Cidadania e Educação Ambiental:
Novas perspectivas a partir da Transnacionalidade
Editora Deviant 2015
Editor Cassiano Calegari
Conselho Editorial Dra. Janaína Rigo Santin Dr. Edison Alencar Casagranda
Dr. Sérgio Fernandes Aquino Dra. Cecília Maria Pinto Pires Dra. Ironita Policarpo Machado
Dra. Gizele Zanotto Dr. Victor Machado Reis Dr. Antonio Manuel de Almeida Pereira
Dr. Eduardo Borba Neves Dr. Wilson Engelmann
Editora Deviant LTDA Sede: Erechim-RS Rua Clementina Rossi, 585.
CEP: 99704-094 www.deviant.com.br
Categoria: Filosofia; Educação; Direito Constitucional Produção Editorial
Editora Deviant LTDA
Todos os Direitos Reservados ISBN: 978-85-69114-29-1
Impresso no Brasil Printed in Brazil
M467 Pellenz, Mayara
Cidadania e Educação: Novas Perspectivas a partir da . Transnacionalidade / Mayara Pellenz
175 fl. : il. ; 23cm.
Orientador: Sérgio Fernandes de Aquino.
Dissertação (mestrado) - IMED, Graduação Stricto . Sensu em Direito da Faculdade Meridional
Programa de Pós-Graduação em Direito, 2015.
ISBN: 978-85-69114-29-1
1. Direito 2. Cidadania 3. Educação. I. Fernandes de Aquino, Sérgio, orient. II. Título.
CDD 340.01
Cidadania e Educação: Novas Perspectivas a partir da . Transnacionalidade / Mayara Pellenz
175 fl. : il. ; 23cm.
Orientador: Sérgio Fernandes de Aquino.
Dissertação (mestrado) - IMED, Graduação Stricto . Sensu em Direito da Faculdade Meridional
Programa de Pós-Graduação em Direito, 2015.
ISBN: 978-85-69114-29-1
1. Direito 2. Cidadania 3. Educação. I. Fernandes de Aquino, Sérgio, orient. II. Título.
CDD 340.01
A
os meus pais, pela alegria, pelo incentivo na busca dos meus objetivos, pela compreensão das minhas falhas humanas, e que são a tradução mais pura e sincera daquilo que se chama Amor.Foi com imenso prazer que recebi o convite da Professora Mª. Mayara Pel- lenz para apresentar sua obra Cidadania e Educação Ambiental: Novas perspec- tivas a partir da Transnacionalidade.
Seu compromisso é deveras significativo, visto que este tema está em perma- nente debate na academia, não só pela Ciência Jurídica, mas também por outras áreas do saber.
Na conjuntura social atual, destaca-se a importância do livro que ora está sendo entregue, tanto a comunidade acadêmica quanto a sociedade. A mensagem central da obra é a necessidade do ser humano lançar um novo olhar em direção à Natureza, em uma perspectiva holística e de integração com tudo o que é vivo.
Demonstra-se, neste livro, a união de duas categorias: Educação e Direito. É sinalizado, desde as primeiras linhas, o modo como a Ciência Jurídica é alinhada ao universo da vida e do cotidiano das pessoas.
Oferta-se ao público uma produção científica de excelente qualidade, como concretização de um projeto iniciado nos primeiros encontros do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito da Faculdade Meridional – IMED – Passso Fundo, RS.
Discutir a temática da Educação com viés ambiental exige coragem, em um país marcado pela Educação como privilégio, e não como Direito Fundamental.
Embora haja discrepâncias nesse sentido, a obra busca contribuir com a expan- são do conhecimento por meio da difusão do saber e do compartilhamento das pesquisas realizadas durante o Mestrado.
O resultado da caminhada e do desenvolvimento de habilidades nesse tem- po de amadurecimento intelectual e científico, culmina no lançamento desta obra, como fruto de sementes germinadas desde as lições iniciais sobre Susten- tabilidade.
Devido à pertinência do tema, a obra não é somente endereçada a estudio- sos e pesquisadores da área jurídica, mas também à sociedade como um todo, para que esta possa refletir a respeito do que aqui será apresentado, qual seja, a
A consolidação da pesquisa traduzida nesta obra demonstra também o comprometimento da autora, com a discussão de viés teórico e doutrinário sobre o tema. Nos dias atuais, oportunizar a reflexão sobre estas questões, que envolvem valores tão expressivos ao corpo social, é também um exercício de Cidadania.
No primeiro capítulo, a autora aborda a necessidade de uma Razão Sensível e do “Estar-Junto”, como fundamento Estético da Alteridade. Chama-se atenção ao fato de que os fenômenos do cotidiano sinalizam uma nova forma de pensar a Razão, o desenvolvimento e as relações humanas.
No segundo capítulo, o leitor encontrará fundamentos sobre a Educação Ambiental como pressuposto de uma Cidadania Ambiental. Questiona-se, num primeiro momento, de que modo é possível educar para uma era sustentável.
Nesse ponto, a autora defende a ideia de que a Educação Ambiental é uma estra- tégia para o enfretamento da crise ambiental contemporânea.
No terceiro capítulo é descrita a necessidade do redimensionamento da ca- tegoria Cidadania diante do fenômeno da Transnacionalidade, e de que forma o Tratado Constitutivo da UNASUL oportuniza esta condição no cenário sul-a- mericano.
A leitura da obra revela a seriedade da autora, ao utilizar-se da linguagem científica com clareza, alimentando o espírito do leitor. As lições sobre Educação e Cidadania Ambiental demonstram a necessidade da Estética de Alteridade para a concretização de um projeto ético-comunitário, pautado no reconheci- mento do Outro e na preservação do mundo natural.
Votos de uma boa leitura!
Professora Mestre Daniela dos Santos
Mestre em Direito, Democracia e Sustentabilidade pela Faculdade Meridional - IMED;
Especialista em Direito Civil e Processual Civil pela URI; Bacharel em Direito pela Universidade de Passo Fundo; Professora convidada da Universidade de Passo Fundo, como ministrante da disciplina Legislação de Trânsito em Cursos de Extensão Univer- sitária; Professora de Direito Tributário e Empresarial na Universidade de Passo Fundo.
M
uito me alegrou – e honrou – o convite feito pela Professora Mayara Pellenz, que, no dia 09 de setembro de 2015, defendeu, com a qualidade acadêmica que lhe é peculiar, a sua dissertação de Mestrado intitulada: Cidadania e Educação ambiental: expres- sões para uma estética de alteridade pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sen- su em Direito da Faculdade Meridional - IMED.É interessante ressaltar ao leitor ou leitora, ainda, duas condições as quais não posso deixar de registrar nesse momento: a) o cuidado e zelo com que a auto- ra realizou seus estudos de Mestrado, a qual, dentre suas atividades, participou de vários seminários, inclusive internacionais, bem como desenvolveu, de modo pri- moroso, Estágio de Docência sob a minha orientação; b) a solicitude em ajudar a organizar eventos e obras acadêmicas a fim de sempre buscar o conhecimento, com humildade científica1, para socializa-lo, seja com seus colegas ou alunos.
Essa é uma virtude que, infelizmente, poucos cultivam.
Graças ao empenho e zelo da autora nos seus estudos, posso destacar um duplo mérito na sua trajetória acadêmica: a) a de ter defendido a primeira dis- sertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Direito da IMED e; b) de sua banca de defesa ter sido composta por Professores de alta qualidade acadêmica nacional e internacional, dentre os quais, cito: A Coorde- nadora de Área em Direito da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES – Professora Doutora Cláudia Rosane Roesler, o Coordenador do Programa de Mestrado em Direito da Faculdade Meridional – IMED – Professor Dr. Márcio Ricardo Staffen e o Embaixador Erasmus pela Universidade de Perúgia na Itália – Professor Doutor Maurizio Oliviero.
