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Inquisição e disciplinamento

Capítulo 1 Funcionalismo local

1.1 – Os Comissários do Santo Ofício

Em Portugal a rede de comissários começou a ser esboçada em finais de Quinhentos, numa fase do Tribunal que Joaquim Romero Magalhães apelidou de “expansão plena”704

. Segundo Francisco Bethencourt, nos primeiros tempos da instituição a sedentarização precoce dos tribunais de distrito e a articulação com os

704 Joaquim Romero Magalhães, “Em Busca do ‘Tempos’ da Inquisição (1573-1615)”, Revista de

História das Ideias, vol. 9, 2.ª parte, Coimbra, 1987, pp. 194-214. A historiografia portuguesa tem

descurado a análise dos oficiais menores da Inquisição, pelo que permanece em falta uma investigação de fundo sobre a temática. Aguardam-se os resultados do projecto de investigação coordenado por Fernanda Olival, intitulado Inquirir da Honra: Comissários do Santo Ofício e das Ordens Militares em Portugal,

1570-1773. Foram já publicados dois artigos: Fernanda Olival, “Clero e Família: os Notários e

Comissários do Santo Ofício no Sul de Portugal (o caso de Beja na primeira metade do século XVIII)”,

Familias, Jerarquización y Movilidad Social, edição de Giovanni Levi e compilação de Raimundo A.

Rodríguez Pérez, Múrcia, Universidad de Múrcia, 2010, pp. 101-113; Idem, “Quando o Santo Ofício Processava os seus Comissários (Portugal, 1600-1773)”, Estudos em Homenagem a Joaquim Romero

Magalhães. Estudos Economia, Instituições e Império, organização de Álvaro Garrido, Leonor Freire

Costa e Luís Miguel Duarte, Coimbra, Almedina, 2012, pp. 179-195. Sobre a figura do comissário nos espaços ultramarinos sob a jurisdição do tribunal de Lisboa cf. Maria do Carmo Dias Farinha, “A Madeira nos arquivos da Inquisição”, Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira, 1986, vol. I, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Funchal, 1989, pp. 695-696 e 722-723; Paulo Drumond Braga, A Inquisição nos Açores […], pp. 23-48; Ana Margarida Santos Pereira, A Inquisição no Brasil:

Aspectos da sua Actuação nas Capitanias do Sul (De meados do séc. XVI ao inicio do séc. XVIII),

Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2006, pp. 82-102; Aldair Carlos Rodrigues, “Formação e Atuação da Rede de Comissários do Santo Ofício em Minas Colonial”, Revista Brasileira de

História, vol. 29, n.º 57, São Paulo, 2009, pp. 145-164; Grayce Mayre Bonfim Souza, Para Remédio das Almas: Comissários, Qualificadores e Notários da Inquisição portuguesa na Bahia (1692-1804),

Salvador da Baía, Dissertação apresentada ao Programa de pós-graduação em História Social da Universidade da Baía, para a obtenção do título de doutor em História, 2009, exemplar mimeografado. Outros historiadores estudaram a actuação específica de determinado comissário. Casos de Luiz Mott, “Um nome…em nome do Santo Ofício: o cónego João Calmon, Comissário da Inquisição na Bahia Setecentista”, Universitas, Revista de cultura da Universidade Federal da Bahia, n.º 37, Baía, 1986, pp. 15-32; David Higgs, Guilherme Pereira das Neves, “O Oportunismo da Historiografia: o padre Bernardo Luís Ferreira Portugal e o Movimento de 1817 em Pernambuco”, Anais da VIII Reunião Anual da

Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica, São Paulo, 1989, pp. 179-184; James E. Wadsworth,

“Joaquim Marques de Araújo: o poder da Inquisição em Pernambuco no fim do Período Colonial”, De

Cabral a Pedro I: aspectos da colonização portuguesa no Brasil, organização de Maria Beatriz Nizza da

