De qualquer forma, o conceito de evidência é inseparável do de justificação. Quando falamos de “evidência” num sentido epistemológico, estamos falando sobre justificação: uma coisa é “evidência” para outra apenas no caso em que a primeira tende a aumentar a razoabilidade ou a justificação da segunda [...] Um conceito estritamente nãonormativo de evidência não é o nosso conceito de evidência; é algo que não entendemos.
Jaegwon Kim, What is “Naturalized Epistemology”?
Evidência, o que quer que ela seja, é o tipo de coisa que pode fazer diferença àquilo que alguém está justificado em acreditar ou (o que muitas vezes é considerado a mesma coisa) àquilo que é razoável a alguém acreditar. Alguns filósofos sustentam que aquilo no qual alguém está justificado a acreditar é inteiramente determinado pela evidência dessa pessoa. Essa perspectiva, que às vezes circula sob o nome de
“evidencialismo”, pode ser formulada como uma tese de superveniência de acordo com a qual os fatos normativos sobre aquilo que alguém está justificado a acreditar sobrevêm aos fatos sobre a evidência da qual essa pessoa dispõe (CONEE; FELDMAN, 2004). Assim, de acordo com o evidencialismo, quaisquer dois indivíduos que possuam exatamente a mesma evidência seriam exatamente iguais no que diz respeito àquilo que estão justificados a acreditar sobre determinada questão.
Dado o evidencialismo, vários debates na teoria do conhecimento são naturalmente postos como debates sobre o status de várias teses de subdeterminação.
Assim, o cético sobre o nosso conhecimento do mundo externo insiste que a evidência de um sujeito (entendida talvez como a totalidade de suas experiências presentes) não favorece as perspectivas ordinárias, de senso comum, desse sujeito sobre o que está à sua volta em detrimento de várias alternativas céticas (a hipótese de que o sujeito está tendo uma alucinação indetectável). Similarmente, uma longeva controvérsia que divide realistas e antirrealistas na filosofia da ciência pode ser
17 Talvez “evidência” tenha uma conotação empírica que “razão para acreditar” não tenha:
soa mais natural, pelo menos a alguns ouvidos, descrever considerações filosóficas a priori como razões para acreditar em alguma tese filosófica do que como evidência a favor dessa tese.
18 Considere aquilo que poderia parecer estar entre os melhores candidatos para evidência não
anulável: uma demonstração matemática genuína da conclusão de que p corretamente reconhecida pelo sujeito. Mesmo nessas circunstâncias, é defensável que o sujeito poderia adquirir evidência adicional que o tornasse injustificado em sua crença de que p: digamos, o testemunho de matemáticos experts de que a demonstração esconde falhas sutis cuja falta de sofisticação do sujeito o impede de detectar.
entendida como um debate sobre se o tipo de evidência disponível aos cientistas é sempre suficiente para justificar a crença nas teorias que quantificam sobre entidades que são em princípio inobserváveis, tais como elétrons e quarks.
Na medida em que a evidência é o tipo de coisa que confere justificação, o conceito de evidência está intimamente relacionado a outros conceitos normativos como o conceito de ter uma razão. É de fato natural pensar que “razão para crer”
e “evidência” são mais ou menos sinônimos, sendo distinguidos principalmente pelo fato de o primeiro funcionar gramaticalmente como um substantivo contável ao passo que o último funciona como um termo de massa.17
Visto que aquilo a que alguém está justificado em acreditar depende da evidência de que dispõe, o que é relevante nesse caso é a sua relação com a evidência total. Ainda que a evidência E seja suficiente para justificar a crença na hipótese H quando considerada isoladamente, não se segue que o sujeito que possua a evidência E esteja justificado em acreditar em H. Pois o sujeito poderia possuir alguma evidência adicional E’ tal que não esteja justificado em acreditar que H dado E e E’. Nessas circunstâncias, a evidência E’ anula a justificação para acreditar que H que seria propiciada por E em sua ausência. Assim, ainda que eu esteja inicialmente justificado em acreditar que o seu nome é Fritz com base no seu testemunho, a aquisição posterior de evidência que sugere que você seja um mentiroso patológico tende a tornar essa mesma crença injustificada. Uma dada evidência é dita anulável apenas no caso em que ela seja em princípio susceptível de ser minada por evidência adicional; a evidência que não é susceptível de ser minada seria evidência nãoanulável. É uma questão controversa se há alguma evidência nesse sentido que seja nãoanulável.18
19 Para outras discussões sobre questões em aberto, veja KELLY (2008). Uma discussão clássica sobre a exigência de evidência total é encontrada em HEMPEL (1960).
