2. A INTERAÇÃO MEDIADA COTIDIANA ENTRE O PAPA FRANCISCO E SEUS
2.1 Um Papa hipermoderno e os novos modos de ser
Intensas mudanças sociais, econômicas e tecnológicas; e redução do tempo perante a multiplicidade de demandas cotidianas parecem compor o cerne da sociedade contemporânea. Logo, as mensagens precisam ser moldadas a essa nova realidade, ou seja, precisam ser emitidas e recebidas rapidamente. No entanto, essas transformações não começaram repentinamente, visto que “a partir do final dos anos 70, a noção de pós-modernidade fez sua entrada no palco intelectual com o fim de qualificar o novo estado cultural das sociedades desenvolvidas” (LIPOVETSKY, 2004, p.51). Como também diz Castells (2006, p.39):
No fim do segundo milênio da Era Cristã, vários acontecimentos de importância histórica transformaram o cenário social da vida humana. Uma revolução tecnológica concentrada nas tecnologias da informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado.
Esses eventos levantados por Castells (2006) referem-se ao colapso do estatismo soviético, ao enfraquecimento do movimento comunista internacional, ao fim da Guerra Fria, à redução do risco do holocausto nuclear e à alteração da geopolítica global. O autor (2006) salienta também as mudanças no regime capitalista, quando afirma que após esses episódios históricos, “o próprio capitalismo passa por um processo de profunda reestruturação caracterizado por maior flexibilidade de gerenciamento, descentralização das empresas e sua organização em redes tanto internamente quanto em suas relações com outras empresas [...]” (CASTELLS, 2006, p.51). Observa-se, portanto, a confluência entre os pensamentos de Lipovetsky (2004) e de Castells (2006). Ambos os autores identificam que a década de 1970 trouxe significativas mudanças nas esferas econômica, tecnológica e cultural. Nota-se esse diálogo, quando Castells (2006, p.43, grifo do autor) diz que:
[...] apesar do papel decisivo do financiamento militar e dos mercados nos primeiros estágios da indústria eletrônica, da década de 1940 à de 1960, o grande progresso tecnológico que se deu no início dos anos 70 pode, de certa forma, ser relacionado à cultura da liberdade, inovação individual e iniciativa empreendedora oriunda dos campi norte-americanos da década de 1960.
Essa nova era é tratada com posicionamentos distintos por Bauman (1998; 2001) e Lipovetsky (2004). Zygmunt Bauman em seus escritos de 1998 se refere à contemporaneidade
74 como a pós-modernidade63, cujo eixo da estratégia de vida “não é fazer a identidade deter-se – mas, evitar que ela se fixe” (BAUMAN, 1998, p.114, grifo do autor). No início da década seguinte, ele cunha o termo “modernidade líquida”, devido às ávidas mudanças sociais, tecnológicas e econômicas, e à fluidez nos planos individuais e coletivos. Assim, Bauman (2001, p.12) propõe que:
Os sólidos que estão para ser lançados no cadinho e os que estão derretendo neste momento, o momento da modernidade fluida, são os elos que entrelaçam as escolhas individuais em projetos e ações coletivas – os padrões de comunicação e coordenação entre as políticas de coletividades humanas, de outro.
Embora Lipovetsky (2004) retome o termo “pós-modernidade”, ele não concorda com o mesmo. O autor (2004) faz uma objeção quando diz que “o rótulo pós-moderno já ganhou rugas, tendo esgotado sua capacidade de exprimir o mundo que se anuncia” (LIPOVETSKY, 2004, p.52). Dessa forma, Lipovetsky (2004) constrói seu pensamento a partir do uso de potências superlativas, visto que acredita que a conjuntura atual vai além do que se considera “pós”, chegando ao “hiper”, designando os tempos hipermodernos.
Calcada nos modos de ser dos sujeitos pós-modernos, os quais estão delineados nas modificações dos indivíduos e das suas relações, Sibilia (2008) fala sobre as novas engrenagens da vida contemporânea, podendo-se incluir as mudanças tanto no ritmo do cotidiano quanto nas formas de comunicação. Trata-se de alterações conjunturais que percorrem diversas esferas da sociedade, considerando o âmbito econômico, tecnológico, os aspectos de subjetividade e de relações sociais. A autora diz que:
A elaboração de cartas e diários, de fato, remete aos ritmos cadenciados e ao tempo esticado de outras épocas, hoje flagrantemente perdidos. Tempos idos, atropelados pela agitação da vida contemporânea e também pela eficácia inegável de tecnologias como os telefones, e-mails, celulares e internet. Em menos de uma década, os computadores interconectados através das redes digitais de abrangência planetária se converteram em poderosos meios de comunicação, por cujas veias globais circulam infinitos textos nas mais diversas línguas, que são permanentemente escritos e reescritos, lidos e relidos – e também esquecidos ou ignorados – por milhões de usuários do mundo inteiro. Entre eles prosperam, com incrível força, as novas modalidades de escritas íntimas (ou éxtimas), mas agora tudo acontece em tempo real: na velocidade do instante, que é simultâneo para todos os usuários do planeta (SIBILIA, 2008, p.57-58, grifo do autor).
