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O COTIDIANO EDUCA PARA SE COMPREENDER O RITMO DA VIDA

No documento Cidadania e Educação Ambiental: (páginas 49-63)

A teatralidade trágica do cotidiano, que é a realidade da vida em Sociedade, enfatiza o “Estar Junto”, a necessidade de um reconhecimento ao vínculo comum e de que forma o dia a dia do ser humano amplia o espectro de reconhecimento e cumplicidade para com o outro. Essas interações, ocorridas cotidianamente, em acontecimentos que denotam, ora tragédia, ora comédia – e, por vezes, banalida-des -, repetem-se, de forma a sedimentar o momento presente: o único momento capaz de algo ser vivenciado.

Sob idêntico argumento, é nas ações microscópicas do dia a dia, que esclare-cimentos sobre o “Estar Junto” com o outro ocorrem, mas não é de forma natural que esse fenômeno acontece. O contexto da Pós Modernidade enseja aproxima-ção, e o cotidiano educa para que sejam internalizadas as questões relativas ao outro e também ao Meio Ambiente. As interações, as experiências e as vivências diárias não são capazes de abarcar toda esta complexidade, cabendo à Educação formal um papel imprescindível na compreensão da Estética de Alteridade, da Razão Sensível e da necessidade de (re) aproximação do ser humano com a Na-tureza, para a manutenção da vida humana na Terra.

O que foi explicitado neste primeiro capítulo demonstra que, na moderni-dade, a ciência e racionalidade surgiram como solução cabal a todos os males da Humanidade, que por séculos sofreu os efeitos perversos das pragas, das doenças, as guerras, e também da falta de recursos tecnológicos que dificultavam a quali-dade da vida. No decorrer do processo civilizatório, o mundo natural foi utilizado para que os avanços, há pouco tempo inimagináveis, pudessem acontecer.

O processo civilizatório e o progresso das ciências possuem uma face oculta, quando se trata da questão ambiental. A ideia de que esta mesma tecnologia e ciência, aliadas à racionalidade, poderiam contornar as situações críticas a que ela

92 MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências. p. 94.

mesma deu causa, não é sustentável, pois nem mesmo o aparato científico-tecno-lógico mais avançado é capaz de suportar a crise ecológica do Planeta.

Hoje, há uma dificuldade em creditar os acontecimentos naturais como ex-clusivamente naturais, à medida que as ações humanas também causam destrui-ção. É custoso distinguir o que é resultado de um fenômeno natural ou se aquele efeito ocorre por conta da influência humana no meio. Essa relação entre gênero humano e Natureza, oriunda do padrão cultural, rompeu em definitivo com o senso de Responsabilidade e respeito de uns com os outros.

Por esse motivo, a superação de paradigmas deve ser constante e direciona-da à tecnologia, à ciência e à racionalidireciona-dade, pois não cabe à técnica figurar como

“tábua de salvação” aos problemas instaurados. Sem a pretensão de minimizar os benefícios que os avanços tecnológicos trouxeram à vida humana, aduz-se que o conhecimento evoluiu consideravelmente, mas falhou na previsão dos riscos que o progresso – desenfreado - traria à Humanidade, no que se refere à exploração do Meio Ambiente.

O gênero humano não se trata de uma parte isolada, mas sim, é elemento fundamental e integrante do grande lar compartilhado chamado Planeta Terra.

A Humanidade, por mais avanços que tenha conquistado, não foi capaz de de-senvolver uma forma de sobrevivência que seja desvinculada com o meio natural.

O conjunto de elementos que integram a Natureza é indispensável também à vida humana, e por este motivo, é uma necessidade a superação dos paradigmas utilizados até aqui. O que se propõe é o reestabelcimento de vínculos93 que via-bilizem o equilíbrio da relação Homem versus Natureza, por meio de um novo modo de pensar, fundamentado no sentimento de pertença do ser humano com o Meio Ambiente e com novos conteúdos éticos que proporcionem vínculos de Solidariedade entre tudo que é vivo.