Os diálogos, as sugestões, os debates estão sintetizados, agora, nesse livro o qual pode ser lido e relido pela comunidade cientifica, mas, especialmente por
1 “[...] é a atitude (tendência interna) de reconhecimento de que nunca se sabe tudo sobre algo, seguida de ação (comportamento efetivo) que busca, pela aprendizagem, a superação de nossas áreas de ignorância, com leitura de Livros, Jornais e Revistas e com o diálogo com outras pessoas.”. PASOLD, Cesar Luiz.
Metodologia da pesquisa jurídica: teoria e prática. 12. ed. São Paulo: Conceito Editorial, 2011, p. 202.
sentido [sempre mais] desejável ao convívio, desde o ambiente local ao global. A leitura é indicada para cursos de graduação e pós-graduação lato sensu de diferen- tes áreas do saber humano.
Por esse motivo, a inquietação da Professora Mestre Mayara Pellenz é perti- nente aos nossos tempos de indiferença com nossos semelhantes, mas, inclusive, com as vozes estrondosas que suplicam por respeito, mas são silenciosas aos se- letivos ouvidos dos seres humanos: a Natureza. O convívio sereno entre ambos a fim de se permitir vida em abundância a todos é o pressuposto necessário para uma paz significativa e duradoura, em outras palavras, reconhece-se os diferentes atores os quais desempenham seus papéis nesse imenso theatrum mundi.
A Cidadania, nesses termos, não é fenômeno apático, indiferente com as mazelas que ocorrem tanto no ambiente nacional quanto global. Essa expressão deve insistir na importância do diálogo acima mencionado porque ali desvela-se como o Outro não é algo que deva ser eliminado, ignorado ou marginalizado porque não atende, imediatamente, aos nossos interesses, mas demonstra a pro- fundidade (oceânica) de nosso vínculo eco-biológico com a Terra. A Alteridade, como bem rememora Lévinas, é essa experiência de infinição do infinito2 que destaca a nudez do “Eu” diante do “Tu”. A epifania desse choque permite que, temporalmente, se possa questionar, duvidar, por em suspensão (a epoché fenome- nológica) esse ir e vir dialogal sintetizado na expressão “Eu-Tu-Mundo-Nós”.
Cidadania requer ação de cuidado e zelo com humanos ou não humanos.
Não é por outro motivo que a autora soube escolher os referenciais teóricos do se trabalho que desenvolvem ideias e práxis para que essa expressão não tenha os limites traçados pela legislação nacional, mas se transforme, aos poucos, num status moral, de responsabilidades comuns no globo capaz de sinalizar nossas preocupações e indignações3 contra aquilo que violenta, degrada, oprime e supri- me possibilidades de uma vida qualitativa, digna para humanos e não humanos
2 A ideia do infinito, conforme Lévinas, “[...] não é uma noção que uma subjectividade forje casualmente para reflectir uma entidade que não encontra fora de si nada que a limite, que ultrapassa todo limite e, por isso, infinita. A produção da entidade infinita não pode separar-se da ideia do infinito, porque é precisa- mente na desproporção entre a ideia do infinito de que ela é ideia que se produz a ultrapassagem dos lim- ites. A ideia do infinito é o modo de ser – a infinição do infinito. O infinito não existe antes para se revelar depois. A sua infinição produz-se como revelação, como uma colocação em mim da sua ideia. Produz-se no facto inverossímil em que um ser separado fixado na sua identidade, o Mesmo, o Eu contém, no entanto, em si – o que não pode nem conter, nem receber apenas por força de sua identidade. A subjectividade realiza essas exigências impossíveis; o facto surpreendente de conter mais do que é possível conter”. LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito. Tradução de José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 2000, p. 14.
3 “Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isto é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade, mas não da liberdade descontrolada da raposa no galinheiro. Esses direitos, cujo programa a Declaração Universal redigiu em 1948, são universais.
Se você encontrar alguém que não é beneficiado por eles, compadeça-se, ajude-o a conquistá-los”. HES- SEL, Stéphane. Indignai-vos!. Tradução de Marli Peres. São Paulo: Leya, 2011, p. 16.
Dentre os autores trabalhados, pode-se citar: Michel Maffesoli, Enrique Leff, Eduardo Gudynas, Andrew Dobson, Leonardo Boff, Moacir Gadotti, An- tonio Enrique Pérez-Luño, Lizt Vieira, Adela Cortina, Paulo Freire, Eduardo Bittar, Norberto Bobbio, Zygmunt Bauman, entre outros. Todos realizam pro- fundas críticas ao nosso atual modo de convivência que despreza a vida como fundamento primeiro de um projeto civilizacional global.
A Cidadania Ambiental demonstra como, no cotidiano, é preciso compre- ender a dinâmica de uma Ecologia Integral4 que se movimenta, silenciosamente, nessa galeria subterrânea sem que se perceba a sua importância, pois precisa-se sobreviver nessa competição eterna ditada por uma globalização econômica. Per- cebe-se que a Sustentabilidade, pelo seu caráter polissêmico, é o tema transversal entre todos os países do mundo.
A compreensão e práxis da Sustentabilidade não privilegia um Direito am- biental nacional, cuja Natureza se torna patrimônio, coisa, objeto de todos para sua exclusiva manutenção e preservação intra e intergeracional. Ao contrário, demonstra a necessidade de se empreender ações que sejam convergentes ao bem de tudo e todos. A eficácia da Sustentabilidade como preocupação global precisa da inspiração de atitudes que ocorrem na dimensão local, no cotidiano de cada cultura deste território terrestre.
É nas adversidades desse espaço mencionado – cotidiano – que se reconhece a necessidade de sua mudança para outros cenários os quais insistam, historica- mente, no aperfeiçoamento, na amplitude, na consolidação de um diálogo antes inexistente. Percebe-se como as relações pessoais, a sua proximidade, o contato com a Natureza, a importância de sua estética como fonte de inspiração ao con- vívio sereno reivindica um esclarecimento perene acerca do porquê a manuten- ção desse cenário no cotidiano é preferível a qualquer ambiente de cerceamento das liberdades, de degradação da igualdade de obliteração da Fraternidade.
Entretanto, nenhuma Cidadania ativa, a qual insiste na atitude transforma- dora de todos os sujeitos, se modifica, se transforma e se torna uma utopia concre-
4 “[…] como as diferentes criaturas se relacionam, formando aquelas unidades maiores que hoje cham- amos ‘ecossistemas’. Temo-los em conta não só para determinar qual é o seu uso razoável, mas também porque possuem um valor intrínseco, independente de tal uso. Assim como cada organismo é bom e ad- mirável em si […], o mesmo se pode dizer do conjunto harmônico de organismos num determinado es- paço, funcio nando como um sistema. Embora não tenhamos consciência disso, dependemos desse conjunto para a nossa própria existência. Convém recor dar que os ecossistemas intervêm na retenção do anidrido carbônico, na purificação da água, na contraposição a doenças e pragas, na compo sição do solo, na decom- posição dos resíduos, e muitíssimos outros serviços que esquecemos ou ignoramos. Quando se dão conta disto, muitas pessoas voltam a tomar consciência de que vi vemos e agimos a partir duma realidade que nos foi previamente dada, que é anterior às nossas capacidades e à nossa existência. Por isso, quan do se fala de ‘uso sustentável’, é preciso incluir sempre uma consideração sobre a capacidade re generativa de cada ecossistema nos seus diversos sectores e aspectos”. FRANCISCO. Laudato si: sobre o cuidado da casa comum. São Paulo: Paulus/Loyola, 2015, p. 86/87.
a necessidade do cuidado, da ética, da responsabilidade, somente ocorre devidos às andarilhagens históricas6 promovidas pela Educação ambiental. Ao se meditar os significados sobre a Cidadania e Educação ambiental no cotidiano observa- -se, aos poucos, a sua mudança para a promoção da dignidade, da esperança, da inclusão, da participação.
