2. A Disputa por hegemonia entre forças políticas no Brasil: conceitos e
2.2. Projeto Político
“força política”, de como se constitui a ação coletiva de sujeitos que compõem forças sociais, em processos de organização e luta em torno de projetos políticos orientadores da atuação dos movimentos populares enquanto força política.
No decorrer de um processo dinâmico e permanente, mediado pelos projetos políticos norteadores das ações de sujeitos, dá-se a construção de distintos graus “de homogeneidade, de autoconsciência e de organização” que serão alcançados pelos vários grupos sociais (GRAMSCI, 1984, pp. 49-50), e a isso se refere o conceito gramsciano de “Força Política” aqui utilizado. A análise do material empírico se operou em relação aos variados “momentos” assumidos pelas “forças políticas”, tais como o “econômico-corporativo”, os de construção de unidade intelectual e moral na sociedade, de ascensão da luta desde um plano particular até um plano universal, bem como dos momentos em que se colocam as questões do Estado e da disputa por hegemonia.
Entende-se ainda que as contradições, situadas no terreno da política pela ação de diferentes forças políticas, produzem determinações eficazes que se acumulam em um processo de transformação estrutural. Tais contradições conformam a “estrutura do corpo social total no qual ela se exerce, inseparável das condições formais de existência, e das instâncias mesma que governa”, sendo a estrutura determinante e sobredeterminada, “em um único e mesmo movimento”, pela diversidade de “níveis” e “instâncias” que compõem uma formação social específica. Disto decorre a importância de, na análise das relações de forças, identificar os processos que levam a um acúmulo de “determinações eficazes” que produzirão a mudança social (ALTHUSSER, 1979, p. 87).
Na presente pesquisa acerca das disputas políticas situadas em Heliópolis, e na realidade brasileira como um todo, entende-se que tal “acumulação de determinações eficazes” é resultado das ações, embates e conflitos entre forças políticas que se mobilizam e se articulam em torno de diferentes projetos políticos na disputa por hegemonia. É nesse caminhar analítico, com a permanente correlação dos conceitos de “Força Social”, “Força Política” e “Projeto Político”, que se pretende atingir os objetivos desta pesquisa.
2.2 – Projeto Político
Conforme enfatizado acima, a mediação entre os conceitos de “força social” e “força política” é realizada, nesta pesquisa, pelo conceito de “projeto político”, aqui concebido enquanto “combinações de interesses, ideias, valores, princípios e programas de ação”
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(DAGNINO, et al, 2006, p. 7). Em outros termos, os projetos políticos são “conjuntos de crenças, interesses, concepções de mundo, representações do que deve ser a vida em sociedade, que orientam a ação política dos diferentes sujeitos” (DAGNINO, et al, 2006, p. 38). Trata-se de construções que se materializam em ações políticas e sociais, mas que são também simbólicas, mantendo “relações cruciais” com o campo da cultura e com culturas políticas específicas, e que colocam a ação das forças políticas como intencional, orientada por concepções de mundo. Cabe, à análise, explicitar os vínculos entre as forças sociais, sua atuação enquanto força política e o projeto político que as norteiam.
Os projetos políticos são também “projetos coletivos que se caracterizam fundamentalmente pela sua dimensão societária”, mas que ao mesmo tempo contêm em si diversas dimensões, “com pesos e ênfases variáveis na configuração de cada projeto” (DAGNINO, et al, 2006, p. 40). Tais dimensões podem se apresentar em determinada realidade de forma fragmentada, justamente pelo projeto político estabelecer a mediação da força política organizada em torno dele com a heterogeneidade das forças sociais que compõem a sociedade. As forças sociais, conforme já afirmado acima, possuem interesses, concepções de mundo e necessidades sociais difusos, para os quais as forças políticas em disputa apresentam projetos políticos destinados à sua satisfação, à homogeneização de interesses e à conformação de valores e programas de ação transformadores da realidade. Esta é a dimensão propriamente mediadora do projeto político: é em torno dele que as forças políticas buscam articular as forças sociais, e os resultados deste processo de construção de força política caracterizam as disputas por hegemonia na sociedade civil e na sociedade política.