Nesta mesma linha de pensamento, Ferrer94 entende que a busca pela har-monia entre as categorias figura como um fio condutor para o adequado progres-so da Humanidade, com vistas no futuro. Em relação à Sustentabilidade, o autor explica que o princípio corresponde à harmonia em todas as dimensões de rela-cionamento da vida humana, e não somente da manutenção da espécie humana no futuro. A proposta de Ferrer guarda ligação com a Cidadania, à medida que o sentimento de pertença e o ímpeto de mudança da atual realidade possibilitariam uma melhora no ambiente físico, na saúde física e mental, na qualidade de vida,

93 Segundo Maffesoli, “[...] o vínculo comunitário, o fato de estar “vinculado” e de ter confiança, se fundamenta na sedimentação de todas essas pequenas coisas. A sedimentação, em seu sentido estrito, gera cultura”. MAFFESOLI, Michel. O tempo retorna. p 25.

94 FERRER, Gabriel Real. Calidad de vida, médio ambiente, sostenibilidad y ciudadanía¿ construi-mos juntos el futuro? Revista Novos Estudos Jurídicos, v. 17, n. 3, Dez. 2012. Disponível em:<ht-tp://siaiweb06.univali.br/seer/index.php/nej/article/view/4202>. Acesso em: 02 abr. 2015. p. 311.

no lazer e tantos outros aspectos positivos que englobam o bem-estar do cidadão.

Este novo paradigma, no entanto, depende de um agir humano que favoreça estas transformações, impulsionado, de forma direta, pela Educação95 com vistas na questão ambiental.

Assim sendo, a qualidade de vida a que se pretende alcançar não engloba somente fatores como emprego, renda, riqueza e consumo, mas corresponde ao ideal proposto por Maffesoli, qual seja: o de que os indivíduos necessitam estabe-lecer vínculos de pertença a seu grupo social e ao meio em que vive.

Nesse ponto, em relação ao Direito, destaca-se: o Direito é um fenômeno cultural que reflete as crenças e valores daquela Sociedade. Se o paradigma uti-lizado em relação à Natureza, é de sua dominação e exploração, as normas legais traduzirão essa posição. Contudo, diante das mudanças que vem ocorrendo nas últimas décadas em relação aos problemas ambientais, o Direito também é capaz de ser elemento transformador, por meio da revolução ambiental, que não se encontra no campo tecnológico, e sim no cultural96.

Não há dúvidas de que os caminhos que trouxeram a Humanidade até o momento presente são tortuosos do ponto de vista ecológico, pois os modelos de desenvolvimento adotados colocam em risco a vida terrena.

A relação do gênero humano com a Natureza deve, em sua essência, ser bela e harmoniosa, na perspectiva de Estética de Alteridade proposta por Maffesoli.

Na mesma linha de pensamento, Gleiser97 esclarece que a vida e a Terra são uma só e este sentimento de pertença deve ser fomentado. Para tanto, questiona-se quais os valores estão sendo propostos para isso, visto que a exploração da Natu-reza ainda é uma realidade.

A alteridade desvela ao gênero humano a necessidade em assumir sua Res-ponsabilidade mediante a crise instaurada, de modo a não justificar, a todo tem-po, os equívocos ocorridos neste âmbito, mas sim, dar legitimidade a uma nova forma de pensamento: não utilitarista, e que suprime, em definitivo, a ideia de progresso às custas do mundo natural. O padrão estabelecido até pouco tempo era de que a racionalidade científica vigorasse, e por esse motivo, admitia-se a relação de exploração com a finalidade de dominar o ambiente natural e, conse-quentemente, subjugá-lo aos interesses e necessidades humanas98.

95 Para Maffesoli, a educação é capaz de integrar. MAFFESOLI, Michel. O tempo retorna.

p. 85.

96 FERRER, Gabriel Real. Novos Estudos Jurídicos, p. 312-314.

97 GLEISER, Marcelo. Criação Imperfeita: cosmo, vida e o código oculto da natureza. 3. ed.

Rio de Janeiro: Record, 2010, p. 223.

98 É no contexto de crise que o movimento social torna-se um rico objeto de análise. Em meio a saturação da questão ecológica, Maffesoli pontua que “[...] quando uma civilização já deu o melhor de si mesma, ela sente a necessidade de retornar a sua origem”. MAFFESOLI, Michel.

Saturação. p. 21.

A crise hoje a ser enfrentada – humana, da ciência, da natureza, das técni-cas – apresenta-se como uma faceta do modelo de desenvolvimento adotado ate aqui. Beck99 salienta que as promessas da Modernidade não são coerentes com a estrutura de seus setores produtivos, sua noção de crescimento econômico, sua compreensão da ciência e da técnica e suas formas de Democracia. Na mesma linha de pensamento, Ferrer100 explica que o grande paradigma da Humanidade é a Sustentabilidade101, ou seja, a vontade de construir uma nova Sociedade capaz de se perpetuar no tempo, e em condições dignas em relação ao social e, também, ao ambiental.