A dimensão educacional nos ensina que as responsabilidades cidadãs não têm como destinatários apenas os seres humanos, mas tudo no qual demanda reconhecimento como “ser próprio”, bem como seu cuidado. Nem a Natureza, tampouco os seres humanos, devam ser colonizados, explorados, violentados. No decorrer do tempo, observou-se como ambos foram tratados pelo status de pa- trimônio.
Entretanto, a escravidão humana teve um fim [essa é uma afirmação um pouco duvidosa] mais recente que a desmedida exploração do mundo natural para atender aos [infinitos] desejos das pessoas. O respeito aos ciclos regenera- tivos e reprodutivos da Terra, o seu cultivo para extrair o que essencialmente se precisa para se ter uma vida boa, serena, é a atitude empreendida pela Cidadania ambiental, cujo fundamento de uma sensibilidade capaz de fomentar uma Es- tética da Convivência é a Educação ambiental. Por esse motivo, a autora insiste:
Essa relação de cumplicidade entre ser humano e Meio Ambiente precisa ser fomentada no mundo vida. O caráter utilitário do mundo natural prevaleceu e revelou a irresponsabilidade da Humanidade diante da exploração daquilo que é componente da Natureza. A situação do Planeta é preocupante, mas entende-se que a Cidadania Ambiental é uma das ações que contribuem para uma mudança de paradigma. Muito além das fronteiras do Estado-nação, os cidadãos devem es- tar cientes de suas Responsabilidades acerca dos elementos que integram o grande lar compartilhado chamado Terra. Esse cenário também diz respeito a Educação, como vetor para essa mudança de paradigma, sendo fundamental, desde a infân- cia, internalizar uma Ética voltada para o respeito mútuo entre as criaturas. Desse modo, a fim de que a crise de valores da Sociedade de hoje seja minimizada, os processos educativos possuem um papel fundamental para que, no futuro, novos cenários sejam realidade. A Educação, destinada à Cidadania Ambiental enfatiza a importância dos valores e das ações humanas para a transformação humana e social do Planeta. A Educação Ambiental possui o condão de estimular a forma- ção de relações mais comprometidas e por consequência harmonizar a conduta dos seres humanos com o lar em que vivem.
5 “[...] O ponto de contato entre sonho e vida, sem o qual o sonho produz apenas utopia abstrata e a vida, por seu turno, apenas trivialidade, apresenta-se na capacidade utópica colocada sobre os próprios pés, a qual está associada ao possível-real. [...] aqui teria lugar o conceito de utópico-concreto, apenas aparentemente paradoxal, ou seja, um antecipatório que não se confunde com o sonhar utópico abstrato, [...]”. BLOCH, Ernst. O princípio esperança. Tradução de Nélio Schneider. Rio de Janeiro: EdUERJ/Contraponto, 2005, v.1, p. 145.
6 FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000, p. 90.
de um mundo puramente ideal ao estilo da República de Platão ou a Cidade de Deus de Santo Agostinho. Ao contrário, a sua viabilidade se torna mais e mais factível, es!pecialmente quando se observa a delimitação territorial dessa expressão proposta pela autora da obra. O exercício cidadão em prol da Natureza ocorre, com maior clareza, a partir daquilo que ao Tratado Constitutivo da União de Nações Sul-Americanas – UNASUL.
Desde o seu preâmbulo à descrição de uma Cidadania nos moldes de seu artigo 18, observa-se algo muito distinto daquele modelo teórico, de fundamen- to puramente nacional, o qual se depreende da leitura de inúmeros manuais de Direito Constitucional. A cultura sul-americana, expressa no referido tratado, não estimula tão somente as relações humanas, mas demanda a preocupação com outro sujeito igualmente importante para a manutenção da Terra: a Natureza.
A Cidadania, quando compreendida sob o ângulo da ação, ocorre somente entre sujeitos. A atitude humana, por um lado, destina-se ao cuidado de seus semelhantes e da Natureza. As manifestações do mundo natural, por outro, am- pliam e desenvolvem condições favoráveis à vida, mesmo nos ambientes mais inóspitos. Verifica-se, nessa linha de pensamento, como o equilíbrio se perpetua no tempo porque todos os sujeitos se reconhecem pelas suas próprias característi- cas, linguagens ou cognições8.
A partir de todos esses argumentos, o leitor ou leitora já consegue visualizar a importância da obra apresentada. Nenhuma pesquisa, nenhum estudo pode se desenvolver numa “câmara de ecos”, na qual o seu autor ou autora escuta e se de- licia com o som da sua própria voz intelectual. Todo conhecimento deve exercer uma função social, seja pelo esclarecimento, pela integração, pela mobilização, pelo reconhecimento ou transformação do[s] ambiente[e] o[s] qual[is] se vive.
Esse é um mérito que a Professora Mestre Mayara Pellenz soube fazer com se- renidade no decorrer de seus estudos.
Parabenizo, ainda, a Editora Deviant pela oportunidade de trazer ao pú- blico uma obra com qualidade acadêmica reconhecida e que merece ser lida e
7 “[...] A Quimera, figura de alhures, é certamente utopista pelo fato de que através dela se percebe o processo de destruição/reconstrução que leva de um mundo real a um outro mundo real (suposto): o ser fantástico mostra que o real atual é ordem relativa que uma desordem poderia transformar em outra ordem.
Mas Utopia não é uma Quimera: ela é (imaginariamente) o tempo do processo, ou seja, uma nova realidade cuja essência aparece diretamente na existência”. LACROIX, Jean-Yves. A utopia: um convite à filosofia.
Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 65.
8 “A cognição, portanto, não é a representação de um mundo que existe independentemente e por si, mas antes a contínua produção de um mundo através do processo do viver. As interações do sistema vivo com seu ambiente são interações cognitivas, e o próprio processo do viver é um processo de cognição. [...]. À medida que o organismo vivo segue seu próprio caminho de modificação estrutural, cada uma das mudanças que compõem esse caminho corresponde a um ato cognitivo, o que significa que aprendizado e desenvolvimento não passam de dois lados da mesma moeda”. CAPRA, Fritjof. As conexões ocultas: ciência para uma vida sustentável. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Cultrix, 2005, p. 52.
da Natureza, não permaneça na obscura marginalidade uma Razão puramente instrumental.
Primavera nas terras de Passo Fundo, 22 de outubro de 2015.
Professor Sérgio Ricardo Fernandes de Aquino
Doutor e Mestre em Ciência Jurídica pela Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI.
Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu – Mestrado – em Direito da Faculdade Meridional – IMED. Coordenador do Grupo de Pesquisa: Ética, Cidadania e Sustentabilidade. Líder do Centro brasileiro de pesquisa sobre Amartya Sen: interfaces com direito, políticas de desenvolvimento e democracia. Membro asso- ciado do Conselho Nacional de Pós-Graduação em Direito – CONPEDI e da Associa- ção Brasileira do Ensino de Direito - ABEDI.
