Parte II: resultados e discussões
Capítulo 1: Heliópolis e correlação de forças entre 1970-2000: as disputas entre
1.2. Crise do projeto autoritário-desenvolvimentista, avanço neoliberal e
O contexto de crise do projeto autoritário-desenvolvimentista e avanço do projeto neoliberal ganhou materialidade em Heliópolis pelo crescimento do número de moradores ao
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longo dos anos 1970-80 e emergência de conflitos relacionados à disputa pela posse da terra. Após a instalação dos alojamentos provisórios pela Prefeitura, houve uma ocupação constante e gradativa do território por novos moradores, que construíram “seus barracos nas proximidades dos alojamentos. Os próprios operários que trabalharam na construção do Hospital e do PAM acabaram ali se estabelecendo”. A região era próxima de zonas industriais e comerciais, algo “responsável pelo rápido adensamento da área” (SAMPAIO, 1990, p. 31).
Com o progressivo aumento populacional, “outro tipo de ocupação, a grilagem, começava a aparecer na Estrada das Lágrimas, por volta dos anos 77/78”, quando um morador das vizinhanças da gleba “começou a vender lotes na rua Cônego Xavier e Estrada das Lágrimas”. Nesse mesmo período, surgiram pessoas se dizendo “herdeiras” de parte das terras, passando “à intensa venda de lotes”. Isso levou a um “clima de violência, com contínuas disputas entre invasores e grileiros”, e à reação do IAPAS, que impetrou “uma série de reintegrações de posse contra os grileiros e demais ocupantes da gleba”, gerando novo fator de estímulo à luta pela terra. “Data daí o início da organização da população moradora, que nessa ocasião já estava começando a reivindicar serviços de água e luz” (SAMPAIO, 1990, pp. 31-4).
Tadeu e sua esposa Lia, em Heliópolis desde 1979 e atualmente duas das principais lideranças da comunidade, são migrantes nordestinos com trajetórias de vida que remontam a esse período. “Mudei pra cá e trabalhei em mais três fábricas aqui perto. Engraçado, sempre entrava como ajudante geral e passava a operador de máquina”, conta Tadeu. A área era coberta por trechos de Mata Atlântica, riachos e minas d’água, que logo se tornaram principal ponto de encontro dos moradores. Como a vegetação dificultava a vigilância e a ajuda mútua entre vizinhos para garantir segurança, iniciou-se um primeiro processo associativista em Heliópolis. “A gente começou a organizar o povo, por uma necessidade primeiro de cortar mamoneira, porque aí a gente via quem estava lá embaixo, tinha visão maior, e começamos a fazer isso, ir limpando, tudo, e começamos a ter um trabalho que foi importante na formação da gente”, explica Tadeu (entrevista em agosto de 2010).
Moradores relatam que, na época, apenas algumas ruas tinham rede de água e energia. Com o adensamento populacional, o território como um todo passou a ser controlado por, no dizer de Lia, “vários grupos que se chamavam grileiros, que cuidavam desta área se dizendo donos”. Ela conta que os moradores possuíam contrato de aluguel com um grupo restrito de pessoas e eram por elas espoliados (Lia, em entrevista em julho de 2010).
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Já em 1978, antes da chegada de Tadeu e Lia, havia um conjunto de moradores organizados para “reivindicar água, luz e coleta de lixo. Foram muitas visitas a Prefeitura, Sabesp e Eletropaulo. Com muita luta conseguimos alguma coisa” (texto de boletim informativo publicado pelos moradores em fevereiro de 1984 - vide anexo 1). A organização popular era difícil, pois “os grileiros mandavam matar todo mundo, tinha os capangas, leão de chácara” (entrevista com um morador de Heliópolis e diretor da UNAS, em setembro de 2010).
A ação dos grileiros se dava pela ocupação de novas áreas, vendas de lotes e cobrança indevida de aluguel. “Vários moradores pagaram por um pedaço de terra para quem não é dono. Pagaram para os grileiros” (texto de boletim informativo publicado pelos moradores em fevereiro de 1984 – vide anexo 1). Ressalta-se que, segundo a pesquisa da Fipe supracitada, um total de 39.900 moradores de favelas pagava aluguel no início dos anos 1990, mesmo em moradias precárias: “os grileiros, por exemplo, agem onde o Estado se omite”, afirmava Iberê Bandeira de Mello, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)8. No início dos anos 1980, os grileiros ocupavam “algumas áreas de maior porte” de Heliópolis, que variavam “de cerca de 690 m2 a 11.580 m2”. O todo da favela ocupava uma área de 91.134,46 m2 em 1983, densamente povoada (SAMPAIO, 1990, p. 35).