Para além disso há, no campo da cultura, a produção de novos princípios e valores, assim como a reprodução daquilo que fora historicamente construído, em uma dinâmica tensa e contraditória que é “constitutiva do cenário do processo de construção democrática na América Latina e se reproduz no interior das organizações da sociedade civil” (DAGNINO, et al, 2006, p. 28). Portanto, a noção aqui trabalhada de projeto político o concebe enquanto societário, presente tanto nas dinâmicas macrossociais como nas microssociais, devendo-se levar em conta para sua análise dimensões como as “classes sociais”, os elementos identitários e diferentes formas de reconhecimento social, assim como a dimensão institucional e organizacional, categorias que compõem a formulação dos conceitos de força social e força política aqui utilizados.
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Desta concepção de projeto político decorre a necessidade de, na análise política, “examinar as diferentes culturas ou tradições políticas, algumas participativas e democráticas, outras clientelistas, corporativas e autoritárias, e as continuidades e rupturas que se manifestam nos intrincados e complexos processos culturais que constituem a construção democrática” (DAGNINO, et al, 2006, p. 28). O “autoritarismo” é elemento de “continuidade” dos processos históricos analisados, pois é componente central do projeto autoritário-desenvolvimentista do Regime Militar, e segue presente, por outras formas, no “projeto neoliberal”, na medida em que as “práticas autoritárias” dão bases culturais – simbólicas e materiais – à redução da concepção de cidadania à moral privada dos indivíduos e à sua concretização pelas relações de mercado, não pelo direito.
Assim, à categoria “projeto político” acrescentamos aqui adjetivações que definem quais interesses, simbologias e programas determinado projeto reúne em torno de si: projeto autoritário-desenvolvimentista; projeto neoliberal; e projeto democrático-popular. Em Dagnino et al (2006), identifica-se como três grandes projetos políticos presentes na América Latina o projeto autoritário, o neoliberal e o democrático-participativo. Em relação ao último, esta pesquisa apenas adota outra terminologia, “democrático-popular”, como termo êmico – a forma pela qual sujeitos da pesquisa identificam tal projeto político – colocando ênfase nos seus sujeitos, o “popular”, e não em um dos principais objetivos políticos que orientam sua ação, a “participação”. Ainda que a terminologia seja diferente, o conteúdo é o mesmo, e será definido na sequência.
No que se refere, aqui, à opção por utilizar “projeto autoritário-desenvolvimentista”, busca-se colocar ênfase em dois aspectos centrais do projeto: a forma de relação Estado- sociedade e a inflexão no programa macroeconômico entre os períodos pré Golpe de 1964 e pós Golpe. O projeto autoritário é definido por Dagnino et al (2006) como aquele que deu sustentação política aos Regimes Militares em diferentes países na América Latina, incluindo o Brasil. O “modelo autoritário anula completamente ou limita a operação das instituições democrático-liberais”, com proibições/esvaziamentos políticos de eleições e de competição entre partidos, centralização de poder e negação da sociedade civil. “O projeto autoritário anula o princípio da cidadania e suprime de fato os direitos políticos”. Desse modo, a relação entre Estado e sociedade civil tem como principal característica o “verticalismo, o clientelismo e a repressão ou a cooptação”, de modo que a sociedade “é vista, antes de mais nada, como grupos beneficiários, clientes e peticionários, todos eles dispersos e desarticulados entre si” (DAGNINO, et al, 2006, pp. 45-7).
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A adoção do termo pelos autores se justifica, pela intenção de privilegiar, como elemento distintivo de cada um dos projetos, a relação Estado/sociedade, não os modelos macroeconômicos que neles prevalecem. Nesta tese, entende-se que tais características definidoras do “projeto autoritário” são forma de exercício de poder, que pode ser mobilizada na concretização de diferentes programas macroeconômicos, dentre eles o do projeto neoliberal. O caso chileno é bastante elucidativo disso, na medida em que o projeto neoliberal encontrou no Regime Militar, no autoritarismo, sua forma de concretização política. No caso brasileiro, durante o regime autoritário houve uma disputa no interior do Estado Brasileiro entre dois programas econômicos: o que representava uma inflexão do desenvolvimentismo em relação ao período anterior ao Golpe; e o neoliberal, cujo fortalecimento contribuiu para a queda do Regime no contexto da chamada “crise da dívida”.