Não é somente a crise da Razão, da Ciência e da Tecnologia que enseja novas formas de ser e pensar. De uma maneira geral, a grande parte da população mundial vive em condições muito ruins, que compreendem fenômenos como aquecimento global, desmatamento, poluição de ar, escassez da água e tantos outros problemas relacionados à questão ambiental, como a miséria, a fome, as desigualdades de renda, a exclusão social, as injustiças, a opressão, a violência, o preconceito e o individualismo, dentre outros. Da mesma forma, a escravidão e a dominação cultural e econômica traduzem, com clareza, as condições insustentá-veis que estão afetam não apenas o Meio Ambiente, mas a própria Humanidade.

Por esse motivo, um dos caminhos propostos à superação das crises102, está em um conceito mais amplo e global, que favoreça a integração e a (re) ligação entre pessoas e as estimule a participar das decisões globais com Responsabili-dade. O elemento chave para um novo tempo diz respeito a esta (re) ligação. A proposta segundo Maffesoli aduz que:

[...] para além da ideologia progressista própria à modernidade, não se pode es-99 Ulrich Beck é o principal pesquisador contemporâneo da Sociedade de Risco. BECK, Ul-rich. La sociedad del riesgo: hacia una nueva modernidad. Barcelona: Paidós Ibérica, 1998, p. 304.

100 FERRER, Gabriel Real. Revista Novos Estudos Jurídicos. p. 319.

101 Nesse ponto, cabe destacar que “as provas científicas de que se é uma espécie basicamente empática trazem consequências sociais profundas e de grande alcance, que podem determinar nossa sorte como espécie, assim como resignificar as dimensões sociais do poder, estabelecendo novos paradigmas, tais como: os paradigmas da sustentabilidade e da solidariedade. No sopro da morte e na celebração da vida na empatia, nos mostramos solidários com nossa compaixão, não apenas entre si, mas para com as nossas criaturas semelhantes, as quais têm uma e apenas uma vida neste pequeno planeta. Empatizar é civilizar, civilizar é empatizar”. FERRER, Gabriel; GLASENAPP, Maikon Cristiano; CRUZ, Paulo Márcio. Revista Novos Estudos Ju-rídicos. p. 1442.

102 Ressalta-se: “[...] as crises são uma precondição necessária para a emergência de novas teorias e para a gênese de novos paradigmas. A crise do paradigma dominante seria o resultado interativo de uma pluralidade de condições sociais e teóricas, como retrato de uma família inte-lectual numerosa e instável, que se despiu com alguma dor dos lugares conceituais, teóricos e epistemológicos, ancestrais e íntimos, mas não mais convincentes e securizantes”. FERRER, Gabriel; GLASENAPP, Maikon Cristiano; CRUZ, Paulo Márcio. Revista Novos Estudos Ju-rídicos. p. 1440.

quecer a herança dos séculos a da tradição, que enfatiza as conexões, as harmonias de bases próprias a toda vida em sociedade. Trata-se aí de um tesouro herdado do passado, que, no presente, prefigura o futuro. Em resumo, “estar com” é a antiga e obsessiva preocupação com a relação: estar religado ao outro103.

No cotidiano, por meio da Razão Sensível e da Alteridade, esse cenário pode ser concretizado, desde que haja consciência de que todos pertencem a um único lar, chamado Planeta Terra, e que compartilhem suas Responsabilidades para a manutenção de todas as formas de vida104.

Em referência à Democracia, mencionada anteriormente por Beck, cabe destacar que os benefícios do progresso atingem apenas uma parcela da popu-lação, ou seja, este acesso é seletivo. Porém, os riscos da exploração da Natureza são socializados a todos, e, por certo, a parcela da população que mais sofre neste cenário são os miseráveis e excluídos.

Como os prejuízos são de ordem mundial e não possuem fronteiras, atingem todas as classes, sendo que as mais baixas sofrem com mais intensidade os efeitos perversos do desenvolvimento, que sacrifica o mundo natural. Sobre essa afirma-ção, comunga-se da seguinte ideia: as miniracionalidades pós-modernas estão, pois, conscientes dessa irracionalidade global, mas, estão, também, conscientes que só a podem combater localmente. Quanto mais global for o problema, mais locais e mais multiplamente locais devem ser as soluções105.