Seguindo Pollock (1986), podemos distinguir entre anuladores enfraquecedores [undercutting] e refutantes [rebutting]. Intuitivamente, sendo E evidência para H, uma anulador enfraquecedor é a evidência que mina a conexão evidencial entre E e H. Assim, a evidência que sugere que você é um mentiroso patológico constitui um anulador enfraquecedor ao seu testemunho: embora o seu testemunho me oferecesse excelente razão para acreditar que o seu nome é Fritz, a evidência de que você é um mentiroso patológico tende a romper a conexão evidencial entre o seu testemunho e aquilo que você atesta. Em contraste, um anulador refutante é a evidência que impede E de justificar a crença de que H ao apoiar nãoH de modo mais direto. Assim, um testemunho credível provindo de outra fonte de que o seu nome não é Fritz, mas sim Leopold, constitui um anulador refutante ao seu testemunho original. Uma questão em aberto diz respeito aos contornos da distinção entre anuladores “enfraquecedores” e “refutantes”.
A evidência anuladora pode ser também anulada por evidência adicional:
futuramente eu ainda poderia adquirir evidência E’’ sugerindo que você não é afinal um mentiroso patológico, tendo sido a evidência anterior obra de seu arquiinimigo.
Nessas circunstâncias, a minha justificação inicial para acreditar que o seu nome é Fritz oferecida pela evidência original E é restabelecida. A princípio, não há limite à complexidade das relações de anulação que poderiam ser obtidas entre os membros de um dado corpo de evidência. Tal complexidade é uma fonte da nossa falibilidade em responder apropriadamente à evidência.
Para que um sujeito esteja justificado em acreditar em uma proposição não é suficiente que essa proposição seja bem apoiada por algum subconjunto próprio da evidência total desse sujeito; o que é relevante é o grau com o qual a evidência total do sujeito apoia a proposição. Ao insistir que os fatos sobre aquilo que se está justificado a acreditar sobrevêm aos fatos sobre a evidência do sujeito, o evidencialista deveria ser entendido como sustentando que o relevante é a evidência total do sujeito. Isso, é claro, deixa questões em aberto sobre a relação que é preciso haver entre um punhado de evidência E e o sujeito para que E conte como parte de sua evidência total, além da questão correlata sobre que tipos de coisas são candidatas à evidência total do sujeito.19
20 Hilary Putnam insistiu bastante nesse ponto na década de 1960 como uma razão para se duvidar que a visão de Carnap acerca da lógica indutiva fosse um programa de pesquisa bem concebido. Os artigos relevantes encontramse coligidos em PUTNAM (1975). Horwich (1982) concede o ponto epistemológico geral, mas argumenta que uma teoria da confirmação amplamente carnapiana pode acomodálo de maneira bem sucedida. Chihara (1987) argumenta que o bayesianismo ortodoxo é igualmente susceptível a esse ponto.
Uma boa discussão da questão geral encontrase em EARMAN (1992).
