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5. E as políticas para os que TRANSpassaram e agora TRANSitam nesse espaço?

5.4. E o que se tem e o que se precisa? O que dizem e esperam as pessoas trans* das IPES

5.4.2. Eixo 2: Que demandas as pessoas trans colocam para a universidade?

5.4.2.4. Cotas para pessoas trans

Mais uma demanda observada ao longo das narrativas, aparecendo nas falas de Mariah, Benjamin, Jacques e Marina foi a questão das cotas para pessoas trans nas IPES do nosso estado demanda essa que inclusive não é pioneira aqui no nordeste nem no Brasil, pois já há várias instituições de ensino superior que aderiram a esta modalidade para pessoas trans, sendo 12 instituições no total, o que representaria 39% delas. (Maia, 2019)

“E cotas. eu acho que é o essencial, porque se a gente sabe que é pouquíssima na universidade, elas não têm porque....se forem ver a situação de vivência delas [pessoas trans] sabe que é difícil, não é privilégio dar uma bolsa, dar uma cota, fazer uma cota pra ela entrar ali. Porque a universidade, ela abrindo...a UFRN chegando aqui, num edital, digamos 2020.1, uma cota no próprio sistema do SISU pra trans, digamos duas vagas, determinadas. É uma coisa importante? Demais! Eu enquanto

63 Fake News, ou notícias falsas (no português) é um termo usado para designar quando notícias falsas, de cunho duvidoso e geralmente com conteúdos preconceituosos, são divulgadas em massa para a população com o intuito de promover o pânico e a cristalização de preconceitos.

64 Disponível em:

https://www.google.com/search?q=sigla+psl+significado&oq=sigla+do+PSL&aqs=chrome.2.69i57j0l5.5455j0j7 &sourceid=chrome&ie=UTF-8

mulher trans, tô me afirmando como mulher trans, tô concorrendo aquela vaga, eu estou comprovando aqui, que quero chegar. Está abrindo portas? Tá. Porque uma trans concorrendo, não é só mulheres e entre homens no curso no geral, ela pode ficar lá atrás, não é que ela seja menos inteligente, mas ela está a galgar aquele caminho que está sendo difícil , então facilitar um pouco, até porque já foi muito difícil ,e ainda está muito escasso pessoas trans dentro da universidade. (Marina) “[...] Hoje eu vejo a política de cotas como o pessoal do movimento negro fala ‘o Brasil tem uma dívida histórica com o movimento negro,’ mas, o Brasil também tem uma dívida histórica com o movimento trans, nós vivemos nos país que mais mata essa população. Será que se essa população tivesse acesso à educação e a inserção no mercado de trabalho o Brasil mataria essa população como se mata hoje? Será que a transfobia seria tão gritante como é hoje? Se essas pessoas tivessem... se você fosse atendida em um posto de gasolina por uma trans, se você fosse no médico e uma trans te atendesse, se você tivesse na escola e uma trans fosse sua professora, você cresceria com o preconceito? Não, porque o preconceito ele acaba com a convivência. Eu tenho discutido e falando com pessoas elas falam ‘ai, Mariah, eu tinha uma visão das pessoas trans antes de lhe conhecer e eu tenho outra hoje após eu lhe conhecer. Então isso só foi possível porque eu entrei no ensino superior.’

(Mariah)

“[...] E aí eu vejo hoje em dia que se cada curso do ensino superior tivesse uma pessoa trans participando nas exatas, nas humanas, e as pessoas convivessem com essas pessoas, eu tenho certeza além de serem bons profissionais, eles entenderiam as demandas futuras, porque é uma questão de cotas, não é uma questão de beneficiar.”

(Mariah)

“Que essas políticas elas abordam uma única coisa. Eu nem vou dizer que o nome social te dá a permissividade para um milhão de coisas porque ele não dá. Basicamente dá o nome e acaba aí, e é isso, acaba aí. E eu acredito que se houvesse a possibilidade, sei lá, cotas para o ingresso na universidade, cotas para as bolsas estudantis, cotas para sabe... eu acho que, o incentivo a pesquisa, a possibilidade dessa inclusão de pesquisa, de monitoria essas coisas, seria muito melhor.” (Jacques) Essas narrativas estão de acordo também com as dissertações de Scote (2017) e Santos (2017), em que as pessoas trans, colaboradoras dessas pesquisas, afirmam categoricamente o quanto essas ações são necessárias. Indo em direção ao pensamento de Jesus (2016), nem é preciso se discutir sobre o mérito da questão porque diante de dados tão alarmantes sobre a população trans hoje no Brasil e, também a sua marginalização, torna-se óbvio a necessidade de ações afirmativas para essa população, e dentre várias ações, uma delas é se ter cotas para pessoas trans nas IPES. Vale lembrar os dados já mencionados da ANDIFES (2018) que

apontam que, dos 424 mil alunos respondentes a pesquisa, 0,1% se declara mulher trans ou homem trans.