2.2.1 – O projeto autoritário-desenvolvimentista
É fundamental ressaltar, a princípio, que o programa macroeconômico desenvolvimentista não foi uma construção do Regime Militar, mas por ele resignificado. Historicamente, o desenvolvimentismo se refere aos dilemas postos ao crescimento econômico latino-americano e à forma de superação da condição de “subdesenvolvimento” em que os países da região se encontravam nos anos 1930-60. Tal superação se daria pela combinação de desenvolvimento das forças produtivas e solução dos problemas sociais e econômicos que impõem condições de vida desiguais no País (FURTADO, 1989; IANNI, 1981; SAMPAIO JR, 2012).
Com base nesses pressupostos, o desenvolvimentismo coloca como principais eixos de seu programa de ação a industrialização e integração nacionais, que seriam efetivadas por meio de políticas de estímulo a diferentes setores da economia, ampliação da infraestrutura interna de comunicação e transportes, medidas protecionistas ao mercado interno e estímulo à exportação. Nos anos 1960, no período que antecede ao Golpe Militar, somam-se ao desenvolvimentismo as teses cepalinas, que relacionam o crescimento econômico a reformas estruturais que pudessem conciliar o desenvolvimento com a democratização das relações sociais e a conquista de soberania nacional.
A Teoria da Dependência contribui com tal aporte, por estabelecer como condição para o desenvolvimento econômico e social do País o rompimento com a relação de dependência a que os países da “periferia” do sistema capitalista estavam submetidos em relação aos países centrais, que promoviam uma política de caráter “imperialista”, de submissão dos interesses
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nacionais dos países periféricos aos interesses do capitalismo internacional. Trata-se de uma “estrutura definida” da qual derivam as relações da América Latina com os centros capitalistas: “a divisão internacional do trabalho, que determinará o sentido do desenvolvimento posterior da região”. Em outras palavras, tal estrutura configura nos países da América Latina uma situação de “dependência”, definida como “relação de subordinação entre nações formalmente independentes, em cujo marco as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência” (MARINI, 1973 [2011], pp. 134-5).
Incorporou-se ao desenvolvimentismo, a partir de tais formulações, a necessidade de “mudanças estruturais” que pudessem enfrentar “as causas do subdesenvolvimento”. Uma agenda nacional-desenvolvimentista passa a ser composta, sobretudo no decorrer do Governo João Goulart (1961-64), “pelo enfrentamento do imperialismo, que submete as economias periféricas aos imperativos do desenvolvimento desigual e combinado, bem como por reformas estruturais que liquidem as bases objetivas e subjetivas do regime de segregação social”, tais como o latifúndio e os privilégios de setores da sociedade, estruturas que “bloqueavam o desenvolvimento capitalista no Brasil” (SAMPAIO JR, 2012, pp. 674-5).
Contra isso se voltam as forças sociais e políticas que promovem o Golpe Militar e implementam, no novo regime, um projeto autoritário-desenvolvimentista que retoma como eixos centrais a industrialização e integração nacionais característicos do desenvolvimentismo, porém combinados com a superexploração do trabalho e a redução de direitos sociais, bem como com o atrelamento dos interesses internos aos do imperialismo. Trata-se, aqui, de um projeto autoritário-desenvolvimentista desigual e dependente, conduzido por uma forma de governo que exclui as classes trabalhadoras de todo processo decisório e dos espaços de poder.
Nas palavras de Paulani (2010), segue-se ao Golpe Militar a construção da ideia de “Brasil Potência”, a ser implementada por um “plano de desenvolvimento industrial e de infraestrutura que visava, pelo aumento da produção de insumos básicos e de bens de capital, tornar o Brasil menos vulnerável”. Tal política é reforçada frente à crise mundial de 1973, quando o Governo Geisel “opta pela continuidade do crescimento, com aumento do endividamento externo”. A política é considerada, do ponto de vista econômico, bem sucedida ao longo dos anos 1970, pois “completou a matriz interindustrial brasileira e mudou, de forma substantiva, os resultados da balança comercial e o perfil de nossa pauta de importações e exportações” (PAULANI, 2010, p. 116). No entanto, o endividamento externo brasileiro que
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deu sustentação ao crescimento econômico, atrelado à nova crise econômica mundial no final da década de 1970, produziu no plano nacional uma crise econômica prolongada nos anos 1980.
