MITOS E MITOLOGIA EM MONTEIRO LOBATO
3.8. Cronologia da obra infantil e o riso antropofágico
Saci e as histórias que envolvem Narizinho são as primeiras publicações destinadas ao público infantil, não na forma que se acham reunidas hoje. Pode-se escolher como ter a obra de Lobato: em “fatias” ou em “blocos”.
Os episódios A menina do narizinho arrebitado, Narizinho arrebitado, O Saci, Fábulas de Narizinho, O marques de Rabicó, Fábulas, A caçada da onça, Jeca Tatuzinho são publicados nos anos 20, antes de seu período como adido comercial nos Estados Unidos. Os
150 LOBATO, 1961, p. 138. Já citado na introdução.
151 Lobato rechaça a opinião que Pacheco Junior dera em artigo da “Revista Brasileira”, em que considera “que o Sacy é, como o “Caapora”, criação mythica devida aos nossos indígenas.” LOBATO, 1998, p. 279.
últimos três anos da década de 20 são dedicados a As aventuras de Hans Staden, O noivado de Narizinho, Aventuras do príncipe, O gato Félix, Cara de coruja, O irmão do Pinóquio, O circo de cavalinhos, A pena do papagaio e Peter Pan, os dois últimos de 1930. Nessas obras, é como se Lobato passasse a limpo toda a literatura infantil conhecida, a título de recordação, e passa a apresentar os personagens que, para ele, também eram novos: o Gato Félix, Tom Mix, Peter Pan.
Observe-se que os processos de erudição e apropriação de Peter Pan ocorrem no mesmo ano, porque A pena de papagaio tem um personagem invisível, que as crianças do sítio deduzem ser Peter Pan e que lhes dá acesso ao pó de pirlimpimpim. Nesse episódio, “Peninha”, o menino invisível (que não é Peter Pan, mas possui o pó de pirlimpimpim), leva as crianças do sítio ao País das Fábulas, onde o processo de criação acontece in loco, ou seja, presenciado pelo fabulista La Fontaine, com quem Pedrinho faz o seguinte comentário:
— Ando meio desconfiado que esse menino é o mesmo Peter Pan. Tem igual modo de falar e igual mania de cantar de galo. Que é que o senhor pensa disto?
O pobre fabulista, que não tinha a menor idéia de quem fosse Peter Pan, menino descoberto na Inglaterra muito recentemente, não pôde dar opinião a respeito (LOBATO, Reinações de Narizinho, p 261).
A década de 30 caracteriza-se por uma produção em que o didático se sobrepõe ao lúdico: O pó de pirlimpimpim, As Reinações de Narizinho, Viagem ao céu, História do mundo para crianças, Caçadas de Pedrinho, Emilia no País da Gramática, Aritmética da Emilia, Geografia de Dona Benta, Histórias das invenções, Dom Quixote das crianças, Memórias da Emilia, O poço do visconde (Geologia para crianças), Serões de Dona Benta (Lições de Física para Crianças).
Reinações de Narizinho vai aos poucos tomando a forma como é conhecido atualmente, já que reúne alguns dos primeiros livros publicados. E o didatismo vence nos outros exemplares, cujo fim é educar e ilustrar os jovens leitores, mesmo que a criação e o entretenimento sejam sacrificados. Apesar de haver o processo de “tradução”, ou seja, a forma
simplificada de contar de Dona Benta, a narrativa não perde em erudição e o texto nunca é simplificado até chegar ao nível que se tem hoje em algumas obras e, às vezes, justificado por alguns professores.
D. Quixote de la Mancha é apresentado com todo respeito que merece a grande personagem de Miguel de Cervantes, embora Dona Benta justifique:
—Meus filhos—disse Dona Benta — esta obra está escrita em alto estilo, rico de todas as perfeições e sutilezas de forma, razão pela qual se tornou clássica. Mas como vocês ainda não têm a necessária cultura para compreender as belezas da forma literária, em vez de ler vou contar a história com palavras minhas (LOBATO, Dom Quixote das
crianças, p.145).
