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Critério da Capacidade – Idealismo Utópico.

No documento Análise funcional da constituição (páginas 126-130)

CAPÍTULO 4 CONSTITUIÇÃO COMO

4.6. Análise Crítica.

4.6.1. Análise Formal.

4.6.1.2.  Critério da Capacidade – Idealismo Utópico.

O  Critério  da  Capacidade  pede  que  o  cientista  empenhado  na  análise  funcional  da constituição, sem abdicar de uma especulação de como as coisas podem  ser, não perca de vista os limites concretos impostos pela realidade, não se deixando seduzir por um conceito de função romantizado, distanciado do que de fato a constituição tem condições de produzir (cf. item 2.4 supra).

O  modelo  funcional  dos  artefatos,  em  que  o  único  critério  para  fixação  de  funções  à constituição  é  a  (suposta)  intenção  dos  agentes-autores  parece  não  oferecer  de  per  si  um parâmetro seguro para orientar o Critério da Capacidade. Afinal, sob esse modelo, um efeito ou um objetivo (que se suponha) desejado pelo agente-autor da constituição que não seja de fato  através  dela  alcançável  seria  ainda  assim  descrito  como  uma  <<função>>  da constituição178. Não obstante, a atribuição à constituição de funções que ela de fato não pode desempenhar não necessariamente se apresenta como um problema ao cientista se o que se pretende, com a análise funcional conduzida sob esse modelo, é tão apenas apontar (descrever) os objetivos conscientemente buscados pelo agente-autor escolhido, para, a seguir, à luz dos resultados por ele efetivamente alcançados através da constituição, promover uma avaliação crítica do seu projeto.  Vincenzo  Ferrari,  por  exemplo,  em  obra  de  Sociologia  do  Direito  (cf.  item  4.4.3 supra), define análise funcional justamente nessa linha:

"<<Função>> de X com respeito a A é, portanto, neste caso, o objetivo, a tarefa assinalada a X por A em relação ao seu próprio projeto de ação. Daí que a análise funcional seja o estudo da relação  entre  a  finalidade  de  A  (que  podemos  denominar  F),  o  meio  empregado  (X)  e  os resultados obtidos (que podemos denominar R)." (FERRARI V., 1989:54s)

      

178 "Um artefato não precisa ter efetivamente a disposição para desempenhar sua função; basta apenas que se

Agora, se o cientista estiver a procurar, com a análise funcional, uma reflexão sobre com as coisas podem ser, indicar como funções da constituição meras intenções irrealizáveis de um agente-autor não leva muito longe.

Ao tratarmos do conceito de função como eficácia já havíamos mencionado esse potencial problema,  indicando  que,  para  tentar  resolvê-lo,  seria  talvez  necessário  assumir (dogmaticamente) que todo efeito pretendido pelos autores da constituição é, por definição, alcançável (cf. item 2.5.4 supra).

Em outras palavras, tal como no caso do Critério da Distinção, para tentar satisfazer o Critério da  Capacidade  seria  necessário  tomar  como  agente-autor  da  constituição  o  <<legislador (racional) constituinte>>, dentre cujas qualidades inserem-se a onisciência e onipotência (cf. itens 4.4-b e 4.5.1-b supra), o que significa que ele jamais há de <<querer o impossível>> e que haverá sempre, em sua obra, uma adequada <<relação de referência normativa>> (cf. item 2.5.7 supra).

