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6. Consequências sociais do pecado

6.2. Corrupção

Abandonar Deus para se "empanturrar" com dinheiro e bens, como forma de poder deteriora e limita sua capacidade de amar das pessoas.

O pecado que se esconde na persistências desses hábitos diários cristaliza-se como corrupção. Entretanto, conforme explicou Jorge M Bergoglio, não importa tanto a quantidade de pecados provocados pela corrupção, mas a qualidade desse mal moral, que habitua o pecador a encolher "cada vez mais a referência do coração a horizontes mais próximos de sua imanência e de seu egoísmo."238

O processo que vai do pecado à corrupção decorre da cegueira, do abandono de Deus às próprias forças. Isto é, prossegue Bergoglio:

"Na base de toda atitude corrupta há um cansaço de transcendência: diante do Deus que não se cansa de perdoar, o corrupto se erige como suficiente na expressão de sua saúde e cansa-se de pedir perdão.239

Por isso Jorge M Bergoglio adverte que é imprescindível ser vigilante, "pois um estado cotidiano de cumplicidade com o pecado pode nos conduzir à corrupção."240 Ademais, essa queda é facilitada pela condescendência da sociedade, como explica o Pe. Mário Marcelo Coelho:

Muitas vezes, a sensação de impunidade tende a fazer com que as pessoas fiquem mais relaxadas e acabam se educando para a cultura da corrupção, ou seja, quem tem predisposição para uma

237 CHARBONNEAU, Paul-Eugène. 1981. Ous cit., pg 143. 238

BERGOGLIO, Jorge M. Corrupção e pecado. Algumas reflexões a respeito da corrupção. São Paulo: Ave- Maria, 2013, p. 17.

239

BERGOGLIO, Jorge M. 2013. Opus cit., p. 18. 240

atividade corrupta se sente mais livre, acreditando que não vai haver punição.241

De fato, a pessoa habitua-se à corrupção sentindo paulatinamente uma suficiência básica, que começa sendo inconsciente e depois é assumida como a coisa mais natural. Mas a suficiência humana nunca é abstrata. É uma atitude do coração concernente a um tesouro que o seduz, que o tranquiliza e o engana242: "E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te", (Lc 12,19) pois "assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus". (Lc 12,21)

Para o corrupto, o que já foi conquistado não o convence de que esse "tesouro" lhe é suficiente, ao contrário, retomando Bergoglio, o suficiente sempre é, no fundo, um escravo desse tesouro e, quanto mais escravo, mais insuficiente na consistência dessa suficiência. Seu coração fica preso sob pressão do desequilíbrio entre o convencimento de se autobastar e a realidade de ser escravo do tesouro, ou de outra forma, entre sua própria suficiência imanente e a incapacidade real de bastar a si mesmo. Sua excessiva adesão ao tesouro que o aprisionou mantém anestesiado seu discernimento moral para o bem. Por isso, o corrupto não percebe sua corrupção e, também por isso, que dificilmente o corrupto pode sair de seu estado por remorso interno243, pois está moralmente degradado.244

É muito oportuno aqui trazer do livro do profeta Jeremias o "lamento de Deus" pela corrupção geral que tomou as ruas de Jerusalém:

"Porquanto perversos se encontram no seio de meu povo, que espreitam, de tocaia, como caçadores de pássaros, armando laços para apanhar os homens. À semelhança de uma gaiola cheia de pássaros, assim estão suas casas repletas (de fruto) de suas presas. Por esta forma tornam-se ricos e poderosos, e se apresentam nutridos e reluzentes; ultrapassam, porém, os

241

COELHO, Mário Marcelo. O mal da corrupção. Disponível em: http://fatimasantoandre.com.br/site/pratica- da-corrupcao-pecado-pessoal-e-social/. Acessado em: 03/04/2015

242

BERGOGLIO, Jorge M. 2013. Opus cit., p. 11. 243 BERGOGLIO, Jorge M. 2013. Opus cit., p. 11. 244

Corrupção vem do latim corruptus, que significa quebrado em pedaços; que dá a ideia de decomposição, putrefação, desmoralização, suborno. Corromper significa “tornar pútrido”, “podre”, e em sentido moral: “moralmente degradado”. Cf. COELHO, Mário Marcelo. Opus cit.

