3 OS RIOS E A VIDA
4. DIFERENTES OLHARES SOBRE A EDUCAÇÃO, A ESCOLA E A QUESTÃO AMBIENTAL
4.1 CRISE AMBIENTAL E EDUCAÇÃO EM PERSPECTIVA
O meio ambiente emergiu nos debates internacionais com fôlego nas décadas finais do século XX e gradualmente a educação escolar foi incorporando o conhecimento do mundo natural para além das ciências naturais, como biologia, química ou da geografia. As evidências do impacto e das consequências negativas da ação humana no planeta reverteram em diversas discussões e à educação coube repensar suas práticas, incorporando as relações humanidade X natureza concomitante ao conteúdo específico das disciplinas.
Nos documentos que orientam o ser e fazer das escolas brasileiras, a questão ambiental aparece às vezes timidamente, porém em destaque em documentos como os Parâmetros Curriculares Nacionais
– Temas Transversais, de 5ª a 8ª séries, de 1998:
A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo no qual se evidenciam as inter- relações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida. À medida que a humanidade aumenta sua capacidade de intervir na natureza para satisfação de necessidades e desejos crescentes, surgem tensões e conflitos quanto ao uso do espaço e dos recursos. (BRASIL, 1998d, p. 173)
A crítica ao modelo econômico atual, tão predatório, e à capacidade das relações de mercado de estabelecer a constância de novos produtos e o consequente desejo por sua aquisição demarcam um espaço onde a EA18 deve atuar. Da interdependência dos diversos elementos à
tendência interdisciplinar da educação, a escola, como espaço de disputas políticas, precisa caminhar em consonância com debates propostos pela questão ambiental. “Não é só o crime ou a guerra que ameaça a vida, mas também a forma como se gera, se distribui e se usa a riqueza, a forma como se trata a natureza” (BRASIL, 1998d, p. 177), ou seja, depreende- se a ideia de que a questão ambiental se integra às questões que sustentam uma lógica econômica baseada unicamente no lucro e na forma como a política praticada pelos diversos setores sociais ampara essa mesma lógica. Isso fica evidente quando, no mesmo documento, discute-se um ponto de vista que leve à prática educativa para além de ideias puramente economicistas, do reciclar e reaproveitar. Daí que se desenvolve o tema da sustentabilidade:
Sustentabilidade, assim, implica o uso dos
recursos renováveis de forma
qualitativamente adequada e em quantidades
compatíveis com sua capacidade de
renovação, em soluções economicamente viáveis de suprimento das necessidades, além de relações sociais que permitam qualidade adequada de vida para todos. (BRASIL, 1998d, p. 178)
A ideia de sustentabilidade traz consigo a percepção de uma nova sensibilidade ao elencar o caráter coletivo da “apropriação da natureza” pelo ser humano a partir de novos sentidos que não apenas o econômico. Para Martha Tristão (2005, p. 255), a sustentabilidade “emerge como subversão à ordem econômica dominante e como fruto da insatisfação humana contra um modelo falido de desenvolvimento cunhado na racionalidade cognitivo-instrumental”. Racionalidade criticada por Leff como causadora dos problemas ambientais presentes e que, por isso mesmo precisa ser repensada. A formação de uma racionalidade ambiental passa, para Leff (2001), por uma “reorganização interdisciplinar do saber”. A racionalidade ambiental estaria, então, orientada por um conjunto de teorias e saberes, conceitos, e normas jurídicas destinadas à análise da eficácia dos processos e das ações ambientalistas.
A problemática ambiental pode, por outra ótica, ser observada não como problema, se tivermos em conta a noção com que Leff nos confronta, mas entendida como uma racionalidade de cunho científico e instrumental cujas consequências humanas irrefletidas ou não durante séculos inserem uma nova forma de pensar suas dimensionalidades. A racionalidade ambiental evoca um saber ambiental que “busca a recuperação do sentido” por meio da transdisciplinariedade adjacente das diferentes áreas do conhecimento que não sustentam sozinhas uma natureza multifacetada pela fragmentação disciplinar, o que, por sua vez, “impele o saber para a busca de novos sentidos de civilização, novas compreensões teóricas e novas formas práticas de apropriação do mundo” (LEFF, 2001, p. 149).
