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3.1 O MODELO DE BROWN E LEVINSON

3.1.2 O modelo aperfeiçoado

Embora aponte limitações e confusões teóricas do modelo de Brown e Levinson, Kerbrat-Orecchioni (2004; 2006) reconhece que estas não o invalidam e que o modelo pode ser ampliado e aperfeiçoado. Ela ressalta a importância da formulação dos FTAs, que resultam do cruzamento das teorias de Searle e Goffman (KERBRAT-ORECCHIONI, 2004, p. 42). Argumenta que a originalidade do trabalho de Brown e Levinson consiste nesse cruzamento que “recicla” a noção tradicional de atos de fala, considerando-os em função dos efeitos que produzem sobre as imagens dos interlocutores, e transforma essa noção de FTA num dos fundamentos de uma nova teoria de polidez.

A autora considera, no entanto, que um dos aspectos problemáticos do modelo é o fato de apresentar-se excessivamente pessimista em sua visão da interação, focalizando apenas os atos potencialmente ameaçadores às faces. Para Brown e Levinson (1987 [1978], p. 66), até os elogios são tidos como FTAs, pois ameaçariam a face negativa do ouvinte, uma vez que podem expressar algum desejo do falante em relação às posses deste, motivando-o a pensar em proteger o objeto desejado pelo outro. Da mesma forma, este FTA também poderia afetar a face positiva do falante, pois, ao aceitar um elogio, este pode sentir-se obrigado a depreciar o objeto elogiado ou a retribuir o elogio (Op. Cit. p. 68). Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 43) argumenta que, da mesma forma que há atos de fala que produzem efeitos

intrinsecamente negativos para as faces, como ordens ou críticas, há também aqueles que produzem efeitos essencialmente positivos, como elogios e agradecimentos. Como forma de reformulação e aperfeiçoamento do modelo, em oposição aos FTAs, ela propõe outro tipo de ato de fala, atos que valorizam a face, que são o lado positivo dos FTAs: os FFAs54 (Face Flattering Acts55).

A inserção desses atos ao modelo amplia o domínio da polidez pela produção de antiameaças. Assim, ela passa a analisar as trocas discursivas polidas, como encadeamentos de FTAs e/ou FFAs entre os interlocutores. A introdução dos FFAs no modelo de Brown e Levinson soluciona também, segundo a autora, uma confusão teórica que havia entre polidez positiva e polidez negativa em relação à face positiva e face negativa. Dessa forma, a polidez negativa consiste em evitar um FTA e a positiva em realizar um FFA. Para a autora, o bom desenvolvimento de uma interação será o constante equilíbrio desses dois atos de fala. Kerbrat-Orecchioni (2004, p. 44) entende que tais modificações tornam o modelo em questão mais eficaz e coerente, o que lhe permite dar conta de um número considerável de fatos.

Assim, de acordo com a reformulação feita por Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 82), temos a polidez negativa, de natureza abstencionista ou compensatória, e a polidez positiva, de natureza produtiva. A primeira consiste em evitar produzir um FTA ou em abrandar sua realização por meio de algum procedimento — quer esse FTA se refira à face negativa ou à face positiva do destinatário. A segunda consiste em realizar algum FFA para a face negativa ou para a face positiva do destinatário. Para ser polido numa interação, o falante deve produzir FFAs tanto quanto abrandar FTAs, ou seja, a polidez positiva ocupa um lugar tão importante quanto o da polidez negativa dentro do sistema e é, inclusive, percebida como “mais polida”. Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 84-92) apresenta uma relação dos procedimentos linguísticos de polidez negativa e polidez positiva por meio dos quais os interlocutores procuram manifestar polidez.

Os procedimentos verbais de polidez negativa, que atenuam ameaças potenciais de um ato de fala, são classificados como substitutivos e acompanhantes. Enquanto aqueles substituem a formulação de um FTA por outra mais atenuada, estes acompanham a realização de um FTA com o propósito de suavizá-lo.

Os procedimentos substitutivos são apresentados no Quadro 7, a seguir:

54

Manifestação de acordo, oferta, convite, elogio, agradecimento, entre outros. 55

Quadro 7 – Procedimentos Substitutivos, segundo Kerbrat-Orecchioni (2006)

a) Formulação indireta do FTA 1. Pergunta (em lugar de uma ordem, reprovação ou refutação);

2. Confissão de incompreensão (em lugar de uma crítica); b) Recorrer a desatualizadores

modais, temporais ou pessoais

1. Condicional; 2. Passado de polidez;

3. Voz passiva, impessoal ou indefinido.

c) Empregar pronomes pessoais 1. Senhor (a);

2. “Nós” ou “a gente” (substituindo “você”, em enunciados negativos, e substituindo “eu”, em enunciados positivos).

d) Procedimentos retóricos 1. Litotes (em lugar de uma crítica ou reprovação); 2. Eufemismos;

3. Tropo conversacional Fonte: o autor

De acordo com Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 85), “[...] o recurso à formulação indireta se inscreve geralmente numa preocupação com a polidez, e, inversamente, é pelo viés da formulação indireta, que se exerce, inicialmente, a polidez negativa”. A função dos desatualizadores, por sua vez, é distanciar a realização do FTA e, no caso específico dos desatualizadores pessoais, promover o apagamento da referência direta aos interlocutores. O pronome pessoal “senhor (a)” atenua a agressividade do tratamento ao mesmo tempo em que enfatiza a deferência, e o uso polido de “nós” ou “a gente” adquire valor de solidariedade. Litotes são comuns em lugar de críticas ou reprovações, no entanto, é importante observar que, como podem ter força irônica, nem sempre seu efeito é suavizador. Finalmente, o tropo conversacional consiste em simular dirigir o FTA a outro destinatário que não àquele a que realmente se destina, abrandando seu efeito.

