O protagonista de Meu querido canibal foi construído a partir de uma personalidade histórica. Trata-se de Cunhambebe, índio brasileiro da nação Tupinambá, o chefe da Confederação dos Tamoios, temido por seu hábito de devorar os inimigos. Os primeiros viajantes que aportaram no Brasil, enviados para registrar a colônia e suas especificidades, a exemplo, Thevet,245 Léry246 e Staden,247 destacaram esse guerreiro por liderar ações de combates violentos marcados por atos de canibalismo.
Seu nome, Cû-nhã-béba, significa, conforme Theodoro Sampaio, uma língua que “move-se rasteira, para exprimir que fala devagar e baixo. É o homem de fala mansa”.Não obstante, mais que remeter à forma vagarosa de expressar-se, Sampaio ainda destaca que essa fala esconde sagacidade, uma vez que o apresenta como “o astuto chefe dos tamoios”.248 Tanto em relatos de viagem como no romance de Torres, essa voz tranquila se tornava medonha durante os conflitos, fazendo-o ser reconhecido por sua ferocidade diante do inimigo a ser combatido.
De porte físico avantajado, com o hábito de ingerir carne humana e o orgulho “de possuir nas veias o sangue de cinco mil inimigos, entre os quais muitos portugueses”,249 Cunhambebe se caracteriza no romance como “o primeiro herói deste país de aventureiros, náufragos, degredados, traficantes, piratas e contrabandistas”.250 Entretanto, o conceito de herói aqui se diferencia do perfil clássico de homem dotado de virtudes. Essa nova concepção compreende o canibal como um ser que devora o corpo de seu semelhante, sem que isso implique em julgamento moral por parte do narrador. Sendo assim, ele não se torna um ser desprezível, porque sua maior violência é pautada dentro de uma cultura e em uma concepção do direito à reparação e à dinâmica da vida. Em uma ampliação de sentido, os atos desse canibal rompem com os valores estabelecidos pelo olhar português.
Há, nos atos de Cunhambebe, uma ênfase na legitimidade da vingança como motivação para a devoração, uma vez que os estrangeiros – que figuram nessa obra por meio de indivíduos representantes de qualidades morais questionáveis – eram considerados pelos índios como invasores, uma ameaça ao território indígena, incluindo-se nele, pessoas, culturas
245 THEVET, 1978.
246 LÉRY, 1961. 247 STADEN, 1988.
248 SAMPAIO, Theodoro. O Tupi na geografia nacional. 5. ed. São Paulo: Editora Nacional, 1987. p. 227. 249 TORRES, 2006, p. 41.
e bens. Seus corpos eram considerados corpos inimigos, representando o contrário a ser combatido.
Em relação a Cunhambebe, o narrador, em vários momentos do texto, enfatiza a falta de documentação sobre essa personagem, cuja história se resume a “escassas linhas ou notas de pé de página, em compêndios ensebados, conservados em bolor e entregues às traças”.251 Um desses raros documentos descreve o líder tupinambá, a partir do olhar português:
Este índio foi o tipo de selvagem na sua expressão mais repelente. Tinha ele uma força e uma estatura e uma corpulência de Ciclope, uma coragem de bruto obcecado, uma dureza e ferocidade de monstro. Em outras condições, daria um Átila, talvez ainda mais devastador. Desvanecia-se de abalar a terra com o seu tropel. Nunca perdoou a um português.252
A ausência de fontes de pesquisa possibilitou a conservação da imagem animalizada do canibal brasileiro, descrita nos textos do período colonial. Essa imagem demonstra a inépcia dos estrangeiros na interpretação dos sentidos para o ritual de devoração humana. Para Ribeiro, o ritual era “uma forma de interação intertribal”.253 Para que fosse realizado, o prisioneiro passava por um período de engorda, no qual recebia bons tratos e tinha suas necessidades fundamentais supridas. Após isso, fazia-se um momento festivo, para o qual eram convidados familiares e grupos étnicos aliados. Ao prisioneiro era dado o poder de falar antes de morrer. Este injuriava seus executores e predizia que os seus o vingariam, simbolizando a ordem natural para o próprio movimento da vida, pois se entende que os que foram mortos seriam vingados, no futuro, por seus parentes.
Apesar de haver referências nos primeiros textos sobre o Brasil a motivos diversos para a devoração, como o ódio ou inveja, gula extremada, fome, degeneração da raça, animalização do humano e isolamento em regiões insulares, a causa mais propagada pelos antropólogos para explicar o canibalismo é o motivo da vingança (como cíclica e como direito legítimo a justificar a falta de temor diante da morte), que não era entendida como um fim, mas como parte do processo dinâmico da própria vida.
Nessa perspectiva, o corpo devorado serviria, a um só tempo, como símbolo de conquista e certeza de posterior vingança. Esse corpo nutriria os inimigos que, quando mortos, passariam a nutrir seu povo, cabendo no verbo nutrir o sentido de se fazer presente no corpo do outro. Essa ampliação de sentido do verbo nutrir pode ser percebida no romance de Torres, ao pôr em destaque os textos oficiais sobre os indígenas brasileiros do período colonial, pois essa
251 TORRES, 2006, p. 38. 252 TORRES, 2006, p. 38. 253 RIBEIRO, 1995, p. 34.
presença é a marca do contrário/inimigo, que, devorado, expõe a força do devorador ao se apropriar dele.