Esse pressuposto dogmático, no entanto, para que possa eventualmente ser útil ao cientista do Direito  Constitucional,  precisa  ser  manejado  com  cautela,  sem  que  se  olvide  jamais  que, "inserida  na  realidade,  parte  da  realidade  –  porque  o  direito  é  um  nível  da  realidade  –  a reprodução  dos  seus  [da  constituição]  programas  encontra-se  limitada  pela  realidade" (GRAU, 2005:123). Vale dizer, o pressuposto não deve ser entendido, como habitualmente se faz, como uma assertiva do tipo <<tudo o que legislador constituinte quer é possível>>, mas antes como uma declaração de que <<o legislador constituinte só quer o que é possível>>. De  outra  sorte,  ou  seja,  se  o  cientista  inebriar-se  pelo  que  julga  serem  as  intenções  do <<legislador  constituinte>>,  desconsiderando  por  completo  as  limitações  dadas  pelas "condicionantes naturais" postas à constituição (cf. HESSE, 1959:24), o mais provável é que a análise funcional em questão, sobretudo se tiver por objeto uma daquelas constituições que "prometem  muito  (quiçá  demasiado)"  (cf.  HÄBERLE,  2001:109),  resulte  numa (cientificamente inútil) idealização das funções da constituição (cf. item 4.6.1.1)179, podendo       

179  É  o  que  parece  acontecer,  por  exemplo,  na  lição  de  Jorge  de  Esteban,  quando  ele  atribui  uma  função

transformadora à constituição: ao mesmo tempo em que afirma ser a constituição, "em seu nível mais supremo, a vontade do soberano", fato que, ao menos em tese, deveria fazer da constituição "um instrumento a serviço das aspirações majoritárias do povo [soberano da constituição] e um meio racional que permitisse pacificamente seu

culminar, nos casos mais graves, naquilo que Oliveira Vianna, citado por Grau180, chama de "idealismo utópico", e que o próprio Grau chama de "jogo do progressismo constitucional": a difusão da idéia de que a constituição "supre a utopia da transformação da sociedade" e de que  "em  um  passe  de  mágica  [a  constituição  pode]  instalar  as  condições  materiais indispensáveis à concretização de todos os direitos" (cf. GRAU, 2005:123 e 125)181.

Em  verdade,  embora  não  se  possa  (nem  se  deva)  ignorar  que,  em  muitos  casos,  o  Direito (constituição  inclusive)  se  revela  "um  instrumento  dirigente  de  política  governamental positivo,  poderoso,  e  indispensável,  ativamente  usado  em  larga  escala  para  conformar condições sociais e econômicas e até atitudes populares" (cf. COTTERRELL, 1995:250)182, nem tampouco que a constituição é inegavelmente dotada de uma "força normativa" capaz de influir (vigorosamente) na realidade (cf. HESSE, 1995:50), o que faz dela um "documento radical"  ao  qual  se  pode  atribuir,  em  alguma  medida,  "um  papel  de  mudança  social" (cf. CANOTILHO, 2003:1437), há de se ter em mente, no contexto de uma análise funcional que se pretenda científica, que "a Constituição é apenas responsável por uma parte do modo como um  país  é  governado",  sendo  certo  que  "depende  de  opções  políticas  que  nenhuma Constituição, nem sequer a mais perfeita, pode prever ou prescrever, o fato concreto de serem tomadas decisões boas ou más" (BOBBIO, 1978:189 e 191)183. Isso significa, em especial, que:        progresso e evolução", o autor espanhol reconhece que, na realidade, essa função de transformação da sociedade é, em todo o mundo, "raramente exercida em nossos dias" ("quase inédita") (cf. ESTEBAN, 1976:36ss).

180 A referência completa é: O  idealismo  da  Constituição, 2ª edição, Companhia Editora Nacional, São Paulo,

1939.

181 Ficamos com a impressão de que, em alguma medida, a hoje colega de Grau no STF, Cármem Lúcia Antunes

Rocha, aproximou-se desse tipo de equívoco quando, numa lição antes já citada (cf. item 2.5.2), sustentou, sem maiores  considerações  quanto  ao  Critério  da  Capacidade,  que  a  constituição  tem  uma  (romântica?)  "função transformadora da realidade sócio-política e econômica", querendo significar que ela há de ser a "fonte criadora da  Justiça  da  Libertação",  conduzida  "não  ao  sabor  dos  grupos  dominantes,  mas  segundo  a  necessidade  dos dominados" (cf. ROCHA, 1991:35).

