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Crença, seus objetivos e o nosso controle sobre ela

SCHWITZGEBEL,  E.  Belief. In:  ZALTA,  E.  N.  (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Fall Edition. Stanford, CA: The Metaphysics Research Lab, 2019. Disponível  em: https://plato.stanford.edu/archives/fall2019/entries/belief/. Acesso em: 15 out. 2021. 

imoral (exemplo: o médico que coleta evidência sobre doenças humanas por meio  da prática de experimentos desumanos em prisioneiros). 

Eticistas da crença que não são monistas a respeito do valor frequentemente  afirmam que há uma maneira de ordenar normas ou tipos de normas em termos de  sua força relativa ou da facilidade relativa com que suas reivindicações podem ser  derrotadas. Isso significa que em uma dada situação haverá uma resposta determinada  sobre  o  que  se  deve,  “tudo  o  mais  considerado”,  acreditar.  Outros  argumentam,  contudo, que ao menos algumas das normas são incomensuráveis e que em muitos  casos simplesmente não haverá resposta ao problema do que é correto, tudo o mais  considerado, acreditar (FELDMAN, 2000). Outros, por sua vez, pensam que uma  dada categoria de norma colapsa em outra e que isso pode nos dar uma conclusão 

“tudo o mais considerado”. Para uma discussão sobre se a racionalidade epistêmica  colapsa na racionalidade prudencial, por exemplo, consulte Kelly (2003). 

Em suma: uma ética da crença bem articulada dirá algo sobre as fontes  axiológicas dos diferentes tipos de normas, sobre as relações inferenciais entre  elas, sobre o âmbito temporal (sincrônico/diacrônico) e sobre o que fazer quando  essas normas conflitam (vide BROOME, 1999;  KOLODNY, 2005).

RESCORLA,  M.  The  Language  of  Thought  Hypothesis. In:  ZALTA,  E.  N.  (ed.) The Stanford Encyclopedia of Philosophy.  Summer  Edition.  Stanford,  CA: The  Metaphysics  Research  Lab,  2019. Disponível em: https://plato.stanford.edu/archives/sum2019/entries/language­thought/. Acesso  em: 15 out. 2021.em: 15 out. 2021.

RAMSEY,  W.  Eliminative  Materialism. In:  ZALTA,  E.  N.  (ed.) The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Fall Edition. Stanford, CA: The Metaphysics Research Lab, 2021. Disponível em: https://

plato.stanford.edu/archives/fall2021/entries/materialism­eliminative/. Acesso em: 15 out. 2021.

que é diferente, é uma crença de ordem superior (a mera crença de que p não  exige, por exemplo, a posse do conceito de “verdade”, ao passo que a crença de  que p é verdadeira o exige). É também amplamente aceito que a maioria das  nossas crenças não são ocorrentes em todos os momentos e que a crença admite  graus de força, confiança ou firmeza. 

Para além disso, no entanto, a concordância desaba. Os representacionistas  encaram as crenças como estruturas mentais que representam as proposições  afirmadas – normalmente em algo como uma linguagem mental. Confira Fodor  (1975)  e  o  verbete  sobre  a  linguagem  do  pensamento.  Os  behavioristas  disposicionalistas  encaram  as  crenças  como  disposições  para agir  de  certas  maneiras em certas circunstâncias (vide BRAITHWAITE, 1932, 1933). Os eliminativistas  encaram a conversa sobre “crenças” como uma forma de designar ficções convenientes  que atribuímos às pessoas na psicologia de senso comum [folk psychology]. Consulte  Churchland (1981) e o verbete sobre materialismo eliminativista. Os primitivistas  encaram as crenças como estados mentais básicos não analisáveis. E assim por  diante.  Há  também  uma  grande  controvérsia  a  respeito  de  se  o  conceito  mais  fundamental aqui é o de graus de crença (o quão provável a pessoa pensa que é a crença).

Essa discordância sobre a natureza da crença não tem (ao menos é o que  se pensa até aqui) interferido de modo significativo no debate da ética da crença. 

Obviamente, eliminativistas e behavioristas terão de dizer que normas doxásticas,  caso existam, aplicam­se, fundamentalmente, a estados não­doxásticos. Mas mesmo  levando em conta tudo isso, tanto essas quanto outras análises ontológicas da  crença parecem compatíveis com várias abordagens diferentes a respeito de sua ética.