Quando Sibilia (2008) fala sobre os textos que circulam globalmente em diversas línguas, pode ser traçada uma conexão com as mensagens veiculadas na conta do Instagram do Papa Francisco. A primeira postagem do Papa nessa rede social teve seu texto escrito em nove
63Bauman (1998) não foi o primeiro autor a utilizar o termo pós-modernidade. Segundo Giddens (1991), Jean- François Lyotard foi o responsável pela popularização da noção de pós-modernidade, em seu livro The Postmodern Condition.
75 idiomas (G1, 2016b) e essa diversidade de línguas se tornou padrão em suas publicações, conforme pode ser observado nas figuras 2 e 3. É válido pontuar que, segundo o site de notícias G1, a decisão do Papa em criar uma conta no Instagram ocorreu após a visita de Kevin Systrom – presidente-executivo e cofundador do aplicativo –, no final de fevereiro de 2016. Systrom conversou com o líder religioso sobre “o poder das imagens para unir pessoas de diferentes culturas e línguas” (G1, 2016b, s./p.).
Figura 2 – Primeira postagem do Papa Francisco no Instagram.
Fonte: Instagram @franciscus, 201664.
Figura 3 – Postagem do Instagram do Papa em 9 de abril de 2018.
Fonte: Instagram @franciscus, 201865
As mensagens disseminadas pelas redes sociais ultrapassam as fronteiras, permitindo constante interação entre as partes envolvidas. Conquistar uma visibilidade mundial através do
64 Disponível em: <https://www.instagram.com/p/BDIgGXqAQsq/?hl=pt-br&taken-by=franciscus>. Acesso em:
13 abr. 2018.
65 Disponível em: <https://www.instagram.com/p/BhWgZYAjUyf/?hl=pt-br&taken-by=franciscus>. Acesso em:
76 ambiente digital parece um caminho perspicaz para rejuvenescer a imagem da Igreja Católica. A hipermodernidade é a era dos avanços vertiginosos, da tecnologia à mão, do tempo escasso e da multiplicidade de demandas. Diante desse novo cenário, Joana Puntel e Helena Corazza (2007, p.46) expõem suas visões a respeito dos aspectos comunicativos e tecnológicos:
Do ponto de vista histórico-evolutivo, portanto, é importante compreender que o panorama do desenvolvimento das tecnologias de comunicação apresenta, vertiginosamente, a própria comunicação como fenômeno complexo e articulado. Entre todos os aspectos relevantes de tal evolução técnica, torna-se imprescindível perceber que, mudando a tecnologia, muda a comunicação.
Thompson (1998) também analisa essas questões, a partir da perspectiva das mudanças nos padrões tradicionais de interação social com o desenvolvimento dos meios de comunicação. O autor acredita que o surgimento de vários tipos de meios eletrônicos nos séculos XIX e XX implicou a suplementação cada vez mais intensa da interação face a face por formas de interação mediada e interação quase mediada. Sendo assim, ele diz ainda que:
[...] devemos nos conscientizar de que o desenvolvimento de novos meios de comunicação não consiste simplesmente na instituição de novas redes de transmissão de informação entre indivíduos cujas relações sociais básicas permanecem intactas. Mais do que isso, o desenvolvimento dos meios de comunicação cria novas formas de ação e de interação e novos tipos de relacionamentos sociais – formas que são bastante diferentes das que tinham prevalecido durante a maior parte da história humana. [...] Com o desenvolvimento dos meios de comunicação, a interação se dissocia do ambiente físico, de tal maneira que os indivíduos podem interagir uns com os outros ainda que não partilhem do mesmo ambiente espaço-temporal (THOMPSON, 1998, p.77).
Os novos meios de comunicação que vêm surgindo neste cenário, regidos pelos novos modos de ser, têm suscitado a participação dos sujeitos em âmbito global. Não há fronteiras, não existem restrições de finalidades de uso, o que há é a ampliação das interações sociais e do alcance das redes de contato. Isto posto, até o líder máximo da Igreja Católica aderiu aos novos meios e formatos de comunicação. Ele vem demonstrando afinidade com as redes sociais. Conforme Entrala (2013) – responsável pela conta do Papa no Twitter – disse, Francisco gostou da ideia de poder se dirigir a milhões de pessoas com uma frase concisa. Essa adaptação do Papa parece estar acordada com o que Puntel e Corazza (2007, p.41-42) falam sobre a comunicação e a mudança social:
Afirmar que a comunicação pode ser considerada como elemento articulador da sociedade é, em outras palavras, concebê-la como uma cultura, e portanto, como elemento que faz circular as ideias e produz significado na sociedade, caracterizada pela globalização e pela cultura da época (modernidade e pós-modernidade).
O Papa identificou as novas maneiras de consumo de mensagens e as utilizou a seu favor. Compreendeu que novas formas de comunicação com a população poderiam trazer mudanças tanto no que tange à crença católica quanto às questões sociais. Trouxe para o
77 cotidiano dos seus fiéis e/ou admiradores suas palavras de fé através das redes sociais, onde a distância física não implica necessariamente uma menor interatividade. O Clérigo parece ter sido embalado pelas características dos sujeitos hipermodernos. A vida cotidiana hipermoderna em ritmo acelerado vem moldando novos meios de comunicação e novos estilos de mensagens, os quais intensificam as interações à distância.