O auxílio da Igreja Católica ao processo de auto-organização em Heliópolis, que inicialmente se dedicava a limpeza da área e reivindicação de serviços de água, luz e coleta de lixo, contribuiu para que o grupo passasse “a se envolver na luta pela terra”. O apoio da “pastoral da favela” se deu na articulação dos moradores e na proteção das lideranças em casos de agressões, prisões e ameaças de morte. “Até no momento quando a gente estava sendo expulso daqui, passando por muita repressão, eles estavam juntos”, afirma Lia (entrevista realizada em julho de 2010).
Frente às ameaças vindas de grileiros e policiais que agiam a seu mando, as pastorais sociais ofereciam proteção jurídica, rotas de fuga e esconderijos. “Através do Dom Celso, Dom Paulo, toda essa articulação que fizemos, eles vieram nos apoiar também trazendo seus advogados na época, pessoas dos direitos humanos, para questionar toda essa estrutura que existia da Ditadura”, explica Lia. Para além disso, com as atividades realizadas após as missas, o trabalho das pastorais “convencia” pessoas da comunidade “pra vir nessa luta” (Lia, em entrevista realizada em julho de 2010).
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Inicialmente, a Pastoral da Favela criou um Clube de Mães, que reunia mulheres para trabalhos de caráter assistencialista e oficinas de corte-e-costura. Naquele momento, Lia enfrentava dificuldades para debater a questão da moradia com demais moradores, pelo “medo que os maridos” tinham dos grileiros, que “torturavam as pessoas”. Com a adesão do Clube de Mães, o tema passa a ser debatido ao final das missas. “A partir daí, que me nego a pagar aluguel para eles, é que consigo conversar com os moradores para que todos entendessem que na situação que todos moravam aqui, sem água, luz, esgoto, como que vai pagar aluguel”? (informações obtidas por meio de entrevistas realizadas em julho de 2010).
O contato com a pastoral e estudantes de direito da PUC-SP contribuiu para que decidissem formar uma Comissão de Moradores, informal, pois assim não seria possível identificar as lideranças, evitando-se a prisão ou outras formas de perseguição política. “Então não tem um cabeça, porque quando a polícia vinha, perguntava: quem é o cabeça aí? Não tinha cabeça, era comissão de moradores”, conta Tadeu (entrevista realizada em agosto de 2010). A forma “Comissão de Moradores” é até hoje tática recorrente entre movimentos sociais, pela necessidade de se criar dificuldades para a identificação das lideranças. Frente uma das “características básicas da ordem jurídica liberal” que consiste na “individualização dos conflitos”, dificulta-se a responsabilização de um indivíduo pela atuação coletiva, não institucionalizada nem hierarquizada, ainda que as lideranças de fato existam (SANTOS, 1983; SANTOS, 1982).
Tal resposta organizativa se inseriu em uma situação de permanente tensão entre “a ordem legal e a ordem moral, entre a cultura pública da lei e as hierarquias morais do mundo privado” que prevaleciam na conformação das relações sociais daquele território. As diferenças sociais são recolocadas como hierarquias que repõem como desigualdade de fato a igualdade de direito, de modo que mesmo a normatividade ancorada na universalidade da lei é imposta como ordem excludente, “justamente porque não supõe a barganha e a negociação”. Naquela formação social, o “mundo luminoso das leis se realiza como fundamento do arbítrio e da ação discricionária dos que detêm posições de poder” (TELLES, 2001).
Os grupos armados, com apoio da polícia, (des)autorizavam a construção de barracos em Heliópolis, sob pena de assassinato em caso de desrespeito à “ordem”. Formou-se, nesse contexto, “um mundo de relações jurídicas constituídas, mantidas e reguladas à margem do direito estatal, um mundo de práticas jurídicas paralelas, informais e não oficiais” (SANTOS, 1983, p. 18). Desse modo, havia uma redução da cidadania ao “terreno privado da moral”, sendo esta uma condição da preservação do exercício do poder político, cultural e econômico
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daqueles que cotidianamente estabeleciam os “lugares sociais” de distintos grupos sociais (DAGNINO, 1994; TELLES, 2001). As constantes agressões sofridas pela Comissão de Moradores, vindas de grileiros e da polícia, remontam à exclusão política no sentido estrito e a “uma cultura autoritária de exclusão que subjaz ao conjunto das práticas sociais e reproduz a desigualdade das relações sociais em todos os seus níveis” (DAGNINO, 1994, p. 105).
