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UPPS: IMPACTO NAS FAVELAS E NOS EMPREENDIMENTOS

IV. ASPECTOS METODOLÓGICOS:

4. EMPREENDEDORISMO NAS FAVELAS CARIOCAS

4.5 UPPS: IMPACTO NAS FAVELAS E NOS EMPREENDIMENTOS

O Programa UPP, que comemorou sete anos em dezembro de 2015, já tem 38 unidades instaladas no Estado do Rio de Janeiro. Segundo dados oficiais do governo do estado do Rio de Janeiro, o programa já beneficia 1,5 milhão de pessoas. A presença do Estado, reforçada por investimentos de 1,8 bilhão de reais, realizados pela prefeitura da cidade, de 2009 a 2014, tem possibilitado diversas melhorias sociais (RIO DE JANEIRO (Estado), 2015c).

Na área da saúde, contribuiu para a ampliação da cobertura do Programa Saúde da Família (PSF). Em 2008, apenas 3% da população do Rio tinham acesso ao PSF, atualmente esse valor subiu para 44,2% na cidade. Nas áreas pacificadas, 73% dos moradores, hoje, têm acesso ao programa e em 12 dessas áreas a cobertura é de 100%. Na área de educação, as ações da prefeitura possibilitaram a criação de 50 Espaços de Desenvolvimento Infantil, com a abertura de 9 mil vagas nessas comunidades (RIO DE JANEIRO (Prefeitura/IPP)a.

Entre 2009 e 2013, o aumento do rendimento escolar dos alunos nas áreas pacificadas foi maior do que o observado no município como um todo, indicando que a violência deprimia o rendimento dos alunos nas escolas. No período, a evolução do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) foi de 18% na cidade do Rio de Janeiro, enquanto que, nas áreas pacificadas, foi de 24%. A taxa leva em consideração o desempenho dos estudantes do 6o ao 9o ano em exames oficiais e a taxa de evasão escolar.

A presença maior do Estado com a nova política de segurança pública, somada aos resultados de programas de transferência de renda como o BF, trouxeram novos ares para esses territórios. De acordo com os depoimentos colhidos pelo Data Popular, as UPPs proporcionaram finalmente às comunidades a possibilidade de terem uma “vida sem tormentos de guerra” (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 58).

Na pesquisa realizada pelo IETS e o Sebrae, em 2012, como pode ser observado na Figura 13, a segurança foi o fator positivo mais ressaltado pelos microempreendedores de favelas sobre o impacto das UPPs. Entre eles, 41% dos microempreendedores empregadores e 35% daqueles que trabalham por conta própria valorizaram a maior segurança após a implantação da política de pacificação. Em seguida, os microempreendedores destacaram, também, que as UPPs impactam de forma positiva as vendas, a prestação de serviço, os lucros, a relação com fornecedores e a fiscalização.

Figura 13 - Percepção do impacto das UPPs sobre os empreendimentos em favelas Fonte: IETS/Sebrae. Pesquisa sobre o microempreendedorismo em domicílios nas favelas com UPP – 2012.

O livro de Meirelles e Athayde (2014) apresenta depoimentos como o de Marivaldo, morador do Complexo do Alemão, que mostram a importância dessa possibilidade de paz: “Quando havia troca de tiros, eu ficava com o coração na mão, sabendo que minha filha ia atravessar a linha da batalha quando voltasse para casa” (MEIRELLES; ATHAYDE, p. 58).

Depoimento muito semelhante ouvimos no Santa Marta:

Antes a comunidade era muito violenta. Eu era auxiliar de enfermagem nos hospitais, tinha dois filhos e ficava preocupada com as crianças quando dormia nos plantões. Quando eu dormia em casa, tinha dias que a gente acordava e encontrava um corpo estendido na porta de casa (Sonia, do grupo Costurando Ideais, favela Santa Marta).

O processo de pacificação das favelas cariocas, iniciado em 2008, desencadeou uma série de mudanças nesses locais. A primeira delas foi a de o morador poder exercer com mais segurança o simples direito de ir e vir. A partir dessa conquista, vieram outras como “[...] a criação e a ampliação dos negócios legais, mesmo aqueles não formais” (MEIRELLES; ATHAYDE p. 58).

Depois da pacificação, nosso trabalho ganhou mais visibilidade. Podemos sair da comunidade e ser convidadas para eventos. Além disso, o ambiente na comunidade melhorou bastante. Agora temos um polo de comercialização lá dentro (Sueli Fernandes de Paula, artesã da Rede Cidade de Deus de Economia Solidária, depoimento, abril 2015).

A abertura do acesso a esses territórios tem permitido, também, a circulação de frequentadores „do asfalto‟, contribuindo para a possível expansão de novos mercados.

Uma coisa que ajudou muito com a pacificação foi quebrar o preconceito que havia com a favela. Hoje se paga caro para passar uma noite na favela, para ir às festas (Depoimento de Sonia Maria de Oliveira, artesã da favela Santa Marta, abril 2015).

Você precisa ver, só filho de bacana nesses eventos. Antes da pacificação não era assim (Depoimento de Marisete Gomes Monteiro, artesã da favela Santa Marta, abril 2015).