Introdução . . . . 18
Elogio ao cotidiano: espaço para uma Estética de Alteridade no Século XXI . . . . 25
A necessidade de uma Razão Sensível . . . . 29
O Estar Junto como fundamento Estético da Alteridade . . . 38
A teatralidade trágica do cotidiano . . . . 42
O cotidiano educa para se compreender o ritmo da vida . . . . 48
Educação Ambiental como pressuposto de uma Cidadania Ambiental . . 63
Educar para uma era sustentável . . . . 64
Aspectos Históricos da Educação Ambiental . . . . 66
A Educação Ambiental no Brasil . . . . 72
Educação Ambiental: para que(m)? . . . . 76
Cidadania e a Educação Ambiental: (im)possibilidades . . . . 96
Fundamentos para uma cidadania ambiental a partir da UNASUL . . . . . 129
Caminhos para o desvelo da Cidadania Ambiental . . . . 131
Em busca de uma Cidadania Ambiental Transnacional . . . . 136
Cidadania Ecológica ou Ambiental? Diálogos entre Dobson e Gudynas . . . . 140
A UNASUL como espaço de exercício de uma Cidadania Ambiental . . . . 150
Conclusão . . . . 160
Referências . . . . 164
Introdução
E
sta obra propõe-se analisar um novo modelo de Cidadania que vai além da conceituação tradicional. Trata-se de uma metamorfose da categoria, que se encontra redimensionada diante dos fenômenos da Globalização e da Transnacionalidade. Em uma sociedade pós-mo- derna, multicultural, transnacional e com influência direta dos processos de glo- balização, o conceito de Cidadania precisa ser revisitado, possibilitando a inte- gração jurídica e social.Embora a categoria Cidadania tenha mantido sua força até os dias atuais, seu significado desvela novas características, e extrapola o vínculo Estado-nação, sofrendo transformações no tempo e no espaço. Por ser uma construção histó- rica, assim como os Direitos Humanos Fundamentais, oriunda das lutas e con- quistas iniciadas especialmente no contexto da Revolução Francesa, é evidente que o conceito de Cidadania é modificado com a passagem do tempo.
As novas perspectivas históricas são vivenciadas e, assim, há necessidade de um redimensionamento do vínculo jurídico e político, que transcenda a relação indivíduo-Estado, num sentido horizontalidade e de pertencimento entre os in- tegrantes do corpo social. Desse modo, a Cidadania adquire novos significados à luz dos Direitos Humanos Fundamentais e efetiva-se, de forma mais ampla, em espaços onde o processo democrático é estabelecido.
A partir destes novos cenários, a Cidadania adquire uma faceta voltada à questão ambiental, como critério de integração planetária. O sentimento de per- tença e de um vínculo antropológico comum, capaz de unir os cidadãos do mun- do, é um vetor para a retomada da Responsabilidade1 destes pelo seu agir com-
1 Para Jonas, a marca distintiva do ser humano, de ser o único capaz de ter responsabilidade, significa igualmente que ele deve tê-la pelos seus semelhantes, eles próprios, potenciais sujeitos de responsabilidade, e que realmente ele sempre a tem, de um jeito ou de outro: a faculdade para tal é a condição suficiente para a sua efetividade. Ser responsável efetivamente por alguém ou por qualquer coisa em certas circunstâncias (mesmo que não assuma e nem reconheça tal Responsa-
portamental. Quando se trata do Meio Ambiente2, estas condições ficam ainda mais evidentes, à medida que a crise ambiental possui uma dimensão transfron- teiriça e impacta no mundo todo.
Para que seja possível conviver com esta nova realidade, é necessário o resga- te de valores humanitários3, como a Ética4. Destaca-se essa categoria como parte de um projeto político de nível global, capaz de assegurar o exercício de uma Cidadania Ambiental. Propõe-se o agir cívico ético, pautado na harmonia e na convivência voltada ao Outro e ao meio em que se vive, viabilizando condições de agradabilidade entre tudo que é vivo.
Por esse motivo, a Ética é elemento-chave na caminhada da Humanidade rumo ao futuro, a partir do resgate de valores que devem permear, sob um novo paradigma, a vida humana e sua relação de interdependência com o mundo na- tural. Essa condição possibilita a materialização de uma Sociedade sustentável, com espaços compartilhados e democráticos, essenciais na troca de experiências e no ideal de participação ao qual a Cidadania se propõe.
A Ética e a Estética de Alteridade5 são capazes de fomentar a Cidadania em
bilidade) é tão inseparável da existência do homem quanto o fato de que ele seja genericamente capaz de Responsabilidade da mesma maneira que lhe é inalienável a sua natureza falante, carac- terística fundamental para a sua definição, caso deseje empreender essa duvidosa tarefa. JONAS, Hans. O Princípio da Responsabilidade: ensaio de uma ética para uma civilização tecnológica.
Rio de Janeiro: PUC Rio, 2006, p. 175.
2 O Meio Ambiente representa o conjunto das condições exteriores da vida do indivíduo ou dos grupos, os conceitos de meio ambiente e meio-ambiente são sinônimos e tratam do fato de que o contexto em que os seres humanos vivem não é inerte e que o estudo da paisagem revela as relações sociais predominantes na sociedade, especialmente as diferenças culturais e as relações de trabalho e de propriedade”. LEONELLI, Vera. Dicionário dos Direitos Humanos. Salvador: UNICEF, 2002, p. 55 e 56. Disponível em: <http://
www.dhnet.org.br/direitos/militantes/veraleonelli/leonelli_abc_direitos_humanos.pdf>. Acesso em: 26 de junho de 2015.
3 A categoria Valor significa o Juízo de preferência proferido por humano que decorre “[...] não da sua limitação, como ‘recurso’, para um animal de segunda classe, desprovido de uma carapaça instintiva forte, mas da excelência da natureza humana, precisamente livre, e capaz de conduzir a sua vida não por tiques inscritos no código genético ou no genoma, mas por horizontes de possibilidades face aos quais o Homem, senhor do seu destino, (ainda que limitado por si e pela sua circunstância, pano de fundo do seu drama), decidirá soberanamente”. CUNHA, Paulo Ferreira da. O ponto de Arquimedes: natureza humana, direito natural, direitos humanos. Lisboa: Almedina, 2001, p. 55.
4 A categoria Ética significa a ação humana política destinada a averiguar quais são as condutas consideradas razoáveis para a vida de uma Sociedade. A finalidade dessa atitude demonstra-se pelo exercício da virtude habitual. Essa prática se caracteriza pela busca perene da excelência moral e intelectual. AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Rumo à Cidadania Sul America- na: reflexões sobre a sua viabilidade no contexto da UNASUL, a partir da Ética, Fraternidade e Sustentabilidade. Tese de Doutorado, 338 páginas. Itajaí-SC, 01 de março de 2013, p. 21.
5 Para conceituar a categoria, destaca-se, inicialmente, que a “[...] a estética pós-moderna, mais ampla, não se limita às belas-artes ou às obras da cultura, mas contamina o conjunto da vida co- tidiana e torna-se uma parte nada desconsiderável do imaginário contemporâneo”. Dessa forma, a vivência cotidiana inspira uma sensibilidade capaz de estruturar a necessidade de um “Estar Junto” em prol do coletivo, e não apenas com vistas na individualidade. MAFFESOLI, Michel.
A transfiguração do político: a tribalização do mundo. Tradução de Juremir Machado da Silva.
Porto Alegre, Sulina, 2006, p. 188. A Estética de Alteridade corresponde à necessidade do Outro
uma dimensão planetária e global. As transformações que se almejam alcançar dizem respeito à adoção de novos comportamentos e a construção de horizontes comuns, a partir do respeito, da não exploração da Natureza e da criação de es- paços democráticos para efetivação da Cidadania, destacadas nesta obra. Assim, reconhece-se que não é possível concretizar a Cidadania Ambiental se não esti- ver presente a Ética, como elemento capaz de oportunizar patamares mínimos comuns de uma convivência transnacional.
Na busca da Sociedade sustentável, a Sensibilidade6 e a Solidariedade7 tam- bém devem estar presentes, pois possibilitam experimentações humanas e com- pletas, sem limitação geográfica e a partir de interações sociais mais fortalecidas.
Em comunhão, busca-se a harmonização de todas as formas de vida, a par- tir de um sentimento de pertença que seja disseminado em toda a coletividade.
Nesse ponto, insiste-se: o agir humano ético é um dos vetores para a superação da crise ambiental.
Com a modificação das categorias jurídicas e políticas mais importantes, no tempo e no espaço, devido às transformações sociais contemporâneas, a Cidada- nia adquire novos significados. Como critério de união, o Meio Ambiente sus- tenta essa nova categoria, a partir de uma perspectiva horizontal, e não somente vertical, a qual remete a ideia de pertencimento e vínculo a um Estado –nação.
