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Diálogos intertextuais — Allende, Rowling e Tolkien

INTERSEÇÕES: LOCAL, GLOBAL, BRASIL E AMÉRICA LATINA

4.3. Diálogos intertextuais — Allende, Rowling e Tolkien

No encontro com as “Feras”, o diálogo com a obra de Tolkien é bastante evidente. As Feras, apresentadas como enormes e lentas, são criaturas pré-históricas, guardiãs do saber dos indígenas e que decidem fazer um concílio para tentar defender a região do ataque dos aventureiros:

Parecia um gigantesco homem-macaco, de mais de três metros de altura, de pé sobre duas patas, braços poderosos que tocavam o chão, um rosto melancólico e uma cabeça demasiado pequena para o tamanho do corpo.[..] Movia-se com tão incrível lentidão que era praticamente como se não se movesse.

[...]

Muitas horas depois começou a reunião do conselho. As Feras sentaram-se em semicírculo no centro da cidade do ouro, e Walimai e os jovens se puseram diante delas. [...]

— Estes são Águia e Jaguar, forasteiros amigos do povo da neblina — disse o ancião. — Vieram receber instruções ( ALLENDE, 2002, p.183 e 188).

O mesmo ocorre em O senhor dos anéis, quando Tolkien, ao criar diferentes povos e criaturas, inclui os “ents”. A descrição do aspecto exótico dessas criaturas provoca uma associação de imagens com as “Feras”. Os “ents”, apresentados como árvores milenares e gigantescas e com elas aparentados, estão encarregados de ajudar a conservação da natureza e se reúnem para ajudar a solucionar a guerra no mundo. Segundo as explicações do “ent” Barbárvore167, os elfos, no anseio de conversar com todas as coisas, despertaram as árvores e as ensinaram a falar. Ao contrário das criaturas criadas por Tolkien, as de Allende não eram de natureza vegetal, mas animal, o que fazia com que produzissem uma quantidade considerável de excrementos.

167 Somos pastores de árvores, nós, os velhos ents. Restou um número suficiente de nossa espécie. As ovelhas ficam como os pastores, e os pastores como ovelhas, é o que se diz; mas lentamente, e nenhum dos dois permanece muito no mundo. Acontece mais rápido e mais perto com as árvores e os ents, e eles caminham juntos através das eras. Pois os ents são mais como os elfos: menos interessados em si próprios do que os homens, e melhores para penetrar os outros seres (TOLKIEN, 2001, p. 490).

Alex Cold e Nádia guardam segredo sobre as “Feras”, e, quando sua avó lhe exige um relato sobre as mesmas, o jovem diz que ela não precisava se preocupar em lhes atestar a existência, seu grande papel seria defender o “povo da neblina”:

— Vou repetir uma pergunta que já lhe fiz antes, Alexander — disse Kate Cold — o que você sabe sobre A Fera?

Não é uma, Kate, são várias. Parecem preguiças gigantescas, animais muito antigos, talvez da Idade da Pedra ou anteriores.

Você as viu?

Se não as tivesse visto, não poderia descrevê-las, não é mesmo? Vi onze delas, mas creio que ainda há uma ou duas rondando por estas bandas. Parecem ter um metabolismo muito lento, vivem por muitos anos, talvez séculos. Aprendem, têm boa memória e, não sei se vai acreditar, mas elas falam — Alex explicou [...]

Tenho de ver essas Feras e fotografá-las, Alexander.

— Para quê? Para um artigo na revista? [...] — Então escreva que a Fera é uma lenda, pura superstição. Garanto que por muitos e muitos anos ninguém voltará a vê-las. Serão esquecidas. Mais interessante é escrever sobre o povo da neblina, esse povo que permanece imutável a qualquer momento. Conte como iam injetar neles o vírus do sarampo, como já fizeram com várias outras tribos. Você pode torná-los famosos e assim salvá-los do extermínio, Kate. [...] Sua compaixão poderá trazer um pouco de justiça até estes lados, denunciando os malvados como Carias e Ariosto, questionando o papel dos militares e levando Omayra Torres à justiça (ALLENDE, 2002, p.269).