A forma com que ocorre a interação Homem versus Natureza precisa ser repensada, diante da necessidade do sentimento de pertença em relação ao outros e ao meio em que se vive. O movimento, nesse sentido, deve ser com o próximo, é bem verdade, mas também com o Planeta, para que surja, de maneira mais ex-pressiva, uma nova consciência a respeito da Natureza106.

Em medida emergencial, o saber científico e o gerenciamento dos riscos am-bientais não devem ser as únicas alternativas para minimização da crise. Embora o esgotamento dos elementos naturais e a complexidade que envolve o bioma do Planeta Terra sejam questões a serem resolvidas emergencialmente, abre-se pos-sibilidade à adoção de outros modelos de desenvolvimento, como sustentável107,

103 MAFFESOLI, Michel. Homo eroticus. p. 81.

104 FERRER, Gabriel Real. Revista Novos Estudos Jurídicos. p. 324.

105 SANTOS, Boaventura de Souza. Pela Mão de Alice – O social e o político na pós moder-nidade. Campinas: Cortez, 1996, p. 110 e 111.

106 Essa nova mentalidade se torna hierarquizada e mais participativa. Nesse sentido, na nova geração, começa ganhar corpo e a se caracterizar um novo espírito empático, que agora está mais preocupado com a realização do sonho da qualidade de vida. FERRER, Gabriel; GLASENAPP, Maikon Cristiano; CRUZ, Paulo Márcio. Revista Novos Estudos Jurídicos. p. 1443.

107 O Desenvolvimento Sustentável foi conceituado como sendo “aquele que atende às ne-cessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades”. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E

DE-por exemplo.

Para tanto, assumir a Responsabilidade pelo atual estado deste mundo tam-bém é uma necessidade. A crise enfrentada é gravíssima e começa a impactar a vida humana de forma cada vez mais intensa. Por este motivo, as preocupações dos estudiosos estão direcionadas à temas como escassez de água, a poluição do ar, a extinção de animais, alteração em biomas e no clima, e tantos outros ele-mentos que foram alterados devido à ação humana. Nesse sentido, a Carta da Terra preconiza:

Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade ter-restre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida, e com humildade considerando em relação ao lugar que ocupa o ser humano na natureza108.

Como não se rompeu, em definitivo, a linha de pensamento que coloca a Natureza em posição desfavorável e à serviço do ser humano, o progresso a qual-quer custo integra o momento presente. Reconhece-se que Ciência possui um alcance magnífico, mas, por vezes, não é capaz de mensurar os efeitos das ações humanas no Planeta. De fato, a intervenção negativa do ser humano na Natureza é uma realidade e um ciclo que não se rompe: acontecimentos naturais catastrófi-cos somam-se a ação humana e, por esse motivo, a situação é preocupante.

Por outro lado, a mudança de consciência a respeito destas questões é uma realidade. Iniciou-se o processo do rompimento de paradigmas - como aquele que denota a Natureza como bem ou à serviço da Humanidade, conforme a linha de pensamento de Descartes109 - porque ser humano e Natureza possuem uma ligação direta. Partindo da premissa de que, por acontecimento natural ou vonta-de divina, o gênero humano é hervonta-deiro do Planeta, a catástrofe povonta-derá ser ainda maior, mesmo que estas sejam as orientações de várias civilizações e de algumas

SENVOLVIMENTO. Nosso futuro comum. 2.ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1991, p. 46.

108 Carta da Terra. Disponível em: http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/

agenda-21/carta-da-terra. Acesso em 5 de julho de 2015.

109 A famosa expressão de Descartes é, segundo Maffesoli, “[...] a pretensão moderna: um su-jeito senhor e possuidor da natureza, ator da sua própria historia e da historia do mundo”. Essa afirmação denota um paradigma que precisa, com urgência, ser superado em definitivo. MAF-FESOLI, Michel. O ritmo da vida. p. 106.

religiões (especialmente a cristã e hebraica). Esse pensamento acirra ainda mais a relação Homem versus Natureza e é alvo de crítica de Boff, que aduz:

