obesidade, participantes pré-operados tornam-se mais conscientes e preocupados com os hábitos alimentares, conforme

categoria BIAQ-EC (PR-14,14±3,31). Este resultado reflete sobre a importância do acompanhamento multidisciplinar dedicado ao paciente. O Programa de Preparo Pré- Operatório, com metas bem estruturadas, atua como agente conscientizador sobre as doenças associadas a obesidade, como educador e difusor de bons hábitos de vida (incluindo os hábitos alimentares, atividades físicas regulares e apropriadas, assistência psicológica e psiquiátrica), evitando complicações cirúrgicas, auxiliando a adaptação pós-operatória.

O estudo prospectivo de Almeida, Zanatta & Rezende15 mensurou que pacientes obesos em condições pré-operatórias desejavam corpos mais obesos se comparados ao pós-operatório. Ou seja, é possível que, com o emagrecimento ocasionado pela cirurgia bariátrica, estes passassem a desejar corpos mais magros. Assim como no presente estudo, obesos classe II e III possuem o ideal de imagem corporal mais obeso que os demais grupos (OB-3,95±0,91). No BSQ, obesos classe II e III recebem maior pontuação em distorções da imagem corporal, com média 132,9±31,74 - caracterizado por distorção leve, correspondendo relatos da literatura102,105. Devido a insatisfação corporal, o participante obeso é propenso a uma visão distorcida e depreciativa de seu corpo. A procura pela cirurgia bariátrica para obesos classe II e III neste estudo pode significar certa aversão ao corpo atual e, portanto, à expectativa de modificá-lo. Porém, este desejo por um corpo diferente do atual ainda ressoa às falhas das tentativas buscando o emagrecimento até o momento, gerando baixas expectativas e, por consequência, desejando corpos mais obesos que os demais grupos.

A obesidade de fato gera prejuízos físicos, emocionais e sociais ao sujeito, o qual não raramente, sofre por estes danos. A cirurgia bariátrica, além de eficaz, auxilia em aspectos subjetivos, na percepção das formas corporais, satisfação da imagem e convivência social. No pré-operatório, a equipe especializada em saúde mental (psicólogos e médicos psiquiatras) podem detectar sinais de depressão, ansiedade, transtornos mentais e/ou personalidade, indicando ou contraindicando a cirurgia bariátrica no referido momento, objetivando preparar o paciente para as próximas etapas. Durante o processo de emagrecimento no período pós-cirúrgico, mesmo frente ao resgate da saúde e autonomia do paciente, devido aos efeitos psíquicos ocasionados pela fragilidade psicossocial da obesidade, vê-se necessário o

monitoramento durante a adaptação e auto aceitação do novo (ou esquecido, estranho) corpo. Em outras palavras, sugere-se um acompanhamento multidisciplinar durante toda a vida, visto as particularidades encontradas nesta população.

Por não ser um estudo multicêntrico, uma das limitações do estudo se dá por ter sido realizado somente em um hospital público e, portanto, limitado à generalização dos resultados. Uma das maneiras de ampliar a visão sobre o assunto é realizar o estudo em centros particulares de cirurgia bariátrica e/ou estender para outras regiões. Para as correlações de trabalho e emprego, como a população do Grupo Controle disponível era em sua totalidade empregada, tornou os resultados deste estudo pouco representativo no que se refere às correlações de trabalho e emprego. Outra limitação se deu pelo número de participantes disponíveis para o Grupo Controle. Equiparar a quantidade destes participantes seria ideal, tornando os resultados mais consistentes. O uso de questionários também oferece limitação, devido a sentimentos de aprovação/reprovação, necessidade inconsciente em atender expectativas sociais, receio de julgamentos e outros viéses involuntários advindos do participante.

Durante a realização do estudo, identificaram-se algumas questões correlatas que podem ser temas de estudos futuros, como a investigação das influências midiáticas e redes familiares que influenciam a percepção e insatisfação com a imagem corporal. Estudos qualitativos que reunissem diversos fatores associados a imagem corporal seriam de alto valor afim de refinar os estudos sobre o tema. Também se viu a oportunidade de realizar um estudo prospectivo, acompanhando o paciente desde sua chegada ao Programa de Preparo Pré-Operatório até o pós- operatório.

CONCLUSÃO

No estudo, concluímos:

1. Os quatro grupos, ao serem comparados, possuem diferenças quanto a percepção da imagem corporal:

1.1. O Grupo Controle e Pós-operado se imaginam semelhantemente nas formas do corpo, tem melhor satisfação com a percepção da imagem corporal, auto cuidado e exposição social do corpo (Stunkard/BSQ/BIAQ ER-EA).

1.2. O Grupo Pós-operado apresenta mais insatisfações com a imagem corporal no instrumento BSQ.

1.3. O Grupo Pré-operado e Obeso classe II e III possuem mais distúrbios e insatisfações com a imagem corporal no instrumento BSQ e dificuldades em expor socialmente o corpo no BIAQ-ER.

1.4. O Grupo Pré-operado apresenta mais preocupação com um corpo ativo com hábitos alimentares adequados, se comparado aos demais grupos, conforme BIAQ-EC.

2. Pode-se observar as influências da percepção da imagem corporal nos seguintes fatores:

2.1. O gênero feminino, predominante no estudo, possui mais insatisfação corporal se comparado ao gênero masculino.

2.2. A idade apenas tem relação com a insatisfação da imagem corporal no Grupo Pós-operado.

2.3. O Índice de massa corporal (IMC) influencia a insatisfação da imagem

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