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3.1 O MODELO DE BROWN E LEVINSON

3.1.1 Críticas ao modelo de Brown e Levinson

No debate acadêmico atual sobre polidez, ou pelo menos em boa parte dele, busca-se fazer um balanço crítico dos estudos tradicionais, uma vez que a condição de sobrevivência dessa concepção tradicional passa por uma reavaliação de seus princípios e por sua reconceptualização. Justamente por ser extremamente influente e referenciado, o modelo de Brown e Levinson recebeu diversas críticas.

Sua pretensão à universalidade provocou reações e propostas de reavaliação crítica, sobretudo da sua noção de face. Watts (2003, p. 88-89) argumenta que reduzir o sistema de polidez ao trabalho de face é um engano, pois é muito controversa a atribuição de polidez a

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Onde (W) representa a quantidade de trabalho de face requerida; (x) representa o FTA; (D) representa a distância social entre (F), falante, e (O), ouvinte; (P) representa o poder relativo entre F e O e (R), o grau de imposição ou o risco inerente ao ato.

um ato linguístico, tanto pelos próprios participantes da interação social, quanto por aqueles que estão fora dela, como é o caso do pesquisador. Além disso, Brown e Levinson alteraram, significativamente, a noção proposta por Goffman, para quem a face é inteiramente adquirida na interação social, sob a forma de comportamentos rituais, sendo precisamente o conceito que o indivíduo constrói de si através das interpretações que os outros fazem dele nas diversas interações verbais das quais participa (WATTS, 2003, p. 124). Isto é, embora seja importante para o indivíduo, não é um aspecto permanente da construção do seu self, nem está na pessoa, mas é difusamente localizada no fluxo dos eventos de interação, sendo visível apenas quando esses eventos são lidos e interpretados pelas avaliações neles expressas (WATTS, 2003, p. 125).

Segundo Bargiela-Chiappini (2006), embora se tenha a impressão de que para Goffman a face seja o centro da dinâmica interpessoal, na verdade, esse conceito, ao contrário do que Brown e Levinson entenderam, busca acomodar tanto o comportamento estratégico quanto a norma social, sendo apreendido melhor como um ritual. Além disso, a manutenção da face é condição e não objetivo da interação. Para Goffman, a ordem organizacional é anterior à salvaguarda do eu, que pode ser solicitado a sacrificar sua face em favor da sociedade. Bargiela-Chiappini (2006) frisa ainda que Brown e Levinson priorizaram a postura, autodefensiva negativa de sua pessoa modelo.

Também para Kerbrat-Orecchioni (2004), o problema se instaura na base do modelo, a partir do próprio conceito de imagem, ao qual Brown e Levinson incorporaram a noção goffmaniana de “território” e passaram a chamar de face negativa em oposição à autoimagem (tal qual é entendida ordinariamente), que passaram a chamar de face positiva. Segundo ela, não há oposição, mas complementaridade entre esses dois aspectos da identidade social. Por isso, essa terminologia provoca interpretações equivocadas.

Holmes (2006), discutindo algumas críticas feitas ao modelo em questão, afirma que seu primeiro ponto frágil está no fato de fundamentar-se numa versão da teoria dos atos de fala que toma a frase como unidade básica de análise e o falante como centro. Segundo ele, os trabalhos iniciais que usaram esse modelo focalizavam o enunciado descontextualizado e desprezavam a possibilidade de que os FTAs podem ser expressos por unidades maiores e mais complexas, estendendo-se por vários enunciados e até mesmo em diferentes turnos da fala num processo mais dinâmico que essa abordagem permite analisar.