A vingança é um princípio de intercâmbio que se apresenta no ato de violência dentro de um ritual canibal. Para Léry, os índios tinham “arraigado no coração o sentimento da vingança”. Essa afirmativa é sustentada por meio da reprodução da fala do prisioneiro antes de ser devorado:
Comi teu pai, matei e moqueei a teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes a nomes; e ficai certos de que para vingar a minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar.254
Staden, em seus registros históricos sobre os habitantes do Brasil, no ano de 1554, descreveu o canibalismo com perplexidade e conclui o ato de comer o inimigo ser motivado por “grande ódio e inveja”.255 Para ele, a motivação em devorar seria da seguinte forma: “[...] quando na guerra eles combatem, gritam por grande ódio: Dete Immeraya Schermiuramme
heiwoe, a ti sucedam todas as desgraças, minha comida”.256 Assim, o canibalismo se cristalizou como causa de horror durante os primeiros contatos dos viajantes com os indígenas. E, no romance, esse estranhamento é enfatizado. Tanto que, além de cruéis, se recupera uma questão bastante presente nos textos coloniais: a dúvida quanto à humanidade de tais povos, que, por vezes, foram considerados seres sem alma ou animais com aparência humana.
No entanto, comer o inimigo seria um rito entranhado em uma cultura, em um logos que se distingue das bases do pensamento europeu e norteia os modos de agir e a compreensão de mundo. Observa-se que o canibalismo praticado pelos Tupinambá não se origina de ato guiado por instinto animal. No processo cultural de um ritual indígena, o corpo passa pelos processos de engorda e cozimento, no caso deles, o corpo era moqueado. Os canibais indígenas, nos relatos históricos, não comem o corpo humano cru. O que se come pertence ao mesmo campo semântico proposto por Castro, quando afirma que:
[...] a “coisa” comida não podia, justamente, ser uma “coisa”, sem deixar porém de ser, e isso é essencial, um corpo. Esse corpo, não obstante, era um signo, um valor puramente posicional; o que se comia era a relação do inimigo com seu devorador, por outras palavras, sua condição de inimigo. O que se assimilava da vítima eram os signos de sua alteridade, e o que se visava era essa alteridade como ponto de vista sobre o Eu.257
254 LÉRY, 1961, p. 155.
255 STADEN, Hans. Capítulo XLIII: Como dansaram com os seus inimigos quando pernoitamos, no dia seguinte. In: ______. Hans Staden: suas viagens e captiveiro entre os selvagens do Brazil. São Paulo: Typ. da Casa Eclética, 1900. p. 144.
256 STADEN, 1900, p. 145. 257 CASTRO, 2015, p. 159-160.
Devorar o corpo signo de alteridade torna-se, sobretudo, um ato de resistência – é a razão pela qual se dá a devoração. Cunhambebe, com sua carga de violência, é um adversário belígero que utiliza sua cultura canibal como arma de luta. Um vilão, criminoso e, ao mesmo tempo, representante do ancestral ameríndio e canibal, comum aos brasileiros, cujo ato lhe conferia dignidade aos seus e temor diante do olhar dos perós.
Há uma fala de Cunhambebe registrada por Staden em seus relatos da viagem ao Brasil. Trata-se da cena em que o líder dos Tupinambá oferece a Staden o banquete canibal com o qual se delicia:
E o mesmo Konian Bebe tinha uma grande cesta cheia de carne humana diante de si e estava comendo uma perna, que fez chegar perto da minha boca, perguntando se eu também queria comer. Eu respondi que nenhum animal irracional devora o outro, como podia então um homem devorar um outro homem? Cravou então os dentes na carne e disse: “Jau ware sche (jauá e xe)”, que quer dizer: sou um tigre, está gostoso. Com isto, retirei-me de sua presença.258
Essa frase é traduzida por Torres da seguinte forma: “Sou uma onça. Isso está gostoso”.259 Nela há a analogia entre homem e onça – correlato de jaguar, palavra do tupi,
ya’gwara, que designa um animal típico do continente americano. O verbo ser utilizado na frase
de Cunhambebe compreende o pensamento indígena da vinculação da origem a uma origem mítica. Não se constitui em uma figura de linguagem, mas denota uma condição de pensamento pautada em uma cosmovisão que compreende a vida e os seres vivos como parte de um todo. A atitude predadora do jaguar – devorador de homens – está, em certa medida, presente na atitude humana do canibal. Conforme Almeida, “a predação ontológica do canibalismo não é um ato bestial, que transforma a humanidade em animalidade, mas um gesto transcendente”. Por isso, “afirmar-se jaguar é afirmar-se canibal”;260 não é uma metáfora que o identifica com o modo de agir do animal. O canibal é jaguar – ou onça – qualificado, assim, na ênfase de sua natureza do ser jaguar, feroz, selvagem, ou seja, um predador de humanos.
No romance, o índio canibal/onça não é figurado como um ser ingênuo e desconhecedor da moral e dos valores cristãos, fato que, aparentemente, justificaria sua barbárie. Há um valor na barbárie, afirmando-a como traço característico da construção cultural brasileira, pois, a partir da imagem dos ascendentes canibais, há uma proposição, na figuração de Cunhambebe, dessa característica que, metaforicamente, dá legitimidade aos atos de matar e devorar.
258 STADEN, 1900, p. 100.
259 TORRES, 2006, p. 46. 260 ALMEIDA, 2002, p. 244.