Frente a isso, teve início um processo organizativo das forças sociais que lá viviam, com vistas à transformação nas condições de vida. Nas práticas cotidianas inicialmente vivenciadas pela diversidade de moradores, os indivíduos experimentaram a “heterogeneidade da vida humana de frente”, que caracterizam uma formação social desigual e extremamente autoritária. No entanto, as identidades fragmentadas, múltiplas e contraditórias constitutivas das forças sociais que conformaram aquele território foram convidadas a se reposicionar, a partir da vivência em um coletivo que se colocou como objetivo a transformação das relações sociais locais (LOPES, 2003).
A identidade é, desse modo, socialmente construída por práticas e discursos, e situada na história. A formação de um grupo para “cortar mamoneira” seria o “primeiro signo da constituição de uma teia de inteligibilidades recíprocas centradas em objectos e objectivos transindividuais”. E no reconhecimento recíproco de necessidades comuns, o grupo social embrionário inicia a instauração de uma experiência social com relativa autonomia, possibilitando o acúmulo de “uma memória colectiva de organização e luta por interesses objectivos e subjectivos de classe” (SANTOS, 1983, p. 35).
Essas objetividades e subjetividades deram base para uma mobilização social pela posse da terra. As relações estabelecidas no território entre as forças sociais ali presentes foram conformadoras de forças políticas em posições antagônicas: de um lado, as forças sociais que sobrevivem da exploração da terra pelas práticas não oficiais de locação e sublocação se constituíram enquanto forças políticas pelo poder armado e se posicionaram pela preservação da ordem oficiosa ali estabelecida; de outro lado, as forças sociais que compõem a maior parte da população, pelo primeiro grupo espoliada, e desejosa de superar tal condição pela conquista da moradia, inicia um processo de construção de força política pela organização em torno de uma Comissão de Moradores. A atuação destas forças para superar a situação de espoliação será fator de transformação de “interesses individuais externamente convergentes em interesse colectivo” (SANTOS, 1983, p. 35).
Na construção de estratégias de transformação daquela realidade, os indivíduos agem no mundo estabelecendo laços que lhes “permitam assegurar os recursos necessários para
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alcançar seus projetos” (FLEURY, 2009a, p. 414). As dificuldades enfrentadas serão indutoras da “proliferação de um conjunto de práticas de autoajuda”, exemplificadas pelas diferentes formas organizativas que surgiram e se unificaram em torno da Comissão de Moradores. O associativismo se relacionou, nesse sentido, com a “construção, no nível local, da ideia da comunidade como autônoma e solidária” (AVRITZER, 1997, p. 162), e assim estabeleceu nexo entre as forças sociais conformadoras daquele território com uma força política embrionária, organizada em torno do projeto político que possui como síntese a luta pela posse da terra e por moradia digna, de superação da situação espoliativa.
Tal foi a forma de resistência, em um processo de conformação de forças sociais e forças políticas no território de Heliópolis, à hegemonia das formas espoliativas de produção imobiliária ao longo de todo processo histórico vivido naquelas décadas, expressa no desenvolvimento urbano e nas diferenças sócio-espaciais da Metrópole como um todo. Trata- se de um momento histórico que remonta à constante disputa entre forças políticas no plano local e nacional. Na produção das realidades descritas, foram mobilizados, em ação coordenada, distintos grupos sociais, classes e frações de classe, instituições e agentes estatais, que conformam forças sociais heterogêneas em disputa pela produção do espaço urbano. A Comissão de Moradores seria a manifestação, em Heliópolis, de uma experiência vivida em diferentes partes de São Paulo e do país, de conformação de movimentos populares urbanos em luta por um projeto distinto daqueles defendidos pelas forças hegemônicas, tanto as neoliberais quanto as autoritário-desenvolvimentistas.
