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CRESCIMENTO E FORMAÇÃO TERRITORIAL DA CIDADE

Caicó é um município (mapa 1) que integra a Microrregião do Seridó Ocidental, no Rio Grande do Norte, possuindo uma extensão territorial de 1.228,576 km² e um contingente populacional de 62.727 habitantes, sendo que destes 57.464 residem na cidade e 5.263 residem no campo, conforme dados do censo populacional de 2010 realizado no Brasil (IBGE, 2016e). Para o ano corrente (2016), o IBGE estima que a população da cidade de Caicó atinja um contingente de 67.259 habitantes, fato que denota que a referida cidade está em processo de expansão urbana. Esse processo gera várias consequências, principalmente, no que diz respeito ao planejamento e ao ordenamento do espaço da urbe caicoense, que se encontra fragmentado.

No processo de formação territorial da cidade de Caicó, a economia municipal era calcada na pecuária, atividade primaz da Região do Seridó. Porém, entre o final do século XIX e o início do século XX, a pecuária se mostrou bastante vulnerável aos efeitos da seca. Após a grande estiagem de 1877-79, no referido município reforçou-se a articulação da vida econômica, sobretudo, com o cultivo do Algodão Mocó ou Seridó. Até a década de 1970, a cotonicultura foi fundamental para a dinâmica territorial do Seridó e, especificamente, bem rentável à Caicó.

Porém, nesse decênio, asseverou-se a crise do algodão na região, devido a fatores como o alto custo de produção, o preço pouco compensador para o produtor, a baixa produtividade, as dificuldades na obtenção de linhas oficiais de crédito e a ausência de investimentos na área de pesquisa e de tecnologia (MORAIS, 1999).

Acrescente-se a esses fatores que, no ano de 1970, ocorreu uma grande seca, dificultando ainda mais a produção de algodão. Na década de 1980, a praga do bicudo algodoeiro se expandiu rapidamente pelo Seridó Potiguar, aumentando os custos de produção em virtude da necessidade do uso de inseticidas e da maior quantidade de mão- de-obra para o tratamento e combate à praga (MORAIS, 1999). Esse conjunto de fatores foi decisivo para o declínio da cotonicultura no Seridó Potiguar, e também em Caicó, que não pôde mais concorrer com os baixos preços do algodão dos mercados de Minas Gerais e de São Paulo.

As consequências da crise do algodão foram sentidas no campo e nas cidades seridoenses. Parcela significativa dos trabalhadores rurais e de pequenos proprietários migrou para os núcleos urbanos, sobretudo, para as cidades maiores em funcionalidade e em demografia. Os grandes proprietários redirecionaram suas ações primordialmente para a pecuária. Esse processo promoveu o êxodo rural e a migração entre cidades. Para Caicó, a crise da cotonicultura gerou consequências como a falência das usinas de beneficiamento de algodão, o aumento do número de trabalhadores desempregados e a aceleração do crescimento urbano “desorganizado” (MORAIS, 1999).

Da década de 1980 em diante, a dinâmica, especificamente, da Região do Seridó e, amplamente, do Rio Grande do Norte, influenciou o processo de urbanização de Caicó, que se traduziu pelo predomínio da população urbana e por modificações na estrutura e nos processos que conformam o espaço citadino, sendo notável a expansão das atividades comerciais e de serviços na cidade (FARIA, 2010).

Além disso, ressaltamos que a estrutura que deu suporte a essa urbanização vem confirmando a centralidade funcional da cidade de Caicó na rede urbana potiguar5, mais especificamente, no Seridó Potiguar e em relação à municípios paraibanos, na medida em que interage frequentemente com os municípios do seu entorno, além de influenciar a dinâmica territorial destes.

No que se refere a atual configuração urbana de Caicó, notadamente entre a década de 1970 (crise da cotonicultura) e os dias atuais, observa-se que a cidade de Caicó passou por um crescimento, o qual se revela pelo aumento da sua população (tabela 01), pela expansão do perímetro urbano (Lei nº 4.277, de 31 de dezembro de 2007) e pela ampliação e melhoria de sua infraestrutura urbana. Isto decorreu principalmente do desenvolvimento do ramo de comércio e de serviços, que impulsiona a expansão urbana.

