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Critério da Capacidade – Sucesso e Fracasso Funcional.

No documento Análise funcional da constituição (páginas 176-181)

CAPÍTULO 4 CONSTITUIÇÃO COMO

5.4. Aplicações no Estudo do Direito.

5.5.6. Realização e Retroalimentação: Força Normativa e Vontade de Constituição (Consenso Fundamental).

5.6.1.2.  Critério da Capacidade – Sucesso e Fracasso Funcional.

O  Critério  da  Capacidade  avalia  se  o  modelo  funcional  apresentado  considera,  ao  atribuir funções  à  constituição,  as  limitações  postas  a  esse  diploma  normativo  pela  realidade circundante (cf. item 2.4 supra).

Essa  questão  tem  a  ver  com  o  requisito  de  atribuição  funcional  expresso  na  letra  (a) da notação apresentada no item 5.6, acima: segundo tal requisito, função da constituição somente são efeitos ou conseqüências por ela efetivamente produzidos ou permitidos. Ao menos em princípio, esse requisito atende ao Critério da Capacidade: o que a constituição não produz de fato não será apontado como sendo sua função, não havendo risco de se tomar como função efeitos ou conseqüências que a constituição não tem condições de produzir (cf. itens 2.4 e 4.6.1.2 supra).

O  problema  é  saber  como  essa  restrição  teórica  do  conceito  de  função  ao  que  de  fato  a constituição produz pode se coadunar com o caráter etiológico desse modelo funcional, bem assim com as necessidades dogmáticas do Direito Constitucional (ciência na qual, conforme antes já observado, cabe certa especulação sobre como as coisas podem ser)257.

Explicamos:  pode  (ou  deve)  o  cientista,  diante,  por  exemplo,  de  uma  constituição  que estabeleça  formalmente  regras  jurídicas  de  limitação  do  Poder,  mas  que,  por  conta  das "condicionantes  naturais"  (cf.  HESSE,  1959:24),  de  fato  não  o  limite,  afirmar  que  essa constituição tem por função limitar o Poder? Em caso afirmativo, se a função do elemento        exemplo de Weimar), "as causas desta desintegração são, na maior parte, exteriores à Constituição" (AUBERT J., 1995:17). 256 Dieter Grimm nos dá conta, por exemplo, de que, no recente processo de reunificação da Alemanha, parte da culpa pela instabilidade verificada no período que seguiu a junção daqueles distintos países (os quais nós aqui chamávamos simplesmente de Alemanha  Ocidental e de Alemanha  Oriental)  foi  atribuída  à  Lei  Fundamental (<<imposta>> ao lado oriental) e aos órgãos encarregados de realizá-la (sobretudo, evidentemente, o Tribunal Constitucional  Federal).  "No  esforço  para  deter  o  processo  de  desintegração",  reporta  Grimm,  houve  quem qualificasse "normas constitucionais e tribunais constitucionais como fatores de distúrbio", sobretudo por conta de  suas  respectivas  ênfases  nos  Direitos  Fundamentais,  "os  quais  caíram  na  suspeita  (...)  [de]  favorecer  a desintegração por meio de um individualismo exacerbado" (GRIMM, 2001:100 e 102).

257  A  questão,  em  verdade,  não  se  restringe  ao  estudo  funcional  jurídico-constitucional.  Ela  tem  a  ver  com  a

questão de saber se, de forma geral, se pode atribuir a um dado elemento (e.g. o coração de Pedro) uma certa função  (e.g.  circular  o  sangue)  que  por  qualquer  motivo  (e.g.  um  acidente  ou  uma  doença  cardíaca)  aquele elemento em particular não desempenha (sobre o assunto, no campo da Filosofia da Ciência, cf. e.g. WRIGHT, 1973:75s, ACHINSTEIN, 1977:348s, MILLIKAN, 1989:302 e SEARLE, 1995:19).

estudado representa, em última instância, a causa da existência do elemento no sistema, como compreender a existência dessa constituição em particular, que não desempenha sua função de limitação do Poder, sem recorrer às intenções conscientes de qualquer agente-autor (criador ou usuário)?258

Essas questões podem ser respondidas, em tese, de ao menos três formas: (i) negando que se trate,  no  caso,  de  uma  verdadeira  constituição;  (ii)  apontando  a  correspondência  dessa constituição a um tipo-ideal para o qual a função de limitação de Poder se aplica; ou (iii) apurando a verdadeira função dessa constituição.