Reflexões nesse sentido levam a estruturação de uma Cidadania Ambiental, com a participação de todos e a valorização da vida, em seu sentido mais amplo.
Além disso, o estreitamento dos vínculos entre os seres permite a vivência do paradigma da Sustentabilidade8, como forma de aproximação entre tudo que é
para a sua própria sobrevivência. Por isso, o Estar Junto é merecedor de atenção: pressupõe tole- rância, respeito, união, coletividade, compartilhamento e comunitariedade. As individualidades não são desconsideradas e, nesta perspectiva, compreende-se a individualidade a partir do diá- logo e da vivência com a outra pessoa e com o meio ambiente. Trata-se de uma individualidade estendida, na qual a proporção do conviver oportuniza a união das pessoas, e destas com o meio em que as cerca.
6 Esta, significa “[...] a capacidade do ser humano de perceber como seu semelhante sente. A sensibilidade volta-se, igualmente, para as coisas do mundo e eleva o espírito para certo estado de sublimidade. Nenhum dos dois caminhos (ser humano e coisas do mundo) excluem o Homem como centro de todos os fenômenos sensíveis”. SILVA, Moacyr Motta da. Direito e sensibilidade.
In: DIAS, Maria da Graça dos Santos; MELO, Osvaldo Ferreira de; SILVA, Moacyr Motta da [Orgs]. Política Jurídica e pós modernidade. Florianópolis: Conceito Editorial, 2009, p. 221.
7 A categoria Solidariedade não pode ser compreendida em um único conceito. Afirma Moraes que a solidariedade apresenta diversas facetas, representada “[...] como um fato social do qual não podemos nos desprender, pois é parte intrínseca do nosso ser no mundo; como virtude ética de um reconhecer-se no outro (que “faz do outro um outro eu próprio”) ainda mais amplo do que a justa conduta exigiria (dar ao outro o que é seu); como resultado de uma consciência moral e de boa-fé ou, ao contrário, de uma associação para delinquir; como comportamento pragmático para evitar perdas pessoais e/ou institucionais. Fato social, virtude, vício, pragmatismo e norma jurídica são os diferentes significados do termo”. MORAES, Maria Celina Bodin de. O Princípio da Solidariedade. Disponível em <http://www.idcivil.com.br/pdf/bibliote- ca9.pdf>. Acesso em: 21 de março de 2015, p. 07.
8 É a compreensão acerca da capacidade de resiliência entre os seres e o ambiente para se deter-
vivo. Desse modo, é possível estruturar a Cidadania Ambiental à medida que se observa como os cidadãos estão inseridos em espaço único compartilhado, como é o caso da América do Sul. O Meio Ambiente é um critério que oportuniza esta condição de união e pertencimento.
Na contemporaneidade, os reflexos da Pós-Modernidade9 demandam o re- dimensionamento de significados, categorias, símbolos e conceitos a despeito da relação do Homem versus Natureza. As necessidades oriundas do autal momento histórico sinalizam para uma perspectiva de integração e de “Estar Junto” com o outro, no grande lar compartilhado chamado Planeta Terra.
A relação de cumplicidade entre ser humano e Meio Ambiente precisa ser fomentada no mundo vida. Por muito tempo, o caráter utilitário do mundo na- tural prevaleceu e revelou a irresponsabilidade da Humanidade diante da ex- ploração daquilo que é componente da Natureza. Diante da crise ecológica de dimensão transfronteiriça, entende-se que a Cidadania Ambiental é uma das ações que contribuem para uma mudança de paradigma.
Muito além das fronteiras do Estado-nação, os cidadãos devem estar cientes de suas Responsabilidades acerca dos elementos que integram o grande lar com- partilhado chamado Terra. Esse cenário também diz respeito a Educação10, como vetor para essa mudança de paradigma, sendo fundamental, desde a infância, internalizar uma Ética voltada para o respeito mútuo entre as criaturas. Desse modo, a fim de que a crise de valores da Sociedade de hoje seja minimizada, os processos educativos possuem um papel fundamental para que, desde já, novos cenários possam ser visualizados.
A Educação, destinada à Cidadania Ambiental enfatiza a importância dos valores e das ações humanas para a transformação do Planeta. A Educação Am- biental possui o condão de estimular a formação de relações mais comprometidas e, por consequência, harmonizar a conduta dos seres humanos em relação ao mundo natural. Por este motivo, a Educação é uma categoria imprescindível na
minar - de modo sincrônico e/ou diacrônico - quais são as condições favoráveis à manutenção, adaptação e perpetuação da vida equilibrada, seja humana ou não humana, a partir de uma matriz ecosófica que se manifesta pelos critérios biológicos, químicos, físicos, informacionais, éticos, territoriais, culturais, jurídicos, políticos, tecnológicos, científicos, ambientais e econômicos.
9 Segundo Bittar, “A pós modernidade é, por isso, como um movimento intelectual, a critica da modernidade, a consciência da necessidade de emergência de uma outra visão de mundo, a consciência do fim das filosofias da historia e da quebra de grandes metanarrativas, demandando novos arranjos que sejam capaz de ir além dos horizontes fixados pelos discursos da modernida- de”. BITTAR, Eduardo C. B. O Direito na pós-modernidade: reflexões frankfurtianas. 2. ed.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009, p. 146.
10 Nesta obra, a categoria será designada como a “[...] formação, como processo de conhecimento, de ensino, de aprendizagem, se tornou, ao longo da aventura no mundo dos seres humanos uma conotação de sua natureza, gestando-se na história, como a vocação para a humanização [...]”. FREIRE, Paulo. Política e educação. 7. ed. São Paulo: Cortez, 2003, p. 20
construção de uma Cidadania Ambiental, a partir de práticas educacionais que enfatizem uma nova visão acerca da manutenção da vida do Planeta e da Huma- nidade, a partir do disposto no artigo 18 do Tratado Constitutivo da UNASUL.
Desse modo, o propósito desta obra é, junto ao leitor, desvendar de que modo a Estética da Alteridade é capaz de, cotidianamente, influenciar e definir os alcances da Educação Ambiental para sustentar um modelo de Cidadania Ambiental, a partir do que o Tratado da UNASUL se propõe.
O primeiro capítulo desse livro denomina-se “Elogio ao Cotidiano: espaço para uma Estética de Alteridade no Século XXI” e abordará a necessidade de uma Razão Sensível e do “Estar-Junto” como fundamento Estético da Alteri- dade. É preciso, num primeiro momento, definir o espaço para uma Estética de Alteridade no Século XXI, para viabilizar uma experiência de cumplicidade entre humanos e não humanos. O “Estar-Junto” com o Outro é condição para que esta vivência seja possível
No segundo capítulo, o debate central será sobre a Educação Ambiental como pressuposto de uma Cidadania Ambiental. A análise perpassa por questio- namentos de como educar em uma era sustentável, esclarecendo que a Natureza não é objeto, nem patrimônio.
No capítulo 3 reflete-se a respeito da Cidadania. Nesse ponto, serão estuda- das as metamorfoses da categoria, a partir de uma perspectiva transnacional e de que forma é possível identificar e estruturar uma Cidadania Ambiental “presen- teísta” no contexto sul americano, a partir do Tratado Constitutivo da UNASUL.
O livro, como produto de pesquisa cientifica, apresenta o rigor metodoló- gico necessário para o esclarecimento do leitor e, para tanto, o método utilizado é o indutivo11. Parte-se da premissa menor que é o espaço do cotidiano como estimulador de uma Estética da Alteridade entre ser humano e Natureza. Nessa linha de pensamento, e integrada à perspectiva da Educação, consolida-se, por meio da premissa maior, qual seja, a transformação da Cidadania na qual com- preenda e preserve, mais e mais, o mundo natural. As técnicas utilizadas serão a pesquisa Bibliográfica12 e Documental.