182  Basta  lembrar,  dentre  nós,  os  avanços  notáveis  promovidos  (ou  viabilizados)  pelo  Código  de  Defesa  de

Consumidor (Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990), o qual, por sua vez, seria impensável sem o arcabouço de Direitos Fundamentais oferecido pela Constituição Brasileira.

183  Dentre  outras  coisas  interessantes  sobre  o  tema,  Bobbio  diz,  no  artigo  citado,  publicado  ao  tempo  da

celebração dos trinta anos da constituição italiana, quando era comum naquele país "o erro de acreditar que a Constituição de 1948 era perfeita e que nossas desgraças devem ser atribuídas ao fato de aquela Constituição, perfeita,  ter  ficado  incompleta  e  sido  violada",  que  "a  Constituição  não  tem  culpa",  que  "já  li  e  reli  não  sei quantas vezes a Constituição italiana e muitas outras também: nessa leitura nunca consegui jamais deduzir delas o  segredo  de  um  bom  governo"  e  que  "de  nada  serve  ou  serve  muito  pouco,  portanto,  chorar  sobre  uma Constituição  que  não  é  cumprida  ou  que  é  traída,  como  de  pouco  serve  pensar  em  reformas  ou  retoques constitucionais quando se tem a ilusão de que basta mudar a roupa para mudar o temperamento daquele que a veste" (cf. BOBBIO, 1978:187ss).

"A  lei  constitucional  não  tem  capacidade  para  ser  uma  lei  dirigente  transportadora  de

metanarrativas  ('transformação  da  sociedade  no  sentido  de  uma  sociedade  sem  classes',

'garantia da felicidade dos cidadãos', etc.). O caráter dirigente de uma constituição converter- se-á  paradoxalmente  em  déficit  de  direção  se  a  constituição  for  também  uma  lei  com hipertrofia  de  normas  programáticas  articuladas  com  políticas  públicas  (da  economia,  do ensino, da saúde) sujeitas à mudança  política  democrática  ou  dependente  da capacidade de

prestação  de  outros  subsistemas  sociais  (ex.:  políticas  de  pleno  emprego,  políticas  de

investimento, políticas de habitação)." (CANOTILHO, 2003:1437) Olvidar essas lições, insistindo em ver na constituição um diploma de per si apto a promover radicais <<transformações da realidade econômico-social>>, conduz, muito freqüentemente, à completa <<frustração constitucional>>, rebaixando-se, do ponto de vista teórico e prático, o potencial normativo-axiológico da constituição, e fazendo dela, ao final, não mais que um instrumento <<asfixiante>> (no sentido de que tudo regula) e <<fracassado>> (no sentido de que nada ou quase nada do que promete alcança)184. 4.6.1.3. Critério da Dimensão – Árvores sem Floresta.

Anteriormente  observamos  que  a  abordagem  funcional  da  constituição  compreende  uma dimensão  individual  e  uma  dimensão  coletiva,  as  quais  devem  ser  ambas  levadas  em

      

184  Registra,  nesse  tocante,  Roger  Cotterrell:  "Esse  tipo  de  desilusão  com  a  capacidade  do  Direito  como  um