[...]Cervantes escreveu este livro para fazer troça da cavalaria andante, querendo demonstrar que tais cavaleiros não passavam duns loucos. Mas como Cervantes fosse um homem de gênio sua obra saiu um maravilhoso estudo da natureza humana, ficando imortal. Não existe no mundo inteiro criação literária mais famosa que a sua (LOBATO, Dom Quixote das crianças, p.146).
É justamente nesse trecho da obra que Lobato, através de Dona Benta, defende seu ponto de vista sobre as obras infantis e sobre as traduções. Atualmente é mais fácil achar Peter Pan adaptado por ele, do que o original de James Barrie. Dona Benta interrompeu a narrativa para atender a uma pergunta de Pedrinho. O menino queria saber se ela estava contando a história inteira ou só pedaços:
— Estou contando apenas algumas das principais aventuras de Dom Quixote, e resumidamente. Ah, se fosse contar Dom Quixote inteiro a coisa iria longe! Essa obra de Cervantes é bem comprida; passa de mil páginas numa edição in-16. Mas só os adultos, gente de cérebro bem amadurecido, podem ler a obra inteira e alcançar-lhe todas as belezas. Para vocês, miuçalha, tenho de resumir, contando só o que divirta a imaginação infantil (LOBATO, Dom Quixote das crianças, p.265).
Através da postura de Emília, em relação ao personagem D. Quixote, fica encenada a relação que se passa a ter com os grandes personagens da literatura e que Umberto Eco apresenta como a grande diferença das grandes obras, as que ficam para sempre. Ao falar da morte de D. Quixote, Emília se recusa a ouvir o final da narrativa e quando Narizinho tenta lhe contar, sua resposta foi: “— Morreu nada! — dizia ela. — Como morreu, se D. Quixote é
imortal?” Se há um deslocamento de sentido em relação à imortal, fica evidente o pensamento lobatiano sobre os clássicos.
Lobato coloca o saber popular em cena, através de Histórias de Tia Nastácia, em 1937, valorizando a cultura letrada sobre o saber oral, já que os personagens “caçam a palavra de Tia Nastácia” e devolvem-na a Dona Benta, aspecto já analisado em detalhes.
A publicação de O Pica-Pau amarelo, de 1939, é uma retomada do acervo infantil consagrado, transportando, para o sítio, os personagens estudados e já apresentados anteriormente em episódios menores. É o Sítio como o ponto mediador para toda a construção ficcional do mundo, para lá se mudam todos os personagens conhecidos, dando origens a novas aventuras. As histórias se renovam nos novos domínios, Branca de Neve enviúva e se casa de novo. Dona Benta hospeda D. Quixote de la Mancha, que, apesar de toda loucura, é mantido com todo o respeito que se deve ao grande personagem. Até que ele mesmo resolva retomar sua caminhada, já que se trata de alguém imortal, como já dissera Emília.
Monteiro Lobato utiliza procedimentos da narrativa da modernidade, ao promover a ficção dentro da ficção, abrigando outras criaturas ficcionais, numa estrutura de mise-en- abîme, que se configura na construção de O Pica-pau Amarelo (O sítio de dona Benta, um mundo de verdade e de mentira). O processo mise-en-abîme se torna mais evidente quando chegam as crianças que querem visitar o sítio, por conhecerem suas aventuras pelos livros, mas ficam sabendo, por sua vez, que “elas”, as crianças do sítio, estavam no mundo das fábulas que se transferira para as terras ao lado do sítio de Dona Benta. Apesar da mudança dos personagens ficcionais para o sítio não vingar, em razão da presença dos monstros que seqüestram Tia Nastácia, o rapto da cozinheira permite a continuação do jogo em direção ao grande fascínio de Lobato, que retoma a Grécia Antiga como foco de erudição, para onde todos os personagens do sítio partem.
Entre 1939 e 1944, Lobato publica os livros em que ocorre um diálogo mais intenso com a mitologia grega e seu questionamento sobre a humanidade em relação à evolução da espécie, atormentado que estava com as duras realidades da guerra. Punha as críticas nos textos para as crianças, defendendo o ponto de vista de que elas eram capazes de compreender os problemas melhor que os adultos. Assim, Lobato já desconstruía a questão de limites do que seria uma leitura direcionada para os jovens e para os adultos, ponto já mencionado anteriormente. Percebe-se o fechamento152 da obra com a publicação de A chave do tamanho, seguido pela Reforma da Natureza e terminando com Os doze trabalhos de Hércules, num espaço de dois anos, de 1942 a 1944, lembrando, no entanto, que o grande diálogo com o passado fora aberto na História do mundo para crianças, na década de 30.
