Inquisição e disciplinamento
Capítulo 2 Crime e repressão inquisitorial
2.1 – A acção repressiva inquisitorial em Pombal
A actuação do Tribunal da Fé no território em apreço sentiu-se de forma quase imediata. No ano de 1546, ou seja, uma década depois da sua fundação, o Santo Ofício português interessou-se por uns papéis de conteúdo erasmiano, descobertos numa casa de João da Fonseca, morador em Pombal. Após 1565, ano em que a Inquisição de Coimbra foi restabelecida, a actividade repressiva do Tribunal passou a realizar-se de forma mais efectiva. Ainda assim, no século XVI, apenas seriam processados dois indivíduos, um por crimes contra o Santo Ofício e outro por proposições. A maioria dos autos, a saber 15, foi instaurada na centúria seguinte, enquanto no século XVIII, foram sentenciados seis indivíduos. Por seu turno, no século XIX, até 1821, ano em que a instituição foi extinta pelas Cortes Gerais Constituintes, não foi instaurado qualquer processo.
Ao longo dos 285 de existência da instituição foram delatados cerca de duas centenas de indivíduos, dos quais apenas foram sentenciados 23. No que respeitou ao sexo dos sentenciados existiu um certo equilíbrio entre géneros, já que 57% dos réus eram homens e 43% mulheres, proporção que não sofreu alterações significativas no que respeitou ao número das delações que acabaram por ser arquivadas.
Quadro X
Percentagens de processados
Ao analisarmos o volume de denúncias e os processos instaurados verificou-se que apenas 11,8% das delações originaram processo. Assim sendo, surgiu evidente a existência de duas realidades distintas. Se o Tribunal centrou a sua actuação sobre os cristãos-novos judaizantes, a população mostrou-se particularmente preocupada com outros casos, nomeadamente os que envolviam magia. Esta realidade é claramente
Sexo Número denunciados Número processados Percentagens processados Masculino 115 13 11,3% Feminino 80 10 12,5% Total 195 23 11,8%
evidente se observarmos o número de denúncias arquivadas. De facto, a maioria das delações tocou a casos de magia (27%), seguidas pelas delações de juízos proferidos, ou seja, proposições (15%). Os casos de judaísmo delatados partilharam o terceiro lugar, juntamente com as situações de desrespeito e de solicitação (12% cada). Seguiram-se as denúncias por crimes contra a instituição (9%), sodomia (6%), falsa santidade (3%), posse de livros proibidos (2%) e bigamia (2%).
Gráfico 7
Distribuição das denúncias por crime
O gráfico número 7 é bastante elucidativo quanto à distribuição dos processos por delito. A maioria dos réus foi processada por judaísmo, crime que representou 42% da actividade do Tribunal na área geográfica em apreço. Tal não constitui uma novidade já que, pelo menos, até 1773, este delito monopolizou a actividade repressiva do Santo Ofício. Ainda assim, apenas foram processados dez judaizantes dos quais, como teremos oportunidade de verificar, apenas um residia, ao tempo da prisão, em Pombal, o que poderá apontar para uma reduzida comunidade cristã-nova neste espaço geográfico. No que respeita à actividade repressiva seguiram-se as causas por bigamia (17%), por proposições (13%), por solicitação (8%), por crimes contra o Santo Ofício (8%), por desrespeito (4%), por magia (4%) e por sodomia (4%). Os processados residiam preferencialmente em Pombal e no Louriçal, mas também, ainda que em menor proporção, e por ordem decrescente, em Abiul, na Redinha, em Almagreira e em Santiago de Litém.
Gráfico 8
Distribuição dos processos por delito
Apresentada esta informação base sobre o número de crimes, percentagens e ritmos repressivos importa analisar cada delito pormenorizadamente, trabalho que iremos desenvolver ao longo das páginas seguintes.