Silva, Porto, Humbertipo, 2001, pp. 309-320; David Higgs, “Servir ao Santo Ofício nas Minas Setecentistas: o Comissário Nicolau Gomes Xavier” A Inquisição em Xeque: Temas, Controvérsias,

Estudos de Caso, organização de Ronalo Vainfas, Bruno Feitler, Lana Lage, Rio de Janeiro, Editora da

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2006, pp. 113-124. Sobre o cargo nos tribunais castelhanos e aragoneses cf., de entre outros, Jaime Contreras, El Santo Oficio de la Inquisición de Galicia (poder,

sociedad y cultura), Madrid, Akal/Universitária, 1982, pp. 67-177; Miguel Angel Placer Rueda,

“Familiares y Comisarios de la Inquisición Extremeña (Santo Ofício y Control del Territorio en los Siglos XVII y XVIII)”, Comunicações apresentadas ao 1.º Congresso Luso-Brasileiro sobre Inquisição, coordenação de Maria Helena Carvalho dos Santos, vol. 2, Lisboa, Sociedade Portuguesa de Estudos do século XVIII, Universitária Editora, 1989, pp. 893-920; Gonzalo Cerrillo Cruz, “Los Comisarios de la Inquisición de Sevilla en el Siglo XVIII”, El Centinela de la Fe […], pp. 95-171; José Enrique Pasamar Lázaro, “El Comisario del Santo Oficio en el Distrito Inquisitorial de Aragón”, Revista de la Inquisición, n.º 6, Madrid, 1997, pp. 191-238; Marina Torres Arce, Inquisición, Regalismo y Reformismo Borbónico.

El Tribunal de la Inquisición de Logroño a finales del Antiguo Régimen, Santander, Servicio de

demais poderes tornaram dispensável o provimento de oficiais menores e familiares705. Em Abril de 1570, o cardeal D. Henrique dispôs que os inquisidores de distrito procurassem pessoas capazes de desempenhar o cargo706. Em 1580, começou a ser traçada a rede de comissários nos portos marítimos, tendo o inquisidor geral escrito aos bispos, cujas dioceses compreendessem território banhado pelo Atlântico, para que nomeassem agentes nos portos de mar707. Mais tarde, em 1592, após visita ao tribunal conimbricense, foi ordenado aos “Inquisidores, que daqui em diante não commetão, o perguntar das testimunhas fora do lugar onde reside o Sancto Officio, mas que mandem isso algũa pessoa de confiança, deputado ou hum notario pello menos. E porque isto algũas vezes se não poderá fazer, enformem-se os Inquisidores de pessoas de confiança dos lugares de seu destrito que tenhão suficiencia, e virtude. E com sua informação lhes mandarey passar cartas de comissarios, e assi de escrivães a pessoas de confiança que com elles escrevão”708

. No ano de 1593, o Conselho Geral pretendeu saber quais os indivíduos capazes de servir como comissários no distrito conimbricense, insistindo no mesmo sentido no ano seguinte709. Segundo a hipótese levantada por Joaquim Romero Magalhães a rede de comissários já estaria organizada em 1608710. Seria contudo uma rede deficitária, não cobrindo de forma conveniente a totalidade do reino. Em Dezembro de 1661, faltavam comissários e familiares no distrito conimbricense711. No ano de 1673, a Inquisição de Coimbra foi inspeccionada por Manuel de Magalhães de Meneses. A visitação descortinou algumas das debilidades do tribunal, entre as quais a falta de comissários em muitas das localidades sob alçada daquele distrito. Como resultado, o Conselho Geral estipulou que “nomeassem vossas merces para as principaes, pessoas capazes de serem providas”712

. Passariam dez anos até que fosse provido o primeiro comissário no território em estudo, concretamente em Pombal.

705

Francisco Bethencourt, História das Inquisições […], p. 54.

706 Maria do Carmo Dias Farinha, “A Madeira nos Arquivos […]”, pp. 691-692. 707 Francisco Bethencourt, História das Inquisições […], pp. 178-180.

