QUADRO 04 Categorias de análise
4.1. Inserção Comunitária
4.3.1. O professor como sujeito crítico
4.3.1.3. Criticidade, formação e perfil profissional
Para concluirmos a análise destes primeiros aspectos, pertinentes à criticidade expressa na vivência do próprio professor, abordaremos sua leitura crítica frente a elementos do perfil e da formação profissional de professores de Educação Física, de forma destacada no que tange ao trabalho em comunidades pobres e marginalizadas.
O professor Carlos, ao referir-se ao diferencial do trabalho que desenvolve na comunidade, na área de esporte e lazer, destaca a relevância da consciência política, relativa à consciência de classe e ao conflito imanente a sua dinâmica na sociedade que hoje temos.
Consciência política eu acredito que seja fundamental para o que nós fazemos hoje. Política no sentido de... De... Perceber as nossas limitações a nível de classe, e buscar soluções pra romper isso aí. De mais, qualquer pessoa pode fazer, a questão de... De levar uma bola, fazer uma brincadeira, jogar, né. Isso dentro da questão do lazer. (Carlos, Trecho 124)
Podemos depreender do trecho acima que o professor, em coerência com a totalidade de seu discurso, situa consciente e intencionalmente sua prática como educador na área de esporte e lazer como uma atuação ampliada, que envolve o que chama de consciência política, visando à superação das limitações historicamente construídas e muitas vezes impostas por classes e sistemas sócio-ideológicos hegemônicos. E contrapõe tal diferencial político-ideológico e ético-político às práticas simplistas de entretenimento e recreação, pautadas em perspectivas não-contextualizadas e acríticas.
Carlos enfatiza tal diferencial, trazendo a problematização como recurso pedagógico básico que efetivamente promoveria, de modo concreto, sua perspectiva de trabalho na área de esporte e lazer junto a comunidades pobres e em sistemático processo de marginalização, como podemos perceber no trecho abaixo:
Sem essa consciência política, eu taria só vendendo abobrinha lá: “blá, blá, blá, blá, blá, blá.” Então eu dou ênfase nisso. “Por que que... Por que que o pessoal da Aldeota não vem jogar aqui com vocês? Por que é... Por que o pai de vocês tem que trabalhar doze horas por dia? E vocês tão se preparando pra mesma coisa? Por que que... Quantas pessoas vocês conhecem que fazem faculdade... Aqui na comunidade?” Né... “Por que que o ensino da escola pública é diferente da privada?” Então, são questionamentos políticos que vão trazer uma referência
política e são... Pra mim, são fundamental pra compreensão de povo... Percepção de comunidade... Né. “Por que é que a comunidade não se reúne pra reinvidicar isso, aquilo outro?” Então, isso é consciência política. (Carlos, Trecho 126)
Carlos faz um apanhado de perguntas geradoras de problematização, colocadas aos participantes, evidenciando os contrastes sócio-político-econômico-culturais entre a classe social a que pertencem os participantes e as classes mais abastadas e favorecidas, mediante a abordagem de temas como: convivência comunitária; trabalho; projeto de vida; acesso e qualidade da educação; e organização popular-comunitária. O professor ainda uma vez sinaliza a finalidade de sua intervenção político-pedagógica, alinhada com a proposta do programa de esporte e lazer, que transcende a questão de simplesmente disponibilizar o acesso ao serviço público de esporte e lazer, mas busca contribuir com a construção de novos padrões de sociabilidade, definindo com isso sua concepção de consciência política.
A leitura crítica empreendida pelo professor Allan ora toma como foco a inadequação do perfil do profissional de Educação Física para o trabalho social, ora se dirige ao processo de formação desse mesmo profissional. Além disso, posiciona-se de forma semelhante ao professor Carlos, no que tange à necessidade de o professor desenvolver uma atuação ampliada que considere a dinâmica e o contexto comunitário como um todo, e que não apenas se restrinja à viabilização de práticas de entretenimento por atividades de esporte e de lazer, como podemos perceber nos trechos seguintes:
E é, quer dizer, uma série de coisas que você sutilmente, como profissional tem que abrir a mente pra isso... Porque se você vai ali com sua bolinha pra dar esporte e ir embora, já já você vai ser queimado ali... Já já você é convidado a se retirar, porque isso eles têm com muita facilidade, entendeu... Uma bolinha ali pra jogar é a coisa mais fácil que tem dentro da Santa Fé... (Allan, Trecho 12) Mas o meu trabalho tem que ser mais profundo, tem que ser nas questões sociais... Porque se eu, através de um futebol ou de um carimba, puder levar alguma mensagem de engrandecimento da questão do cidadão, então, já ganhei, entendeu, como profissional, porque eu passei... Passei do limite do que se... Que se classifica como “professor de ginástica”, “professor de esporte”, entendeu... Eu ultrapassei isso... Eu tou tentando ali formar cidadão... (Allan, Trecho 67)
Notamos novamente a ênfase dada pelo professor à consciência em torno da perspectiva político-pedagógica que perpassa sua atuação na comunidade, em torno das atividades de esporte e lazer, especialmente quando se refere à profundidade de impacto
que seu trabalho deve possuir junto à realidade, tocando as problemáticas sociais. Reflete ainda sobre a reconfiguração de seu papel como educador, como professor de Educação Física, apontando para a contradição entre o papel de “professor de Educação Física” e o papel de “formador de cidadão”.