Além de permitir o trânsito de potenciais consumidores, a abertura do acesso a esses territórios contribuiu para que instituições como o Sebrae intensificassem suas ações de incentivo ao empreendedorismo nas favelas cariocas. Até setembro de 2013, o Sebrae havia atendido cerca de 3 mil pequenos empreendedores, patrocinando mais de mil formalizações nos territórios pacificados do Rio (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 78).

Luiz Barreto, presidente do Sebrae Nacional, sublinha que esses empreendimentos foram fortalecidos com a criação da figura do Microempreendedor Individual (MEI), em 2009, que ofereceu a possibilidade de o empreendedor legalizar seus negócios. Entre os benefícios a que o empreendedor passa a ter acesso depois que se inscreve no MEI estão auxílio-maternidade, auxílio-doença e aposentadoria. Além disso, ele passa a ter maior acesso ao mercado e ao crédito (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 78).

Barreto acredita na força do empreendedorismo como forma de melhorar a qualidade de vida nas favelas e como modelo que está beneficiando toda a sociedade brasileira. Para dar uma ideia da importância desses pequenos negócios, o presidente da entidade, utilizando dados da pesquisa encomendada ao Data Favela, explica que eles são a base do sustento de 20% dos quase 12 milhões de brasileiros que vivem em comunidades (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 77).

Neste novo cenário, Preto Zé, ex-presidente da CUFA do Brasil e eleito presidente da CUFA Global, em setembro de 2015, destaca “[...] o esforço das mulheres, muitas delas chefes de família, em desenvolver projetos empreendedores” (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 24). De acordo com avaliação do Sebrae, a maior parte dos empreendedores das regiões urbanas de baixa renda é do gênero feminino, tem idade entre 25 e 59 anos, possui ensino fundamental incompleto e renda média de, aproximadamente, R$ 700,00 por pessoa ao mês (IETS; 2012a, p. 61)

Importante dizer que, apesar do ambiente propício ao desenvolvimento de novos negócios nas favelas, Meirelles e Athayde (2014) ressaltam que os graves problemas estruturais persistem. Na Rocinha, por exemplo, embora o Censo Domiciliar 2008/2009, realizado pela equipe do PAC, aponte para um alto percentual de domicílios ligados à rede

de esgoto (86,1%), o esgoto correndo a céu aberto ainda é uma realidade (Plano de Desenvolvimento Sustentável da Rocinha, p. 84). O mau cheiro que exala de um grande valão logo na porta de entrada da favela, a conhecida Rua do Valão, percebido em nossas visitas à Rocinha, é a prova de que o saneamento ainda não foi resolvido. Quando chove, o esgoto e o lixo transbordam.

Moradias úmidas e com pouca luz, amontoando-se em um labirinto de difícil acesso, transformam a Rocinha em um dos locais de maior índice de tuberculose da cidade. Entre 2004 e 2006, a incidência na favela foi de 447,3 casos para cada grupo de 100.000 habitantes, colocando-a entre os bairros de maior incidência da doença na cidade, lado a lado com Bonsucesso (647,7 casos por 100.000 habitantes), Jacaré (460,0 casos por 100.000 habitantes) e Santo Cristo (436,7 casos por 100.000 habitantes) (PEREIRA et al, 2015).

Ainda que a Rocinha tenha iniciado seu processo de pacificação com a ocupação da polícia desde o final de 2011, fomos surpreendidos, em julho de 2015, com a visão, em plena luz do dia, de jovens armados com fuzis no final de uma escadaria em frente às caçambas de lixo. O local de passagem marcava o início da subida do morro. Mais à frente, nos deparamos com a presença de turistas estrangeiros, que pareciam alheios àquela realidade.

Mesmo com todos esses problemas ainda não solucionados, a pesquisa do Data Popular mostra que a maioria dos moradores de favela gosta da comunidade em que vivem (81%), sendo que 62% deles têm orgulho de viver no local e 66% não pensam em se mudar. Afinal, como observa o rapper, ator e escritor MV Bill, nascido e criado em uma das comunidades mais pobres do Rio e hoje transformada em bairro, a Cidade de Deus:

“A

favela não é somente um lugar para morar, mas para formular, produzir, aprender e viver” (SOARES, 2014, p.17).

Essas pessoas prezam o lugar onde vivem e criam raízes, pois ali nas comunidades encontram o capital social necessário para levar a vida. Sabem que ali podem contar com uma rede de laços sociais, baseada na solidariedade e reciprocidade, para ajudá-las, quando precisam.

Há alguém que pode lhe emprestar algum dinheiro ou o cartão de crédito na hora do aperto. Há outro que pode tomar conta de seus filhos enquanto ele trabalha. E há sempre aquele que pode ouvir suas confissões, no „divã‟ improvisado no boteco ou no salão de beleza (MEIRELLES; ATHAYDE, 2014, p. 31).

A partir dessas relações de cooperação, novos empreendimentos vão se fortalecendo nas comunidades. Reduto da criatividade, a favela hoje se reinventa. Iniciativas

empreendedoras empurradas, na maioria das vezes, pela necessidade de seus protagonistas tornam-se oportunidade de alavancar a vida daqueles que, muitas vezes, estavam à margem. E, assim, ao trazer essas pessoas para dentro do processo produtivo, os empreendimentos pavimentam uma via possível de desenvolvimento local.