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3. PAPA FRANCISCO NO INSTAGRAM: UMA PERSPECTIVA

3.2 Publicações e comentários

3.2.4 Análise dos comentários de março e abril de 2018

3.2.4.5 Crença de falar diretamente com Francisco

Pensando no uso das mídias e nas interações mediadas cotidianas que podem proporcionar, exponho um comentário diferente de tudo que já foi encontrado até o momento desta análise. No post do dia 28 de março, um indivíduo enaltece as redes sociais, uma vez que encontra nelas a possibilidade de se comunicar com Francisco: “Feliz Páscoa! Viva as redes sociais e a Internet, que me dão essa felicidade de desejar ao nosso abençoado Papa do mundo. Assim seja”. Esse seguidor acredita estar falando diretamente com o Papa Francisco. Considerando que o objetivo da Igreja Católica em inserir o Papa no ambiente digital era proporcionar aos seus fiéis a sensação de proximidade e de certa horizontalidade na comunicação, posso dizer que ele está sendo alcançado, pelo menos, em parte, como podemos ver adiante em outros exemplos.

Na postagem do dia 17 de março, que retrata o significado da missa (figura 13), os comentários desta categoria se subdividem em pedidos de bênçãos e de orações, manifestações de amor, concordância, felicitações, saudações e denúncias. Alguns dos pedidos encontrados

156 são: “Abençoai minha família!”, “Me dê sua bênção, Papa”176, “Reze por mim, sua santidade”, “Ore por nós! Tanta violência aqui no RJ! Que Deus tenha misericórdia!”, “Ore pelos desempregados! Misericórdia Senhor!”, “Ora pelo Brasil, querido @franciscus, Santo Padre”. Além desses, detectei um que mescla religiosidade e causas sociais:

Pai, eu tomo a ousadia de pedir-lhe, do fundo do coração, para orar por nós venezuelanos. Só o nosso Pai sagrado pode nos tirar desta crise, que estamos vivendo a fome, a falta de medicamentos, a escassez de alimentos e milhares de coisas que você não pode sequer imaginar. Ore por nós! [tradução nossa]177 (COMENTÁRIO NA

PUBLICAÇÃO DO DIA 17 DE MARÇO DE 2018 DO INSTRAGRAM @FRANCISCUS).

As súplicas a Francisco são de diversas naturezas, o que demonstra que ele é visto por muitos como capaz de interceder a Deus para a realização do que é pedido (para os católicos, esse é o papel dos Santos) ou como um ser que tem o poder de atender aos clamores do povo (para os cristãos, o único capacitado para isso é Deus). De fato, muitos confundem a figura papal com uma figura celestial, seja os Santos ou o próprio Deus. Já o pedido em prol da Venezuela é um destaque tanto por se referir a problemas de uma nação, quanto por estar ligado ao que De Certeau (2014) fala sobre reapropriação. Seguindo os pensamentos desse autor, o Instagram, originalmente criado para fins de entretenimento, foi apropriado por Francisco para propagar a fé católica e algumas questões políticas e sociais, mas, além disso, os seguidores também seguem essa lógica, se reapropriando da página. Dito de outro modo, o que Francisco se apropriou, os seguidores se reapropriaram para outras novas finalidades como considerar aquele espaço do Instagram como um canal direto para solicitações de orações e bênçãos. É importante evidenciar também que esse tipo de comentário mostra que Papa Francisco parece ser visto, muitas vezes, como aquele solucionador de todos os problemas, sejam eles pessoais ou políticos, econômicos e sociais, em qualquer parte do mundo.

Como em diversas publicações, nesta também existem pessoas que declaram amar o Papa (“Te amo, Papa!”) e outras demonstram concordar com a mensagem veiculada (“Boa tarde, querido Papa Francisco! Sua benção! Deus seja louvado! A santa missa é tudo para mim. Sei que sou pecadora, mas sei do grande amor de Deus por mim, por nós, basta aceitarmos. Beijos!”). Essa última escrita é como se fosse uma conversa privada com o líder religioso (um direct, por exemplo) e como se fossem íntimos, já que se despede com “beijos”. Outro

176 Declarações semelhantes a essa também podem ser verificadas em outros posts como, por exemplo, o do dia

19 de março de 2018. Disponível em: <https://www.instagram.com/p/Bggkb3WDLn4/>. Acesso em: 21 nov. 2018.

177 Padre, me tomo el atrevimiento de pedirle, desde lo mas profundo de mi corazón, que ore por nosotros los

venezolanos. Solo nuestro padre santo puede sacarnos de esta crisis que estamos viviendo hambre, escasez de comida medicamentos y miles de cosas que usted no puede ni imaginar. Ore por nosotros!

157 comentário que enxerguei essa sensação de intimidade com o Papa foi um da subcategoria “felicitações”, em que um indivíduo escreve o seguinte texto: “Ótimo final de semana, Chicão!”. O uso de um tipo de apelido para Francisco deixa nítido que a presença do Papa no Instagram tem surtido a impressão de amizade por certas pessoas.

