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4.2 A CONFIGURAÇÃO NORMATIVA DO IBS

4.2.2 Críticas ao projeto

Tão logo o projeto foi apresentado na Câmara dos Deputados, vários juristas se manifestaram, alguns com argumentos contra e outros a favor da reforma. Serão analisados a seguir os principais argumentos que embasam tais críticas.

Em artigo publicado em 8 de abril, Ribeiro (2019) explana os pontos positivos e negativos do presente projeto. Dois pontos, no entanto, foram o foco da crítica do referido autor, mais especificamente a regressividade com o fim da seletividade incidente sobre alguns impostos sobre o consumo, como o ICMS e IPI e a ofensa à cláusula pétrea da federação.

Analisa o autor dizendo que:

[...] a supressão da seletividade da tributação sobre o consumo, promovida pela proposta em comento, faz com que a capacidade contributiva deixe de ser aplicada em relação ao IBS, uma vez que a tributação proporcional nesse tipo de tributo gera um efeito regressivo, agravando a iniquidade do nosso sistema, já por demais injusto com os mais pobres, violando o princípio da capacidade contributiva. (RIBEIRO, 2019)

Continua ainda o autor, dizendo que um novo tributo incidente sobre os produtos supérfluos, conforme sugere a PEC, não se prestaria a dar validade constitucional a proposta, por que a autorização para a União instituir tal tributo teria relação com a extrafiscalidade negativa associada a tais produtos. (RIBEIRO, 2019)

b) Ofensa à clausula pétrea da federação

Já quanto à ofensa ao federalismo, para Ribeiro (2019) mesmo a proposta atribuindo competência comum aos entes federados, com a possibilidade dos Estados, o Distrito Federal e os Municípios definirem suas respectivas alíquotas, isso não seria suficiente para escapar da ofensa ao pacto federativo, conforme segue:

[...] a dimensão fiscal do federalismo não se contenta com a repartição de receitas, sendo indispensável a adequada repartição de competências tributárias. Tampouco a possibilidade de os entes periféricos fixarem essas alíquotas singulares uniformes atendem à exigência de atribuição de competência tributária própria para cada um dos integrantes da federação. (RIBEIRO, 2019)

Entende da mesma forma Harada (2019), ao dizer que a proposta “coloca de cabeça pra baixo o Sistema Tributário Nacional vigente, que está fundado no princípio federativo protegido em nível de cláusula pétrea”.

Ao citar grande debate sobre o tema da indissociabilidade ou não entre a competência tributária e a autonomia financeira dos estados e municípios, Maneira e Lima (2019, p. 65) discordam do entendimento explanado acima, explicando que:

O argumento contrário ao IVA nacional é justamente o de que o novo imposto afrontaria o princípio federativo, na medida em que estaria restringindo a competência legislativa em matéria tributária dos Estados e dos municípios. Discordamos desse argumento, porque o importante é que os entes federados tenham autonomia financeira, e não necessariamente ampla competência tributária.

Continua ainda o autor explicando que o próprio Supremo Tribunal Federal32 em diversos julgados que envolviam a análise de afronta à cláusulas

pétreas, decidiu por considerar intangível apenas o “núcleo essencial” destas. (MANEIRA; LIMA, 2018, p. 67)

Segue na mesma linha Novelli (apud, NOGUEIRA, 2019, p. 267-269) ensinando que sobre a possibilidade de restrição de garantias e limites ao poder de tributar, eventual Emenda à Constituição poderia “até mesmo aboli-la, desde que assim fazendo, não viria a afetar-se o núcleo intangível, o conteúdo essencial do direito fundamental também por ela garantido, no caso a segurança jurídica”.

Campos (2018, p. 64) segue a corrente de que a retirada da competência tributária não afeta o pacto federativo, dizendo:

Evitar as sobreposições hoje existentes. Por exemplo: o munícipio está sobrecarregado com o ensino infantil, educação fundamental, sistema de saúde, com especial destaque para a rede de urgência e emergência, além da limpeza urbana, preservação dos espaços públicos, praças, etc. É importante que o município cuide disso tudo e que se deem condições financeiras para que ele arque com todas essas responsabilidades.

Isso não quer dizer que ele tenha que necessariamente ter competência para instituir e cobrar ISS. São coisas diferentes. O que precisa são de regras claras de repartição de receitas tributárias. Eventual concentração da

32 Reitero de logo que a meu ver as limitações materiais ao poder constituinte de reforma, que o art.

60, §4º, da Lei Fundamental enumera, não significam a intangibilidade literal da respectiva disciplina na Constituição Originária, mas apena a proteção do núcleo essencial dos princípios e institutos cuja preservação nelas se protege. Convém não olvidar que, no ponto, uma interpretação radical e expansiva das normas de intangibilidade da Constituição, antes de assegurar a estabilidade institucional, é a que arrisca legitimar rupturas revolucionárias ou dar pretexto fácil à tentação dos golpes de Estado. MS 23047 DF – Min Sepúlveda Pertence

competência legislativa/tributária no âmbito da União não significa, a priori, ofensa ao federalismo.

Abaixo abordaremos críticas menos discutidas, mas que foram ventiladas até o presente momento pelos juristas brasileiros.

c) Inconstitucionalidade do Art. 159-D

Analisando as principais críticas que a PEC sofreu, destaca-se, também um ponto que possivelmente acabará resultando num questionamento quanto à sua constitucionalidade.

Trata-se do Art. 159-D 33, e o motivo seria a vinculação da receita de impostos, prática vedada constitucionalmente com exceção das taxas e contribuições de melhoria. (CONDE apud BACELO;OLIVON, 2019).

Ao longo do tempo, nas Constituições recentes, manteve-se a noção de que imposto é receita tributária destinada a formar uma caixa geral, sem destinação específica, de modo a formar um conjunto de receitas a serem geridas pelo Poder legitimado para tanto. A vinculação, como se tratou acima, recebeu expressa vedação constitucional, com restritas exceções.

A PEC propõe criar como exceção a possibilidade de vinculação à fundos e despesas para os Artigos 159-A a 159-C, conforme já abordado.

d) Bitributação

Outra crítica realizada ao presente projeto é a possível

inconstitucionalidade pela bitributação, visto que no período de transição, proposto pelos artigos 116 e 117 do Ato das Disposições Constitucionais e Transitórias (ADCT), haveria a exigência concomitante do IBS e dos tributos ICMS e ISS. (CONDE apud BACELO;OLIVON, 2019)

33 Art. 159-D. A receita do imposto sobre bens e serviços arrecadada pela União, pelos Estados, pelo

Distrito Federal e pelos Municípios será distribuída entre as destinações de que tratam os arts.159- A, 159-B e 159-C, na proporção da participação de cada alíquota singular na alíquota total.

e) Complexidade

Harada (2019), rechaça a ideia de atribuir competência legislativa tão importante ao Comitê Gestor do IBS, conforme abaixo:

Não é preciso ser um especialista para antever o caos legislativo que provocará a atribuição de competência normativa a um órgão administrativo que, certamente, produzirá, em escala industrial, portarias, pareceres normativos, instruções, circulares, avisos etc. A atribuição de representação judicial a esse Comitê Gestor, também, mostra-se bastante problemática.”

No próximo item será tratado sobre os possíveis impactos que esse projeto, poderá causar no Sistema Tributário Constitucional brasileiro.

4.3 IMPACTOS NO ORDENAMENTO CONSTITUCIONAL COM A APROVAÇÃO