IV. ASPECTOS METODOLÓGICOS:
3. PACIFICAÇÃO DAS FAVELAS E A PROMOÇÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL
3.3 CRIATIVIDADE E SOLIDARIEDADE: FERRAMENTAS PARA O DESENVOLVIMENTO
A produção artesanal, uma categoria de empreendedorismo que está sendo desenvolvida nas favelas cariocas, seria, a nosso ver, uma possibilidade econômica perfeitamente alinhada com a abordagem social dos sítios de Zaoual. Por meio dela,
alcançaríamos a expansão do conceito do que seria o progresso humano e sua sustentabilidade.
Não é sem motivos que a economia criativa, na qual o artesanato se insere, vem ganhando cada vez mais relevância na pauta das tendências atuais no mundo e no Brasil. Ela tem mostrado ser uma opção especialmente interessante para o fortalecimento econômico e social principalmente dos países em desenvolvimento.
É uma fonte de criação de empregos, oferecendo oportunidade para a mitigação da pobreza [...]. Além disso, como muitas mulheres trabalham na produção de arte e artesanato, nas áreas relacionadas à moda e à organização de atividades culturais, a economia criativa também desempenha um papel catalítico na promoção do equilíbrio de gêneros na força de trabalho criativo. (DUISENBERG, 2008 apud LEITÃO; GANTOS, 2012, p. 5-6).
Baseada na utilização de um recurso não limitado pela noção de escassez, a economia criativa é, ainda, “não poluidora e tem como princípio a sustentabilidade. É uma economia que cresce no mundo todo” (Leitão, depoimento, julho 2013). A afirmação de Claúdia Leitão, ex-secretária de Economia Criativa do Ministério da Cultura, é confirmada pelo Relatório da Economia Criativa 2010 da Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD, 2010), no qual os setores criativos aparecem como os que mais crescem com sustentabilidade e inclusão no mundo.
O conceito nasceu na Austrália, no início da década de 1990. E ganhou força, no final dessa mesma década, quando o governo britânico lançou um programa de governo para o desenvolvimento estratégico de 13 setores criativos, entre eles o artesanato, objeto de nosso interesse.
No Brasil, o conceito adquiriu nova roupagem (Figura 8), passando a agregar, além da criatividade e inovação, uma dimensão maior que remete a “trabalho e renda, por meio da inclusão social, da diversidade cultural e do desenvolvimento humano. É nesse contexto, que cresce a importância da produção artesanal no Brasil” (Leitão, depoimento, julho 2013)12.
Outro conceito que vem sendo associado, no Brasil, como alternativa à geração de trabalho e renda, com o viés da inclusão social, é a economia solidária. Com a proposta de ser “um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver” (site da SENAES), a economia solidária ultrapassa a lógica estreita da economia tradicional. Enquanto esta se fundamenta no individualismo e no capital, a economia solidária tem como
12
Entrevista realizada pela autora com a então Secretária de Economia Criativa, Cláudia Leitão. Brasília, 2 de julho de 2013.
características a solidariedade entre seus membros, a autogestão do trabalho, a preocupação com o bem-estar de todos e com a preservação do meio ambiente.
A solidariedade que dá nome a esse tipo de economia perpassa todas as instâncias dessa forma de vida econômica. Pressupõe, por exemplo, a não exploração da força de trabalho, a justa distribuição dos lucros, a ampliação de oportunidades de capacitação para todos os seus membros, assim como a preocupação com o desenvolvimento sustentável de base territorial, regional e nacional (BRASIL, 2015)13.
Figura 8 - Princípios norteadores da economia criativa no Brasil
Fonte: Plano da Secretaria de Economia Criativa do MinC.
Segundo Genauto França Filho e Jean-Louis Laville (2004, p.21), as origens da economia solidária “relacionam-se, em geral, ao contexto de crise econômica mais ampla que afeta as diferentes economias do planeta. Tal crise vem minar as bases do mecanismo histórico de regulação das sociedades na modernidade, marcados pela sinergia entre Estado e mercado” . No entanto, os autores ressaltam que, embora esse aspecto econômico tenha um peso importante no surgimento da economia solidária, não pode explicá-lo em sua integralidade. A crise de valores que acompanha essa crise econômica e que leva a um
13 Essas informações foram obtidas no site do Ministério do Trabalho e Emprego
www.mte.gov.br/ecosolidaria/o-que-economia-solidária.htm. Acessado em 10/10/2015. Em maio de 2016, houve uma mudança no site em razão da junção das pastas do Trabalho e da Previdência Social.
questionamento sobre o trabalho e suas formas de organização e produção também contribui para o desenvolvimento da economia solidária.
