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Critérios objetivos para aferir a razoabilidade do processo

3.3 DURAÇÃO RAZOÁVEL DO PROCESSO VERSUS EFETIVIDADE PROCESSUAL

3.4.1 O modelo da Corte Européia de Direitos Humanos

3.4.1.2 Critérios objetivos para aferir a razoabilidade do processo

O exame da duração razoável do processo é feito no caso concreto, não sendo possível a criação de uma regra abstrata e genérica sobre o tema. Com efeito, a análise da razoabilidade pode dar-se com o processo findo ou quando este ainda estiver em curso, mesmo que a situação de retardo venha a ser recuperada.77

O Tribunal Europeu de Direitos Humanos (TEDH) analisa os casos de violação à duração razoável do processo em três passos, conforme ensina André Luiz Nicolitt: 78

1º Analisa a efetiva duração do processo fixando o período a ser considerado; 2º Considera os critérios objetivos para aferição da razoabilidade do prazo; 3º Pronuncia-se sobre a violação do direito sobre o pedido formulado.

A primeira análise feita é verificar se a demora na prestação jurisdicional é latente, para depois analisar, com base nos prazos processuais e nos padrões apontados pela experiência como de duração normal, se este tempo demasiadamente longo é razoável ou não.79

Verificando-se o excesso de prazo, o TEDH passará à análise da razoabilidade do prazo processual, sendo obrigatório observar seguintes aspectos: a) a complexidade da causa, b) a conduta dos litigantes, e c) a atuação das autoridades judiciais, e, facultativos: a) o contexto em que se desenvolveu o processo, e b) a importância do litígio para os demandantes.80

Os critérios devem ser vistos e ponderados em um conjunto, valorando-se relativamente a importância de cada um, independentemente se apenas um deles influenciou na demora.81

77

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 75.

78

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 75.

79

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 75.

80

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 76.

81

3.4.1.2.1 Complexidade da causa

Há de se descartar, a princípio, como possibilidade de dilação processual, a demora causada pela complexidade sistêmica, que é aquela causada pela própria complexidade da legislação em vigor, com regras complicadas ou pouco claras e, até, normas de um direito material de difícil aplicação. Nessa hipótese, o aumento do tempo da prestação jurisdicional é causado pelo Estado, que não poderá furtar-se a aplicar o direito fundamental, haja vista incumbir a ele simplificar os procedimentos e facilitar o acesso à justiça.82

Muitos são os casos de aumento da complexidade da causa. De forma geral, a doutrina tem apontado como processos de menor complexidade: a ação cautelar, a de execução, as questões unicamente de direito83 e as matérias que não exijam produção probatória.84

De outro lado, pode-se afirmar, como causa do aumento da complexidade processual: um grande número de litigantes, exigência de perícias sofisticadas, complexidade probatória,85 processos que dependem da resolução de questões prejudiciais e ritos demasiadamente longos.86

Importante citar, neste ponto, a lição de André Luiz Nicolitt,87 que sistematiza a complexidade da causa em três tipos:

a) complexidade fática: é aquela decorrente da própria natureza da relação jurídica controvertida, além das questões no campo probatório;

b) complexidade jurídica: apresenta-se em razão da dificuldade de interpretação de determinada norma jurídica, causada pela inovação legal ou má redação; e

c) complexidade processual: é caracterizada nos processos com várias demandas incidentes, que tenham multiplicidade de partes (intervenção de terceiros, litisconsórcio), dificuldade em encontrar testemunhas, cartas rogatórias.

É injustificável a dilação fundada na complexidade processual, pois é obrigação do legislador criar mecanismos para assegurar a celeridade processual.88

82

ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. p. 306.

83

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 91 e ss.

84

ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. p. 307.

85

ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. p. 307-308.

86

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 91-92.

87

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 77 e ss.

88

3.4.1.2.2 Conduta dos litigantes

As partes podem fazer uso de todos os meios recursais disponíveis no ordenamento jurídico. Para que não haja abuso de direito, o TEDH verificará se os meios empregados tiveram meramente intuito protelatório.89 Assim, o mau comportamento do requerente não pode ser imputado ao Estado.90

Destarte, o uso de recursos mormente procrastinatórios fere diretamente o princípio da razoabilidade processual, ilegitimando a parte a buscar a proteção do TEDH,91 ante a falta da boa-fé processual.92

Conforme ensina Carlos Henrique Ramos:

O processo que, ao contar com uma verdadeira tutela constitucional nos diversos ordenamentos, deve servir de instrumento para a realização do direito material, e não como mecanismo de embaraço e de frustração do consumidor da tutela jurisdicional. Daí a importância da disciplina do abuso do direito no processo, diretamente relacionado com o critério do comportamento das partes.93

Entretanto, a jurisprudência do TEDH e do Tribunal Constitucional da Espanha (TC) vem entendendo que o comportamento dos litigantes é um critério de menor relevância, ante o dever das autoridades de darem regular andamento ao processo. Sua utilidade revela-se maior quando se percebe a colaboração das partes, pois, uma vez detectada a contribuição dos demandantes para o bom andamento do feito, a violação ao direito à duração razoável do processo torna-se evidente.94

3.4.1.2.3 A atuação das autoridades judiciais

No dizer de Samuel Arruda Miranda, entende-se por autoridade judiciária, no sentido amplo, a figura dos juízes, auxiliares da justiça e também do Estado.95

89

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 80.