5 A cidade de Caicó interage com um grande número de municípios, tanto no estado do Rio Grande do Norte

quanto do vizinho estado da Paraíba, além de influenciar, com certa densidade, a dinâmica territorial desses municípios. Eis os municípios: São José do Seridó, Cruzeta, Acari, Currais Novos, Jardim do Seridó, Jardim de Piranhas, São João do Sabugi, Ipueira, Serra Negra do Norte, Parelhas, Timbaúba dos Batistas, São Fernando, Jucurutu, Carnaúba dos Dantas, Equador, Ouro Branco, São Bento, Samamede, Pombal e Santa Luzia. Todos formam um território, no qual Caicó é o principal centro funcional, por possuir o mercado mais complexo, com serviços avançados, comércio dinâmico e rede bancária, fatores que fazem de Caicó a mais densa cidade do Seridó Potiguar, no que se refere às variáveis da técnica, da ciência, da informação, do consumo e das finanças.

Tabela 01

Caicó – População total, urbana e rural, entre 1970-2010 POPULAÇÃO

ANOS TOTAL URBANA RURAL

1970 1980 1991 2000 2010 36.521 40.028 50.658 57.002 62.727 24.538 30.793 42.801 50.624 57.464 11.983 9.235 7.857 6.378 5.263 Fonte: Censos demográficos: 1970, 1980, 1991, 2000 e 2010.

Devido ao fato de Caicó ter mais de 20 mil habitantes, faz-se necessário que o município ou a cidade tenha um Plano Diretor, conforme determinação do Estatuto da Cidade (Lei nº 10.257, de 10 de julho de 2001). Contudo, o planejamento mercadológico do espaço urbano de Caicó vem gerando uma dinâmica territorial desarmônica, com bairros estruturados e de padrão socioeconômico considerável e outros com o mínimo de infraestrutura e de serviços básicos, habitados predominantemente por trabalhadores pobres. Assim, a cidade de Caicó revela um território bastante desigual em sua totalidade, pois, as ações públicas na cidade vêm ocorrendo no sentido de agravar “a diferenciação quanto à dotação de recursos, uma vez que parcelas cada vez maiores da receita pública se dirigem à cidade econômica em detrimento da cidade social” (SANTOS, 2005, p. 107). Com isso, confirmasse em Caicó a premissa de que o poder público age de forma a gerar ou a agravar desigualdades na distribuição de investimentos públicos, causando ou amplificando a segregação socioespacial (VILLAÇA, 2000).

Ao analisar os dados mostrados na tabela 01, observamos que, entre 1970 e 2010, houve aumento de 71,7% na população total do município, com acréscimo de 134,1% na população urbana e decréscimo de 56% na população rural. No Censo de 1970, a população urbana já era predominante (67,1%), tendência mantida ao longo das décadas seguintes, de modo que, em 2010, a taxa de urbanização de Caicó correspondeu a 91,6% (IBGE, 2016e).

A explicação para esse comportamento demográfico está baseada na situação de crise econômica do município e da própria Região do Seridó. A crise da cotonicultura (cultura do algodão) e seus reflexos tiveram implicações de diferentes ordens, que influenciaram a dinâmica populacional do município, sua estrutura produtiva e organização espacial na direção da cidade.

Nas décadas de 1980 e 1990, que correspondem ao período pós-cotonicultura, a dinâmica espacial urbana de Caicó explicitou uma nova configuração geográfica da cidade, oriunda da solidificação de processos econômicos e sociais bastante calcados em atividades produtivas, comerciais e de serviços urbanos, provenientes e mantenedoras do crescimento da população da cidade.

Essa nova configuração espacial urbana é também marcada pelo processo de periferização, por meio da ampliação e do surgimento de desiguais bairros na urbe caicoense. Há expansão do perímetro urbano em Caicó (tabela 02), com a formação de novos bairros e o crescimento dos já existentes. Assim, espaços que antes não eram utilizados passam a ser e a gerar crescimento para a cidade. Vale salientar que esse processo de expansão urbana é acompanhado pela geração de graves problemas, como a segregação socioespacial de algumas áreas que passam a ser marginalizadas e menos atrativas que outras.