708 O traslado da visitação encontra-se publicado em Joaquim Romero Magalhães, “Em Busca […]”, pp.

215-221. No mesmo ano, na visita ao tribunal olisiponense, levada a cabo pelo mesmo visitador, foi igualmente determinado que os inquisidores nomeassem comissários nos principais lugares de distrito, cf. Francisco Bethencourt, História das Inquisições […], p. 171.

709 Cf. Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 292, fls. 518, 528-529 e 532. 710 Joaquim Romero Magalhães, “Em Busca […]”, p. 206.

711

“Li no Conselho a carta de vossas merces do correo passado, pelo que tocava á falta de comissarios e familiares e ordenouse me respondesse a vossas merces que se enformassem vossas merces de sogeitos para hũa e outra occupação nos lugares em que fossem necessarios e os propusessem para se prover”, Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 25, fls. 214-214v.

Os dados fornecidos por José Veiga Torres apontam para um total de 2561 comissários, providos entre 1580 e 1820. A evolução pautou-se pelos números seguintes: de 1580 a 1620, foram nomeados 132 indivíduos; entre 1621 e 1670, 297; de 1671 a 1720, 637; desde 1721 a 1770, 1011; e de 1771 a 1820, 484713. Segundo a tese defendida pelo autor, o crescimento do número destes agentes registado no último quartel de Seiscentos encontrou razão de ser no aumento de familiares providos714. De facto, a crescente procura de uma familiatura implicou a criação, por parte do Santo Ofício, de uma rede de comissários e notários capazes de levar a cabo as crescentes diligências de provas de sangue715. O controlo sobre as habilitações conferiu aos comissários amplos poderes, na medida em que podiam camuflar algum defeito de sangue dos habilitandos, ou pelo contrário obstruir as pretensões destes. Por exemplo, em Maio de 1708, Inácio da Fonseca Saraiva ao alegar a existência de cristãos-novos entre os familiares do Santo Ofício de Vila Real, apontou como culpados da situação os comissários “que sobre os sobornarem buscão as cazas e quintas dos pertendetes para se hospedarem e tirarem ahi as inquiriçoens aproventando sse de testemunhas tão infectas como os pertendentes”716

. Por seu turno, em Novembro de 1729, foi decidido em Conselho que não fosse cometida ao comissário de Bragança, João de Sá Pereira do Lago, diligência alguma tocante à “família dos Moraes Sarmento proximamente habilitados pello Santo Officio porque devendo perguntar testemunhas em Vinhaes somente, as pergunta <tambem> em Bragança e busca sempre os inimigos e mal affectos a esta família que senão dezenganão com as repetidas habilitaçoens do Santo Officio e os mais delles mossos”717. No entanto, que fique claro que não cabia aos comissários decidir da limpeza de sangue do candidato. Quem tudo resolvia era o órgão máximo do Tribunal, ou seja, o Conselho Geral.

Em 1613, o Regimento de D. Pedro de Castilho estipulou a existência de um comissário com seu escrivão nos “luguares principaes de cada districto da Inquisição: mormente nos portos de mar, & assi nos luguares de Africa, & nas ilhas da Madeira,

713

José Veiga Torres, “Da Repressão Religiosa para a Promoção Social. A Inquisição como instância legitimadora da Promoção Social da Burguesia Mercantil”, Revista Crítica de Ciências Sociais, n.º 40, Outubro, 1994, p. 130.

714 José Veiga Torres, “Da Repressão Religiosa […]”, p. 113.

715 José Veiga Torres, “Da Repressão Religiosa […]”, pp. 113-114 e 123. 716

Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 29, fls. 296-298.

717 Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 32, fl. 138. Os exemplos sucedem-se em vários estudos,

cf. por exemplo, Maria do Carmo Dias Farinha, “A Madeira nos Arquivos […]”, p. 700; José Veiga Torres, “Um ‘Escusado’ Habilitado”, Revista Económica e Social, 2.ª série, n.º 4, Lisboa, 2002, pp. 55- 82.