2.2 – Judaísmo
A presença de judeus na Península Ibérica é bastante remota, encontrando-se documentada desde o século III. No actual território português existem vestígios de população judaica pelo menos desde os séculos V e VI985. Ao contrário do que sucedeu em distintas áreas geográficas do espaço europeu, na Península Ibérica, sobremaneira em Portugal, as comunidades judaicas conheceram uma situação privilegiada. Neste último reino as medidas segregacionistas tomadas ao longo de sucessivos reinados, tais como a obrigatoriedade de uso de sinal distintivo, o constrangimento a habitar um espaço físico distinto, ou a restrição das relações entre judeus e cristãos, conheceram eficácia limitada, sendo o seu incumprimento realidade comprovada. Paralelamente,
985 Maria José Pimenta Ferro Tavares, Os Judeus em Portugal no Século XIV, 2.ª edição, Lisboa,
Guimarães Editores, 2000, p. 11; Jorge Martins, “A Questão Judaica em Portugal. Bibliografia essencial comentada”, Clio. Revista do Centro de História da Universidade de Lisboa, nova série, n.º 9, Lisboa, 2003, p. 144.
acresce que em Portugal raramente ocorreram revoltas populares contra a minoria religiosa986.
A situação modificou-se com chegada ao reino de conversos castelhanos fugidos à Inquisição987. Este acontecimento motivou a eclosão de conflitos sociais um pouco por todo o território. Assim, em 1482, a comuna de Lisboa foi alvo de ataque988. Em Julho de 1485, a cidade do Porto pretendeu escorraçar os neófitos do reino vizinho, desejo novamente expresso em Março de 1487. Repetidamente o monarca mostrou-se contrário à vontade dos vereadores989. Em Abril desse ano, D. João II ordenou que o comportamento dos conversos castelhanos fosse devassado, vedando-lhes a saída do reino, sob pena de morte. Na sequência das inquirições, alguns dos relapsos foram inclusive queimados, como foi o caso de João de Niebla990.
Entretanto, em Castela a relação entre judeus e cristãos conheceu cisão definitiva em 1492, ao ser decretada a expulsão geral dos judeus daquele reino991. O acontecimento motivou nova leva de judeus e conversos a passar a Portugal. Perante a situação, D. João II autorizou, mediante pagamento, a permanência por espaço de oito meses aos que pretendessem utilizar o reino como escala para outras paragens. Em simultâneo, permitiu a fixação permanente a 600 famílias, a troco de verba mais elevada992. A chegada desta população ampliou fortemente a tensão social. A 19 de Outubro de 1492, numa tentativa de serenar os ânimos, o monarca concedeu largas benesses aos judeus que abjurassem993. Os que optaram pela permanência na antiga religião passaram à condição de cativos do rei, enquanto os seus descendentes, menores
986 Sobre esta matéria cf. Maria José Pimenta Ferro Tavares, Os Judeus em Portugal no Século XIV […],
pp. 72-79; Idem, Os Judeus em Portugal no Século XV, vol. 1, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1982, pp. 398- 423.
987 Sobre a Inquisição em Castela e Aragão estabelecida em 1478 e 1482, respectivamente, cf. a síntese
apresentada por Roberto Lopéz-Vela “Inquisizione Spagnola”, in Dizionario storico dell’Inquisizione, vol. 2, direcção de Adriano Prosperi com a colaboração de Vincenzo Lavenia e John Tedeschi, Pisa, Edizioni Della Normale, 2010, pp. 827-845.
988 Maria José Pimenta Ferro Tavares, Os Judeus em Portugal no Século XV […], vol. 1, pp. 423-424. 989
Humberto Baquero Moreno, “Reflexos na Cidade do Porto da Entrada dos Conversos em Portugal nos fins do Século XV”, Revista de História, vol. 1, Porto, 1978, pp. 19-23. Já em 1481, os vereadores do Porto haviam expulsado os judeus, provenientes de Arrifana e Zurara, os quais haviam transportado cadáveres de parentes para serem enterrados no cemitério da cidade, cf. Maria José Ferro Tavares, Os
Judeus em Portugal no Século XV […], vol. 1, pp. 425-426.
990 Maria José Pimenta Ferro Tavares, Judaísmo e Inquisição. Estudos, Lisboa, Editorial Presença, 1987,
pp. 113-114.
991 Luis Suárez Fernández, La Expulsión de los Judios de España, Madrid, Mapfre, 1992; Francisco
Bethencourt, História das Inquisições […], p. 243. Anos antes alguns prelados haviam decretado a expulsão da minoria dos seus bispados. Por exemplo, a 1 de Janeiro de 1483, foi decretada a expulsão dos judeus da Andaluzia.
992 Maria José Pimenta Ferro Tavares, “Judeus e Conversos Castelhanos em Portugal”, História Medieval.
Anales de la Universidad de Alicante, n.º 6, Alicante, 1987, pp. 349-351.