À época, o então prefeito de São Paulo, Reynaldo de Barros (1979-1983), “passou a sentir-se pressionado pela ação desses movimentos”, e declarou que sua gestão faria a opção pelo “atendimento ao paulistano mais sofrido”. Isso era “decorrente da necessidade de estabelecer estratégia destinada a neutralizar essas formas de organização popular mais combativas” (SAMPAIO, 1990, p. 52). O prefeito colocou, no plano do discurso retórico, a especulação imobiliária como um dos principais problemas a serem enfrentados pela gestão que se iniciava, na medida em que a terra “historicamente vem sendo utilizada como garantia de poupança diante da inflação ou como alternativa de investimento de capital privado”, algo que é “encarecedor dos custos da cidade” (SAMPAIO, 1990, pp. 45-6).
Com a crise da dívida e intensificação dos fluxos inflacionários, houve um movimento progressivo de poupança interna em terras e imóveis, gerando valor em processo especulativo que combinou desvalorização cambial e concentração fundiária. Nesse caminhar, há um
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deslocamento do capital para aquisição imobiliária, o que aumentou a escassez de terras para produção de habitação popular, em contexto de ausência de política social para uso do solo.
No final dos anos 1970, as estimativas da gestão municipal eram de 400 mil pessoas moradoras de favela em São Paulo. Diante disso, a Prefeitura criou os programas Pró-favela – Programa de Urbanização de Favelas, em que a “urbanização era vista como intervenção técnica, econômica e financeira, para possibilitar a fixação da população através da posse ou propriedade da área”; e Pró-Água e Pró-luz, ações conjuntas de órgãos municipais em convênio com Eletropaulo e Sabesp para implantação de serviços de luz e água (SAMPAIO, 1990, pp. 48-50). Foram também criados os programas Promorar e Properiferia, de regularização de loteamentos e urbanização.
A Comissão de Moradores de Heliópolis passou então a estabelecer relações com a unidade de atendimento da Secretaria da Família e do Bem Estar Social, no âmbito dos programas Pró-luz e Pró-água ainda no final da década de 1970, como primeira iniciativa de interlocução com o poder público. “No início dos primeiros contatos entre a PMSP e o IAPAS, os programas Pró-Água e Pró-luz estavam iniciando sua atuação na favela de Heliópolis” (SAMPAIO, 1990, p. 35).
O envolvimento com a luta pela terra pela Comissão de Moradores se deu tanto pelo combate à ação dos grileiros e quanto pela reivindicação da efetivação do direito à moradia ao poder público. Com o fortalecimento do processo organizativo, a Comissão passou a ser composta por mais de 100 pessoas, que representavam dez “núcleos” distribuídos por Heliópolis: Mina, Flamengo, Lagoa, Viracopos, São Francisco, Portuguesinha, Imperador, Heliópolis, Sacomã e Pam. A nomeação “núcleos” fazia referência à organização partidária, no início da consolidação do Partido dos Trabalhadores (PT).
Além da Comissão de Moradores, havia outras duas entidades associativas em Heliópolis, a “Associação de Moradores de Heliópolis” e o “Grupo Pam”. Porém, a prefeitura considerava a Comissão “o grupo mais representativo da população” (SAMPAIO, 1990, p. 70). As lideranças passaram a conjugar a luta contra os grileiros com a atuação por melhorias nas condições de vida, pressionando a Prefeitura para implantação de água e luz em todas as glebas de Heliópolis, o que foi iniciado no final de 1982. “Nessa época, foi também construído, com auxílio da Prefeitura, um galpão comunitário para o funcionamento da OSEM – Organização Socioeducativa do Menor, e foi implantada horta comunitária. Todos esses benefícios foram reivindicados pela Sociedade Amigos do Núcleo da Favela de Heliópolis”, que compunha a Comissão de Moradores (SAMPAIO, 1990, p. 55).
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Ao final da gestão de Reynaldo de Barros, em 1983, “o IAPAS obteve do juiz da Sexta Vara de São Paulo a reintegração de posse”, o que recolocou a centralidade na luta pela terra (veja boletim publicado à época no Anexo II). Diante dessa informação, as lideranças passaram a organizar assembleias pelo território para lutar pela “doação da gleba do IAPAS para a Prefeitura de São Paulo, e desenvolver um projeto de urbanização onde os próprios moradores seriam beneficiados” (SAMPAIO, 1990, p. 55).
