• Nenhum resultado encontrado

4. Pensando questões e (trans)tornando-as

4.5. Transcendendo as barreiras do preconceito e transpassando os muros das

Apesar da transfobia ser gritante, ceifando as pessoas trans dos espaços comuns, há ainda pessoas que resistem e que de alguma forma, conseguem se inserir nesses espaços e alcançar títulos que outrora jamais foram pensados.

Isso não quer dizer que a transfobia não esteja presente na vida dessas pessoas, pois ela está não só na vida, mas dentro desses espaços também, o que faz com que estas pessoas tenham dificuldade de permanecer ou que tenham que enfrentar dificuldades diárias inimagináveis às pessoas cisgêneras heterossexuais. Este tópico se propõe a refletir, de maneira breve, sobre essas questões, levando em consideração o acesso ao ensino superior, visto que se trata do objetivo deste trabalho.

O que se tem, geralmente, é que uma grande maioria das pessoas trans, principalmente mulheres trans e travestis, as quais são expulsas de casa, não concluem seus estudos e, que por conta disso, recorrem à prostituição como forma de sobrevivência, já que também as vagas em empregos formais são muitas vezes negadas. Porém, é importante lembrar que esse modelo ainda existe, entretanto, ele não é único quando se fala em relação a pessoas travestis e transexuais. Os enfrentamentos engendrados pelo movimento T ocasionaram novas possibilidades para a realidade contemporânea das travestis (Andrade, 2012).

A própria Luma Nogueira de Andrade, é um exemplo disso, pois ela é a primeira travesti do Brasil que chegou a um doutorado (Andrade, 2012) e a primeira também a concluí- lo. Luma, apesar das dificuldades, conseguiu terminar seu doutorado e também angariou um emprego em uma universidade, a UNILAB (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro - Brasileira)33.

Entretanto, é narrado por ela em sua tese que, mesmo supondo que chegar ao ensino superior ela poderia estar livre de preconceito ou de sofrer transfobia, isso logo foi derrubado quando, em seu primeiro dia de aula, foi xingada de "viado" pelos seus veteranos, isso quando entrou para a Licenciatura Plena em Ciências na Universidade Estadual do Ceará (UECE), além de passar por constrangimentos. Todavia, Luma logrou êxito passando em concursos públicos e, posteriormente, sendo professora do ensino médio no interior do estado do Ceará (Andrade, 2012).

Outro caso marcante no Nordeste, no Rio Grande do Norte (RN), foi o da professora Leilane Assunção Silva, que era Historiadora, mestre e doutora em Ciências Sociais. Leilane se destacava não só pelo seus títulos, mas, também, porque foi pioneira em ser educadora em uma universidade pública do Brasil, nos anos de 2012 e 2013, na Universidade Estadual do

33 Para mais detalhes ver a notícia disponível em:http://g1.globo.com/ceara/noticia/2013/12/universidade-do- ceara-da-posse-1-professora-travesti-doutora-do-pais.html

Rio Grande do Norte (UERN) e na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), respectivamente (Assunção, 2017).

Porém, mesmo estando em uma universidade pública federal e conhecida como "a melhor do Norte e Nordeste", Leilane não deixou de sofrer transfobia. Ainda no doutorado foi impedida de usar o banheiro em um dos setores da universidade, sendo inclusive ameaçada por seguranças e funcionários da instituição.34 Além disso, recentemente a professora teve que passar por um constrangimento ainda maior, pois, já em 2016, como professora substituta da instituição, teve o acesso negado à sala de aula, pois uma das funcionárias não lhe cedeu a chave que abria a porta sob o argumento de que não tinha como saber se ela era realmente professora (Bento, 2016). O que é mais curioso é que a UFRN possui, inclusive, legislação que garante não só o direito à utilização do nome social - aquele com o qual a pessoa deseja ser chamada e se identifica, sendo diferente do nome registrado no documento civil - mas também o direito à autoidentificação de gênero. Isso denota que a questão de pessoas trans já é debatida dentro deste espaço, porém, pelo caso ocorrido, que esse debate precisar ser melhor elaborado e estendido, chegando não só aos alunos mas também aos funcionários da instituição35.

Discorrendo um pouco mais sobre o RN, temos ainda, no Instituto Federal de Ciências e Tecnologias (IFRN), a aluna Rebecka De França, que cursa licenciatura em Geografia, sendo a primeira aluna travesti do IFRN nesse curso. Em uma notícia, ela relata que, antes do IFRN ter o nome social estabelecido, sofria constrangimento, pois o seu nome civil constava na chamada, e que após a aprovação da legislação com o nome social se sentiu aliviada e com

34Notícia disponível em: http://redetrans2011.blogspot.com.br/2012/04/transfobia-na-ufrn.html

35É preciso ressaltar sobre outras pessoas trans que estiveram fazendo pioneirismo dentro desta universidade, onde eu, Emily Mel, fui uma delas, como descrevi lá inicialmente na introdução deste trabalho

mais vontade de estudar nesta instituição36. O IFRN criou recentemente a resolução nº 54/2016 a qual garante e regulamenta o uso do nome social dentro da instituição (IFRN, 2016).

O interessante sobre esses casos relatados é que as pessoas trans* que chegam ao ensino superior - mesmo que poucas - demarcam seu espaço e presença. É visível que, mesmo dentro a esses espaços, a transfobia está presente. Todavia, é interessante notar que estes vão, de alguma forma, pensando as demandas da população T, e tentam criar medidas para atendê- las. Como exemplo, tivemos a criação das resoluções de nome social e assim, contribuem de maneira positiva para a permanência estudantil destas.

Pensar nas demandas das pessoas trans* nesse espaço se faz fundamental caso se objetive a não expulsão dessas pessoas (Bento, 2011). Contribuir para a permanência de pessoas trans nas instituições públicas de ensino superior é ir contra toda a lógica de vulnerabilidade e violência, as quais este segmento está submetido diariamente. É poder dar escolha, a quem muitas vezes, não tem. No próximo capítulo se discute o que atualmente as pessoas trans demandam e agenciam com seus corpos ao chegarem às IPES do RN. Essa discussão está engendrada nos eixos temáticos.

5. E as políticas para os que TRANSpassaram e agora TRANSitam nesse