limites do mal. Não procedem com justiça para com o órfão, mas prosperam! E não fazem justiça aos infelizes!" (Jr 5,26-28)

A esse respeito, Francisco fala sobre "a dor do Senhor, a dor de Deus" ante uma geração que não lhe prestou ouvidos e que se justificava por seus pecados, dando-lhe as costas:245

"O coração daquelas pessoas com o tempo se endureceu tanto que ficou impossível ouvirem a voz do Senhor. É muito difícil um corrupto voltar atrás. Os pecadores sim, porque o Senhor é misericordioso e os espera, mas os corruptos ficam presos em suas coisas; e por isso, se justificam".

Diante de tal percurso, reafirma Jorge Bergóglio, "poderíamos dizer que o pecado se perdoa, a corrupção não pode ser perdoada," explicando que o pecador sente sua fragilidade e, como filho de Deus, se humilha e pede perdão. Jesus ainda ensina que se deve incansavelmente perdoar aquele que se arrepende "não (...) até sete vezes, mas até setenta vezes sete". (Mt 18,22) Ao contrário, o corrupto não se arrepende e continua a pecar. E por isso escandaliza, por levar uma vida dupla, escondendo o que faz e fingindo ser o que não é246 e fazendo muito mal para a Igreja, para a sociedade e para a própria pessoa, pois "onde há engano não há o Espírito de Deus"247. Por isso Jesus diz: "Ai do mundo por causa dos escândalos! Eles são inevitáveis, mas ai do homem que os causa!" (Mt 18,7)

A corrupção impede olhar para o futuro com esperança, porque, com a sua prepotência e avidez, destrói os projetos dos fracos e esmaga os mais pobres. A CNBB se posicionou sobre a necessidade de um "combate decidido contra o grave problema da corrupção248:

"A corrupção se nutre da impunidade, acobertada pela conivência, que se torna cumplicidade, incentivada por corporativismos históricos, habituados a usar em benefício de

245

FRANCISCO. Pecadores serão perdoados, corruptos não. 27/03/2014. Disponível em: http://www.news.va/pt/news/papa-aos-politicos-pecadores-serao-perdoados-corru. Acessado em: 27/03/2014. 246

Conforme expressão de Jorge M Bergoglio, "O corrupto tem cara de 'não fui eu'". BERGOGLIO, Jorge M. 2013. Opus cit., p. 9

247

FRANCISCO. Pecadores, sim. Corruptos, não. 11/11/2013. Disponível em: http://www.zenit.org/pt/articles/pecadores-sim-corruptos-nao. Acessado em: 29/04/2015.

248

interesses particulares as estruturas do poder público, seja do Executivo, como do Judiciário e do Legislativo, como de todas as instâncias públicas."

Como parte de uma estrutura de injustiça social, a corrupção não se fecha em si mesma, ela cresce como um arbusto, com a "utilização do poder ou da autoridade para conseguir obter vantagens, fazer uso do bem comum de forma indevida e utilizar o dinheiro público para o seu próprio interesse ou de outros que lhe interessam", mesmo que seja em detrimento "dos pobres, que dependem puramente dos serviços públicos como a saúde, educação, alimentação, previdência, etc."249

A corrupção não tem "limites de fronteiras, envolve a pessoas, estruturas públicas e privadas de poder, e as classes dirigentes"250, por isso é "o joio do nosso tempo", que "se alimenta de aparência e de aceitação da sociedade, se ergue como medida da ação moral e pode consumir a partir de dentro", até causar uma "esclerose do coração"251 e seu desmoronamento pessoal e social. Francisco ainda reforçou o que João Paulo II dissera antes sobre os pecados que clamam aos céus: a corrupção é uma "praga putrefata da sociedade, é um pecado grave que brada aos céus, porque mina as próprias bases da vida pessoal e social"252.