O trecho acima permite estabelecer conexões interessantes sobre o imaginário construído sobre o povo americano. Em sua apresentação para o mundo, os Estados Unidos sempre reivindicaram o papel de defensores dos ideais democráticos, preservadores de tudo que represente valor científico, dando-se o privilégio de, em nome do mundo, denunciar as injustiças praticadas seja onde for, interferindo quando bem julgavam no território dos outros, recentemente, até sem o apoio da ONU. O sujeito enunciador, deslocado de seu território de origem, reconhece, nesse momento, o papel dessa nação, mas sem deixar de colocar sua posição crítica da qual nunca abriu mão. Quando a narrativa se encaminha para o desfecho, o capitão Ariosto, que se deduz militar brasileiro, já que sua nacionalidade não é mencionada, reflete como impedir que as coisas tomem vulto:

Mandou que os soldados recolhessem os índios mortos e pusessem todos juntos em um mesmo lugar; no dia seguinte poderiam enterrá-los ou queimá-los. A noite lhe daria tempo para tomar uma decisão sobre os estrangeiros. Santos e sua filha podiam desaparecer sem que ninguém perguntasse por eles, mas com os outros era necessário

tomar precauções. Ludovic Leblanc era uma celebridade; a velha e o rapaz eram americanos. Dizia-lhe a experiência que quando algo acontecia a um americano haveria com certeza uma investigação; aqueles gringos arrogantes se consideravam os donos do mundo (ALLENDE, 2002, p.252).

Esse sujeito enunciador acaba por conseguir uma posição privilegiada para a visão do outro, seu distanciamento provocado por um enraizamento provisório, mantém seu olhar crítico sobre os múltiplos papéis desempenhados por essa Nação “acolhedora” e como ela é percebida no circuito mundial, mantendo-se na posição cosmopolita que o exílio permite, quando aceitar uma cultura estrangeira não significa perder de vista a saída, ou seja, distanciar-se de seus pontos de referência.

Essa percepção da contínua interação e tensões existentes entre diferentes culturas, em Allende, permite que se vislumbre uma certa sintonia com o que anuncia Anthony Smith como hibridização. Na hibridização, permanecem perceptíveis as marcas espaciais e culturais dos vários territórios percorridos e pertencentes a padrões culturais que podem permitir a formação de uma área cultural com componentes institucionalizados de caráter global, embora se esteja longe

de um mapeamento do tipo cultura global e do ideal cosmopolita que pode realmente sobrepor-se ao mundo das nações, cada qual cultivando a sua característica histórica distinta e redescobrindo os seus mitos, memórias e símbolos nacionais das épocas áureas e das paisagens sagradas do passado histórico. Um mundo de culturas em competição, que buscam melhorar a sua condição de status comparativo e ampliar os seus recursos culturais, proporciona uma base mínima para projetos globais, apesar das possibilidades de infra-estrutura técnica e lingüística (SMITH, 1999, p.201).

De certa forma, o fato de ser anunciada como uma das escritoras latino-americanas mais traduzidas da atualidade e essa narrativa atravessada por múltiplos fluxos culturais já garantem a Isabel Allende uma posição significativa no que Smith chama de famílias de culturas que pressagiam áreas culturais regionais mais amplas, no caso o fortalecimento de uma identidade latino-americana que pode se reforçar cada vez mais. No fio do exotismo ou com expressa intenção crítica, o que se nota, em alguns momentos da narrativa, é uma mescla

que aponta para essa área de “identificação” latino-americana, demonstrando que se, territorialmente, a América Latina constitui uma unidade, do ponto de vista cultural, é uma diversidade em diálogo, em que pese a presença de um enfoque do exótico:

Nádia começou a dançar com a energia da terra, que atravessava seus delgados ossos como se fosse uma luz. Jamais tinha visto um balé, mas havia armazenado todos os ritmos que muitas vezes ouvira: o samba do Brasil, a salsa e o joropo da Venezuela, a música americana que chegava pelo rádio. Tinha visto negros mulatos, caboclos e brancos dançarem até cair exenuados durante o carnaval de Manaus e também os índios dançando solenes em suas cerimônias. Sem saber o que fazia, agindo por puro instinto, improvisou seu presente aos deuses. Voava. Seu corpo se movia sozinho, em transe, sem nenhuma premeditação de sua parte. Oscilava como as palmeiras, elevava- se como as espumas das cataratas, girava como o vento Nádia imitava o vôo das araras, a corrida dos jaguares, a navegação dos golfinhos, o zumbido dos insetos, a ondulação das serpentes (ALLENDE, 2002, p.196).

O trecho constrói um mosaico, sobretudo se se considera os termos sublinhados, dos quais a própria autora já realçara salsa e joropo em itálico, indicativos de uma diversidade que se instala em todos os níveis. A personagem conclama todas essas referências para construir uma dança que é dada como oferenda às Feras.

