O cortisol (ou hidrocortisona) é um hormônio glicocorticoide sintetizado a partir do colesterol pelo córtex da suprarrenal, sendo o produto final da ativação do eixo HHA (CHROUSOS; GOLD, 2015). Aproximadamente 95% do cortisol sérico encontra-se biologicamente inativo e associado a uma α-proteína denominada transcortina e à albumina, enquanto apenas uma pequena fração (5%) encontra-se livre e biologicamente ativa na circulação, na urina, saliva e nos tecidos (FUKUDA; MORIMOTO, 2001; CHARMANDARI et al., 2003; GOZANSKY, et al., 2005; LIGHTMAN, 2016). Os glicocorticoides agem ligando-se a receptores específicos na cromatina celular, modulando a expressão gênica de maneira hormônio-dependente (MCNALLY et al., 2015).
A maioria das funções biológicas apresenta padrões de variação gerados por um sistema de temporização endógeno que são persistentes na ausência de pistas temporais e ambientais. Esses padrões de variação são denominados ritmos biológicos, dos quais os mais conhecidos são os ritmos circadianos, cujo período é de aproximadamente 24 horas (DUGUAY; CERMAKIAN, 2009; LIGHTMAN, 2016). Esses ritmos biológicos são essenciais para o controle de atividades neuronais, resposta imune e sono e estão conectados ao SNA, de modo a influenciarem na pressão sanguínea, temperatura corporal, no metabolismo e na secreção endócrina (BABA et al., 2015). Em indivíduos com vigília diurna e sono noturno, a liberação do cortisol ocorre em pulsos e seguindo um padrão circadiano, no qual concentrações máximas são observadas pela manhã (8-9h), com gradual declínio pela tarde e à noite (23-3h).
Durante a primeira metade do sono noturno, a secreção de cortisol é mínima e começa a aumentar de madrugada, por volta de quatro horas da manhã. No restante do dia, sua concentração segue decrescendo continuamente, exceto por aumentos temporários relacionados ao estresse que se superpõem ao ritmo circadiano (KUDIELKA et al., 2007). Além da secreção diária do cortisol ser controlada pelo sistema circadiano, é possivelmente influenciada pela exposição à luz, por distúrbios relacionados ao sono e pela privação de sono, embora neste caso seja difícil atribuir a influência à privação em si ou ao estresse por ela causado (GRIEFAHN; ROBENS, 2010; HYE-SUN; BOKIM, 2015; LIGHTMAN, 2016). Uma característica do ritmo do cortisol é a presença da Cortisol Awakening Response (CAR), que
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corresponde a um pico de secreção cerca de 35 a 40min após acordar (GRIEFAHN; ROBENS, 2010). Nos últimos anos, a CAR tem atraído a atenção de diversos pesquisadores em virtude de sua baixa variabilidade individual, forte componente genético e associação com fatores psicossociais e de saúde, tornando-a um indicador de função e disfunção do eixo HHA (CHIDA; STEPTOE, 2009; LIGHTMAN, 2016).
A ativação do eixo HHA induzida por agentes estressores relaciona-se com alterações nas concentrações de cortisol em diferentes tecidos e fluidos corporais como sangue, urina e saliva. No entanto, amostras de saliva são obtidas por meio de procedimento simples e não invasivo, que pode ser realizado pela própria pessoa em sua residência, mediante aquisição de kits comerciais (CASTRO; MOREIRA, 2003; GOZANSKY, et al., 2005; HELLHAMMER et al., 2009; ANJUM et al., 2011; BOZOVIC; RACI; IVKOVIC, 2013; MALATHI; MYTHILI; VASANTHI, 2014; LIGHTMAN, 2016). Em virtude de sua alta estabilidade, tais amostras podem ser estocadas por longos períodos, sem que a concentração de cortisol seja alterada (OBAYASHI, 2013). Adicionalmente, diversas técnicas laboratoriais têm sido empregadas na determinação do cortisol salivar em humanos, como o Radioimunensaio (RIE), ELISA (Enzyme Linked Immuno Sorbent Assay), quimioluminescência e cromatografia líquida de alta pressão - Highperformance Liquid Chromatography (HPLC). Entretanto, a técnica de ELISA apresenta vantagens sobre as demais, por requerer pequeno volume de amostra e apresentar menor custo relativo (MAIDANA; BRUNO; MESCH, 2013).
Desde a década de 80, diversos protocolos de amostragem e análise do cortisol salivar têm sido desenvolvidos na tentativa de obter indicadores confiáveis do eixo HHA. Se por um lado protocolos baseados em amostras únicas são insuficientes para representar as concentrações diárias deste hormônio, por outro, a obtenção de múltiplas amostras, durante vários dias, torna-se inviável do ponto de vista financeiro e ambulatorial (RYAN et al., 2016; CLEMENTS, 2013; KUDIELKA et al., 2012). Adicionalmente à variação no número de amostras, diferentes indicadores do perfil diário de secreção do cortisol têm sido utilizados em estudos de campo, tais como a diferença entre os níveis de cortisol ao acordar e deitar, a inclinação diurna (slope) ou a medida global da secreção do cortisol (area under the curve - AUC) e a resposta do cortisol ao acordar (CAR). Aumento da CAR tem sido associado com fatores psicológicos e de saúde como depressão, ansiedade, distúrbios do sono, estresse e fadiga crônicos, sugerindo que este parâmetro possa ser um marcador de função e
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disfunção do eixo HHA (GOODIN et al., 2012; POWELL et al., 2012). A CAR também tem sido considerada um indicador da ativação neuroendócrina devido a estresse ocupacional, sobrecarga de trabalho e burnout.
Estudos têm demonstrado que os níveis de cortisol salivar correlacionam- se acuradamente com sua fração bioativa (livre ou dissociado de proteínas), sendo, portanto, amplamente utilizados como marcador psicobiológico do estresse, na avaliação do eixo HHA em desordens psiquiátricas (transtornos de ansiedade, depressão maior, bipolaridade e esquizofrenia), em relação à privação do sono em trabalhadores noturnos, em pacientes com fadiga crônica, no diagnóstico da Síndrome de Cushing, dentre outras condições (CASTRO, MOREIRA, 2003; LEVINE et al., 2007; FOLEY, KIRSCHBAUM, 2010; KUDIELKA et l., 2012; MORENO-PERAL, et al., 2014; BALI, JAGGI, 2015; ZORN et al., 2017).
A avaliação dos efeitos do estresse ocupacional na secreção salivar do cortisol tem apresentado resultados inconclusivos, embora vários estudos demonstrem maior ativação do eixo HHA durante os dias de trabalho quando comparados aos fins de semana, em diferentes tipos de trabalhadores (KUNZ- EBRECHT et al., 2003; SCHLOTZ et al., 2004; THORN et al., 2006; MAINA; PALMAS; FILON, 2008; MOUSTAKA et al., 2015). Adicionalmente, baixos níveis de cortisol ao acordar e declínio diurno ao longo do dia têm sido considerados preditores de fadiga, burnout e exaustão vital (APPELS, 1990; MELAMED et al., 2006; KUMARI et al., 2009; ZORN et al., 2017).