Essa polarização nos chama a atenção, uma vez que sugere uma compreensão fragmentada de Allan, quando segrega a atuação político-pedagógica de favorecer o processo de conquista e exercício da cidadania, por um lado, da atuação do “professor de esporte” e do “professor de ginástica”, do outro, como se estas figuras naturalmente não pudessem trazer em si mesmas, em suas práticas e discursos, uma atuação pedagógica também voltada ao fomento da cidadania junto aos educandos, praticamente o oposto do que nos propõe Paulo Freire (cf. 1969). Com o autor, podemos afirmar que em quaisquer relações nas quais se estabeleçam processos, formais ou informais, de ensino- aprendizagem, possuindo as figuras dialeticamente correlacionadas do educador e do educando, é possível (e imprescindível) se estabelecer uma educação libertadora, que envolve inclusive a questão da conquista e exercício da cidadania.
Para retomar a leitura crítica sobre o perfil e a formação pessoal e profissional frente às exigências da realidade do trabalho com comunidades pobres, analisemos os trechos seguintes da entrevista com Allan.
Mas eu acho difícil um “mauricinho” ou uma “patricinha”, que toda a vida estudou em colégio particular, fez uma universidade particular, saiu agora quentinho da faculdade, ir pra uma comunidade dessa e conseguir entender isso... Num vai conseguir não... Num sabe o que é fome... Ele num sabe o que é num ter... É... É... Realizar... É... É... Necessidades básicas, como ter... Ter o que pra eles é importante, pra você já virou uma coisa corriqueira, como ter uma roupa nova, ter um computador, trocar de celular, entendeu. (Allan, Trecho 152) Então, meu amigo, num vai sentir na pele o que a comunidade sente... porque a realidade dele é outra... O cara vem de uma família abastada, família abastada, a família dele tem dinheiro, e agora tá num trabalho onde ele tá ganhando 600 reais, e ele tem que cumprir quatro horas, e a comunidade num quer nada, “num quer nada? Então, toma a bola, vai jogar!”, que acontece muito, cara! (Allan, Trecho 153)
Frente a tal leitura, percebemos que Allan valoriza a necessidade de uma identificação básica por parte do professor de Educação Física com a realidade comunitária com a qual se propõe a trabalhar. Traz em seu discurso inclusive elementos que também apontam para os contrastes entre classes sociais extremamente discrepantes e
seus respectivos estilos e trajetórias de vida, que, para o professor, se associam a valores e atitudes dos profissionais, inviabilizando, em sua visão, uma atuação comunitária exitosa.
Tal distanciamento e alienação presente na suposta relação entre esse agente externo e a comunidade afetaria, na análise de Allan, a forma como conduziria até mesmo suas atividades específicas de esporte e lazer, sugerindo que o suposto professor não vinculado que está à realidade comunitária, se manteria na superficialidade da mera oferta de práticas de esporte e lazer, para simplesmente cumprir suas obrigações contratuais com a SECEL.
Podemos correlacionar tais observações críticas do professor com o processo de inserção comunitária, deflagrado ao início de uma atuação comunitária, fundamental à construção de uma práxis libertadora. Os exemplos que Allan utiliza para ilustrar seu raciocínio remetem justamente a uma atuação dentro de uma comunidade na qual inexistiria a inserção comunitária protagonizada pelo agente externo que figura nos exemplos dados pelo professor. A conduta desse agente externo fictício reflete a ausência de relação significativa com a realidade comunitária, bem como sugere a superficialidade de vínculos afetivo-sociais com os participantes e moradores, uma vez que não apresentaria minimamente um cuidado com sua participação nas atividades propostas, ainda segundo o exemplo trazido por Allan.
Essa possibilidade de estabelecermos tal correlação a partir de uma análise crítica desenvolvida por Allan ratifica o nível de significância que o professor atribui ao processo de inserção comunitária para a atuação comunitária de um modo geral, e em específico o significado pessoal que tal processo teve para si mesmo.
Provavelmente devido à profundidade com que vivencia seu processo de inserção comunitária, que reflete e remete de forma evidente a sua própria história de vida pessoal, o professor Allan atribui um extremo valor à experiência de vida do profissional que pretenda trabalhar com comunidades pobres e marginalizadas.
Contudo, tal nível de significância parece absolutizar seu ponto de vista sobre o processo de desenvolvimento pessoal de indivíduos de classes sociais mais abastadas – extremamente contrastantes com as realidades com que irão trabalhar –, como se tais profissionais, por não terem passado fome e sofrido demais formas de privação e negação de direitos, fruto de relações históricas de opressão e exploração, não fossem capazes de se inserir e de atuar exitosa e criticamente em comunidades marcadas por essas características.
Tal absolutização cristalizadora de processos eminentemente complexos, como os são o desenvolvimento humano e a constituição sócio-ideológica de um indivíduo, nos sugere uma postura acrítica e anti-dialógica por parte do professor Allan, uma vez que toma uma perspectiva (oriunda de sua própria experiência de vida) como referência de teor absoluto para julgar e rotular negativamente outras perspectivas de construção subjetiva, o que tende a enfraquecer, mas não parece invalidar, seu processo de leitura crítica.