Independente de uma possível crítica que considere Isabel Allende uma escritora sintonizada com as questões do mercado, o que acusaria A cidade das feras de uma postura oportunista, não se pode recusar-lhe a categoria de escritora cosmopolita, no sentido dado por Ulf Hannerz, que assim define cosmopolitismo:

O cosmopolitismo mais autêntico é, acima de tudo, uma orientação, uma vontade de se envolver com o Outro. É uma posição intelectual e estética de abertura para experiências culturais divergentes, uma busca de contrastes em lugar de uniformidade. Familiarizar-se com outras culturas é transformar-se num aficionado (fã), considerá- las como obras de arte.Todavia, ao mesmo tempo, o cosmopolitismo pode ser uma questão de competência, e competência ao mesmo tempo de uma forma generalizada e de uma forma mais especializada. Existe o aspecto de um estado de destreza, de habilidade pessoal para abrir caminho para outras culturas, através da escuta, da observação, da intuição e da reflexão. E existe também a destreza cultural, no sentido estrito do termo, uma habilidade inata de manipular, de forma mais ou menos habilidosa, um sistema particular de significados e de formas significativas (HANNERZ, 1999, p.253-54).

Nesse sentido, Isabel Allende, em entrevista, afirma ter feito uma investigação extensa para escrever o livro e feito duas viagens a Amazônia para construir o romance. Sua intenção fica clara na defesa da natureza, localizando seus personagens num espaço paradisíaco e trabalhando a atmosfera dentro de uma atmofera mágica, manipulada dentro dos elementos míticos indígenas em busca de maior verossimilhança. É o que se pode deduzir pela leitura dos dados antropológicos que seu texto evidencia.

O segundo livro da trilogia reúne novamente os personagens da avó Kate, do jovem americano e da brasileira Nádia e nele o espaço escolhido é o Himalaia, onde a escritora trabalha a questão da espiritualidade, o que corrobora a afirmativa de Smith do cosmopolita que procura abertura para outras culturas. A série termina no espaço africano, quando os personagens colaboram com o estabelecimento de melhores relações entre diferentes povos, em específico, salvando uma tribo de pigmeus da escravidão a que estava submetida por uma outra.

Um outro ângulo, a ser reforçado sobre o cosmopolitismo, se reflete no comportamento do personagem Alexander Cold168, que não comia quase nada que não tivesse a ver com o fast food. Durante sua trajetória na Amazônia e coerente com a construção de um herói em crescimento, o jovem toma até sopa de ossos de um indígena morto. Esse cosmopolitismo pode se ampliar porque,

além dos encontros diretos, existe a mídia — ambos se destinam ao consumo local, embora falem daquilo que está longe, e daquelas coisas que realmente fazem parte de outras culturas, como os livros e os filmes estrangeiros. O que Mcluhan descreveu certa vez como força explosiva da mídia pode tornar quase todo mundo um pouco mais cosmopolita (HANNERZ, 1999, p, 264).

O exílio não determina o cosmopolitismo, visto que o deslocamento obrigatório nem sempre favorece um envolvimento com a terra estranha. No entanto, o exílio, entendido por Edward Said como “uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e

seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada” (SAID, 2003, p.46) poderia criar condições para que esse exilado se torne cosmopolita, o que parece ter ocorrido com Isabel Allende. Ao produzir obras com cenários que não se prendem a comunidades singulares, mas a espaços atravessados por diferentes impressões locais, a escritora se inscreve na chamada nova classe, possuidora de um capital cultural descontextualizado, mas vinculada ao que Hannerz considera “cultura de discurso crítico”.

Impossibilitados de se sentirem à vontade como os locais, impedidos do retrocesso, ao se abrirem ao cosmopolitismo, essas pessoas possibilitam e promovem a sobrevivência da diversidade cultural, pois se tornam fomentadoras de outras culturas.

O lugar de enunciação, as origens do sujeito enunciador, os fluxos que o atravessam constituem elementos que não podem ser esquecidos nas análises do tempo corrente sob pena de se perder de vista o papel do intelectual.

Nesse sentido, na comparação entre Rowling e Allende, é possível ver que a obra latino-americana se aproxima mais dessa postura crítica, já que em Rowling o lugar de enunciação alinha-se com a hegemonia do passado e, do ponto de vista literário, reforça uma posição de produção autocentrada.

É preciso reconhecer também, no caso de Allende, que se o espaço por ela ocupado lhe permitiu-lhe manter-se crítica em relação a determinados aspectos das potências hegemônicas, ainda assim não a livrou de cair num certo exotismo,