Essas são, portanto, as características centrais que definem o que aqui se entende por projeto autoritário-desenvolvimentista hegemônico no Regime Militar: é dependente e despótico, arrocha salários e reprime diferentes formas de organização das classes trabalhadoras, visa o crescimento econômico pela diversificação do parque industrial brasileiro, ampliação da infraestrutura e a ocupação do território nacional, mas submete tal expansão ao financiamento e interesse do capital financeiro imperialista. Pela supressão de direitos dos trabalhadores, o projeto autoritário-desenvolvimentista tem na promoção da desigualdade social outro traço constitutivo. Sua crise teve como componentes, por um lado, o avanço do projeto neoliberal que, no plano do discurso, combate a intervenção do Estado na economia e, por outro, do projeto democrático-popular, que defende a extensão de direitos sociais, políticos e econômicos em um processo de democratização de Estado e sociedade brasileiros.
2.2.2 – O projeto democrático-popular
Diante do projeto hegemônico do período Militar, e sua forma autoritária de implementação, houve uma superação histórica do projeto desenvolvimentista como eixo articulador das forças políticas que congregavam as classes trabalhadoras no período que antecedeu o Golpe de 1964. Tal superação se deu pela construção de um projeto de novo tipo, o democrático-popular, sob controle das forças sociais que reuniam as classes trabalhadoras.
A conformação de forças sociais e políticas orientadas por um novo projeto de poder resultou da articulação entre as “novas formas de organização da vida política” no País. Estas surgiram “nos subterrâneos” da institucionalidade do Regime Militar, em experiências fundadas na dinâmica de luta e resistência das classes populares às condições políticas, econômicas e sociais impostas pela Ditadura (VASCONCELOS, 2004, p. 69).
A emergência de diferentes formas organizativas desde a sociedade civil, pela atuação das Comunidades Eclesiais de Base e pastorais sociais da Igreja Católica, de entidades associativas e sindicais, a conformação de mecanismos locais de organização baseados em assembleias, conselhos populares e mutirões (SADER, 1988; DAGNINO, 2002; VASCONCELOS, 2004) deram base material para a construção e consolidação do projeto
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democrático-popular. Trata-se de um projeto que resultou de um longo processo organizativo e envolveu a conformação de movimentos populares e sindical, e a construção de uma ferramenta partidária, o Partido dos Trabalhadores (PT), além de um programa contemplando a luta pela democracia no plano político, e por direitos sociais, econômicos e culturais.
A noção de participação e sua relação com a “radicalização da democracia” assume papel central na conformação deste projeto político, enquanto programa de ação e concepção de mundo que articula uma diversidade de sujeitos em torno dele. “Essa participação é vista como instrumento da construção de uma maior igualdade, na medida em que ela contribuiria para a formulação de políticas públicas orientadas para esse objetivo” (DAGNINO et al, p. 48). São seus sujeitos instituintes os “movimentos sociais”, considerados “formas de emergência” das classes populares na cena política, cuja heterogeneidade repousa nas condições em que a diversidade de agentes emerge, de acordo com suas próprias singularidades, além do movimento sindical que promove ações massivas nos grandes centros produtivos do País.
A dimensão “instituinte” das ações que constituem o projeto democrático-popular ganha centralidade, na medida em que emergem desde fora do sistema político, porém enquanto “presença” das classes populares na política. As diferentes formas organizativas dos movimentos sociais, como comissões de fábrica, clubes de mães e organizações de bairro são expressões da constituição dos indivíduos enquanto sujeitos políticos (SINGER & BRANT, 1980), que compõem a heterogeneidade constitutiva das forças que se mobilizam em torno do projeto democrático-popular.
