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1 INTRODUÇÃO

4.3 O CUIDADO E O CUIDAR EM ENFERMAGEM

4.3.1 O cuidado na perspectiva cultural

Considerando a temática do cuidado e cuidar em enfermagem e dada à relevância dos conceitos ora abordados, optou-se por adotar o conceito de cuidado cultural na perspectiva de Leininger(20), por ser o conceito que mais dialoga com o

referencial teórico da antropologia da saúde adotado nesse estudo.

O cuidado cultural é definido por Leininger(20) como valores, crenças e modos

de vida padronizados, apreendidos subjetiva e objetivamente. São cognitivamente conhecidos, transmitidos, auxiliam, facilitam ou capacitam o indivíduo ou grupo a preservar o bem-estar, a saúde, melhorar os modos de vida e sua condição humana ou enfrentarem situações de doenças, morte e deficiências.

Madeleine Leininger; enfermeira e antropóloga, por volta de 1940, percebeu a necessidade do cuidado cultural como essencial às práticas de enfermagem. Na metade dos anos 50, enquanto trabalhava como enfermeira em uma clínica psiquiátrica com crianças com distúrbios mentais de diversas culturas, percebeu a

importância da cultura para o cuidado de enfermagem. Após vários estudos em antropologia, compreendeu o comportamento como culturalmente constituído e influenciado pela saúde mental(87).

A curiosidade e a falta de conhecimento sobre os fatores culturais na saúde física e mental conduziram-na aos estudos da antropologia e, posteriormente, a desenvolver no campo da enfermagem transcultural um foco comparativo do cuidado(87).

Nas décadas de 50 e 60, o interesse pelos estudos médicos das doenças, sintomas e tratamento, bem como os avanços tecnológicos na área biomédica,

influenciaram as práticas tecnicistas, provocando o distanciamento

enfermeira/cuidado. Inconformada com tal situação, Leininger(87) procurou resgatar a

importância do cuidado para a prática de enfermagem, com a criação da Teoria transcultural, publicada em 1991.

Fundamentada na antropologia e nos conhecimentos da enfermagem, Leininger(20) menciona que o cuidado é culturalmente constituído e que cada cultura

tem a sua forma, seus padrões, suas expressões e estruturas para conhecer, explicar e predizer o estado de bem-estar, assim como padrões de comportamentos relacionados ao processo saúde-doença e os universos sociais e culturais onde ocorrem. A autora defende que cuidados com base cultural são essenciais, sendo estes mais abrangentes e holísticos.

A Teoria transcultural se fundamenta nas concepções de uma enfermagem holística e em uma perspectiva antropológica do homem, haja vista pertencer a várias culturas e contextos. Tendo como objetivos principais: documentar, saber, prever e explicar o que é diferente e universal acerca do cuidado popular nas culturas estudadas; conhecer as perspectivas culturais das pessoas sobre o cuidar e orientar a prática de enfermagem e o cuidado culturalmente coerente, com vistas a promover assistência de enfermagem que atenda às necessidades culturais, de valores e modo de vida da população assistida(87).

Leininger(20) afirma que as ações que envolvem prestação de cuidado devem

primariamente considerar a visão que o indivíduo possui sobre saúde e doença e não apenas a visão e significados atribuídos por enfermeiros à saúde, sendo esta uma postura profissional errada.

A teoria do transcultural nos leva a refletir sobre o significado de cultura, que Leininger considera como crenças, modos de vida aprendidos, compartilhados e

transmitidos e que orientam pensamentos e decisões de forma padronizada de um determinado povo. Tal conceito muito se aproxima do conceito de cultura de Helman(43), ao conceber cultura como um conjunto de aspectos que os indivíduos

herdam ao integrarem uma determinada sociedade e esses princípios permitem que as pessoas vivenciem e se comportem no mundo social.

Modesto(88) afirma ser essencial ao profissional de saúde o resgate da herança

cultural e familiar, que estão presentes nas formas de cuidado utilizadas pelos pacientes, a fim de conseguir uma maior aproximação deste, para um cuidado mais efetivo.

