• Nenhum resultado encontrado

Cozinhar e escrever como práticas canibais

Haroldo de Campos, ao analisar a literatura brasileira e sua relação com a tradição europeia, sugere que o poeta – aqui se poderia entender, em sentido amplo, o escritor –, diante do legado cultural herdado no decorrer dos processos de colonização e construção nacional, deveria “assumir, criticar e remastigar uma poética”.181 Remastigar, ato de triturar com os dentes, amplia-se, em sentido figurado, como sinônimo para reflexão. Pensando na ampliação de sentidos para essa palavra, Machado de Assis utiliza uma analogia, na qual sugere pensar sobre o ato de ruminar como contemplação:

Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a ideia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a ideia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também.182 Contudo, longe de discordar de tais ampliações de sentido para os verbos “remastigar” e “ruminar”, mas no intuito de acrescentar etapas fundamentais no que poderia se entender como devoração da tradição, caberia uma analogia do fazer literário com uma ação mais pormenorizada, dada sua complexidade, que seria o ato de cozinhar.

Cozinhar é entrar no campo da cultura. Por esse ato se entende a apropriação de conhecimentos, de ingredientes e fórmulas, a utilização dos utensílios e a sensibilidade no preparo. As práticas de cozimento dos alimentos corroboraram a transformação do homem em constructo social humano. Observando-se esse ato e tudo o que a ele se relaciona, é possível conhecer um determinado povo em sua cultura, suas relações e regras sociais, a estrutura e os jogos de poder, as atividades econômicas, a história, as preferências e as especificidades, porque o alimento se situa, ao mesmo tempo, dentro da natureza, na manutenção da vida, e dentro da cultura, com a produção de bens e serviços.

Cozinhar é, portanto, criação. Mesmo que sejam utilizados os temperos e os métodos mais conhecidos, haverá sempre o sabor único advindo do tempero e dos modos de fazer, diferentes em cada pessoa. Implica dizer que, ao que foi transmitido pela cultura, acrescenta-se o caráter particular que se estabelece na relação com o conhecimento e com os

181 CAMPOS, 1992, p. 246.

182 MACHADO DE ASSIS, Joaquim Maria. Meditações no bonde. In: ______. Crônicas Escolhidas. São Paulo: Ática, 1994.

modos de preparo. Nesse sentido, o escritor canibal se aproxima das funções daquele que cozinha. Ele cria a partir da tradição herdada e altera os sabores, o preparo, a apresentação. Sua ação passa por etapas de escolha, planejamento, tempo de marinar e processos de execução que se sustentam no conhecimento de certas técnicas culturais, além de memórias trazidas pelo gosto, por cheiro e práticas. Ou seja: as tarefas subjacentes ao trabalho do escritor, que são os processos de leitura, escrita, reescrita, reflexão, entre outros. São etapas que exigem tempo para a maturação de um pensamento, para que seu texto se assente em um formato desejado. O trabalho do escritor/cozinheiro requer dedicação e criatividade, paciência e talento.

Comer é, em princípio, instintivo. Cozinhar ganha uma camada de racionalidade e se insere na cultura, pois, além de significar a preparação do alimento, também significa arquitetar, tramar, urdir. João Cabral de Melo Neto estabelece, poeticamente, a aproximação entre escrever e preparar o alimento pela ação de catar feijão. Nos versos do poeta, escrever e catar feijão ocupam o lugar do limite, do contágio, da mistura de suas características. Ambas as ações marcam a presença do humano. É dele a escolha de jogar “os grãos na água do alguidar / e as palavras na folha de papel” ou de descartar o que boiar, o que for “leve e oco”. O sopro sobre os grãos/palavras, mais que separar impurezas e ecos, evidencia a presença da inspiração, o próprio escritor/cozinheiro presente em seu texto. No exausto trabalho de escrever/cozinhar, aparece o indigesto, o imastigável. Mas é ele que, para o poeta, “dá à frase seu grão mais vivo”,183 por dar ao texto um sentido mais profundo. Esse indigesto, a pedra dura e áspera que pode machucar os dentes, é, por vezes, o ingrediente principal utilizado na cocção do texto canibal: aquilo que foi recalcado, silenciado, mas que está cheio de marcas culturais, vozes e lembranças.