Mesmo assim, conforme previa João Paulo II, a "corrupção é difícil de combater, porque assume múltiplas formas: sufocada numa área, renasce por vezes noutra," sendo "preciso, coragem mesmo só para denunciá-la. O santo papa prossegue, estabelecendo a responsabilidade que cabe ao poder público: 253

Uma grande responsabilidade nesta batalha recai sobre as pessoas que detêm cargos públicos. É seu dever empenhar-se por uma equitativa aplicação da lei e pela transparência em

249

COELHO, Mário Marcelo. Opus cit.;. CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. São Paulo: Vozes. 1993, n. 2409.

250 JOÃO PAULO II. 1999. Opus cit., n. 23. 251

FRANCISCO. Pecadores, sim. Corruptos, não. 11/11/2013. Disponível em: http://www.zenit.org/pt/articles/pecadores-sim-corruptos-nao. Acessado em: 29/04/2015.

252

FRANCISCO. Bula Misericordiae vultus. São Paulo: Paulus, 2015, n. 19. 253

JOÃO PAULO II. Da justiça de cada um nasce a paz para todos. Mensagem para a celebração do XXXI Dia Mundial da Paz. 01/01/1998. Disponível em: http://w2.vatican.va/content/john-paul- ii/pt/messages/peace/documents/hf_jp-ii_mes_08121997_xxxi-world-day-for-peace.html. Acessado em: 29/05/2015.

todos os atos da administração pública. Posto ao serviço dos cidadãos, o Estado é o gestor dos bens do povo, que deve administrar tendo em vista o bem comum. (...) Não se pode permitir de maneira alguma que os recursos destinados ao bem público sirvam para outros interesses de carácter privado ou mesmo criminoso.

Na "luta contra a corrupção", João Paulo II também coloca a possibilidade da Igreja contribuir eficazmente para sua "extirpação", contando para isso, com "uma maior presença de leigos cristãos qualificados que, pela sua educação familiar, escolar e paroquial, promovam a prática de valores como a verdade, a honestidade, a laboriosidade e o serviço do bem comum." Para conseguir este objetivo, prossegue, é preciso ensinar e difundir em larga escala a parte que corresponde à doutrina social da Igreja, conforme está ensinada no Catecismo da Igreja Católica e nos outros documentos do Magistério. 254

Em sua recente bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, Francisco também fala que se não se combate a corrupção abertamente, mais cedo ou mais tarde todos podem se tornar cúmplices, pois ninguém pode sentir-se imune desta tentação que destrói a vida. Mais ainda, continua o papa, permanecer no caminho do mal é fonte apenas de ilusão e tristeza. Faz essa exortação especialmente para "pessoas fautoras ou cúmplices de corrupção", com insistência ainda maior, àquelas "pessoas que estão longe da graça de Deus pela sua conduta de vida e, de modo particular nos homens e mulheres que pertencem a um grupo criminoso, seja ele qual for." Para erradicá-la da vida pessoal e social, prossegue o papa, "são necessárias prudência, vigilância, lealdade, transparência, juntamente com a coragem da denúncia." Mais ainda, é preciso "se deixar tocar o coração diante do mal cometido, mesmo crimes graves," ouvindo "o pranto das pessoas inocentes espoliadas dos bens, da dignidade, dos afetos, da própria vida."255

6.2.1. Como a corrupção se manifesta: poder, absolutização

A pessoa que se sente capacitada a assumir responsabilidades sente-se com o trunfo de fazer valer o próprio conceito ou a própria decisão em determinada situação. Idealmente, as

254

JOÃO PAULO II. 1999. Opus cit., n. 60. 255

diversas formas do exercício do poder na sociedade levariam em si, segundo a reta razão, a vontade essencial do serviço que devem prestar à sociedade inteira.

Sucede que o pecado corrompe o uso que as pessoas fazem do poder. A tendência humana no exercício do poder é de passar, rápida e insensivelmente, de seu uso no limite do que foi adequadamente instituído, para o abuso dos direitos dos outros, Conforme a circunstância, a sede de poder também pode ser uma oportunidade de dominação desleal, fazendo eco ao desejo íntimo de impor aos outros a própria vontade, "a qualquer preço".256 Dessa forma, a força moral que dá autoridade ao exercício do poder, necessário em qualquer sociedade e que deveria assegurar solidariamente uma existência própria da dignidade humana a todos, fica traída quando o objetivo da conquista do poder termina na satisfação pelo próprio poder.257