Sobre as ações afirmativas, é importante saber que elas servem para reverter (ou tentar, pelo menos) as desigualdades sociais e desvantagens históricas para determinados grupos sociais que foram marginalizados e/ou excluídos ao longo da história, em áreas que a maioria da população acessa, como a educação ou emprego. Cabe ainda salientar que não se deve ter uma perspectiva de que essas pessoas são inferiores na sociedade por conta de sua incapacidade, mas que diante das circunstâncias históricas, esses grupos precisam de políticas específicas e que visem à superação das condições sociais de exclusão e marginalização nas quais eles se encontram atualmente. São ações que tem como foco inserir grupos sociais em espaços nos quais eles não são nem minimamente representados (Jesus, 2016). Dando um exemplo disso, a nossa própria universidade (UFRN), onde num universo de aproximadamente 40 mil alunos, apenas 10 são pessoas trans e que se tem conhecimento delas.

Apesar da iniciativa, e do saldo positivo que ela pode trazer, atualmente, além dos grupos conservadores e religiosos, temos o atual presidente, Jair Bolsonaro, contra essa medida. O presidente chegou, inclusive, a se posicionar contra o vestibular inclusivo da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) para candidatas(os) transgêneros e intersexuais nos cursos de graduação presencial ofertados pelos Campi do Ceará e da Bahia para ingresso no semestre 2019.2.65 Com o argumento de que as cotas para as pessoas trans são privilégios a esse grupo, o atual presidente da república, vetou essa iniciativa,66 acionando o Ministério da Educação (MEC), desvelando não só seu

65 Disponível em: http://www.unilab.edu.br/noticias/2019/07/10/unilab-abre-processo-seletivo-especifico-para-

pessoas-transgeneras-e-intersexuais-nos-cursos-de-graduacao/ acesso em 10 de setembro de 2019.

66 Disponível em: https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2019/07/16/bolsonaro-anuncia-suspensao-de-

desconhecimento sobre essa questão das ações afirmativas, como a própria transfobia/LGBTfobia que defendeu durante toda a sua campanha à presidência.

Argumentos de que as cotas seriam privilégios vem carregados com tons sensacionalistas, temerosos ou até preconceituosos, e sempre permeiam as questões que envolvem ações afirmativas no Brasil. Além de revelar o total desconhecimento sobre essas ações é necessário entender que as ações afirmativas, no campo sócio-político, não ferem o princípio da igualdade previsto na Constituição, mas sim tentam remediar situações que são visivelmente desvantajosas para determinados grupos sociais, tentando, assim, fazer com que estes grupos acessem, através desses “benefícios”, âmbitos sociais dos quais foram interditados através da história (Jesus, 2015)

Scote (2017), através da fala de suas/seus colaboradores(as) em suas pesquisas, aponta que, assim como as pessoas negras e indígenas que passaram e continuam ainda vivenciando processos de exclusão socioeconômica - justamente engendradas por um processo historicamente constituído, o que acarretou na maioria dos casos, na impossibilidade do acesso à educação ou até mesmo a ampliação dos estudos para esses grupos, que se assemelha inclusive com a questão das pessoas trans - é a possibilidade de haver cotas para pessoas trans como forma de incentivar a democratização desse espaço e garantir igualdade para esse grupo perante outros, visto que ainda são poucos e poucas que chegam ao ensino superior e permanecem. Santos (2017), em sua pesquisa, da mesma maneira pontua a questão das cotas, que inclusive foi posta como sugestão pelos (as) participantes de sua pesquisa.

A ação afirmativa de cotas para pessoas trans é mais do que necessária, entretanto sozinha não solucionará o problema dos dados alarmantes que temos hoje para essa população, mas, por outro lado, essa medida também nos indica um caminho que pode ser benéfico a uma população que está acostumada apenas com o vilipêndio de seus direitos.

Educação também é um direito legado pela constituição às pessoas trans. Ao invés do vilipêndio, afirmar esse direito na prática com medidas inclusivas, é mais do que necessário para garantir não só a escolarização, mas o próprio direito à cidadania plena dessas pessoas. Ser trans e formar é preciso.