Dada a tese de que a evidência é aquilo que justifica a crença, as nossas intuições sobre a evidência disponível a um indivíduo num cenário hipotético moldará as nossas perspectivas sobre quais as crenças desse indivíduo estariam justificadas naquele cenário. É claro que também é possível teorizar na direção oposta: na medida em que tenhamos intuições independentes sobre aquilo no qual um indivíduo estaria justificado em acreditar num dado cenário, tais intuições moldarão nossas perspectivas sobre a questão teórica mais geral acerca do que é a evidência, ou sobre que tipos de coisas podem e não podem se qualificar como evidência. Assim, se alguém está firmemente convencido de que um indivíduo nas circunstâncias C poderia estar justificado em acreditar que p é o caso, seguese imediatamente que estar nas circunstâncias do tipo C é consistente com ter evidência suficiente para justificar a crença de que p. Como veremos abaixo (seção 2), o raciocínio dessa forma geral tem encorajado bastante uma imagem de acordo com a qual a evidência total do sujeito é exaurida pelas suas experiências atuais.
Eis um exemplo do modo pelo qual as intuições sobre a justificação podem guiar uma abordagem à evidência dado um comprometimento com a tese evidencialista de que mudanças naquilo em que um indivíduo está justificado em acreditar sempre reflete mudanças em sua evidência total. Sugerese, às vezes, que a confiança de um cientista na justificação da verdade de uma dada hipótese depende não apenas do caráter dos dados relevantes aos quais ele foi exposto, mas também do espaço de hipóteses alternativas ao qual ele esteja ciente. De acordo com essa linha de raciocínio, a força com que determinado conjunto de dados apoia uma hipótese não é completamente determinada pelo conteúdo dos dados e da hipótese. (Nem é completamente determinada pelo seu conteúdo em conjunção com a teoria de fundo do cientista de como o mundo funciona). Depende também de haver outras hipóteses rivais plausíveis na área. É por causa disso que a mera articulação de uma hipótese alternativa plausível pode reduzir dramaticamente o quão provável é a hipótese original levados em conta os dados disponíveis.20
Considere um exemplo histórico geralmente usado para ilustrar esse fenômeno. Muitos organismos manifestam características especiais que os permite se sair bem em seus ambientes típicos. De acordo com a hipótese do desígnio, isso se deve ao fato de tais organismos terem sido projetados por um criador inteligente (por exemplo, Deus). A hipótese do desígnio é uma explicação potencial dos fatos relevantes: se verdadeira, daria conta dos fatos em questão. Qual a quantidade de apoio os fatos relevantes dão à hipótese do desígnio? A introdução da hipótese darwinista como rival, no século XIX, diminuiu significativamente o apoio da hipótese do desígnio. Isto é, ainda que não houvesse razão para preferir a hipótese darwinista à hipótese do desígnio, o mero fato de a hipótese do desígnio já não ser a única explicação potencial na área tende a erodir (pelo menos em alguma medida) a quantidade de confiança merecida pela hipótese do desígnio com base nas considerações relevantes.
Suponha para fins ilustrativos que a justificação que alguém tem para acreditar em algo depende de fato do espaço de hipóteses alternativas das quais essa pessoa está ciente: quando novas hipóteses são introduzidas a sua justificação para acreditar nas hipóteses já propostas muda. Dada a tese evidencialista segundo a qual diferenças na justificação sempre vêm acompanhadas por diferenças na evidência, seguese que uma especificação completa da evidência de que alguém dispõe num determinado instante farão referência ao conjunto de hipóteses do qual o sujeito está ciente nesse instante. Esse é um exemplo do modo pelo qual os juízos intuitivos sobre aquilo que os indivíduos estão justificados em acreditar em certas circunstâncias, quando em conjunção com um comprometimento com o evidencialismo, pode determinar a teoria da evidência do sujeito (por exemplo, fazer a diferença naqueles itens que o indivíduos classifica como “evidência” em sua teorização).