A  primeira  resposta  é  no  sentido  de  negar  que  um  determinado  elemento pertence a uma classe quando esse elemento não desempenha certa função que se imagina inerente àquela classe259.  Noutras  palavras,  o  desempenho  da  função  é  condição  para  que  se  tome  um elemento  específico  como  pertencente  àquela  classe.  A  função define os elementos que a integram. Assim, por exemplo, um órgão humano que não faça circular o sangue não é, em verdade,  o  que  chamamos  de  coração  (ainda  que  tenha  formato,  estrutura,  localização  e aparência de um coração). Da mesma forma, uma constituição que estabeleça formalmente uma limitação do Poder, mas que de fato não o limite, não é uma verdadeira constituição (ao menos  não  uma  da  classe  <<constituição  do  Estado  Democrático  de  Direito>>)260.  Não       

258 Perceba-se que esse é um problema que não surge (ao menos não dessa forma) na concepção funcional da

constituição  como  artefato  (capítulo  4  supra),  posto  que  ali  há,  como  vimos,  uma  intenção  que  torna compreensível  (mas  não  necessariamente  aceitável)  a  atribuição  funcional:  "Por  exemplo,  podemos  entender uma  explicação  funcional  de  uma  legislação  específica  investigando  seus  propósitos.  Essa  explicação  não  é ameaçada pelo fato de que a legislação fracassa em alcançar seu propósito. Se uma lei estabilizando taxas de aluguel tem o propósito de reduzir a falta de moradias (homelessness), podemos entender essa lei em termos de seu propósito ainda que ela de fato tenha o efeito de aumentar a falta de moradias. Mas nesses casos há uma intenção consciente para a lei alcançar seu propósito. A explicação funcional é compreensível a despeito de seu fracasso porque a intenção liga o propósito com o item fracassado" (EHRENBERG, 2005:176). 259 Ao falar em classe e elemento, estamos, em alguma medida, nos orientando (melhor talvez dizer inspirando) na distinção entre type e token de SEARLE (1995:32s) (cf. também BOORSE, 2002:86ss), utilizada no âmbito jurídico por EHRENBERG (2005:174ss). Mas não nos preocupamos aqui em guardar fidelidade aos conceitos de Searle. Nem tampouco damos a eles o uso que lhes deu Ehrenberg. O sentido que temos em mente é ilustrado por Blackburn com o exemplo de uma montadora de automóveis: types são os modelos de veículos, tokens são cada um dos veículos (daí que se possa dizer que, em um ano, uma montadora comercializa meia dúzia de types, mas milhares de tokens) (cf. BLACKBURN, 1996:384). 260 Quando o disposto na constituição escrita não corresponde ao que se julga ser o teor natural (ideal) de uma constituição, então também se pode (e se costuma) dizer que não se trata de uma verdadeira constituição. Mas aí não se trata propriamente de uma questão funcional. Não é porque não faz circular o sangue que um pulmão não é um coração. Um pulmão não é um coração simplesmente porque são órgãos inteiramente diferentes, inclusive (mas não apenas) no que fazem. Da mesma forma, não é (só) porque não limitava o Poder que a Constituição do Brasil de 1967/69, por exemplo, não era uma verdadeira constituição, mas sim, dentre outras razões, porque ela própria estabelecia (por conta sobretudo do famigerado Ato Institucional nº 5) uma "ilimitação jurídico-positiva do órgão executivo supremo" (NEVES, 1994:153).

caberia, assim, tentar construir uma explicação funcional sobre sua existência no sistema, ao menos não no modelo das teorias da função como conseqüências positivas.