Nas reflexões sobre as práticas de cuidado em enfermagem não se pode desconsiderar a diversidade cultural do indivíduo que recebe o cuidado, portanto considerar a cultura de um indivíduo e/ou grupo, compreender a relevância e influência sobre o seu comportamento é fundamental para existência de uma relação dialógica entre o sujeito que cuida e o sujeito que recebe o cuidado.

Com um olhar atento à Teoria transcultural para promoção do cuidado congruente com a cultura do indivíduo/comunidade, é importante considerar que as práticas de cuidados de enfermagem sejam desprovidas de uma relação unilateral e assimétrica no que concerne às práticas culturais e valores de uma dada população. Nessa perspectiva, estudos na enfermagem vêm utilizando a Teoria transcultural e demostrando a importância de sua aplicabilidade para a promoção de cuidados capazes de responder às demandas de cuidados do indivíduo, que sejam congruentes com sua cultura, conforme explicitados a seguir.

O estudo realizado por Seima et al(89) que buscou refletir sobre a utilização da

Teoria da Diversidade e Universalidade do cuidado cultural de Madeleine Leininger, nas produções científicas brasileiras no campo da enfermagem, entre os anos de 1985 a 2011, evidenciou que a teoria é utilizada para favorecer propostas de cuidados holísticos e de respeito à cultura dos indivíduos para que as ações do profissional enfermeiro alcancem resultados almejados.

Henckemaier et al(90) ao realizarem um estudo com o objetivo de Identificar a

aplicação da Teoria Transcultural de Leininger nas produções científicas em Programas de Pós-Graduação em Enfermagem nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, nos períodos de 2005 a 2010, revelaram a utilização parcial da teoria, ora utilizada como metodologia, ora como referencial teórico, apontando a necessidade de ampliação do uso dessa Teoria. Esses mesmos autores referem que somente com a

ampliação do uso da Teoria de Leininger no campo da pesquisa será possível identificar melhoras no processo de cuidar em enfermagem.

Boehs et al(91) mencionam que a abordagem cultural no campo da enfermagem,

são considerados na prática e na pesquisa, porém mais comumente utilizados para enfatizar aspectos de cuidados relacionados a grupos étnicos, nas situações relacionadas a valores, práticas e crenças dos indivíduos em situações relacionadas ao ciclo de vida como período grávido-puerperal ou doenças, sobretudo as crônicas, nas quais os hábitos têm um papel fundamental.

Nesse sentido, observa-se escassez de estudos realizados com populações indígenas e que utilizam a teoria transcultural, refletindo em poucas produções científicas da enfermagem no campo da saúde indígena.

Dentre os estudos que utilizaram a teoria transcultural para análise dos dados, encontram-se os de Rissardo(92) que realizou estudo etnográfico com profissionais de

saúde com o objetivo de analisar as práticas de saúde dirigidos aos idosos indígenas da etnia Kaingang no Paraná. Tais práticas proporcionavam a manutenção dos indígenas na assistência, apontando a necessidade de que valores culturais e científicos se integrem para melhoria da saúde dos idosos indígenas.

Outro estudo realizado por Rissardo(93) em um estudo etnográfico sobre a

percepção dos profissionais de saúde sobre os fatores da cultura Kaingang que interferem na realização das práticas de cuidado aos idosos dessa etnia. Os resultados evidenciaram grande interferência da cultura indígena, principalmente no estranhamento cultural de diversos costumes, elencando como aspectos limitadores para assistência em saúde de tais idosos.

Moliterno(94) ao investigar o processo de gestação e nascimento entre as

mulheres indígenas da etnia Kaingang, identificou a insatisfação na assistência durante o parto. Sendo necessária a adequação das práticas de forma a preservar a cultura dessa etnia.

Os estudos(89,90,91,92,93,94) apontam para uma vasta abordagem da Teoria

Transcultural, porém pouca utilização desta nas práticas de cuidado. A utilização da teoria de Leininger norteia a assistência de enfermagem permitindo que esta seja diferenciada e com embasamento científico.