Terceira, & são Miguel, Cabouerde, & são Thome, & capitanias do Brasil”718. Mais tarde, em 1640 com a publicação de novo regulamento foi consagrado um título particular aos comissários e escrivães de seu cargo. O documento determinou que houvesse “em cada uma das cidades, vilas e lugares mais notáveis, um comissário, com seu escrivão”719. Ao pretendente a comissário eram exigidos determinados pré- requisitos. Era necessário que fosse cristão-velho, de sangue limpo, sem ascendentes reconciliados ou penitenciados pelo Tribunal e de boa vida e costumes. Além das qualidades gerais impostas à totalidade dos cargos inquisitoriais, eram exigidos atributos específicos. O habilitando necessitava ser eclesiástico de prudência e virtude, capaz de guardar segredo nos negócios do Santo Ofício. A instituição pretendia indivíduos que “dêem de si bom exemplo” não devendo fazer “agravo ou vexação a pessoa alguma com o poder de seu ofício, nem consentirão que a façam seus familiares, e não tomarão mercadorias ou mantimentos a pessoa alguma por menos preço de ordinário”720

.

Em Portugal o acesso ao cargo de comissário do Santo Ofício não se encontrava condicionado por qualquer numerus clausum, estando a obtenção do lugar depende do Conselho Geral721. Havia inclusive quem solicitasse o cargo ad honorem, isto é, existindo um número suficiente de comissários na zona era solicitado o lugar sem ser necessário exercê-lo na prática722. Ao contrário do que se verificou em outros tribunais ibéricos, de que foi exemplo Logroño, não foram detectadas pressões para que o habilitando fosse natural da localidade onde iria desempenhar o cargo723. Todos os requisitos eram minuciosamente certificados num complexo e extenso processo de habilitação. Com vista à obtenção do cargo, aqueles que possuíam determinadas parentelas, não deixavam de efectuar pressões. Paradigmático foi o caso do bispo de

718 Regimento do Santo Officio da Inquisiçam dos Reynos de Portugal, Lisboa, Pedro Crasbecck, 1613,

Título I, capítulo II, fl. 1.

719

Regimento do Santo Offício da Inquisição dos Reynos de Portugal, Lisboa, Manuel da Silva, 1640, Livro I, título I, fl. 1e título XI, fls. 51-54.

720 Regimento dos Comissários do Santo Ofício e escrivães de seu cargo publicado em Documentos para

a História da Inquisição em Portugal, introdução e leitura de Isaías da Rosa Pereira, Porto, Arquivo

Histórico Dominicano Português, 1984, p. 97.

721

Fernanda Olival, “Clero e Família […]”, p. 102.

722 Fernanda Olival, “Rigor e Interesses: os Estatutos de Limpeza de sangue em Portugal”, Caderno de

Estudos Sefarditas, n.º 4, Lisboa, 2004, p. 163.

723

Marina Torres Arce, La Inquisición en su Entorno: Servidores del Santo Oficio de Logroño en el

Angola, D. frei José de Oliveira, que por duas ocasiões tentou acelerar as diligências do seu sobrinho a comissário da instituição724.

Os comissários tinham como funções realizar pessoalmente as diligências que lhes fossem cometidas pelos inquisidores, sobremaneira efectuar provas de pureza de sangue, realizar sumários diversos, redigir e actualizar relações de familiares, elaborar róis de livros de falecidos, executar prisões por delegação de poderes e verificar o cumprimento das sentenças por parte dos penitenciados. Controlavam a entrada de livros nos portos marítimos, estando encarregues de proceder à visita das livrarias. Estavam ainda incumbidos de denunciar todos os casos pertencentes ao Santo Ofício de que tivessem conhecimento, assim como registar denúncias que lhes fossem feitas, remetendo-as de seguida para o Tribunal. Por vezes, eram remetidos editais da fé, sobretudo na Quaresma, a estes delegados inquisitoriais para que os fizessem publicar nos templos725. Foi o que aconteceu a 4 de Março de 1695, quando foram enviados ao comissário de Pombal, frei Manuel de Almeida Pinto, três editais da fé, para que os divulgasse nas igrejas “sircunvezinhas a essa villa [Pombal] de mais concurço e hum nessa ditta villa [Louriçal]”726

.