A  segunda  resposta  trilha  o  caminho  de  tentar  minimizar  o  fracasso  do  elemento  no desempenho de sua função para a importância da atribuição teórica dessa função. Nessa ótica, por  exemplo,  a  afirmação  de  que  os  corações  em  geral  (a  classe)  têm  a  função  de  fazer circular o sangue não é prejudicada pelo fato de um coração em particular (um elemento), por qualquer motivo, não a desempenhá-la. Nem tampouco o fato desse coração não fazer circular o sangue faz com que ele deixe de ser um coração. A função que se lhe atribui deriva do tipo- ideal  da  classe  que  ele  integra.  Da  mesma  forma,  dir-se-ia  que  um  documento  escrito chamado  <<constituição>>,  aprovado  por  uma  Assembléia  Constituinte  legítima  e democrática, que estabeleça regras de limitação do Poder, não deixa de ser uma verdadeira constituição e nem deixa de ter a função de limitar o Poder se, por conta de condicionantes naturais específicas da realidade em que ele se insere, ele de fato não limita o Poder. Ele não desempenha a sua função, isso é certo, mas ela não deixa de ser a sua função (posto que ele é uma constituição e é essa a função das constituições em geral).

A  terceira  resposta,  fiel  aos  preceitos  do  modelo  funcional  ora  considerado,  caminha  na direção de somente considerar como função aquilo que efetivamente o elemento estudado produz.  É  a  abordagem  mais  usual  nas  Ciências  Sociais  não  jurídicas  (sobretudo  a Antropologia e a Sociologia), como no exemplo já citado da dança da chuva. É a mais comum também na Sociologia do Direito. Adotá-la é refutar que função possa ser aquilo que deveria (ou poderia) ser. Função é o que é. Se um coração não faz circular o sangue, afirmar que sua função é circular o sangue não faz sentido261. No âmbito do Direito Constitucional, essa é a opção daqueles que sustentam, por exemplo, para as chamadas "constituições nominais" (cf. LOEWENSTEIN,  1964:218),  uma  função  meramente  simbólica,  em  que,  apesar  de formalmente presentes no documento constitucional todos os dispositivos que caracterizam o "modelo institucional" do constitucionalismo contemporâneo (Direitos Fundamentais, divisão de Poderes, eleição democrática, etc.) (o que poderia levar a pensar que as suas funções são as mesmas  das  constituições  ditas  normativas),  há  uma  "discrepância  radical"  entre  o  que       

261 Esse é um dos casos que o exemplo do coração não é dos melhores (embora utilizado, no mesmo contexto,

por BOORSE, 2002:89). Insisto nele apenas para evitar introduzir novos exemplos, o que poderia desviar o foco da  reflexão.  Os  interessados  em  aprofundar  o  estudo  não  terão  dificuldades  em  encontrar  exemplos  mais criativos  na  literatura  (e.g. Larry Wright especula sobre a atribuição de uma função a um botão no painel do carro que, quando apertado, nada acontece – cf. WRIGHT, 1973:57).

estabelecem as normas e o que acontece na realidade (cf. NEVES, 1994:96ss)262. Afirmar a <<verdadeira>> função simbólica dessa constituição e negar-lhe outras funções (como, por hipótese, a limitação do Poder) é, nessa linha de abordagem, o papel do cientista, contribuindo inclusive, ao pôr a nu a realidade tal qual ela é, para (se for o caso) sensibilizar da necessidade de mudanças. As três linhas de resposta oferecem interessante material para reflexão.

A  primeira  resposta  sugere  haver  um  conceito  funcional  de  constituição:  somente  os conjuntos de normas jurídicas escritas que efetivamente desempenham tais e quais funções que  aportam  contribuições  (conseqüências  positivas)  para  o  sistema  social  (bom funcionamento  do  processo  de  integração  consensual)  são  dignas  de  serem  tidas  como <<verdadeiras>>  constituições.  De  certa  forma,  essa  abordagem  parece  refletir  uma capitulação do jurista aos fatos, numa linha lassalliana (cf. item 4.5.3 supra): se o fato é, por exemplo, que os detentores do Poder num dado País não obedecem a folha de papel chamada constituição,  então  aquela  não  é  uma  <<verdadeira>>  constituição,  a  despeito  de  quão legítimas e democráticas possam ser as suas origens ou o que nela se encontra disposto e das condicionantes naturais que ela tem diante de si.