Holmes (2006) ressalta também, entre outros pontos, que o contexto é crucial na avaliação de polidez, mas a gama de variáveis sociais que podem ser relevantes para a análise da polidez é muito mais extensa do que as que Brown e Levinson identificam (Poder,

Distância e Grau de imposição). Fatores como o nível de formalidade do evento de fala, a presença de um público, o grau de simpatia entre os participantes e assim por diante, podem muito bem afetar o peso dos FTAs, ou mesmo o julgamento sobre se um enunciado é ou não polido. Além disso, essa teoria toma como ponto de partida uma pessoa modelo muito individualista, intencional e culturalmente restrita ou anglo-centrada, o que tem sido criticado por muitos pesquisadores (como Ide et al., 1992; Eelen, 2001; Watts, 2003 apud Dias, 2010).

Outro aspecto que é contestado, como observa Escandell-Vidal (1995, p. 36-37), decorre das relações que estabelece entre indireto/polido e indireto/inferido. A primeira subjaz à noção de que as estratégias mais indiretas, como as encobertas, são mais apropriadas a situações que exijam maior grau de polidez. A segunda conduz à noção de que a interpretação de um ato indireto, portanto polido, resulta de uma implicatura. Segundo ela, tais pressupostos, que conduzem à noção de universalidade desse modelo, nem sempre se mantêm, como comprovam estudos empíricos como os de Wierzbicka (1991) e de Blum-Kulka (1987), pois a mesma estratégia pode receber diferentes atribuições de significados em diferentes culturas (ESCANDELL-VIDAL, 1995, p.41).

A despeito de todas as críticas, discutindo a questão da universalidade desse modelo, Kerbrat-Orecchioni (2004) afirma que, para Brown e Levinson, os princípios gerais do sistema de polidez é que são universais, ou seja, todos possuem a necessidade de preservação de seu território e o impulso narcisista, e, em toda parte, as interações estão sujeitas a conflitos. Segundo Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 46), eles, apesar de sua pretensão universalista, admitiam diferenças transculturais na aplicação de seus princípios e, rebatendo as acusações que esse modelo sofreu, ela afirma que mesmo alguns trabalhos empíricos que o acusaram de “etnocentrismo” (como os de Mao e Matsumoto) confirmam as ideias de Brown e Levinson de que, embora o conteúdo do conceito de face apresente diferenças de cultura para cultura, a necessidade de preservação da face constitui um princípio dinâmico essencial para o desenvolvimento de qualquer interação e um marco universal para os fenômenos de polidez.

Com relação às variações culturais, Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 48-49) reconhece que os comportamentos polidos variam quantitativa e qualitativamente segundo determinações culturais, mas que isso não invalida os fundamentos do modelo de Brown e Levinson, apenas revelam, por um lado, que há diferenças nas concepções do que é percebido como FTA ou como FFA (noção que abordaremos adiante, 2.3.7) e, por outro, que também são diferentes as situações em que convém ou não ser polido. Para solucionar esse impasse, essa autora sugere que se acrescente ao modelo uma categoria neutra (apolido ou não polido) e uma quarta categoria (superpolido). Assim, a impolidez corresponderia à ausência, ou mesmo à presença

frágil, normal (ou esperada no contexto) de uma marca de polidez. A não polidez seria a ausência normal dessa marca; e a polidez, sua presença normal. Já no caso da superpolidez, seria a presença anormal (inesperada ou além da expectativa) dessa marca de polidez.

Segundo Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 39), não se pode negar que as formas e condições de aplicação da polidez variam de cultura para cultura. Mesmo assim, é possível afirmar que ela é universal, na medida em que, apesar dos riscos inerentes às interações, constatam-se em todas as sociedades humanas comportamentos que permitem manter um mínimo de harmonia entre os interlocutores. Ou seja, o fenômeno é universal, suas manifestações não. Admitindo essa contradição, a autora alega que o modelo de Brown e Levinson, com alguns arranjos e a incorporação de alguns aperfeiçoamentos, pode dar conta do funcionamento da polidez não só nas sociedades ocidentais, mas também das diferenças transculturais desse funcionamento, contanto que se considerem as variações em sua relação com o Ethos das sociedades em questão. A partir dessas constatações, ela propõe a ampliação e o aperfeiçoamento desse modelo.