O cargo, tal como o de familiar, não era assalariado. Ainda assim, pelos serviços prestados, auferiam por cada dia passado fora do local de residência, seis tostões727. Tal maquia viria a ser aumentada em dois tostões pelo inquisidor Geral, D. Nuno da Cunha de Ataíde728. Tratando-se de função não remunerada havia que compreender contrapartidas. Assim sendo, o principal atractivo em obter o comissariado, e como observaremos o cargo de familiar do Santo Ofício, residia nos direitos e privilégios inerentes à função. As regalias compreendiam foro privado em causas criminais, sendo autores ou réus, e em causas cíveis, sendo réus, dispensa de aposentadoria e isenção de

724 A 6 de Março de 1706, em carta enviada pelo Conselho Geral ao tribunal de Coimbra, fez-se saber que

“o Bispo de Angola D. frei Jozeph de Oliveira me lembrou as diligências de seu sobrinho para comissario dizendo que era filho de familiar”. Poucos dias depois, a 13 do mesmo mês, novo correio no qual foi referido que “o Bispo de Angola não cessa em lembrar as diligências de seu sobrinho para comissário”, cf. Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 29, fls. 131 e 132v.

725 Sobre os éditos da fé cf. James E. Wadsworth, Agents of Orthodoxy. Honor, Status and the Inquisition

in Colonial Pernabuco, Brazil, Lanham, Rowman & Littlefield Publishers, 2007, pp. 42-43.

726 Lisboa, AN/TT, Conselho Geral do Santo Ofício, Habilitações, António, mç. 29, doc. 773, fl. 4v. 727

Regimento do Santo Offício da Inquisição dos Reynos de Portugal, Lisboa, Manuel da Silva, 1640, Livro I, título XI, fl. 53; Regimento dos Comissários do Santo Ofício e escrivães de seu cargo publicado em Documentos para a História da Inquisição em Portugal […], pp. 97-98. Elias Lipinier, Terror e

Linguagem. Um Dicionário da Santa Inquisição, Lisboa, Contexto, 1999, pp. 62-63.

determinados impostos729. Em 1787, o Papa Pio VI concedeu aos ministros e oficiais da Inquisição, enquanto assistissem ao Tribunal, a dispensa de residência nos benefícios após meia década de serviço730. Ainda assim, os privilégios nem sempre seriam cumpridos, nomeadamente no que respeita à impossibilidade de lhes serem tomados animais para condução de mantimentos destinados ao exército731.

Mas os privilégios inerentes à função não constituíam o único motivo aprazível para servir ao Santo Ofício na ocupação de comissário. Na mente dos candidatos pairaria a possibilidade de ascender na hierarquia eclesiástica732. Recordemos que estes agentes foram por diversas ocasiões designados visitadores pelos antístites. Na diocese de Coimbra essa realidade foi sobretudo visível com D. João de Melo. Durante a governação deste prelado os visitadores que realizaram maior número de visitas eram comissários do Santo Ofício. Estes realizaram 38,9% do total de visitas733. Mais tarde, em 1784 e 1785, José Caetano Rebelo Tavares Mesquita, arcipreste e vigário de Abiul, visitou o arcediagado de Penela, sendo secretário o padre António Pedro da Costa734.

A leitura e análise dos processos de habilitação ao Santo Ofício de naturais e ou moradores no território em estudo permitiu identificar 28 comissários do Santo Ofício que levaram a cabo diligências neste espaço geográfico. Ao tempo da provisão somente quatro habilitados a comissário eram moradores nas freguesias em questão, ainda que posteriormente, aí tenham residido outros três, conforme é possível verificar no quadro abaixo.