A degradação ambiental irrompeu na cena política como sintoma de uma crise de
civilização, marcada pelo modelo de
modernidade regido sob o predomínio do
conhecimento científico e da razão
tecnológica sobre a natureza. A questão ambiental problematiza assim as próprias
bases da produção: aponta para a
desconstrução do paradigma econômico da modernidade e a construção de uma nova racionalidade produtiva, fundada nos limites das leis da natureza, assim como nas potencialidades ecológicas e na criatividade humana. (LEFF, 2006, p. 136)
No documento de introdução aos PCN do terceiro e quarto ciclos, o tema meio ambiente sintetiza uma mudança de consciência que deva ser elaborada pela própria escola visando a essa sensibilidade ambiental.
A principal função do trabalho com o tema Meio Ambiente é contribuir para a formação de cidadãos conscientes, aptos a decidir e a atuar na realidade socioambiental de modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global. Para isso, é necessário que, mais do que informações e conceitos, a escola se proponha a trabalhar com atitudes, com formação de valores, com o ensino e a aprendizagem de habilidades e procedimentos. Esse é um
grande desafio para a educação.
Comportamentos “ambientalmente corretos” serão aprendidos na prática do dia a dia na escola: gestos de solidariedade, hábitos de higiene pessoal e dos diversos ambientes, participação em pequenas negociações podem
ser exemplos disso. (BRASIL, 1998a, p. 67- 68)
Alçar a educação escolar ao seu comprometimento com uma sensibilidade nova voltada às questões ambientais exige uma reflexividade constante sobre como as práticas educativas interpelam a realidade e a compreendem. Bachelard (2013), por exemplo, discute o processo reflexivo a partir da leitura do mito de Narciso: o mundo como o conhecemos tenderia a esse “narcisismo social” quase que naturalmente. O ver-se refletido impõe uma consciência do ver-se/saber- se que se vê, que se observa como objeto tanto quanto sujeito. Freire, compreendendo o homem como ser de relações, vê a reflexão como característica primeira desse relacionamento do homem com o mundo e consigo mesmo por consequência direta. “O homem tende a captar uma realidade, fazendo-a objeto de seus conhecimentos” (FREIRE, 2005. p. 30). Ora, da mesma forma que “o homem enche de cultura os espaços geográficos e históricos” (p. 30) também o homem reflete sobre sua ação no mundo – esse ‘encher’ histórico e geográfico – seja diretamente ou de maneira reflexiva, e aí entra o papel da educação. Porque o homem “tem uma consciência capaz de captar o mundo e transformá-lo”, como afirma Freire (p. 31) é que uma educação ambiental que se deseja comprometida e crítica precisa caminhar na direção dessa consciência, na sua formação e na sua compreensão/percepção de mundo.
Versar sobre os problemas ambientais é caminhar por um espaço repleto de “lugares-comuns”: pode-se refletir que nada do que será dito seja novo. Mesmo assim, ressaltar as distintas problemáticas resultantes das ações da humanidade em relação ao meio ambiente nos
parece carecer sempre de um olhar mais aprofundado. Optar por um viés cientificista exclusivo de interpretação das relações e pensamentos do ser humano diretamente sobre o mundo em que vivemos coletivamente é, contudo, insuficiente. “Danificar o meio ambiente é considerado algo moralmente condenável”, como nos recorda Diamond (2005, p. 23), notadamente se tivermos em conta o grau de danos sofridos pelo meio ambiente na atualidade.
Na história, o meio ambiente foi pensado de diversas formas, e as mudanças de sensibilidade em relação ao mundo natural sempre se fizeram presentes (THOMAS, 1988). Conforme Clive Ponting (1995, p. 236), “as ações humanas formaram o meio ambiente no qual gerações sucessivas e as diferentes sociedade viveram”. Durante o desenvolvimento das diversas sociedades, suas percepções de mundo foram também moldando-se e remodelando-se em contraste direto com o existir humano. Formas de ver e pensar a realidade, a humanidade e o meio ambiente perpassaram gerações através das manifestações culturais, religiosas e por meio da educação, assunto de nossa discussão a seguir.
4.2 MÚLTIPLAS DIMENSÕES E VISÕES DO CONCEITO DE