É importante ressaltar que os comentários que manifestam amor pelo líder religioso, certa idolatria por ele (como já foi abordado em outros momentos desta análise) e intimidade (mesmo que irreal) com Francisco, são sinais que há pessoas que acreditam ou, ao menos, buscam ter laços fortes com o Papa. Entretanto, segundo Granovetter (1973), os laços sociais envolvem quantidade de tempo, intensidade emocional, confiança mútua e serviços recíprocos. O que vejo acontecer no Instagram de Francisco é um laço fraco, que de acordo com Granovetter (1973), são pontes que criam mais e menores caminhos entre pessoas socialmente distantes – o que o torna mais relevante nas relações construídas nas redes sociais. Ainda segundo esse autor, para ser um laço forte, é necessário que exista compromissos duradouros, isto é, ligações e sentimentos mútuos, que no caso do Instagram do Papa, só ocorrem de uma parte (daqueles que admiram o líder religioso). Isso demonstra um aspecto contraditório da natureza da interação nas redes sociais. Os relacionamentos intermediados pelas mídias digitais “[...] permitem um contato mais próximo ao mesmo tempo que mantêm uma distância” (MARTINO, 2014, p.124). Ainda em “saudações” constatei que há pessoas que comentam como se fosse uma conversa via direct ou WhatsApp: “Papa Francisco, boa noite e um abençoado final de semana”, “Boa noite!”, “Bom dia, Papa Francisco!” e “A paz!” (saudação cristã). Por mais que não sejam respondidas, parece ser uma forma que encontram para se manifestarem, na esperança que em algum momento Francisco dê um retorno. A falta de feedback do Papa não parece incomodar esses indivíduos, pois todos os 4 são seguidores da página @franciscus. Em contrapartida, há quem se reaproprie do espaço dos comentários para realizar denúncias, ligadas à Igreja Católica. Exemplos desse tipo são: “O senhor é humilde, Papa Francisco. Eu acredito, o admiro e o amo muito. Sempre rezo para o senhor, mas, na Igreja, como tem padres, bispos que agem ao contrário do que Jesus pediu aos seus discípulos” e:

Santíssimo padre, a sua benção. Venho respeitosamente a sua presença suplicar que a página do Facebook do Padre xxxxxxxx da Congregação xxxxxxxx seja monitorada. Ele está maltratando o povo de Deus. Além disso, em seus discursos, é possível observar que ele trocou Jesus por um partido que defende aborto, corrupção e narcotráfico. Aqui no Brasil, Santíssimo Padre, o povo clama por sacerdotes que, realmente, respeitem Jesus. O povo súplica, e chora (COMENTÁRIO NA PUBLICAÇÃO DO DIA 17 DE MARÇO DE 2018 DO INSTRAGRAM @FRANCISCUS).

158 Como a administração da página não responde a nenhum comentário, não posso ter certeza que essas acusações são vistas, mas também não devo desconsiderar que provavelmente são lidas e que algumas sejam até mesmo passadas para o Papa. No entanto, a ausência de retorno aos indivíduos que comentam nas postagens da página @franciscus, não parece chatear os autores das declarações, uma vez que muitos continuam sendo seguidores de Francisco no Instagram (pude concluir isso ao continuar vendo mensagens recorrentes desses mesmos usuários em outras postagens). No entanto, não posso afirmar que todos permanecem seguindo o líder religioso nessa rede social, mesmo após comentarem e não serem respondidos, pois podem haver pessoas que não o seguem mais por esse motivo.

Além de pertencerem à categoria de crença de estarem falando diretamente com Francisco, certas declarações no post do dia 22 de março, cuja temática é a juventude (figura 16), também são enaltecimentos do líder religioso: “Papa, você me representa!”, “Caro Papa Francisco, você é fantástico!”, “Só o senhor mesmo pra ser tão sábio”. Por outro lado, verifiquei a busca por contato realmente direto com Francisco. O comentário “Qual o e-mail do Papa Francisco?” demonstra que há pessoas que compreendem que a página é administrada por terceiros e não pelo Papa. Nesse caso, a pessoa expõe o desejo de se comunicar diretamente com Francisco, mas não analisou que até o e-mail pode ser acessado pela equipe de comunicação.

Já na publicação do dia 9 de abril, que aborda a santidade (figura 22), as mensagens que se destacaram na tentativa de dialogar com o Papa foram concordando com o conteúdo e agradecendo-o por isso (“Amém, amém, amém! Obrigado, querido, Santidade Papa Francisco”), saudando-o e desejando bênçãos para a humanidade (“Bom dia, Papa Francisco. Saúde e paz para o mundo. Amém, Jesus!”). Esses exemplos refletem, mais uma vez, a busca, por alguns seguidores, de criar um laço forte com Papa, principalmente, quando o cumprimenta com um “Bom dia”, por exemplo, que costuma ser um tipo de mensagem que as pessoas mandam cotidianamente para quem tem intimidade. A horizontalidade na comunicação proposta pelas redes sociais, efetivamente, pode despertar nos seguidores das figuras públicas um sentimento de proximidade; de convívio cotidiano, mesmo que no ambiente online; e de informalidade. Se a Igreja Católica se propôs a se adequar a esse tipo de comunicação, quando criou a página @franciscus, seria interessante que houvesse trocas comunicativas nos comentários. Por mais que existam seguidores que tenham a sensação de estarem próximos do Papa, mesmo sem respostas, outros podem não estar satisfeitos, o que faz com que o objetivo inicial da instituição seja parcialmente alcançado.

159 No post do dia 22 de abril, que fala sobre a Ordenação realizada por Francisco (figura 24), além de algumas pessoas pedirem a bênção do Papa e desejarem a bênção de Deus para Francisco – como observado também em outras postagens –, há quem elogie a Ordenação (“Uma benção, Papa Francisco”) e peça orações por povos em sofrimento (“Papa Francisco, reze, por favor, pela Nicarágua. Que parem de matar a juventude que protesta pela paz” [tradução nossa]178). Este último exemplifica uma reapropriação do Instagram do Papa para fins de clamores pela paz e pela estabilidade de nações que vivem em perigo constante, isto é, expressa desejo por mudanças e veem em Francisco uma ajuda possível.