instrumento de mudança facilmente se liga com um desconforto mais amplo com a própria idéia de considerar o Direito meramente em termos instrumentais. Concepções instrumentais do Direito que tendem a tratá-lo quase inteiramente como um meio de implementação de políticas são típicas de muita literatura de mudança jurídica e social. Elas têm sido ferozmente atacadas nos últimos anos em ao menos três frentes. Primeiro, retomando os problemas  identificados  em  alguns  dos  primeiros  escritos  sobre  os  limites  da  eficácia  da  ação  jurídica,  a ineficiência do Direito e suas limitadas capacidades quando considerado como um agente de mudança, foram enfatizadas. (…) Em segundo lugar, o instrumentalismo jurídico foi atacado por ignorar os graves problemas de 'juridificação'  ou  'legalização'  da  vida  social;  por  incentivar,  em  verdade,  a  intrusão  da  regulação  jurídica  em áreas da vida que poderiam ser melhor governadas por outros meios que não aqueles do Direito estatal (…). Em terceiro  lugar,  a  própria  idéia  de  que  o  Direito  deve  ser  pensado  como  um  instrumento  de  governo  foi considerada  inadequada  e  prejudicial,  por  ignorar  o  problema  da  integridade  do  Direito  como  um  modo específico de argumentação, discurso ou sistema de comunicação. (…) O instrumentalismo jurídico pode minar ou banalizar a integridade do Direito, os seus valores (como aqueles associados com o ideal de um Estado de Direito), bem como a sua autonomia da política" (COTTERRELL, 1992:65s). Em sentido similar, complementa Marcelo  Neves:  "A  concepção  instrumental  do  Direito  Positivo,  no  sentido  de  que  as  leis  constituem  meios insuperáveis  para  se  alcançar  determinados  fins  'desejados'  pelo  legislador,  especialmente  a  mudança  social, implica um modelo funcional simplista e ilusório, como tem demonstrado os seus críticos. Em primeiro lugar, observa-se que há um grande número de leis que servem apenas para codificar juridicamente 'normas sociais' reconhecidas. Por outro lado, a complexidade do meio ambiente social dos sistemas jurídico e político é muito acentuada, para que a atuação do Estado através da legislação possa ser apresentada como instrumento seguro de controle social. Já se tem apontado mais recentemente para a situação paradoxal do aumento dos encargos do Estado em conexão com a redução da capacidade do Direito de dirigir a conduta social" (NEVES, 1992:31).

consideração  num  modelo  que  se  pretenda  adequado  e  útil  para  o  cientista  do  Direito Constitucional (cf. itens 2.5.3 e 2.6 supra). Essa a idéia que orienta o Critério da Dimensão. Ao  privilegiar  o  ponto  de  vista  interno  (subjetivo),  no  entanto,  o  modelo  funcional  dos artefatos parece desconsiderar as exigências do Critério da Dimensão, conduzindo o cientista a uma análise dimensionalmente limitada à perspectiva individual. Para usar uma expressão de Bobbio, fala-se sob o prisma da árvore, sem necessariamente se considerar o prisma da floresta (ao menos não de forma explícita no modelo)185.

Aliás, o modelo tem tal descaso com a perspectiva coletiva que, ao se apegar às intenções do agente  escolhido  (agente-autor),  ele  passa,  em  tese,  a  aceitar  como  eventuais  funções  da constituição até mesmo efeitos ou objetivos que possam ser danosos ao sistema de referência (a sociedade, o ordenamento jurídico, as relações sociais). Ou seja, o que se toma por função, nesse modelo, no dizer de um autor que o endossa e o emprega, "se refere simplesmente a um efeito  projetado que, não por acaso, pode ser destrutivo tanto para o sistema como para o observador,  mas  que  segue  sendo  funcional  se  corresponde  a  uma  finalidade  perseguida conscientemente" (FERRARI V., 1989:49s).

Em  contestação  a  essas  considerações,  poder-se-ia  eventualmente  argumentar  que  as intenções  de  certos  agentes-autores  da  constituição,  notadamente  o  <<legislador constituinte>>,  são,  por  definição,  expressões  tanto  de  interesses  individuais,  quanto  de interesses  coletivos,  conjunta  e  equilibradamente  considerados.  Supondo  que  isso  seja cientificamente demonstrável, algo que as considerações sobre o Critério da Distinção põem em  questão  (cf.  item  4.6.1.1),  o  modelo  terá  então  atendido,  nesse  caso,  o  Critério  da Dimensão.

No documento Análise funcional da constituição (páginas 126-130)