11 “[...] base lógica da dinâmica da Pesquisa Científica que consiste em pesquisar e identificar as partes de um fenômeno e colecioná-las de modo a ter uma percepção ou conclusão geral”.
PASOLD, Cesar Luiz. Metodologia da pesquisa jurídica: teoria e prática. 12. ed. São Paulo:
Conceito Editorial, 2011, p. 205.
12 “[...] Técnica de investigação em livros, repertórios jurisprudenciais e coletâneas legais”. PA- SOLD, Cesar Luiz. Metodologia da pesquisa Jurídica. p. 207.
Capítulo 1
Elogio ao cotidiano: espaço para uma
Estética de Alteridade no Século XXI
A
o se observar a trajetória da Humanidade nos últimos três séculos, percebe-se inúmeras mudanças na vida humana e, também, na So- ciedade13. Ocorreram transformações extremamente significativas, com um impacto considerável na Humanidade e na Natureza. As mudanças foram impulsionadas pelos ideais surgidos à época do Iluminismo14 e alcançou seu auge na Era Moderna. Chegou-se à contemporaneidade, com evolução significativa nas ciências, na tecnologia e na comunicação. De fato, há poucos anos atrás, não se imaginava as perspectivas e a realidade em que se vive hoje, fruto de fenômenos como a Globalização15 e o capitalismo.O ser humano alcançou sua autonomia a partir do movimento iluminista ocorrido no Século XVIII. Não obstante existissem dificuldades para se compôr o progresso civilizacional, verifica-se que a Liberdade16 e a autodeterminação do
13 “A sociedade, enquanto fenômeno humano, decorre da associação dos homens, da vida em comum, fundada na mesma origem, nos mesmo usos, costumes, valores, cultura e história. Cons- titui-se a sociedade no e pelo fluxo das necessidades e potencialidades da vida humana, o que implica a experiência tanto da solidariedade, do cuidado, quanto da oposição, da conflitividade.
Organização e caos são polos complementares de um mesmo movimento – dialético – que dá dinamismo à vida da sociedade”. DIAS, Maria da Graça dos Santos. Sociedade. Dicionário de filosofia política. BARRETO, Vicente de Paulo [Coord.]. São Leopoldo, RS: Unisinos, 2010, p. 487.
14 “Embora não constituindo o único movimento cultural da época, o Iluminismo foi a filosofia hegemônica na Europa do século XVIII. Ele consistia em um articulado movimento filosófico, pedagógico e político, que conquistou progressivamente as camadas cultas e a ativa burguesia em ascensão nos vários países da Europa [...]. Inserindo-se em tradições diversas, o Iluminismo configurou-se não tanto como um compacto sistema doutrinário, mas muito mais como um movimento em cuja base está a confiança na razão humana, cujo desenvolvimento representa o progresso da humanidade e a libertação em relação aos vínculos cegos e absurdos da tradição, da ignorância, da superstição, do mito e da opressão”. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario.
História da filosofia: do humanismo a Kant. São Paulo: Paulos, 1990, p. 670.
15 Ao lado dos fenômenos da Globalização e da Transnacionalidade, surge outro, a Transnacio- nalização. Para Staffen e Nistler, este é um fenômeno “[...] que preserva características da Globa- lização, em especial, a preponderância do capitalismo e o transpasse de limites fronteiriços, mas que possui algumas peculiaridades, como por exemplo, o fato do Estado-nação sair do centro, do núcleo estatal e passar a ser mero espectador das relações particulares, bem como, o fato de ultrapassar suas fronteiras para resolver questões que durante muito tempo foram consideradas puramente internas”. STAFFEN, Márcio Ricardo; NISTLER, Regiane. Transnacionalidade e relações de trabalho: análise da imigração dos haitianos ao Brasil. Estamos preparados? Revista Eletrônica Direito e Política, Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciência Jurídica da UNIVALI, Itajaí, v.9, n.3, 3º quadrimestre de 2014. Disponível em: www.univali.br/direitoe- politica. Acesso em 20 de junho de 2015, p. 1543.
16 Segundo Bauman, a liberdade e a segurança são duas faces da mesma moeda. A equação pode ser simplificada da seguinte maneira: quanto mais liberdade, menos segurança; quanto me- nos liberdade, mais segurança. O indivíduo encontra-se aprisionado pelas suas escolhas e refém dos avanços que integram o processo civilizatório. Uma situação dessas não era anteriormente imaginada. Contudo, “quando falta a liberdade, a segurança parece escravidão ou prisão”. BAU- MAN, Zygmunt. Vida Líquida. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. 2.ed. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2009, p. 51. Além disso, para Bauman, a liberdade “líquida” é “[...] a liberdade de dar passos certos e errados, para ter sucesso e falhar, para inventar, experimentar e testar cada vez novas variedades de experiências aprazíveis e agradáveis, para escolher e correr o risco de errar”.
ser humano foram conquistas iniciadas com o fim do Absolutismo e com a sepa- ração da Igreja e do Estado.
Apesar das conquistas e do novo momento histórico, que possibilita a Hu- manidade a autonomia de perseguir seus objetivos e buscar a Felicidade17, novas necessidades são apresentadas no contexto social. Este fato resultou numa crise generalizada em todos os segmentos sociais.
Por muito tempo, o ser humano canalizou seus esforços e seu modo de agir pautado na Razão18 e nas próprias necessidades: o individualismo provocou o dis- tanciamento entre os indivíduos, interessados somente no seu bem-estar. Houve um impulso do capitalismo e do fenômeno da Globalização19 nesse sentido.
O novo cenário diz respeito ao consumismo20, ao lucro, à satisfação pessoal,
BAUMAN, Zygmunt. A ética é possível em um mundo de consumidores? Tradução de Ale- xandre Werneck. Rio de Janeiro. Zahar, 2011, p. 121.
17 O conceito aristotélico de felicidade “[...] requer bens exteriores, pois é impossível, ou na me- lhor das hipóteses não é fácil, praticar belas ações sem os instrumentos próprios. Em muitas ações usamos amigos e riquezas e poder político com instrumentos, e há certas coisas cuja falta empana a felicidade – boa estirpe, bons filhos, beleza – pois o homem de má aparência, ou mal nascido, ou só no mundo e sem filhos, tem poucas possibilidades de ser feliz, e tê-las-á ainda menores se seus filhos e amigos forem irremediavelmente maus ou se, tendo tido bons filhos e amigos, estes tiverem morrido. Como dissemos, então, a felicidade parece requerer o complemento desta ventura, e é por isto que algumas pessoas identificam a felicidade com a boa sorte, embora outras a identificam com a excelência”. ARISTÓTELES. Ética a nicônamos. Tradução de Mário da Gama Cury. 3. Ed. Brasília: Editora da UNB, c1985, 1999, p. 26.
18 “A Razão é, de fato, o elemento comum a todos os seres humanos e, por isso, assume a con- dição de fundamento a partir do qual o mundo deve ser organizado. É ela quem deve, a partir de agora, dar unidade e sentido a todas as esferas que compõem a existência humana. Tudo quanto pretenda ter legitimidade para existir necessita, pois, de submeter-se ao crivo da Razão”. HAN- SEN, Gilvan Luiz. Modernidade, utopia e trabalho. Londrina: Edições CEFIL, 1999, p. 37.
19 Globalização, nas palavras de Grasso, se refere à “expansión creciente de las actividades de la economía, producción, circulación, cambio y consumo de cosas, más allá de los confines territo- riales y los vínculos del derechopositivo de los Estados”. GRASSO, Pietro Giuseppe. El proble- ma del Constitucionalismo después del Estado Moderno. Madrid: Marcial Pons, 2005, p. 111.