O papel justificador ou racionalizador da evidência é também central a outras perspectivas epistemológicas proeminentes, incluindo perspectivas incompatíveis em sentido estrito com o evidencialismo como formulado acima. Considere, por exemplo, o bayesianismo. O bayesiano sustenta que aquilo que é razoável para o sujeito acreditar depende tanto da evidência que lhe é apresentada quanto da sua distribuição de probabilidade prévia. Assim, diz o bayesianismo, dois indivíduos que compartilhassem exatamente a mesma evidência total poderiam diferir naquilo que razoavelmente acreditam sobre alguma questão em virtude de terem começado com distribuições diferentes na probabilidade prévia. Contudo, na medida em que os bayesianos geralmente se focam na mudança da crença racional, ou naquilo que está envolvido na racionalidade da revisão das crenças ao longo do tempo, o
21 Mais particularmente, o bayesiano sustentará que responder a nova evidência adquirida de maneira apropriada envolve a condicionalização dessa evidência. Veja Talbott (2011) para discussão adicional.
papel justificacional da evidência conserva certo lugar de destaque no esquema bayesiano. Pois os bayesianos tipicamente sustentam que aquilo que distingue aquelas mudanças na crença de um sujeito que são razoáveis daquelas que não são é que as primeiras, ao contrário das últimas, envolvem uma resposta à aquisição de nova evidência de maneira apropriada.21 Por conseguinte, tanto para o bayesiano quanto para o evidencialista, é a evidência que justifica aquilo que precisa de justificação.
É de se notar que mesmo perspectivas que tendem a marginalizar o papel da evidência do sujeito na determinação dos fatos sobre o que ele está justificado em acreditar tipicamente não tomam como completamente irrelevantes fatos sobre a evidência do sujeito. Considere, por exemplo, as teorias confiabilistas da justificação epistêmica (GOLDMAN 1979, 1986). Na sua forma mais pura e direta, o confiabilismo diz que o status de uma crença particular como justificada ou injustificada depende do processo psicológico que produz a crença ser ou não confiável, ou seja, ser um processo verocondutor. Formulada desse modo, o conceito de evidência não desempenha qualquer papel na abordagem confiabilista da justificação: em particular, o status de uma dada crença como justificada ou injustificada depende de o processo de formação de crença relevante ser ou não de fato confiável; não de qualquer evidência que o sujeito pudesse possuir que se relacione com a questão de sua confiabilidade (ou mesmo de qualquer evidência que o sujeito pudesse possuir que tenha a ver mais diretamente com a verdade da crença). Assim, alguém que fosse um vidente de fato confiável estaria justificado em sustentar suas crenças formadas com base na clarividência, ainda que sua evidência total sugerisse fortemente que (i) ele não possui a faculdade da clarividência e (ii) que as crenças relevantes sejam falsas (BONJOUR, 1985, cap. 3). Em resposta a tais exemplos, porém, os confiabilistas tipicamente procuram acomodar a intuição de que tal sujeito não está justificado em manter suas crenças confiavelmente adquiridas frente à sua evidência e procuram modificar a abordagem confiabilista simples a fim de que ela permita isso (vide GOLDMAN 1986, p. 109112). A necessidade reconhecida de modificação da abordagem original, mais direta, é talvez um testamento da resiliência da ideia de que a evidência do sujeito pode fazer diferença naquilo em que o sujeito está justificado em acreditar, ainda que outros fatores também sejam considerados relevantes.
22 Como primeira aproximação, E é evidência enganadora para p somente no caso em que (i) E é evidência para p e (ii) p é falsa. Assim, a evidência enganadora é evidência genuína naquilo que satisfaz as condições para ser evidência (quaisquer que venha a ser essas condições). Nesse aspecto ela contrasta com a evidência aparente e com a evidência fake, que parecem satisfazer as condições para serem evidência mas não satisfazem. O fato de a evidência enganadora ser evidência genuína se deve às crenças baseadas em evidência enganadora poderem ser razoáveis, dado que aquilo em que é razoável acreditar depende da evidência do sujeito.