90

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 94.

91

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 81.

92

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 91-92

93

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 95-96.

94

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 82.

95

A aferição da razoabilidade processual não está tão-somente ligada ao tempo fluido. É preciso que se olhe sob uma perspectiva qualitativa e se verifique se o tempo despendido no processo é compatível com a atividade jurisdicional prestada. Assim, faz-se imperioso examinar o comportamento das autoridades judiciais no processo.96

Na lição de André Luiz Nicolitt:

Os atrasos imputados ao Estado podem ser classificados em dilações organizativas e dilações funcionais. As primeiras decorrem de fatores estruturais, da sobrecarga de trabalho ou mesmo conjunturais. As segundas estão ligadas à deficiente condução do processo por parte dos Juízes e Tribunais.[...] Os atrasos não são apenas fruto da paralisação do processo em razão da inatividade da autoridade, mas também e não raro, decorrem da excessiva concentração da atividade em aspectos secundários da causa.97

Importante destacar que não é pelo fato de o processo estar sujeito à iniciativa das partes que possam ser toleradas posturas burocráticas das autoridades judiciárias, uma vez que o processo desenvolve-se pelo impulso oficial.98

3.4.1.2.4 Critérios facultativos

Os critérios facultativos não são de uso obrigatório, mas, por vezes, as Cortes Européias os utilizam para a análise do caso em concreto.

O primeiro critério facultativo é o contexto em que se desenvolveu o processo. Refere-se ao período pelo qual o país está passando no momento da autuação do processo. Uma grande crise energética que assola o país, ou a sobrecarga do Judiciário no período eleitoral, podem justificar a demora processual.99

O segundo, é a importância do litígio para os demandantes, que pode ser aferida, em razão da matéria envolvida no litígio. O TEDH formulou uma escala de prioridade segundo o conteúdo material do processo, organizando as matérias na seguinte ordem: 1) processos penais; 2) processos sobre o estado e a capacidade das pessoas; 3) processos trabalhistas e de seguridade social; e 4) os tipos residuais.100

96

ARRUDA, Samuel Miranda. O direito fundamental à razoável duração do processo. p. 309.

97

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 84.

98

RAMOS, Carlos Henrique. Processo civil e o princípio da duração razoável do processo. p. 99.

99

NICOLITT, André Luiz. A duração razoável do processo. p. 87-88.

100

Assim, conforme ensina Carlos Henrique Ramos, a partir dos critérios desenvolvidos pelo TEDH poderá se afirmar que a garantia do prazo razoável restará violada caso:

a) em uma causa considerada não-complexa, a controvérsia não seja solucionada tempestivamente ou, em se tratando de um feito que verse sobre questões complexas, os juízes não empreendam esforços para o seu adequado enfrentamento; b) os postulados éticos de demandar e ser demandado, além dos deveres típicos de colaboração, não sejam obedecidos;

c) os deveres dos juízes e dos auxiliares da justiça, mais precisamente aqueles relacionadas com a correta condução do processo e com o cumprimento dos prazos, não sejam corretamente obedecidos;

d) o Estado como um todo, não adote providências estruturais para melhor aparelhar o judiciário.101

Conforme observou-se nesse capítulo, é possível, a exemplo da experiência européia, a criação de mecanismos de aferição da demora processual dentro do ordenamento pátrio. Para tanto, não há necessidade de inspiração legislativa, mas tão-somente boa vontade para adaptar o modelo europeu ao brasileiro.

No próximo capítulo estudar-se-á a evolução histórica da razoável duração do processo no sistema jurídico brasileiro. Demonstrar-se-á a importância dos mecanismos de proteção dos direitos do homem e apontar-se-á a responsabilidade civil do estado pela demora na prestação jurisdicional.

101

4 DIREITO FUDAMETAL À RAZOÁVEL DURAÇÃO DO PROCESSO

Neste capítulo, far-se-á um retrospecto histórico das constituições brasileiras, no que tange à afirmação dos direitos à proteção judiciária, e de algumas convenções sobre os diretos humanos, passando-se a seguir para o estudo da fundamentalidade do processo justo.

Em seguida, abordar-se-ão a importância e os mecanismos de proteção dos direitos fundamentais, com destaque às medidas adotadas na Europa, principalmente na Itália, com o fito de reduzir a morosidade processual.

Por fim, estudar-se-á a responsabilidade civil do estado pela demora na prestação jurisdicional.

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