A interdependência global traduz-se na forma de intensos fluxos de capital, bens, informações e pessoas. Logo, a globalização deve ser entendida que preditas mudanças não se restringem unicamente à circulação de capital, mas repercute em outras esferas da vida social. Neste sentido, DINIZ infere que os equívocos mais correntes, situam-se a visão da globalização como um pro- cesso de natureza exclusivamente econômica, impulsionado por forças de mercado e mudanças tecnológicas autônomas. DINIZ, Eli. Globalização, Estado e desenvolvimento: dilemas do Brasil no novo milênio. Rio de Janeiro: FGV, 2007, p. 24 e 25. Trata-se, certamente, de uma simplificação, pois o processo de globalização é essencialmente um fenômeno multidimensional.
Consenso, no entanto, é que a globalização se apresenta como um fenômeno de caráter irrever- sível, que não pode ser parado.
20 Bauman explica que consumismo corresponde “[...] não tanto à satisfação de necessidades (como suas “versões oficiais” tendem a deixar implícito), mas a um volume e uma intensidade de desejos sempre crescentes, o que por sua vez implica o uso imediato e a rápida substituição dos objetos destinados a satisfazê-la. Novas necessidades exigem novas mercadorias, que por sua vez exigem novas necessidades e desejos; o advento do consumismo inaugura uma era de “ob- solescência embutida” dos bens oferecidos no mercado [...]”. BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias. Tradução de Carlos Alberto Medeiros.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 43.
dentre outros objetivos que levam em consideração o bem-estar individual. Os objetos de consumo são conquistados para tornarem-se dispensáveis em pouco tempo. Perde-se seu apreço à medida que outros bens são adquiridos, num ciclo vicioso de consumo21.
Sob esta perspectiva, o tempo, o espaço, os produtos e as relações passaram a ser frágeis, voláteis e inconstantes. Os bens almejados oportunizam realizações pessoais e adquiriram um papel fundamental na afirmação do sujeito no meio.
Uma mínima reflexão sobre o tema desperta a ideia de que o consumo é um es- tilo de vida que se choca com a Sustentabilidade.
A característica humana, de ser e permanecer individualista22 ainda persiste.
Observa-se que os laços entre os indivíduos estão cada vez mais fluidos e descar- táveis. A rede mundial de computadores oportunizou avanços no sentido de en- curtar distâncias e possibilitar estar em vários lugares ao mesmo tempo, no âm- bito virtual. Ao indivíduo, é conferido o poder e a Liberdade de movimentação, sendo permitido adentrar e se retirar de recintos virtuais a qualquer momento.
Partindo dessas premissas, indaga-se a respeito do futuro da Humanidade.
Como é possível resgatar vínculos e o sentimento de pertença entre um ser e o outro? Como viabilizar a afetividade se o “Eu” e o “Tu” encontram-se tão afasta- dos? Uma possibilidade de resposta a estas indagações é a Estética de Alteridade proposta por Maffesoli. Esta pode ser compreendida como o experimentar emo- ções, sentimentos, paixões comuns, nos mais variados domínios da vida social.
Para o autor, “[...] a estética pós-moderna, mais ampla, não se limita às belas-ar- tes ou às obras da cultura, mas contamina o conjunto da vida cotidiana e torna-se uma parte nada desconsiderável do imaginário contemporâneo” 23. Desse modo, a vivência cotidiana inspira uma Sensibilidade capaz de estruturar a necessidade de um “Estar Junto” em prol do coletivo, em detrimento de uma vivência individual e solitária.
A Estética24 se desvela pelo belo, pelo harmonioso e pelo agradável. Não se
21 Sobre o modelo de mercado e consumo atuais, a Carta da Terra destaca que: “Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas.
Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos eqüitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violen- tos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis”. Carta da Terra. Disponível em: http://www.mma.gov.br/responsabilidade-socioambiental/agenda-21/
carta-da-terra. Acesso em 1 de julho de 2015.
22 Em relação ao individualismo, Maffesoli possui outro ponto de vista, que será abordado mais a frente, neste capítulo da obra.
23 MAFFESOLI, Michel. A transfiguração do político. p. 188.
24 46 A estética significa o perceber, o sentir. É uma palavra oriunda da Grécia (aisthetikós) e de- signa o estudo da sensação, a ciência do belo, referindo-se à empiria do gosto subjetivo. JAPIASSÚ,
concretiza em espaços vazios e sem interação social. Perante as incertezas da vida, o “Estar Junto”, no sentido de reconhecer o vínculo comum da Humanidade, é primordial. Se o agir humano, no contexto pós-moderno, é voltado para a busca da Felicidade, é fundamental imprimir nas relações o vetor da comunhão, do compartilhamento, da experimentação e do “Estar Junto” com o outro e com a Natureza, em uma “estética da vida” 25.
O primeiro capítulo desta obra está dividido em quatro partes. Na primeira parte, busca-se compreender a necessidade de uma Razão Sensível, nos moldes propostos por Michel Maffesoli, e de que forma essa perspectiva pode alterar, de forma positiva, a percepção de mundo a qual a Humanidade está condicionada a seguir.
No segundo ponto, parte-se da premissa de que o a Estética de Alteridade, também proposta por Maffesoli, tem como um de seus fundamentos o “Estar Junto” com o Outro no mundo, e de que modo o comunitarismo contribui para os rumos da Humanidade a partir do momento presente.
O terceiro ponto trata da questão da teatralidade trágica do cotidiano. Na ciranda da vida, tragédia e comédia se entrelaçam, por meio de acontecimentos marcantes na trajetória humana até meras banalidades cotidianas, de forma a compreender que nesta vida, não há roteiros.
No último ponto, debruça-se sobre a temática do cotidiano e de que ma- neira o ritmo da vida pode ser esclarecido por meio de interações e vivências genuinamente humanas e que ensejam a aproximação do “Eu” com o “Outro”.
A NECESSIDADE DE UMA RAZÃO SENSÍVEL
Na Pós Modernidade, a Razão adquiriu novos significados, e pode ser compreendida, na perspectiva filosófica, como procedimento específico de co- nhecimento26. Este conceito é pragmático e se choca com outras expressões coti- dianas que não consideram a Razão como paradigma científico, como, por exem- plo, a arte, a sabedoria popular e a religião.
Entende-se que a Razão não é única categoria que determina o agir huma-
Hilton. MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 3. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1996, p. 91.>. Acesso em>. Acesso em
25 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. Tradução de Alberto Christophe Migueis Stuckenbruck. Tradução de Albert Christophe Migueis. 3. ed. Petrópolis, (RJ): Vozes, 1988, p.
167.26 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfredo Bossi. São Paulo:
Martins Fontes, 2003, p. 824.
no. Outros enfoques são conferidos às coisas, aos fenômenos e as situações, res- tando a Razão, muitas vezes, em segundo plano. Por exclusão, o Racionalismo27 diz respeito a uma dificuldade no coexistir com outros significados. O que precisa ser esclarecido é que a Razão lógica, por si só, é insuficiente para compreender outros saberes constituídos pelas sensações.
Por muito tempo, a Razão lógica imperou como único fundamento em re- lação ao desenvolvimento, ao processo civilizatório e ao progresso. A ciência, a tecnologia, o crescimento do comércio e da indústria, como um todo, contribuí- ram para que a Razão ordene a vida social28. Contudo, em uma perspectiva mais abrangente, o dia a dia da coletividade impõe sua dinâmica de modo a considerar outras categorias no mundo da vida. Viver é também uma interação mística do material e do imaterial, do visível e do invisível29, onde a Razão não tem capaci- dade de se impor na frente ou à frente do que se acredita. Há uma necessidade de abertura de conceitos que possam abarcar outros pontos de vista, e não somente a Razão.
Nessa linha de pensamento, a Razão como paradigma único alimenta cho- ques de ideias e opiniões, de modo a segregar as demais categorias que compõe os sentidos humanos, como as crenças, as emoções, as necessidades e os desejos.
