3 OS RIOS E A VIDA
3.5 CRISE AMBIENTAL E OS RIOS: DO LOCAL AO GLOBAL
“A atividade carbonífera está deixando os colonos das Linhas São Gabriel e São Jorge
sem água”. (INFORMATIVO
FORQUILHINHA HOJE. Set/Out. 1992) A reflexão sobre a “eternidade” conjugada por Guimarães Rosa envolve nosso pensar sobre os rios em seus aspectos mais profundos, pois incessantemente o ser humano tem causado danos ambientais potencialmente irreparáveis ao meio ambiente. Jared Diamond (2005) sugere o termo “ecocídio” para se referir às possíveis formas com que povos do passado extinguiram-se a si próprios: o desenvolvimento social levou alguns povos do passado à utilização máxima de seus recursos, o que causou um “suicídio ecológico não intencional” (2005, p. 18). Diamond ainda lista alguns processos que levaram à destruição daqueles povos, como desmatamento e problemas com o controle de águas, entre outros.
Destacar um problema ambiental como o de maior relevância incorre em erro, opondo-se à ideia da complexidade a que estamos submetidos, pois os resultados da ação inadequada e irresponsável do ser humano sobre a natureza geram consequências diretas sobre todo o ecossistema circundante. Nossos rios aparecem como um elo frágil nessa longa cadeia de ações inadequadas com o meio ambiente. Os rios são tratados como local de despejo de dejetos há centenas de anos. Samuel Murgel Branco (1991, p. 23) amplia nossa imagem desse cenário:
Rios e córregos são transformados em canais cimentados correndo em linha reta entre ruas
asfaltadas, sem árvores, sem peixes, sem graça. Mas há, ainda, aqueles que nós nem vemos mais, porque se encontram encobertos,
totalmente canalizados em galerias
subterrâneas.
Os rios são, assim, tratados como um elo da paisagem a ser, de certa forma, domesticado pelo ser humano. De elemento natural, o rio passa a ser o resultado da ação humana que busca aperfeiçoar a paisagem às suas necessidades. Amiúde vemos as cidades a desenvolver-se sobre os rios e os modos de viver da sociedade num tratamento desigual com a natureza.
O homem da cidade é um homem “prático”. Ele não se comove com o canto dos pássaros, com o farfalhar das folhas ao vento, ou com o marulhar suave das águas nos regatos. Há muito que ele abandonou o contato com a natureza. (BRANCO, 1991, p. 23)
As diversas dimensões da vida urbana afastam o ser humano daquilo que podemos considerar o encanto da natureza, como se a vida no campo fosse mais próxima à natureza do que possa ser a movimentada vida na cidade. A praticidade do homem urbano citada acima talvez o desloque do contato imediato com a natureza. Todavia, não podemos também acreditar que o campo pudesse oferecer uma vida “mais natural” impossibilitada de existir nos meandros das grandes metrópoles ou centros urbanos periféricos. Nesse caso, o olhar de Raymond Williams (1989) surge como uma reflexão pertinente para nós. Williams faz sua
leitura a partir da literatura na Inglaterra na passagem do medievo à era moderna, relembrando a influência direta da Revolução Industrial:
O campo passou a ser associado a uma forma natural de vida – de paz, inocência e virtudes simples. À cidade associou-se a ideia de
centro de realizações – de saber,
comunicações, luz. Também constelaram-se poderosas associações negativas: a cidade como lugar do barulho, mundanidade e ambição; o campo como o lugar do atraso, ignorância e limitação. (WILLIAMS, 1989, p. 11)
Para o historiador inglês Keith Thomas (1988), a cidade também já foi vista como centro da civilização e de realizações, seus muros representavam segurança, contudo os moradores do campo eram não apenas mais saudáveis que os citadinos, “porém moralmente mais admiráveis que os habitantes da cidade” (1988, p. 293). Segundo autor, tal temática era recorrente na literatura setecentista e oitocentista inglesa. De toda forma, Thomas demonstra, assim como Williams, que virtudes e vícios eram apontadas em ambos os espaços, urbano e rural e entre eles as relações entre seres humanos e a natureza variavam muito.