 N. T.: Verbete publicado neste volume. 

3.2. O(s) objetivo(s) da crença

Em contraste, teorias sobre o objetivo ou meta da crença tipicamente têm  um impacto imediato e substancial nas concepções de sua ética e podem, em  particular, ser usadas para responder questões sobre a importância relativa de  várias normas, se há ou não obrigações “tudo o mais considerado” em uma dada  situação, e assim por diante (VELLEMAN, 2000; WEDGWOOD, 2002; STEGLICH­

PETERSON, 2009). Para uma discussão geral, confira os ensaios de Chan (2013)  e Côté­bouchard (no prelo) para uma crítica do percurso a partir do objetivo da  crença até a norma doxástica. 

Alguns filósofos e psicólogos argumentam que a aquisição de verdades importantes ao mesmo tempo em que se evita falsidades importantes é o único  objetivo da crença e que quaisquer obrigações doxásticas serão estruturadas de  acordo com isso (DAVID, 2001). Outros argumentam que há objetivos importantes  adicionais, ou mesmo concorrentes, ao objetivo de aquisição da verdade – objetivos  a que podem corresponder outras normas doxásticas (VELLEMAN, 2000; SOSA,  2000,  2003;  GIBBONS,  2013).  Um  candidato  comum  aqui,  naturalmente,  é  o  conhecimento. A esse respeito, confira Williamson (2000), Pritchard (2007), Simion  et al. (2016) e o verbete sobre o valor do conhecimento. No entanto, alguns  autores afirmam que a justificação (ADLER, 2002; GIBBONS, 2013) e/ou a “virtude” 

doxástica é o objetivo (ZAGZEBSKI, 2004; SOSA, 2011; WRIGHT, 2014), ao passo  que  outros  pendem  para  um  objetivo  mais  estruturalmente  complexo,  como  o 

“entendimento” (KVANVIG, 2003, 2009; GRIMM, 2012). Repare, no entanto, que  outros autores argumentam que o entendimento não envolve nem mesmo a crença  (HUNTER, 1998; DELLSÉN, no prelo).

Como mencionado anteriormente, frequentemente se assume na ciência  cognitiva e na biologia evolutiva que o objetivo da crença (e o de quase todos os  outros  processos)  é  algo  como  a  “sobrevivência”.  No  entanto,  há  atualmente  discordâncias sobre em que medida isso está correto e, mesmo que esteja, se a  sobrevivência  está  necessária  ou  contingentemente  conectada  à  aquisição  da  verdade  enquanto  objetivo  é  também  objeto  de  discordância  (STICH,  1990; 

PLANTINGA, 2002; STREET, 2006).

DEWEESE­BOYD,  I.  Self­Deception.  In:  ZALTA,  E.  N.  (ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Summer Edition. Stanford, CA: The Metaphysics Research  Lab,  2021.  Disponível  em:  https://plato.stanford.edu/archives/sum2021/entries/self­

deception/. Acesso em: 15 out. 2021.

Um tipo bem diferente de candidato a objetivo da crença seria algo como,  aqui entendido de maneira ampla, o prazer ou talvez o “sentir­se em casa no mundo”. 

Se o objetivo for uma dessas opções, as normas correspondentes podem, por  vezes, afastar­nos da verdade. Por exemplo, suponha que Smith é o tipo de cara  que sente muito prazer quando acredita que todas as pessoas que ele conhece o  têm em alta conta e que o prazer é um objetivo que está na base de uma norma  doxástica. Sendo assim, Smith tem uma obrigação prima facie de acreditar que seu  amigo Jones o tem em alta conta. 

Esse claramente é um daqueles momentos em que debates sobre estratégias  psicológicas como autoengano, “má fé”, fantasias, “ironia” e coisas parecidas se  tornam relevantes na ética da crença. Consulte Wisdo (1991, 1993), Mele (2001),  Wood (2002) e o verbete sobre autoengano. Se os objetivos da crença podem  plausivelmente ser encarados como amplos o suficiente para incluir estados neutros  relativamente à verdade, como o prazer ou o “sentir­se em casa no mundo”, e se  esses objetivos podem estar na base de normas genuínas, o evidencialismo tal  como caracterizado abaixo claramente apresenta uma caracterização demasiadamente  estreita da ética da crença. 