Também a categoria “cidadania” é central nesse processo, na medida em que “essa vivência da comunidade, isto é, da coletividade de iguais criada pela ação conjunta de todos, se dá numa dimensão própria que implica uma novidade muito importante: o reconhecimento da pessoa num plano público e não privado” (DURHAM, 1984, p. 28). A unidade da diversidade tem por base “uma categoria amplamente utilizada no discurso dos participantes dos movimentos: a categoria dos direitos” (DURHAM, 1984 p. 29), que na noção de cidadania reconstruída historicamente pelos movimentos conformadores do projeto democrático-popular assume a premissa do “direito a ter direitos” (DAGNINO, 1994). Assim, a cidadania se consolidou como dimensão constitutiva do projeto democrático-popular e, para além das implicações de igualdade a que o termo classicamente se refere, configurou-se como significante da luta contra a desigualdade e a exclusão sociais, por explicitar as fronteiras então existentes na “arena política” brasileira, que separavam as classes dominantes do
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restante do corpo social na definição da política (DAGNINO, 2005; ALVAREZ, DAGNINO e ESCOBAR, 2000).
O processo de apropriação do conceito de cidadania pelo chamado campo “democrático-popular” implicou em uma redefinição de sua acepção liberal: para além de se referir à reivindicação geral de direitos e igualdade, a cidadania é apropriada pela variedade de movimentos em suas lutas específicas e na articulação em torno de um projeto alternativo de sociedade e Estado. O clamor pela igualdade de direitos, a que o termo remetia, passa a ser apropriado a partir da especificidade de cada grupo em luta. E como parte desse processo, há maior ênfase às dimensões culturais, identitárias, subjetivas e ao “direito à diferença” dos grupos em movimento (DAGNINO, 2005, pp. 2-3). É desse modo que o conceito passa a combinar a conquista de direitos previstos legalmente, porém negados às parcelas “excluídas” da população, com a necessidade de “transformação radical das práticas culturais produtoras de desigualdade e de exclusão social” (DAGNINO, 2005, p. 3 – tradução livre).
No caso brasileiro, a ênfase no direito à diferença tem como base social a atuação de movimentos de mulheres, LGBT e de negros, bem como a exclusão social e econômica que levou à expulsão da população do campo e consolidação das favelas nas cidades. É importante destacar ainda, como fundamento social da formulação “direito a ter direitos”, tratar-se de uma resposta política à cultura autoritária que, ao longo de todo processo de formação social brasileiro, permeou as relações políticas e sociais em todos os seus níveis, colocando a pobreza como signo de inferioridade e de impossibilidade de efetivação de direitos, aqui entendidos como dádivas ou favor (TELLES, 1994; SALES, 1994; DAGNINO, 1994, DAGNINO, 2005).
Frente a isso e em resistência ao autoritarismo do Regime Militar, ocorreu a progressiva consolidação da cidadania enquanto componente do projeto político democrático-popular, combinando de forma dinâmica e a partir de sua diversidade constitutiva os diferentes significados a que o conceito remete (MENÉNDEZ-CARRIÓN, 2002-2003, apud DAGNINO, 2005), bem como suas diferentes formas de redefinição e apropriação. Assim, a “emergência de uma nova noção de cidadania procura articular lutas por demandas específicas por direitos (…) com a luta mais ampla pela construção democrática” (DAGNINO et al, 2006, p. 52).
Também o conceito “sociedade civil” é apresentado como “eixo de identificação deste vasto campo de atores que se organizavam coletivamente, tornando públicas as suas carências”, na construção de um “projeto político” que “unificava o quadro múltiplo e
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heterogêneo da organização social, através de uma demanda comum de derrubada do regime autoritário e da construção da democracia” (GECD, 2000, p. 17). As novas práticas políticas e sociais deram corpo à emergência “de novos atores sociais que resgataram o termo sociedade civil”, por um processo de ampliação da “própria noção de política”, na medida em que não está limitada “ao conjunto dos aparatos ou instituições que caracterizam um regime democrático-liberal” (GECD, 2000, p. 8).
Como definem Avritzer (1994) e Dagnino et al (2006), sociedade civil é afirmada em sua heterogeneidade, é definidora do caráter público do Estado e se constitui como “terreno constitutivo da política”, ou seja, um terreno de disputa e debate entre “os interesses