A  segunda  e  a  terceira  resposta  não  conduzem  a  conclusões  substantivas  necessariamente excludentes entre si, embora sejam, como visto, bastante distintas. Alguém que tome o rumo da  segunda  resposta,  por  exemplo,  não  precisa  negar  que  a  constituição  produz  efeitos simbólicos, limitando-se apenas a não aceitar que essa seja sua função, a qual continua sendo, no exemplo, limitar o Poder (cabendo investigar as causas para o seu fracasso funcional). Já alguém  que  prefira  a  terceira  resposta  não  precisa  negar  que  a  constituição  contém dispositivos  formalmente  atrelados  aos  princípios  caracterizadores  do  constitucionalismo contemporâneo, embora sustente que os efeitos de fato produzidos que conformam a função da constituição naquela sociedade são outros.

A segunda resposta habilita a construção de juízos funcionais. Assim, por exemplo, da mesma forma  que  um  coração  pode  ser  melhor ou pior  com  base  no  quão  adequadamente  ele       

262  Apenas  para  que  não  pareça  que  estamos  afirmando  ser  a  abordagem  de  Marcelo  Neves  conduzida  sob  o

modelo da função como conseqüências positivas, lembramos que o mestre pernambucano segue, conforme antes já mencionado (cf. item 2.5.8 supra), a teoria sistêmica de Luhmann, da qual falaremos logo adiante (item 5.7

desempenha  sua  função  de  fazer  circular  o  sangue,  poder-se-á  dizer  que  a  constituição  é melhor  ou  pior  (mais  eficiente  ou  menos  eficiente)  com  base  na  avaliação  do  grau  de desempenho daquilo que se reputa ser sua função, definida desde o tipo-ideal da <<classe>> (type) constituição (cf. SEARLE, 1995:14ss).

Por  certo,  no  entanto,  que  se  abre  aí  todo  um  campo  para  eventuais  especulações  (as  tais utopias, ficções ou absurdos), notadamente se o tipo-ideal da classe constituição for definido com  base  em  realidades  histórico,  social,  cultural,  política  e/ou  economicamente  muito diferentes daquelas em que se insere a constituição em particular (<<elemento>>, token) que o  cientista  esteja  a  estudar.  Tal  qual  no  modelo  dos  artefatos  (capítulo  4  supra),  o  jurista poderá  se  ver  levado  a  atribuir  a  essa  constituição  as  mais  variadas  funções,  algumas  (ou muitas) das quais ela talvez simplesmente não esteja de fato em condições de desempenhar, armando-se o cenário para uma ampla <<frustração constitucional>>263. Se se deixar apanhar por essas armadilhas, o estudioso dificilmente encontrará algo útil para a ciência do Direito Constitucional. Outro aspecto a ser avaliado na linha da segunda resposta é o de que não está claro como, ao afirmar que a função da constituição é a produção de um efeito que ela de fato não produz, pode-se tomar esse efeito como causa da presença da constituição no sistema sociedade sem invocar  as  intenções  de  um  agente-autor  que  de  alguma  forma  tenha  desejado  a  produção desses efeitos. Voltaremos ao tema logo a seguir, ao tratarmos do Critério da Dimensão (item 5.6.1.3 infra).

Por outro lado, ao mesmo tempo em que evita essas questões (o que de per si é um mérito), o caminho  da  terceira  resposta  pode  eventualmente  condenar  o  estudioso  a  uma  espécie  de <<sociologismo jurídico>>264, em que as funções atribuídas à constituição não comportam considerações sobre o que poderia ser, limitadas que estão exclusivamente ao que é.        263 Entenda-se bem o nosso ponto: o fato das constituições em geral (classe) desempenharem uma determinada função, digamos, na Europa ou nos Estados Unidos, pode levar o cientista, na linha de abordagem discutida, a declarar que aquela é também uma função da Constituição Brasileira (tipo); sendo, no entanto, as condicionantes naturais desta tão distintas daquelas, uma tal atribuição funcional pode se revelar cientificamente inapropriada caso a Constituição Brasileira não tenha condições reais de desempenhar aquela função.

264  "Não  existe  nenhuma  relação  necessária  entre  a  Sociologia  Jurídica  e  o  sociologismo  jurídico, isto é, a

concepção  que  tende  a  considerar  como  válidos,  no  estudo  do  Direito,  apenas  os  métodos  sociológicos  e  a reduzir a chamada ciência jurídica a uma simples técnica" (CAETANO, 1977:55).

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