No Brasil, Paul Singer assinala que a economia solidária emergiu como uma estratégia de sobrevivência dos trabalhadores em um contexto marcado pelo empobrecimento e exclusão social. Tal contexto foi resultado do aumento do desemprego provocado pela forma como foi alcançada a estabilização dos preços com o Plano Real. Em função desse programa, foi realizada uma “abertura brutal do mercado interno às importações de bens industriais de países com custos trabalhistas muito menores que os vigentes no Brasil, o que acarretou forte crise industrial, com a perda de milhões de postos de trabalho” (Singer, 2013, p.18).
O fortalecimento da economia solidária contou, a partir de então, com o apoio de setores organizados da sociedade civil, como instituições religiosas, sindicatos e universidade. Essas entidades “difundem entre os trabalhadores sem trabalho e micro produtores sem clientes os princípios do cooperativismo e o conhecimento básico necessário à criação de empreendimentos solidários” (Singer, 2002, p. 113).
Como explica, em entrevista, Valmor Schiochet, diretor do Departamento de Estudos e Divulgação da Secretaria de Economia Solidária do MTE, no Brasil, o fenômeno abarca diversas composições. “Um conjunto de atividades econômicas podem ser organizadas a partir do princípio da economia solidária tanto durante a produção como na etapa de comercialização” (SCHIOCHET, depoimento, 2015).
Fundamentada nos princípios associativos, a economia solidária, no Brasil, está organizada predominantemente sob a forma coletiva e informal. Não diz respeito a um setor econômico específico, mas a processos organizativos das atividades econômicas. Em relação a esses processos, Schiochet explica que existem basicamente dois tipos de organização.
As organizações coletivas típicas em que os produtos e serviços são resultados da atuação conjunta de um grupo de pessoas, que seriam tipicamente cooperativas ou associações de trabalhadores em que se dá a cooperação no processo de trabalho em si. E a segunda, que são as formas associativas e cooperativas de produtores. As pessoas produzem bens materiais e imateriais individualmente, de forma autônoma e se associam para viabilizar essa produção ou a comercialização dessa produção. Então se associam para compartilhar um espaço comum, para fazer aquisição de insumos, compartilhar equipamentos ou para a comercialização (SCHIOCHET, depoimento, 2015).
No trabalho de campo realizado para essa pesquisa, o segundo tipo de organização do trabalho foi o mais encontrado nas favelas do Rio de Janeiro. No grupo Coopa-Roca da Rocinha, no grupo Costurando Ideais da Favela Santa Marta, no grupo Mulheres Guerreiras
do Morro da Babilônia, no grupo Devas na Favela Nova Holanda as mulheres dividem o mesmo espaço de trabalho e o mesmo equipamento.
Schiochet (depoimento, 2015) confirma essa percepção e explica que “é nessa segunda forma de pensar, de perceber a organização que se encontra o trabalho artesanal. Basicamente, os artesãos desenvolvem sua atividade de forma individual ou familiar, buscando se associar para viabilizar a comercialização”
Depois da agricultura familiar, Schiochet (depoimento 2015) explica que o artesanato representa a segunda maior categoria social de pessoas que estão na economia solidária (17%). Dos 20.135 empreendimentos solidários existentes no país, 3.534 correspondem a empreendimentos que possuem como sócios indivíduos autodenominados artesãos. Esse valor não inclui trabalhadores agrupados em outras categorias da economia solidária, como, por exemplo, os agricultores familiares e os catadores de material reciclado que, também, produzem artesanato. Portanto, conclui-se que o número de empreendimentos voltados à produção do artesanato possa ser bem maior.