O riso antropofágico acontece agora com mais freqüência. Quando tia Nastácia é seqüestrada no final do episódio de O Pica-Pau Amarelo, Pedrinho e Emília vão encontrá-la fritando bolinhos para um Minotauro, agora corrompido pelos quitudes da boa cozinheira. Hércules é apresentado como analfabeto, e alguns dos grandes lances dos doze trabalhos só foram possíveis através da interferência da “dadeira de idéias” que se alia a Pallas, a grande defensora de Hércules. Entre o cumprimento da missão do Leão da Neméia e a façanha seguinte — A Hidra de Lerna — detalhes da vida de Hércules são contados, além de uma crítica ao atleta em geral apresentado como “burrão de nascença”.
Em se tratando da leitura de Os doze trabalhos de Hércules, os personagens do sítio interferem para ajudar Hércules a cumprir sua missão. Entre a narrativa de um trabalho e outro, Lobato faz um repasse de praticamente quase todas narrativas mitológicas gregas, construindo um tratado ilustrativo. Tal peculiaridade da obra permitiu a publicação recente dos textos desmembrados de seu contexto original e reeditados como se Lobato tivesse apenas
152 Utilizo o termo fechamento no sentido dado por Maurice Blanchot que trata da obra em sentido amplo, quando o autor já deixou de produzir, o que permite uma análise mais distanciada, tendo em vista o término do trabalho, portanto um fechamento. Vendo dessa forma, percebe-se como o autor faz diferentes abordagens durante sua vida. BLANCHOT, 1987.
feito um estudo sobre a mitologia grega. Não foi apenas um estudo da mitologia, foi um amplo estudo da mitologia em que houve o momento para a reverência e a hora para a brincadeira. Lobato desejou uma helenização que o Brasil jamais alcançaria:
— Salve, ilustres visitantes da minha Atenas! — disse ele, ao entrar. — E meus parabéns. Vejo que já se helenizaram na perfeição.
— Quem não há de helenizar-se nesta maravilhosa Atenas presidida por dois grandes gênio? Ah, Senhor Péricles, eu nem encontro palavras para traduzir o que sinto. Que felicidade a de ver-me no mais belo instante da vida do mundo!...
— Acha isso?
— Não acho; não estou dando opinião minha. Sei que é assim. Período nenhum da história da humanidade será mais belo que este. Nunca a arte florescerá tanto, nunca haverá maior produção de idéias. O mundo em que vivo, ou o que chamamos “Civilização Moderna”, está profundamente influído pelo que os gregos deste século criaram e estão criando. Nós, modernos, nada mais fazemos senão desenvolver idéias gregas, embora na maioria coadas através dos romanos (LOBATO, O minotauro, p.248).
Dona Benta é a cicerone mais entusiasta que as crianças poderiam ter dentro de um mundo grego. O mesmo episódio sobre Penélope é apresentado em O Minotauro e em Os doze trabalhos de Hércules, assim como um resumo das façanhas, antes que fossem desenvolvidas extensivamente. Em O minotauro, Dona Benta apresenta Penélope como a fiel esposa que aguarda a volta do marido e, em Os doze trabalhos de Hércules, Emília a classifica como a boba número um. Assim, mais uma vez, tem-se o movimento pendular das apropriações lobatianas.
Dessa forma, a presente revisão sobre Lobato deixa clara a sua contribuição ao patrimônio intelectual brasileiro, realizado em dois movimentos distintos: o primeiro construído em seu diálogo com o patrimônio eurocêntrico e o segundo, um trabalho reconhecido pelos próprios modernistas, mais precisamente numa revisão de Oswald de Andrade, que o colocou como o primeiro a valorizar o popular, manifestado em diferentes momentos em sua obra, seja naquela destinada aos adultos, seja em sua obra infantil e ainda em movimentos que abordam ora a questão da fabulação, ora a própria configuração lingüística utilizada nos contos.
CAPÍTULO 4