Versar sobre os problemas ambientais é caminhar por um espaço repleto de “lugares-comuns”: pode-se refletir que nada do que será dito seja novo, como comparar o campo à vida natural e a cidade à vida mundana desconectada da natureza. Mesmo assim, ressaltar as distintas problemáticas resultantes das ações da humanidade em relação ao meio ambiente nos parece carecer sempre de um olhar mais aprofundado. Vale dizer que optar por um viés cientificista exclusivo não abarca todas as possibilidades de interpretação da infinitude dos resultados práticos em
curto ou longo prazo de cada ação, atitude ou mesmo pensamento perpetrado por cada ser humano diretamente sobre o mundo em que vivemos coletivamente. “Danificar o meio ambiente é considerado algo moralmente condenável”, como nos recorda Diamond (2005, p. 23), notadamente se tivermos em conta o grau de danos sofridos pelo meio ambiente na atualidade. O pouco da história do rio Mãe Luzia que trouxemos nos oferece exemplos desses resultados que, inclusive, são relatados desde a antiguidade.
Para Júlio José Chiavenato (1989), os problemas ambientais que afligem nosso planeta extrapolam os limites econômicos ou ideológicos, sendo frutos de um processo em que o homem é peça central. Para o autor, esse relacionamento problemático da humanidade com o meio ambiente é uma querela global:
A agressão ao meio ambiente é um problema global: econômico, político e ecológico. Porém, no fundo da questão, que permite um mundo hostil ao homem – com tanta passividade da grande maioria – trata-se radicalmente de um problema filosófico. (CHIAVENATO, 1989, p. 7)
A raiz dessa crise ambiental estaria então na forma como o ser humano pensa a natureza e com ela age, reage, significa e ressignifica e a utiliza como um ‘recurso’ longe ou fora de si. Vilmar Alves Pereira (2016), por exemplo, aponta a necessidade de não se pensar a natureza apenas como objeto, mas também como sujeito, propondo pensarmos relações mais integradas e integradoras quando da reflexão sobre ser humano e meio ambiente. A objetividade do lucro e do poder por ele
gerado estariam na base da problemática ambiental enfrentada na atualidade. “Na modernidade, o sujeito deixa de ser um contemplador da natureza para ser um definidor de sentido. Inclusive quando para isso necessita de lucro e aumento de poder” (PEREIRA, 2016, p. 33). A questão premente posta por Diamond (2005, p. 18) nos instiga à reflexão: “a dimensão das ruínas fala em favor da antiga prosperidade e do poder de seus construtores”. O que ensinaremos às gerações futuras em nossas ruínas? Se a lógica produtivista do sistema capitalista prevalecer em todas as relações, talvez nossas ruínas não sejam apenas materiais como também sociais, e não podemos desvincular as questões ambientais dessa mesma lógica capitalista. Como nos sugere Enrique Leff (2001, p. 113)
A problemática ecológica questiona os custos
socioambientais derivados de uma
racionalidade produtiva fundada no cálculo econômico, na eficácia dos sistemas de controle e previsão, na uniformização dos comportamentos sociais e na eficiência de seus meios tecnológicos.
A crise ambiental toma um novo sentido quando pensada a partir dessa crítica ao consumo desenfreado causado por uma lógica que influencia o próprio comportamento das pessoas, de “olhar intensificado pela necessidade de vivenciar o presente”, como nos recorda Pereira (2016, p. 52). Baseado em outros autores como Leff, Wilson, Boff e Lovelock, entre outros, Pereira (2016) reconhece tratar-se a crise ambiental de algo maior, uma crise de paradigmas e, como já dito acima, sugere-nos pensarmos a natureza como sujeito participante, não apenas como passividade. Isso nos recorda também a discussão já apresentada neste capítulo sobre os rios na literatura e na história. Ampliando os
termos, os rios são vistos como “sujeitos mortos”16, infelizmente, e a
culpa do crime repousa nas sociedades que os exploraram e os destituíram de sua vida.
3.6 O MEIO AMBIENTE, OS RIOS E A ÁGUA NOS DOCUMENTOS