Vimos que a nossa concepção de objetivo da crença pode influenciar a  nossa concepção de normas doxásticas. Mas ela também pode afetar a medida  em que paralelos podem ser traçados entre a ética da crença e a ética da ação de  modo geral. Caso se adote o “monismo sobre o valor” na ética da crença (mesmo  que seja um veritismo sobre outro tipo de valor), haverá um forte paralelo com as  teorias monistas consequencialistas em ética da ação (DEPAUL, 2001).

Uma diferença que ainda persiste entre o consequencialismo em epistemologia  e em ética, no entanto, é que o sucesso de uma crença em alcançar seus objetivos  é, para os epistemólogos, tipicamente determinado assim que a crença é formada,  ao passo que no caso de uma ação, as consequências posteriores são relevantes  para a avaliação de sua correção moral, e muitas dessas consequências não serão  conhecidas (isso se forem) até muito depois. Para uma comparação mais extensa  entre esses dois tipos de consequencialismo, veja Briesen (2017). Assim, é possível 

imaginar uma ética da crença diacrônica na qual a verdade seja o único objetivo  da crença, muito embora avaliemos não apenas o valor de verdade das crenças,  mas também sua capacidade de possibilitar ou produzir aquisições futuras de outras  crenças verdadeiras. 

Entretanto, se temos uma teoria segundo a qual o objetivo da crença é  complexo, paralelos com a ética da ação se tornam mais complicados. Um eticista  da crença que sustenta que a aquisição de verdades importantes da maneira correta é o objetivo da crença, e analisa a “correção” de uma prática de formação  de crenças em termos de sua propensão a conduzir à verdade, pode pensar que  o paralelo relevante é com o consequencialismo de regras. Em contraste, a perspectiva  de  que  o  objetivo  da  crença  é  simplesmente acreditar da maneira correta,  independentemente de essa “maneira correta” conduzir confiavelmente a verdades  importantes, soa como um análogo da posição deontológica em ética que enfatiza  a obediência intencional aos princípios corretos e não o alcance de algum objetivo  externo ao próprio ato. Se esses paralelos são iluminantes e se as perspectivas  em ética da crença restringem nossas opções em ética da ação ainda são questões  em aberto (KORNBLITH, 1983; DOUGHERTY, 2014).

Há muitas variações adicionais aqui. Parece possível defender, por exemplo,  a perspectiva de que devemos acreditar apenas com base em evidências suficientes,  como os evidencialistas ensinam, mas acrescentando que nossa concepção dos  objetivos  da  crença  poderá  fornecer  condições  necessárias  adicionais  e  mais  precisas para que uma crença seja permissível. Também é possível argumentar  que o objetivo da crença faz com que tenhamos razões práticas para pensar que  apenas razões epistêmicas permitem a formação de uma crença (WHITING, 2014).

Por fim, talvez seja possível defender a perspectiva de que, por sua natureza,  a crença não tem qualquer objetivo específico, sendo, então, um estado que pode  constituir ou levar a uma série de bens diferentes. Se isso estiver correto, obviamente,  não podemos encarar o objetivo da crença como a base de uma explicação de sua ética.

3.3. Conhecimento como a norma da crença

Já vimos que alguns teóricos encaram o conhecimento como o (ou ao  menos um dos) objetivo da crença. Alguns filósofos vão mais adiante e dizem que  o conhecimento é também a norma da crença, isto é, que qualquer crença que  também  não  conte  como  conhecimento  é  impermissível,  irracional,  viciosa  ou 

defectiva. Por outras palavras, saber que p é condição tanto necessária quanto  suficiente para a permissibilidade (racionalidade, virtuosidade) de acreditar que p.

Um argumento em favor da afirmação de que o conhecimento é a norma  da crença tenta inferir esse resultado da afirmação de que o conhecimento é o  objetivo da crença. O objetivo gera a norma, e qualquer crença que fracasse em  alcançar o objetivo também fracassa em obedecer a norma. Nessa linha, talvez o  argumento  mais  proeminente  comece  com  a  afirmação  relacionada  de  que  conhecimento é a “norma de asserção”, ou seja, que não devemos asserir uma  proposição cujo valor de verdade não sabemos (vide WILLIAMSON, 2000). Mas  se for esse o caso, e se a crença for o análogo “interno” da asserção, parece que  também só deveríamos acreditar em uma proposição quando ela fosse conhecimento. 