Como o ancestral indígena, o escritor canibal não utiliza a devoração omofágica. Os antepassados canibais preparavam os corpos das vítimas, que eram destrinchados e moqueados de acordo com os preceitos estabelecidos em ritos comuns a cada povo canibal. Pelo processo de cozimento, a carne que seria devorada era pensada como símbolo de alteridade que, no processo de ingestão, passava a pertencer ao corpo devorador. Devorava-se, portanto, tudo o que o outro representava como estrangeiro, como ameaça ou opressão.

A aproximação entre cozinhar e escrever toma uma dimensão mais ampla no diário da garçonnière de Andrade, intitulada O perfeito cozinheiro das almas deste mundo. Desde o título, a analogia é possível de ser inferida. Além disso, o que poderia ser considerado como modo de preparo – a forma como se produziu o diário, coletivamente e fragmentada – indica

183 NETO, João Cabral de Melo. Catar feijão. In:______. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p. 190.

um trabalho efetuado por meio de muitas mãos, cada qual adicionando sua própria pitada de tempero e preferências – de linguagem, de tema, de estilo –, fazendo da obra um grande caldeirão, no qual tudo se cozinha ao mesmo tempo.

Para cozinhar é necessário um espaço próprio: ali onde se dá a transformação, a metamorfose do cru ao cozido, chamado por Roberto Bolaño de “cozinha literária”,184 quando se refere ao ambiente bastante pessoal que abriga a arte de escrever. Esse ambiente marcaria uma contraposição à biblioteca, pois, para ele, a biblioteca é comparada à igreja, ao passo que a cozinha literária estaria mais próxima às referências que se tem de um morgue, um lugar de morte. Essa imagem do morgue parece se adaptar bem à cozinha literária do escritor canibal:

corpus, textos inteiros ou aos pedaços, expostos sobre a bancada de trabalho, prontos para serem

cozidos.

A cozinha literária – como a cozinha das casas ou dos restaurantes – é marcada pela presença do fogo, agente transformador e símbolo ambíguo que polariza a presença da vida, do conhecimento, das paixões humanas e, ao mesmo tempo, é agente de destruição e decomposição. Na cozinha proposta por Bolaño, o fogo se apresenta em cenários diversos, em castelos medievais, centros urbanos contemporâneos ou em lugares longínquos, onde há apenas fogueiras. Ele representa a condição diferenciada do humano em relação aos outros animais, uma vez que é por intermédio dele que se pode cozinhar o alimento. Sua simbologia liga-se à aquisição do conhecimento e é bastante antiga, perpetuando-se no mito grego de Prometeu – o defensor dos homens, que engana Zeus e acaba por roubar dele o fogo, com o qual os homens passam a cozinhar seu próprio alimento, conforme os versos de Hesíodo, nos quais Zeus:

negou nos freixos a força do fogo infatigável aos homens mortais que sobre a terra habitam. Porém o enganou o bravo filho de Jápeto: furtou o brilho longevisível do infatigável fogo em oca férula; mordeu fundo o ânimo

a Zeus tonítruo e enraivou seu coração

ver entre homens o brilho longevisível do fogo.185

De posse do fogo e pela condição privilegiada de cozinhar e domesticar esse símbolo divino, os humanos ascendem a uma condição de criador. Para Queiroz, a possibilidade de possuir o fogo representaria “um novo capítulo na história do homem”, pois da “primeira fagulha desprendida do raio aterrador procede o lume doméstico, fonte do calor, da luz e do conforto [...]. Não há nada, realmente, mais valioso que o fogo. Graças a ele logramos elevar-

184 BOLAÑO, Roberto. Un narrador en la intimidad. Clarín, Edición Domingo, 25 mar. 2001. Disponível em: <http://edant.clarin.com/suplementos/cultura/2001/03/25/u-00301.htm>. Acesso em: 20 mar. 2015.

nos acima dos animais”.186 Para Jean-Pierre Vernant, “ao cozinhar o alimento, esse fogo secundário, derivado, artificial em relação ao fogo celeste, distingue os homens dos bichos e os instala na vida civilizada”.187 Michel Serres afirma que a transformação do cru ao cozido que se realiza por intermédio das chamas, tem relação com o conhecimento, uma vez que o cozimento