O antropocentrismo é ilusório porque o ser humano foi um dos últimos seres a aparecer no cenário da evolução. Quando a Terra estava pronta em 99,98% de sua realidade, surgiu a espécie homo, com a capacidade singular de ser consciente e inteligente, mas isso não lhe confere o direito de dominar os demais seres. Ao contrário, o mesmo Gênesis coloca o ser humano no Jardim do Éden para cuidar e guardar esta herança que Deus lhes deixou (Gn, 2,15). Esta visão é ecológica e deve ser resgatada e não a outra. O que agrava o antropocentrismo é o fato de colocar o ser humano fora da natureza, como se ele não fosse parte dela e não dependesse dela. A natureza pode continuar sem o ser humano. Este não pode sequer pensar em sua sobrevivência sem a natureza. Além do mais, ele se colocou acima da natureza, numa posição de mando, quando, na verdade, ele é um elo da corrente da vida. Tanto ele quanto os demais seres são criaturas da Terra e junto com os seres vivos nós formamos, como insiste a Carta da Terra, a comunidade de vida110.

O ponto de vista trazido pelo autor derruba, em definitivo, os discursos de cunho religioso para legitimar a prática de exploração à Natureza. A Humani-dade depende do Planeta para promover sua subsistência e desenvolvimento. A ação humana no sentido de explorar o mundo natural de forma irresponsável tem demonstrado ser prejudicial à harmonia da vida humana com a Natureza. A in-formação hoje está mais acessível e assim, as dimensões dos problemas ambien-tais são disseminadas. A degradação ao Meio Ambiente, que ocorreu de forma mais intensa na Revolução Industrial, foi questionada a partir do aparecimento dos primeiros sinais de uma Natureza esgotada.

A consciência da finitude dos elementos naturais contribuiu para o fim da seguinte ideia: a Natureza é um objeto a serviço de um ser pensante, dotado de racionalidade, que domina os recursos com a tecnologia e a ciência, buscando o progresso, a qualquer custo.

Abandona-se esta ideia e retoma-se o pensamento das sociedades tradicionais, qual seja: a ligação do gênero humano com a Natureza e a participação do sujeito em um lar comum.

A ideia correspondia à sinergia com o Meio Ambiente, e o Planeta crescia de forma natural, sem a intervenção humana de forma tão intensa. O utilitaris-mo era limitado à subsistência das tribos ou das famílias. O mundo natural era domesticada e dominada sem maiores prejuízos, sem manobras de manipulação.

Porém, por muito tempo, a chamada “metástase do ego”111 fomentou a

visuali-110 BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: o que é e o que não é. Petrópolis: Editora Vozes, 2012, p. 69.

111 MORIN, Edgar. La vía para el futuro de la humanidad. Tradução de Núria Petit Fontseré.

zação dos próprios interesses, indo ao encontro do progresso desenfreado que seduziu a Humanidade. Nesse aspecto, cabe destacar:

Ha aportado los lados más sombríos del individualismo: el egocentrismo, la au-tojustificación (que suscita la incomprensión del otro) y el afán de lucro [...] Ha destruido la solidaridad tradicional sin crear otra que la sustituya y, como resulta-do, se han multiplicado las soledades individuales. Al desarraigar y crear guetos, se plantan las semillas de la criminalidad112.

Numa perspectiva diferenciada, pretende-se disseminar a ideia de que a Na-tureza é uma parceira obrigatória à manutenção da vida humana na Terra. Não se trata de contrastar a Humanidade com os demais seres, mas sim, de fomen-tar vínculos de Responsabilidade e principalmente de pertença, que absorvam a ideia de lar comum113, no cotidiano. Uma mudança de pensamento neste sentido não é tarefa fácil, e, por este motivo, a Educação é imprescindível, já que rupturas e transformações são processos longos e lentos. A Sustentabilidade é um con-ceito moderno que precisa ser ensinado, incorporado e vivenciado no dia a dia das pessoas. Um desafio tão complexo, que é superar o individualismo em prol de uma compreensão sistêmica da Sustentabilidade, enseja uma “[...] tomada de consciência de pertencimento a uma mesma terra-pátria” 114.

Morin salienta que sem uma reflexão e uma nova consciência sobre o mun-do globalizamun-do e os modelos de sociedades, dificilmente se conseguirá enfrentar

Morin salienta que sem uma reflexão e uma nova consciência sobre o mun-do globalizamun-do e os modelos de sociedades, dificilmente se conseguirá enfrentar

No documento Cidadania e Educação Ambiental: (páginas 49-63)