Apesar das constantes negociações e da existência formal de programas de atendimento habitacional pela Prefeitura, o governo Reynaldo de Barros não deu qualquer encaminhamento definitivo às demandas da Comissão de Moradores no que se referia a habitação. A questão seria enfrentada de forma permanente na gestão seguinte, de Mário Covas (1983-85 – prefeito biônico, nomeado pelo PMDB), que desenvolveu um plano de habitação contemplando “política de terras, de recursos, de participação da iniciativa privada e de participação da comunidade”. Diante das dificuldades de obtenção de recursos do governo federal, pela crise econômica e do sistema de financiamento habitacional federal, a proposta era estimular a iniciativa privada a participar da construção de conjuntos habitacionais menores e espalhados pela cidade, em regiões com relativa infraestrutura. “O Plano Covas estimava população favelada do Município em 414.572 pessoas, vivendo em 91.419 barracos. O número estimado de favelas era 1.086”. Em Heliópolis, no segundo semestre de 1983, a Cohab estimava a existência de “cerca de 1.917 casas precárias de alvenaria e barracos” (SAMPAIO, 1990, p. 34).
Na chamada “Carta de São Paulo”, Covas afirma que “a política habitacional implantada a partir de 1964 entrou em crise”, prevalecendo “a tese de que o Poder Público não tem obrigação de subsidiar moradia para a família de baixa renda” (SAMPAIO, 1990, p. 57). No âmbito Federal, foi considerado um equívoco o subsídio, o que diminuiu ainda mais os recursos destinados ao setor. Pressionados pelos movimentos urbanos que surgiam de um lado, e pelo achatamento da participação federal no financiamento de habitação de interesse social, governos estaduais e municipais, dentre eles a prefeitura de São Paulo, “viram-se forçados a usar seus próprios recursos para subsidiar, de forma direta ou indireta, empreendimentos habitacionais destinados a abrigar famílias mais carentes” (SAMPAIO, 1990, p. 59).
Em abril de 1983, início da gestão Covas, a Prefeitura apresentou o Plano Habitacional Integrado Heliópolis, que propunha “erradicação da favela ali existente, através de sua urbanização, associada à construção de conjuntos de edifícios habitacionais de diversas
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tipologias” (SAMPAIO, 1990, p. 61-3). A proposta contemplava o “esclarecimento” da situação jurídica da área para combate à ação de grileiros, além da “doação da área pelo IAPAS à PMSP”.
Frente a isso, a Comissão de Moradores realizou uma assembleia com três mil pessoas, em 12/02/1984, e divulgou boletim exigindo: repasse das terras do Iapas para a prefeitura, que por sua vez deveria vender “os lotes, urbanizados, aos moradores, de acordo com suas posses”; garantia de serviços básicos educacionais e de saúde; participação nos projetos habitacionais e na construção, por meio de mutirão; e fornecimento de material para famílias que não tivessem condições de adquiri-los (veja boletim publicado pela Comissão no Anexo II).
Em 20 de fevereiro de 1984, um convênio transferiu a área do IAPAS para o BNH, conforme reivindicação da Comissão de Moradores, para destinação a programas habitacionais. Isso foi resultado de pressões que a prefeitura de São Paulo exerceu sobre o BNH, em decorrência “das pressões que ela própria vinha sofrendo” da Comissão de Moradores de Heliópolis. “As lideranças da favela também pressionaram o IAPAS e o BNH, em suas sedes regionais” (SAMPAIO, 1990, p. 66).
Nessa época, a Cohab instalou em Heliópolis um plantão social, que seria responsável por estabelecer relação com a comunidade. As negociações, no entanto, pouco avançaram e, após constantes embates com a Comissão de Moradores, a administração pública optou por burocratizar o processo de solicitação de serviços de água e luz, dificultando a ampliação das redes elétrica e de abastecimento da comunidade. A principal discordância estava no constante aumento da demanda, pois a população ocupada seguiu crescendo, e a Prefeitura exigia da Comissão que auxiliasse no combate “à invasão” (COHAB apud SAMPAIO, 1990, pp. 85-6). Isso, atrelado ao não andamento do Plano Habitacional e à morosidade de negociações entre IAPAS e BNH, teve por consequência o tensionamento na relação entre Cohab e Comissão de Moradores. A gestão Covas se encerrou com negociações paralisadas e plano habitacional longe de ser concretizado.
O principal fator desse tensionamento foi o constante aumento populacional de Heliópolis, o que remonta à conjuntura política e econômica da época. As forças sociais foram conformadas em Heliópolis ao longo de um processo de determinação e sobredeterminação que perpassou a ação de forças políticas no plano local, nacional e internacional.
Conforme já exposto no tópico anterior, a hegemonia das forças políticas orientadas