729 Documentos para a História da Inquisição em Portugal (século XVI), introdução e leitura de Isaías da

Rosa Pereira, volume I, Lisboa, 1987, pp. 113-115.

730 Cf. James E. Wadsworth, “Joaquim Marques […]”, p. 309.

731 Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livro 29, fl. 214-216 e livro 32, fl. 518. 732 Aldair Carlos Rodrigues, “Formação e Atuação […]”, p. 154.

733 Josival Nascimento dos Santos, A relação entre D. João de Melo […], pp. 50-59. 734

Coimbra, AUC, Devassas Penela, livro 75. Joaquim Ramos de Carvalho, José Pedro Paiva, “Reportório das Visitas Pastorais […]”, p. 193. Refira-se que já em 23 de Outubro de 1780, o vigário de Abiul, havia procedido à visita da freguesia do Alvorge por impedimento do visitador Doutor António de Sousa Negrão, arcediago prior do Salvador de Coimbra, desembargador da Mesa eclesiástica de Coimbra, cf. Coimbra, AUC, Devassas Penela, livro 73, fl. 10.

Quadro VIII

Comissários do Santo Ofício residentes no território em análise

Nome Natural Morada Idade Estatuto Provisão Fonte

Manuel de

Almeida Pinto

Pombal Pombal --- Beneficiado da igreja de São Martinho de Pombal 1683/10/2 5 Hab, mç. 31, doc. 691 Heitor de Almeida do Amaral

Pombal Porto* --- Abade de São Pedro de Miragaia; Desembargador da Relação Eclesiástica do Porto

1707/12/1 9 Hab, mç. 1, doc. 10 José Rodrigues Maia Pombal Fonte Arcada**

35 Reitor de São Tiago de Fonte Arcada, comarca de Penafiel, bispado do Porto 1730/08/2 5 Hab, mç. 88, doc. 1312; IC, liv. 260, fls. 243-243v. José Anastácio de Sousa

Pombal Pombal 41 Sacerdote do hábito de São Pedro, bacharel em cânones

1748/04/0 5 Hab, mç. 57, doc. 891 Francisco José Marques Soure Mogadouro ***

49 Bacharel em cânones, prior da igreja de Mogadouro, arcebispado Primaz 1755/07/0 8 Hab, mç. 104, doc. 1675 José Caetano Rebelo Tavares de Mesquita

Abiúl Abiúl 34 Sacerdote do hábito de São Pedro, bacharel em cânones, vigário de Abiúl 1762/08/0 3 Hab, mç. 92, doc. 1336 Manuel José da Silva

Coimbra Louriçal 58 Vigário do Louriçal, bacharel em cânones, mestre em artes

1787/03/2 0

Hab, mç. 250, doc. 1598; IC, liv. 262,

* Em 1724, sendo interrogado na habilitação ao Santo Ofício de João Eliseu de Sousa, afirmou ser natural e morador em Pombal, cf. Lisboa, AN/TT, Conselho Geral do Santo Ofício, Habilitações, João, mç. 56, doc. 1066, fl. 6v.

** No momento da habilitação estava consultado para vigário de Tapéus, termo da Redinha. Mais tarde, foi vigário de Almagreira e posteriormente de Pombal.

*** Anos mais tarde, foi vigário de Tapéus, sendo lhe endereçadas múltiplas comissões por parte do Santo Ofício, cf. Lisboa, AN/TT, Inquisição de Coimbra, livros 13 e 14. Posteriormente, foi vigário de Pombal, cf. Coimbra, AUC, Cabido da Sé de Coimbra, Estado das igrejas, fabricas e Confrarias (1774- 1775), III, 1.ª D, 4, 1, 120, p. 38.

Tomando em consideração os contingentes demográficos da paróquia de Pombal, que em meados de Setecentos era a maior do arcediagado de Penela, e pressupondo que o número destes agentes inquisitoriais pudesse estar relacionado com a dinâmica populacional, seria de esperar uma quantidade significativa de comissários na