No Quadro 8, abaixo, apresentamos os procedimentos acompanhantes ou subsidiários elencados pela autora:

Quadro 8 – Procedimentos Subsidiários, segundo Kerbrat-Orecchioni (2006)

1. Fórmulas especializadas de polidez

1. Usar formas convencionais como “por favor”, “se for possível”;

2. Enunciado preliminar

1. Interpelações - “Você pode me fazer um favor?”, “Você tem um momento?”, “Você tem dinheiro aí?”;

2. Perguntas – “Posso te perguntar uma coisa / te fazer uma pergunta indiscreta?”; 3. Críticas ou objeções – “Eu posso te dar uma opinião / fazer uma observação / uma

pequena crítica?”;

4. Convites – “Você está livre esta noite?”.

3. Reparações 1. Pedido explícito de desculpas – “Eu te peço desculpas”, “Perdão”, “perdoe-me”, “Queira-me desculpar”;

2. Pedido implícito de desculpas – a) Descrição de um estado de alma – “Eu sinto muito”; b) Justificativa – “Estou sem nenhum centavo aqui”; Reconhecer o erro – “Sei que estou sendo grosseiro”.

4. Minimizadores 1. “Eu queria simplesmente te pedir.../ É só pra saber se.../ Você poderia arrumar um

pouquinho essas coisas? / Você pode me dar uma ajudinha? / Eu tenho uma perguntinha para te fazer”.

5. Modalizadores 1. “Eu penso / creio / acho / tenho a impressão que...”, “Talvez / possivelmente / para mim / na minha opinião (pelo menos)”.

6. Desarmadores 1. “Não queria te importunar, mas...”, “Fico embaraçado por te incomodar, mas...”, “Espero que você não me interprete mal, mas...”, “Sei que você não gosta de emprestar seus discos, mas...”.

7. Moderadores 1. “Por gentileza, me passe o sal”, “Feche a porta, meu anjo”, “Você, que sabe das coisas, me diz então...”.

Fonte: o autor

De fato, é possível suavizar a realização de um FTA recorrendo-se a uma fórmula polida convencional. Kerbrat-Orecchioni (2006), no entanto, elenca muitos outros procedimentos. O enunciado preliminar pode abrandar a ameaça intrínseca em pedidos, perguntas invasivas ou indiscretas, críticas e sugestões. As reparações visam converter algo percebido como ofensivo em algo percebido como aceitável (GOFFMAN, 1967). A função dos minimizadores é parecer reduzir a ameaça contida no FTA, pela forma como este se apresenta. Os modalizadores, neste caso, estabelecem distância entre o sujeito da enunciação e o conteúdo do enunciado. Os desarmadores visam neutralizar uma possível reação negativa do interlocutor, por meio de sua antecipação. Finalmente, os moderadores concorrem para suavizar de alguma forma o efeito inevitável do FTA.

A língua oferece um grande número de procedimentos que abrandam os efeitos dos FTAs e que são cumuláveis, tornando o fenômeno mais rico e variado. Há, no entanto, o lado negativo dos suavizadores: os agravantes. Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 90-91) argumenta que os agravantes reforçam ou aumentam o impacto de um FTA, em lugar de atenuá-lo. No entanto, seu uso é mais raro e “marcado” quando acompanham um FTA, sendo mais comum e numeroso na formulação de FFAs.

No que diz respeito aos procedimentos verbais de polidez positiva, Kerbrat-Orecchioni (2006, p. 91-92) afirma que seu funcionamento é mais simples. Ao contrário dos procedimentos apresentados anteriormente, esses consistem na produção de FFAs dirigidos ao interlocutor, como é o caso de manifestação de acordo, oferta, convite, elogio, agradecimento, fórmulas volitivas ou de boas-vindas, entre outros. Além disso, esses procedimentos, geralmente, se fazem acompanhar por intensificadores, não por atenuantes, o que se verifica, sobretudo, nos agradecimentos. Segundo a autora, há procedimentos que são “preferidos” (não marcados) e outros que são “preteridos” (marcados). Os encadeamentos polidos estão no primeiro grupo, e os encadeamentos impolidos estão no segundo, o que conduz à afirmação de que a polidez é a norma, uma vez que os FTAs são mais frequentemente atenuados que reforçados. Há, pois, segundo Kerbrat-Orecchioni (2006), um princípio que conduz o falante a atenuar FTAs e intensificar FFAs.

Parece-nos que as reformulações propostas por Kerbrat-Orecchioni solucionam boa parte dos problemas e limites do modelo de Brown e Levinson que foram apresentados e

discutidos, de forma que ele, atualizado e aperfeiçoado, permanece oferecendo um suporte teórico consistente para a análise do fenômeno da polidez. Por isso, é esse modelo aperfeiçoado que utilizaremos para a análise dos dados que levantamos em nesta pesquisa. No entanto, a fim de ampliar ainda mais as possibilidades de estudo desse fenômeno, sobretudo porque verificamos sua ocorrência no discurso sobre a inclusão da pessoa com deficiência na escola, é necessário considerar outros elementos e outros ângulos de percepção do fenômeno que permitem novas reflexões e associações. É o que apresentamos a seguir.