Essa condição de Razão como possibilidade única esvazia a vivência e o desen- volvimento humano. Por este motivo, a Razão deve coexistir com outros signifi- cados, enriquecendo o ato de viver.
O cenário contemporâneo é plural e todos os fenômenos presentes no ima- ginário humano também devem ser considerados. Eliminar as representações e as manifestações socioculturais, as quais não são exauridas pelos critérios da Razão, é negar a Dignidade30 e o respeito. Porém, opor-se à racionalidade não é
27 Segundo Maffesoli, o Racionalismo exclui a ideia de que “[...] se existe uma lei é a da coin- cidentia oppositorium, que faz com que as coisas, seres, fenômenos, totalmente opostos, se combi- nem. Ao negligenciar isto, o racionalismo, especialmente sob a forma moderna, empenha-se em sufocar, excluir porções inteiras da vida, até que estas por sua vez se vinguem, exacerbando-se e subindo aos extremos [...]”. MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. p. 30.
28 DIAS, Maria da Graça dos Santos. Direito e Pós-Modernidade. In: Dias, Maria da Graça dos Santos; MELO, Osvaldo Ferreira de; SILVA, Moacyr Motta da. Política jurídica e pós-mo- dernidade. Florianópolis: Conceito Editorial, 2009, p.13.
29 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. p. 30.
30 : Conforme Barroso, “A dignidade humana tem seu berço secular na filosofia, onde pensado- res inovadores como Cícero, Picco della Mirandola e Immanuel Kant construíram ideias como antropocentrismo (uma visão de mundo que reserva ao ser humano um lugar e um papel centrais no universo), o valor intrínseco de cada pessoa e a capacidade individual de ter acesso à razão, de fazer escolhas morais e determinar seu próprio destino. Tendo suas raízes na ética, na filosofia moral, a dignidade humana é, em primeiro lugar, um valor, em conceito vinculado à moralidade, ao bem, à conduta correta e à vida boa. Ao longo do século XX, principalmente no período após a Segunda Guerra Mundial, a ideia de dignidade humana foi incorporada ao discurso político das potências que venceram o conflito e se tornou uma meta política”. BARROSO, Luís Roberto. A dignidade da pessoa humana direito constitucional contemporâneo. Belo Horizonte: Fórum,
negar sua relevância, mas assim possibilitar outros pontos de vista, presentes no ir e vir da vida humana. A Razão, como único vetor de experimentação, é elemento limitador de vivências sensíveis.
Para Maffesoli, a racionalidade e o cientificismo não reduzem a intelecção a frivolidade e a espontaneidade do dia a dia31, tão importantes para o dinamismo dos vínculos humanos. São estes que possibilitam as emoções e as Sensibilidades presentes no cotidiano, e não podem ser sintetizados apenas pela Razão32, pois não se trata de um modelo exclusivamente racional, mas de comunhão de afetos e emoções que integram o viver humano.
Para que seja possível compreender os fenômenos sociais, a Sensibilidade deve estar presente. Isso não significa deixar as emoções extrapolarem a Razão, pois não se admite a sobreposição de uma categoria sobre a outra. Entretanto, em caráter de complementariedade, Razão e Sensibilidade33 se unem: o cientista social não é apenas um observador distante dos fenômenos o qual tão minu- ciosamente pretende descrever e formular, mas pode experimentar as emoções impregnadas na vida de todos os dias34.
A Razão, se considerada como instrumento para decifrar os fenômenos so- ciais, não compreende a dimensão dos sentimentos e a dimensão afetiva do ser humano. É necessária a Sensibilidade para viabilizar a observação desses fenô- menos, capazes de traduzir a complexidade de uma Sociedade globalizada, trans- nacional e com características de “liquidez” 35.
A Razão Sensível, proposta por Maffesoli, significa estruturar as nuances dessa Sociedade fluida a partir de uma compreensão profunda e que seja capaz de absorver a experiência sensível que está presente no dia a dia das pessoas. Para o autor, quando se analisa as complexas interações cotidianas, há relevância nas questões sociológicas que remetem a uma experiência sensível, do “Estar Junto”
com o outro, no desvelar da essência do semelhante e também do meio em que se vive.
Oportunizar interações sociais reais, que remetam ao vínculo antropológico
2013, p. 61.
31 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. p. 48.
32 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. p. 34.
33 Sensibilidade significa “[...] a capacidade do ser humano de perceber como seu semelhante sente. A sensibilidade volta-se, igualmente, para as coisas do mundo e eleva o espírito para certo estado de sublimidade. Nenhum dos dois caminhos (ser humano e coisas do mundo) excluem o Homem como centro de todos os fenômenos sensíveis”. SILVA, Moacyr Motta da. Política Jurídica e pós modernidade. p. 221.
34 AQUINO, Sérgio Ricardo Fernandes de. Rumo ao desconhecido: inquietações filosóficas e sociológicas sobre o direito na pós-modernidade. Itajaí: Editora da Universidade do Vale do Itajaí, 2011, p. 33.
35 BAUMAN, Zygmunt. A ética é possível em um mundo de consumidores? p. 133.
(e biológico) comum da Humanidade e ao plano sensível, é uma possibilidade visualizada na Pós-Modernidade. Ainda que o período seja caracterizado pela velocidade dos acontecimentos e pelas incertezas das relações, o tempo presente e o espaço social contribuem no entendimento e na compreensão de uma nova configuração social, estruturada por Maffesoli, no sentido de resgatar a Sensibi- lidade para o mundo da vida.
O Racionalismo, como categoria que remete a certezas e explicações cien- tíficas “incontestáveis” não deve ser o único viés a ser considerado, quando da interação do ser humano com o outro e com o meio em que vive. Os fenômenos sociais necessitam ser analisados sob os mais diversos horizontes, mais sensíveis e capazes de esclarecer os significados da vida pós-moderna.
Neste momento histórico, a estetização da vida e a imposição de padrões comportamentais sociais são uma realidade. Adquirir certos hábitos, trabalhar para ter sua dignidade garantida, agir com valores e moralidade, participar da vida política e de ações sociais, vestir-se de determinado modo, apreciar certas artes e ater-se a certas ideologias são exemplos de uma padronização social que conduz ao marasmo, a incapacidade de conviver com as diferenças e a impossi- bilidade de considerar o outro na sua individualidade, especialmente quando este se encontra aquém do padrão considerado “normal”.
Para Maffesoli, essas experimentações não conduzem ao belo e ao harmo- nioso, pois estas categorias significam agregar diante dos diferentes modos de vi- ver e pensar. Estar inserido num padrão de vida é internalizar rituais cotidianos e banais que não aproximam um ser do outro. No entanto, na ciranda da vida, tudo que é caro para uns – como comportamentos, hábitos, corte de cabelo, modo de se vestir, objeto de estudo e trabalho, alimentação, artes, músicas, e outros ele- mentos deve, ainda que minimamente, ser respeitado pelo outro.
O vínculo social não é mais unicamente contratual, racional, simplesmente utilitário ou funcional. Integra uma fração não racional ou não lógica, e se ex- prime em efervescências de toda ordem que podem ser ritualizadas – como arte, esporte, música, canto - ou totalmente espontâneas36. O que se busca é a harmo- nia e convivência democrática na vida social, a partir da experiência sensível de
“Estar Junto” com o outro, com suas diferenças, sua complexidade e “humanida- de”, pois estes elementos são capazes de agregar na individualidade de cada um.
Essa linha de pensamento é a linha que aproxima as pessoas em mundo multicultural. Neste mundo, a diversidade, a tolerância, o respeito e a alteridade são capazes de aproximar os seres no Meio Ambiente em que se vive, qual seja:
o mundo natural e a realidade humana. O “Estar Junto” a que se propõe compre-
36 MAFFESOLI, Michel. Elogio da razão sensível. p. 205.