Até 9 de outubro de 2015, no Cadastro Nacional de Empreendimentos Econômicos Solidários haviam sido mapeados, no município do Rio de Janeiro, 301 empreendimentos solidários. Mais 45 empreendimentos estavam em processo de análise. Os 301 empreendimentos incluídos no cadastro contam com 8.039 sócios(as). Dentre os empreendimentos, os de artesanato somam 163, ou seja, mais da metade entre os mapeados. Eles contam com a participação de 2.302 sócias. Desse total, 1.945 são mulheres (informação do MTE enviada por e-mail, 9 de outubro de 2015).
A concepção que orienta a política de economia solidária, no Brasil, expressa “princípios não capitalistas de organização de trabalho e da economia” (depoimento, Schiochet, 2015). De acordo com esses princípios, os processos de organização das atividades econômicas devem ser geridos pelos princípios da autogestão e da participação democrática. O grande desafio, como sublinha Schiochet (depoimento, 2015), “é articular esses princípios com a viabilidade econômica”.
Transformada em programa de governo, no Brasil, em 2003, a partir da criação da Secretaria Nacional de Economia Solidária, essa economia capilarizou-se nos governos estaduais e municipais. No Rio de Janeiro, materializou-se em forma de lei em 2012 (Lei no 5.435), quando foi instituída a Política Pública de Fomento à Economia Solidária na esfera da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro. Sua finalidade é assim expressa:
Art. 1o Fica instituída a Política Pública de Fomento à Economia Solidária, na Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, que se integra às estratégias gerais de desenvolvimento sustentável e aos investimentos sociais, tendo por finalidade a promoção de atividades econômicas autogestionárias, o
incentivo aos empreendimentos econômicos solidários, bem como a criação de novos grupos e sua integração a redes associativistas e cooperativistas de produção, comercialização e consumo de bens e serviços.
No entanto, no ano anterior, a prática da economia solidária já era reconhecida pelo governo municipal. Em setembro de 2011, a prefeitura municipal do Rio de Janeiro, por meio de decreto, criava o Circuito Carioca de Economia Solidária (Decreto no 34.388). Este circuito, que , a partir dessa data, promoveu a realização de feiras pela cidade, passou a dar uma visibilidade cada vez maior à produção artesanal desenvolvida nas comunidades pacificadas, constituindo-se em um importante canal de comercialização dessa produção.
Em 2011, além de fazer parte do escopo das ações da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego, a produção artesanal pensada como instrumento do desenvolvimento social passa a ser objeto de política pública de outra pasta do governo federal. Em abril daquele ano, entrava em funcionamento a mais nova secretaria do Ministério da Cultura do Governo Dilma Rousseff, a Secretaria de Economia Criativa, instituída formalmente no dia 1º de junho de 2012 (MADEIRA, 2014)
No final de 2011, foi lançado o Plano da Secretaria da Economia Criativa com as ações, diretrizes e políticas públicas para os diversos setores da economia criativa no Brasil, entre eles o artesanato. O documento estabelece quatro eixos norteadores para essas políticas: “a diversidade cultural do país, a percepção da sustentabilidade como fator de desenvolvimento local e regional, a inovação como vetor de desenvolvimento da cultura e das expressões de vanguarda e, por último, a inclusão produtiva como base de uma economia cooperativa e solidária” (BRASIL, Ministério da Cultura, 2011, p.33).
No segundo semestre de 2015, como veremos no capítulo seis, a Secretaria de Economia Criativa é extinta no âmbito do Minc. Em outubro daquele ano, quando realizamos nossas entrevistas no Minc sobre as políticas voltadas ao artesanato, a coordenação da política do artesanato estava em fase de transição para a Secretaria de Cidadania e Diversidade. Embora a mudança ainda estivesse em curso, já era possível perceber que a nova gestão realçaria o artesanato mais como objeto de identidade cultural local.
As ações da antiga Secretaria de Economia Criativa apoiavam a cadeia produtiva do artesanato, explicitando uma preocupação voltada à inclusão social e ao desenvolvimento local, por meio da geração de trabalho e renda. Já a Secretaria de Cidadania e Diversidade mostrou, naquele momento, que pretendia utilizar a mesma lógica da economia solidária mais para o apoio à divulgação dos produtos culturais.