Tabela 02

Caicó – Bairros que compõem o perímetro urbano no ano de 2016 Zonas

Urbanas Bairros

NORTE Boa Passagem, Vila do Príncipe, Recreio, Darcy Fonseca, Alto da Boa Vista, Samanaú, Salviano Santos, Nova Caicó e Loteamento Serrote Branco.

SUL Paraíba, Centro, Soledade e Adjuto Dias.

LESTE Penedo, Nova Descoberta, Conjunto Castelo Branco, Vila Altiva, Vila Carlindo Dantas, Itans, Canutos e Filhos, Maynard, Loteamento Diniz, Santa Costa, e Conjunto IPE.

OESTE Barra Nova, João XXIII, Paulo VI, João Paulo II, Walfredo Gurgel, Frei Damião e Luiz Januário (Novo Horizonte).

Fonte: Prefeitura Municipal de Caicó, 2016.

Ao analisar as informações contidas na tabela 02, visualizamos que o perímetro urbano de Caicó conta, atualmente, com 31 bairros, distribuídos em quatro zonas urbanas (Norte, Sul, Leste e Oeste) (figura 1).

Figura 1

Caicó – Divisão do perímetro urbano entre bairros, em 2016

Fonte: SANTOS, 2016 (adaptado da carta fornecida pelo Centro de Operações Policiais Militares – COPOM).

Além disso, a cidade é cortada de leste a oeste por uma rodovia principal, a BR- 427, para onde convergem e de onde divergem várias outras rodovias secundárias, como as RN’S 118, 228, 288 e 084. Estas rodovias ligam a cidade de Caicó aos municípios limítrofes, estabelecendo, assim, uma rede de fluxo intermunicipal em constante movimento.

Dessa forma, podemos dizer que o crescimento da cidade de Caicó, nos últimos 40 anos, foi acompanhado de melhorias em sua infraestrutura, no que se refere a diferentes serviços (educação, saúde, comunicação, transporte, lazer, turismo, entre outros). No entanto, é possível também reconhecer que essa expansão vem acarretando graves problemas para a cidade, no que se refere às instâncias social, econômica e ambiental. O processo de expansão urbana é acompanhado pela ausência de políticas públicas que valorizem todos os bairros da cidade, promovendo desenvolvimento territorial de forma simétrica no território caicoense como um todo. Isso ocorre por que as ações políticas são definidas, principalmente, pelos interesses dos agentes hegemônicos do mercado, e não conforme o bem-estar coletivo. Assim sendo, a totalidade deixa de ser prioridade e as “parcelas” mais importantes da urbe são destacadas nos investimentos lucrativos.

Nessa perspectiva, os bairros mais importantes da cidade correspondem aos das Zonas Sul, Leste e Oeste, destacados na figura 1 pelos respectivos números: 04- Barra Nova, 08- Centro, 18- Paraíba e 20-Penedo. Esses se destacam por concentrar a maior parte da infraestrutura, dos bens privados, do comércio e dos serviços públicos e privados de modo relevante no âmbito da cidade. Sendo assim, Santos (2016), analisando a expansão urbana de Caicó pelo viés dos circuitos da economia urbana, afirma que

mesmo crescendo aceleradamente para além de sua área central, a urbe caicoense não sofreu expressivamente o processo de descentralização espacial dos seus serviços e infraestrutura, principalmente quando se trata das atividades ligadas ao circuito superior da economia que se instalam de forma prioritária no centro do município.

Assim, para gerir e subsidiar o desenvolvimento da cidade de Caicó, podemos afirmar que o plano diretor municipal e o planejamento urbano são instrumentos importantes para uma gestão urbana eficaz. Entretanto, é importante planejar o espaço na sua totalidade e levando em consideração variados aspectos ou instâncias. Pensar o espaço apenas pelos aspectos quantitativos e documentais desprezando o potencial humano tem ações pouco eficientes, fazendo com que o planejamento urbano não passe de uma ideologia sociopolítica. A fim de minimizar ou até mesmo solucionar os problemas existentes na cidade é importante não apenas elaborar um bom planejamento, como também executar esse dispositivo.

3.2 O INTENTO DE SE PLANEJAR O ESPAÇO DE CAICÓ SEGUNDO AS

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