[...] adensa, concentra, reduz, faz convergir o dado, o cozido faz abundar o cru, o dado passa do acaso, da circunstância improvável e leve, inconstante, ao costume e à compacidade. Vai da mistura caótica e difusa à mistura ordenada, densa. O fogo cimenta os mistos, transforma em vitral a referida confusão, agita bem as pequenas partes secretas para ligar o que repugnaria a frio. Ajuda os concursos, favorece as conivências, estreita as vizinhanças, enriquece as amálgamas, descobre de súbito novas ligas, aprende, por síntese, a saber.188

Cozinhar seria, então, esse processo de construção que adensa e dá forma nova à matéria utilizada para preparar a refeição. Dominando as técnicas de cozimento, chega-se a um saber. Nesse sentido, o escritor canibal – como um “perfeito cozinheiro” – é possuidor do conhecimento e dos instrumentos necessários ao preparo de seu texto-alimento.

Bolaño, citando o poeta espanhol Jaime Gil de Biedma, afirma que “ler é mais natural que escrever”.189 Essa assertiva poderia ser ampliada pela seguinte proposição: ler está para o cru, assim como o escrever está para o cozido. E, mesmo que essas duas ações estejam imbricadas, o ato de ler poderia ser tomado como um movimento para dentro, de engolir e nutrir-se. Como o escritor é antes um leitor, ler garantiria a nutrição do texto a ser produzido. Escrever, no entanto, é movimento para o fora, é preparo, produção cultural que se concretiza na materialidade da obra. Para isso, exigem-se técnica e criatividade. Contudo, o escritor canibal se localiza no duplo lugar: cabe a ele ser o cozinheiro, pois é o criador, artista da palavra, consciente de seu ofício e conhecedor das técnicas, temperos e utensílios necessários à construção de sua arte, já que é por suas mãos que ela se materializa; mas ele solicita participar do banquete, pois quer se servir e saborear sua tradição, tomar para si o corpo do contrário e se fartar.

Para o escritor canibal, cozinhar/escrever pode não ser uma tarefa fácil, porque o corpo a ser devorado pode não ser um alimento frugal. É, sobretudo, complexo por ser, a um só tempo, inimigo e alimento. Diante dele, exige-se uma ação combativa. Essa ideia se aproxima da figuração que Bolaño apresenta, ao comparar o cozinheiro escritor com um guerreiro:

186 QUEIROZ, 1988, p. 3.

187 VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia Antiga. Tradução de Joana Angélica D’Ávila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 64.

188 SERRES, 2001, p. 168. 189 BOLAÑO, 2001, s.p.

Na minha cozinha literária ideal vive um guerreiro, a quem algumas vozes (vozes sem corpo nem sombra) chamam escritor. Esse guerreiro está sempre a lutar. Sabe que no fim, faça o que fizer, será derrotado. No entanto, recorre à cozinha literária, que é de cimento, e enfrenta o seu opositor sem dar nem pedir tréguas.190

O escritor canibal, em sua cozinha literária – “que é de cimento”, pois representa uma resistência –, ocupa o poder e trava o combate. Contudo, não teme a morte, sabe que “será derrotado”,191 porque, na certeza do fluir constante, a vida transforma comedor em comida. Em seu tempo de presa, será devorado. E nisso se imortalizará seu corpus.

A condição canibal do escritor se filia ao que foi proposto por Andrade, quando se refere à antropofagia, que para ele seria a absorção do inimigo sacro, para transformá-lo em totem. Mas a contemporaneidade parece marcar outro canibal porque o trato com o corpo do outro não serve mais como totem, apesar de ainda estar em exposição. Porém, não mais para ocupar um espaço vazio, mas para evidenciá-lo como corpo devorado, ou seja, esse canibal que escreve na contemporaneidade se apresenta mais violento. Há uma aspereza maior no contato com o outro. A relação que se estabelece em seu ato de devoração não é uma questão somente de ruptura. Sua transgressão faz parte de um movimento cíclico, é parte de sua ordem, é o que desarticula, para que depois se estabeleça o novo. Nesse sentido, o escritor canibal seria aquele que incorpora o outro, mas não como uma forma de unir-se a ele. O corpo do outro é pilhagem de guerra, roto, destroçado ou deslocado para outros usos. A devoração/apropriação canibal continua – como herança do movimento antropofágico – a não ser ingênua. Trata-se de algo planejado, analisado e convertido em ação consciente e combativa.