O debate, então, diz respeito a se o conhecimento é realmente a norma da asserção  e, sendo o caso, se a “crença” é um análogo interno da asserção de um modo tal  que a norma se transfere para ela (vide SUTTON, 2005; HUEMER, 2007b; BACH,  2008; GOLDBERG, 2009). 

Uma razão pela qual essa perspectiva pode parecer contraintuitiva é que  um importante papel geralmente desempenhado pelas normas é o de guiar ações. 

O princípio de que deveríamos acreditar apenas no que sabemos não é, para esses  fins,  uma  norma  muito  útil,  uma  vez  que  frequentemente  não  sabemos  o  que  sabemos (pelo menos de acordo com os epistemólogos). Obviamente, se eu adotar  essa norma e souber que não sei que p, vou perceber que eu não deveria acreditar  que p. Essa formulação negativa é a que Williamson (2000, p. 256) usa. Porém,  uma vez mais, a maioria dos epistemólogos não pensa que em geral sejamos  capazes de dizer, de um ponto de vista interno, se saberíamos a proposição em  causa a partir do momento em que acreditamos nela. E mesmo assim, essa habilidade  parece ser pressuposta pela ideia de que essa norma é um guia para a ação. Outra  objeção à ideia de que o conhecimento é a norma da crença é mais intuitiva: o  conhecimento, para a maioria de nós, parece ser um tipo de conquista diferente da  crença ou mesmo da crença justificada, ou (após Gettier) mesmo da crença verdadeira  justificada. Uma coisa é dizer que adquirimos o conceito de crença observando  casos paradigmáticos de conhecimento, abstraindo assim diferentes elementos  desses casos (por exemplo: “crença justificada seria como o conhecimento, mas  sem a verdade”); outra completamente diferente é dizer que nenhuma crença é  formada apropriadamente a menos que ela também seja conhecimento. Para mais  material sobre isso, confira Benton (Outros Recursos Virtuais).

3.4. Controle de crenças

Uma terceira questão fundamental relacionada à natureza da crença é se  sua formação é de alguma maneira voluntária ou está sob o controle da vontade. 

Trata­se de uma questão que também tem efeito na ética da crença. Muitos filósofos  e psicólogos concluíram que a crença é uma resposta mais ou menos involuntária  à evidência percebida. Mas se um comportamento não “cabe a nós” em um sentido  importante,  é  difícil  ver  como  seríamos  responsáveis  por  praticá­lo.  Para  um  argumento influente nessa linha, confira Alston (1989).

Em resposta ao desafio desse “involuntarismo doxástico”, alguns filósofos  argumentam que temos, sim, controle direto sobre ao menos algumas de nossas  crenças (GINET, 2001; WEATHERSON, 2008), ou que temos, no mínimo, controle  sobre  quais  crenças  são  suspensas  ou  abandonadas  (ROTT,  no  prelo).  Outros  desenvolvem um tipo de perspectiva híbrida na qual certos tipos de formação de  crença são livres e “cabem a nós”, por mais que eles também sejam causados em  nós (vide STEUP, 2000; RYAN (2003). Alguns rejeitam explicitamente qualquer paralelo  entre o livre­arbítrio e a crença livre (VAGENR, no prelo). Outros ainda têm como foco  o fato de que podemos ser elogiados ou culpados por crenças (e ações) que não  estão sob nosso controle mesmo que não haja qualquer obrigação sobre a formação  de crenças (ADAMS, 1985; HIERONYMI, 2006, SOUTHWOOD; CHUARD, 2009).

Outra resposta, esta compatível com muitas das listadas acima, envolve  uma descrição de modos indiretos em que a formação da crença conta como  voluntária, sendo assim suscetível à avaliação normativa (PASCAL, 1670; FELDMAN,  2000; AUDI, 2001; YEE, 2002; AUDI, 2008b). Outra opção é entender o desafio do  involuntarismo doxástico como uma forma de motivar um novo foco em atitudes  proposicionais positivas que são, por definição, voluntárias – “aceitações”, por  exemplo (vide COHEN, 1992; BRATMAN, 1992; ENGEL, 2000; AUDI, 2008a, e o 

§ 7 abaixo). Por fim, alguns eticistas da crença buscam argumentar que há algumas  obrigações relativas à formação direta de crenças ao mesmo tempo em que aceitam  o suposto dado empírico de que muito dessa formação não está sob o controle da  vontade (FELDMAN; CONEE, 1985; FELDMAN, 2000; ADLER, 2005; HIERONYMI,  2006, 2008).